3. Entre o ideal totalizante e a partilha de competências (1936-1939)
3.2. Do pendor totalitário ao ciclo de cedências
3.2.3. Avanços e recuos – linhas de força em confronto
De um modo geral, a institucionalização do Estado Novo foi bem recebida pelas elites católicas, que encontraram no recente regime motivos de confiança política. Um desses sinais residia no facto de o chefe do governo, Oliveira Salazar, ser um antigo dirigente do Centro Católico. Visto à partida como líder católico, Salazar assumiria um discurso inicial de aparente independência da Igreja mas que em rigor acabaria por se revelar numa estreita articulação de interesses entre o Estado e a instituição eclesiástica. Em todo o caso, aquela presença oferecia (...) garantias de vir a
resolver as pretensões católicas em matéria de política religiosa e em matéria de política social, 239 que a I República tinha negado. No quadro do associativismo político, os receios dos mais
236
Simon Kuin, op.cit., pp. 572-573.
237
Arquivo Histórico do Instituto Camões. Mocidade Portuguesa. 1289/5. Relatório de 14 de Janeiro de 1939, timbrado pela Escola Central de Graduados da ONMP, apresentado ao Instituto para a Alta Cultura.
238
Cf. COSTA, Quintino da, Missão de Estudo na Alemanha em Guerra, Separata do “Boletim do Instituto Nacional de Educação Física”, Lisboa, 1943. Na introdução a este relatório, Quintino da Costa, que então viajara à Alemanha em nome do INEF, sublinhou: Este relatório, fruto da observação, poderá servir para correcção duns tantos erros aconselhada pela experiência estrangeira e que devemos respeitar pelo maior caminho que já andaram. Esta afirmação não representa de qualquer forma tolerância para com decalques que sempre condenámos.
239
apreensivos confirmaram-se pela desintegração do Centro Católico, na sequência da constituição da União Nacional e da abolição dos partidos em 1933, e com a constituição da Acção Católica Portuguesa (ACP)240, no mesmo ano. Os antigos membros do Centro aderiram então à UN ou à recém-criada ACP, para a qual ficariam reservadas funções de carácter exclusivamente social. Embora alguns católicos insistissem em preservar a sua autonomia, a maioria optou pelos novos caminhos institucionais, constituindo um dos mais importantes pilares de apoio ao salazarismo. Muitos deles participariam, por outro lado, nas críticas aos excessos do nacional-sindicalismo, no contexto interno, e do fascismo italiano e alemão, no contexto internacional.
Estas críticas foram crescendo ao longo dos anos 30, sobretudo através das sucessivas manifestações escritas comunicadas pelo jornal católico Novidades ou, também com alguma frequência, no Diário da Manhã, órgão oficial do regime. Ali, precipitaram-se os ataques, primeiro às “incoerências” de Mussolini e à (...) pretensão do enquadramento militar da juventude e da sua
educação exclusiva (...) ecoando assim as queixas da própria Igreja italiana, e depois ao paganismo
germânico, essa “rajada em marcha” cujas ruínas se fariam sentir em breve, atacando o racismo e o cesarismo nazis.241 O discurso contra estas formas de “paganismo” e “estatolatria” também chegaria à Mocidade Portuguesa desde a sua criação legal.
Na primeira reunião de dirigentes da Mocidade Portuguesa em 1937, Francisco Nobre Guedes anunciou uma aparente colaboração harmoniosa entre a organização e a Igreja Católica, assegurando ao clero espaço privilegiado na assistência religiosa dos seus filiados. Dizia então o comissário nacional que o (...) Estado português não tem religião oficial, mas reconhece a religião
do seu povo. E neste sentido, declarou: A religião dos portugueses é a católica. Os pequenos núcleos de outras religiões não têm volume que se considere. Embora portanto a “Mocidade Portuguesa” admita indivíduos de outras religiões só prestará assistência católica aos seus filiados.242 Este anúncio prévio não impediria, no entanto, a abertura de hostilidades entre a MP e a
Igreja, ou mais concretamente, o conflito de interesses quanto ao papel do Estado e da Igreja na educação moral da juventude portuguesa. O impasse, protagonizado pelo cardeal Cerejeira do lado eclesiástico, desenhou-se sobre diversas frentes, que podemos sintetizar em três pontos fundamentais:
a) reacção da Igreja às relações de intercâmbio entre a Mocidade Portuguesa e as juventudes alemãs;
b) ocupação indevida dos horários religiosos da juventude pelas actividades da MP;
240
A Acção Católica Portuguesa enquadrava-se num movimento de leigos mais largo, iniciado em 1922 por impulso do Para Pio XI.
241
Ibidem, p. 22 e sgs.
242
c) resistência à manutenção das organizações juvenis da Acção Católica, paralelamente à Mocidade Portuguesa, cuja influência não se limitou ao espaço escolar.
As críticas ao regime nacional-socialista e contra a organização totalitária da sua juventude, intensificadas com a chegada de Hitler ao poder, serviram de argumento comparativo ao que se ia operando na Mocidade Portuguesa, insinuando-se o espírito arreligioso do movimento. A declaração de intenções da organização, que prometia dar assistência católica aos filiados, suscitava em si mesma o receio de uma eventual preponderância do Estado sobre a educação das “consciências cristãs”. Nas páginas do Novidades eram cada vez mais frequentes as notícias sobre o “Nazismo desvairado” e a perseguição às organizações da juventude católica alemã. O repúdio da militarização feroz da Hitlerjugend e as críticas ao seu líder, atravessavam os artigos do jornal católico:
Os jovens que não conhecem nada da época anterior ao regime actual, adaptam- se à nova ordem imposta por Hitler e seguem, cheios de esperança e de entusiasmo, o seu chefe Baldur Von Schirach.
Não é sem inquietação que se vê crescer esta jovem geração sedenta de heroísmo e de acção, ao mesmo tempo sonhadora e brutal, capaz de se exaltar em nome de um ideal que não escolheu. 243
A crise de desconfiança da Igreja agudizou-se sobretudo em 1938, à medida que assistiu à persistência das relações entre a Mocidade e a Hitlerjugend. Numa carta datada de 27 de Maio, enviada ao ministro Carneiro Pacheco, Cerejeira lamentou não poder (...) dar ainda um testemunho
público de absoluta confiança à Mocidade Portuguesa.244 Embora sem negar o papel do Estado na importante obra de recristianização da juventude, o cardeal considerava-a ainda incompleta e vulnerável. Convidado a participar nas festas comemorativas da MP e a celebrar a missa do acampamento, Cerejeira recusou estar presente, manifestando-se dolorosamente surpreendido por ser também prevista a presença de dirigentes da juventude hitleriana, (...) perseguidores da Igreja e
apóstatas de Cristo, os quais estão bem mais distantes do espírito católico que Baden Powell, por exemplo, que é cristão.245 A viagem dos alemães a Lisboa acabaria por ser anulada, em sequência
da já longa pressão eclesiástica no sentido de conter a troca de cartões de visita entre a HJ e a MP. A este propósito o prelado condenou ainda as recentes e (...) estranhas afirmações em favor do
estreitamento de relações (...) entre as duas juventudes, que além de transportarem perigo evidente
para a consciência católica da Mocidade Portuguesa, eram também pouco dignas (...) da altivez
nacional, sabido o inferior conceito que os alemães têm de nós, filhos (segundo eles) duma raça
243
Cf. “Nazismo desvairado. Um protesto do Cardeal Faulhaber contra a autoridade anti-católica dos Organismos oficiais das Juventudes nazis” in Novidades, n.º 12 700, de 11 de Fevereiro de 1936, p. 6 e “Nacional socialismo e educação” in Novidades, n.º 12 755, de 7 Abril de 1936, p.3.
244
Carta cedida pelo Cardeal Cerejeira a José Geraldes Freire e por ele publicada in FREIRE, José Geraldes, Resistência Católica ao Salazarismo-Marcelismo, Telos, Porto, 1976, pp. 207-208.
245
inferior e negróide.246 Cerejeira inferiu daqui a urgência em assegurar à MP um verdadeiro espírito católico, dependente, nas suas entrelinhas, do corte de relações com as juventudes fascistas e do exclusivo eclesiástico na formação moral dos filiados.
A visita alemã ao acampamento de 28 de Maio acabaria mesmo por ser cancelada em resultado da reacção da Igreja, num momento em que aumentava o tom anti-alemão nos círculos católicos e na opinião pública em geral.247 Ao mesmo tempo que preparava as celebrações em Lisboa, a Mocidade Portuguesa associou-se à peregrinação nacional em Fátima, onde Cerejeira benzeu as bandeiras da organização, à margem dos “paganismos” que condenava.248
Aparentemente mal recebida por Carneiro Pacheco, a recusa do patriarca em celebrar a missa campal da MP foi por ele novamente justificada, alguns meses mais tarde. Escreveu então ao ministro: V. Ex.ª sabe bem como tenho procurado cooperar com o Estado, dentro da mais estreita
observância da minha esfera própria, para a paz e o bem da Nação. E esta cooperação com V. Ex.ª, no domínio da educação cristã da Mocidade, tem sido franca, leal e amistosa. (...)249 E mais
uma vez identificou aquela ausência com a desaprovação dos termos em que a MP se desenvolvia. Na mesma altura, Cerejeira voltou a denunciar o estatismo totalitário que se praticava em Itália e na Alemanha, ao falar ao clero sobre “Acção Católica e Política”, suscitando mesmo protestos oficiais dos embaixadores dos dois países.250 Em carta de Novembro de 1938, o cardeal respondeu ao representante diplomático alemão que a sua intervenção glosava apenas (...) os Prelados alemães
cujo amor à Alemanha não é de duvidar. Fi-lo no meu dever de Prelado, prevenindo os espíritos contra ideias que considero condenáveis à luz da Fé católica, que me cumpre esclarecer. E nesse domínio não poderei mesmo prometer-lhe não voltar a fazê-lo.251 Esta preocupação, personificada por Gonçalves Cerejeira, era aliás sublinhada por todo o clero português. Ainda neste ano, a Pastoral colectiva da Páscoa convidou (...) os católicos a orar para que a juventude portuguesa se
não deixasse seduzir pelas propostas do culto do estado, do culto do chefe, do culto da disciplina sem liberdade, do culto da força física, da violência e da guerra, numa clara alusão ao nazismo alemão e ao fascismo italiano.252 Este género de manifestações surtiu um desgaste progressivo no discurso totalizante da Mocidade Portuguesa, embora merecessem, em tentativa de desmistificação, a ironia de Nobre Guedes, quando se dirigiu ao Congresso de 1939, em defesa da organização: Não
têm V. Ex.as conhecimento (...) de boas almas atemorizadas com o nosso paganismo (...)?
246
Ibidem, p. 208.
247
No espaço diplomático alemão era já conhecido esta (...) crescente renitência no seio do próprio regime português quanto ao intercâmbio entre a Mocidade Portuguesa e a Hitlerjugend. Cf. Simon Kuin, op. cit., p. 572.
248
“A peregrinação nacional a Fátima” in Jornal da M.P., n.º 13, Ano I, de 28 de Maio de 1938, p.2.
249
Carta, sem data (c. 1938), cedida pelo cardeal Cerejeira a Geraldes Freire, op. cit., p. 209.
250
Cf. Manuel Braga da Cruz, op. cit., p. 28.
251
AOS/CO/NE-29. Cópia da carta de 18 de Novembro de 1938, enviada pelo Cardeal Cerejeira ao ministro da Alemanha em Portugal. Tradução nossa do original em francês.
252
Assegurava por isso: A «M.P.» visa à formação do português. Quer elevá-lo na sua fé em Deus,
sem o que não pode entender-se em toda a sua beleza espiritual, o amor pela Pátria até ao sacrifício completo, nem o amor do próximo, base da unidade social que defendemos.253
Mas a inquietação católica em torno da educação da juventude ficou a dever-se também à sobreposição de horários entre as actividades Igreja e da organização. Os tempos ocupados pela MP eram uma constante provocação ao devido cumprimento das tarefas religiosas pelos filiados, uma vez que, frequentemente, a instrução tinha lugar ao domingo de manhã. Esta usurpação do espaço semanal, tradicionalmente conferido à Igreja, foi acrescentada pelo cardeal patriarca à lista de reclamações eclesiásticas.
Na carta que enviou ao ministro Carneiro Pacheco, em meados de 1938, Cerejeira acusou abertamente o Estado de monopólio sobre os horários e competências educativas religiosas na Mocidade Portuguesa, que deviam caber exclusivamente à Igreja. Endurecendo a crítica ao carácter obrigatório da organização, factor de concorrência directa com os espaços juvenis da Acção Católica, o cardeal verificava ainda que (...) se a Mocidade Portuguesa professa o princípio basilar
de que deve formar os seus filiados segundo as regras da doutrina e da moral católicas, até agora este princípio ainda não foi traduzido eficazmente na prática. Em causa estava a ocupação das
horas de serviço religioso pelas actividades da MP: Não só muitas vezes sucede que os filiados são,
de facto, impedidos de cumprirem os seus deveres religiosos, sendo chamados a exercícios marcados em horas incompatíveis com eles, mas também falta ainda à Mocidade Portuguesa, a assistência eclesiástica indispensável à formação cristã dos seus filiados. 254 Retomando a retórica anti-totalitária, Cerejeira recordou ao ministro que a Igreja era insubstituível na missão educadora das consciências e uma recusa do Estado em aceitar aquela cooperação traduzia-se em (...) coisa
directamente anticatólica, alguma coisa de equivalente a pretender celebrar os mistérios cristãos. E impedir praticamente de cumprir os preceitos dominicais, é obra de opressão das consciências.
O patriarca aproveitou o balanço de ataque para estabelecer a tradicional comparação: As duas
coisas fá-las sistematicamente a Alemanha pagã! 255 Diferente era já o caso italiano, que (...) apesar
do vício original do seu totalitarismo de origem pagã, providenciou clara e lealmente desde o princípio, estabelecendo que os exercícios não começassem ao domingo antes das 10 horas e quando houvesse acampamentos, se assegurasse Missa no campo. O segundo exemplo servia de
sugestão, contra o cristianismo de fachada e sem Igreja que ainda se vivia em Portugal.
253
Discurso da sessão de abertura do I Congresso da Mocidade Portuguesa, pelo comissário nacional, Francisco Nobre Guedes, in I Congresso da Organização Nacional Mocidade Portuguesa Realizado em Lisboa de 21 a 28 de Maio de 1939. Discursos, Teses, Discussões e Conclusões, Editorial Império, Lisboa, p.26.
254
Carta, sem data (c. 1938), cedida pelo cardeal Cerejeira a Geraldes Freire, op. cit., pp. 210-211.
255
A sobreposição destes horários chegou ainda ao Congresso da MP, em 1939, pela voz de Durão Ferreira, à data vogal do Conselho Técnico. Ferreira sublinhou ali a necessidade de transferir as actividades da organização para os sábados (como aliás, segundo observou, se praticava na Alemanha e em Itália), de forma a libertar o domingo para as ocupações religiosas. No entanto, admitiu também que os instrutores da MP sentiam esta medida como um estrangulamento do próprio espaço de actividades: nas escolas primárias e secundárias, onde os professores barravam muitas vezes este horário, ao sobrepor-lhe tempos lectivos, enquanto os escassos centros extra- escolares tinham por óbice principal a actividade profissional dos filiados, impedidos de aí comparecer fora das manhãs de domingo.256 Como veremos, este triângulo de conflitos só seria definitivamente regularizado, internamente, em Janeiro de 1941.
Pouco antes da publicação do regimento da JNE, que em Maio de 1936 lançou a MP no esteio da educação nacional, o cardeal Cerejeira apressou um discurso de equilíbrio entre a apologia da “grande obra” estatal que a organização representava e o papel impreterível da intervenção católica na formação moral da juventude. Lembrando, porém, que a (...) situação da Igreja não foi
até agora resolvida por acordo franco e completo (...)257, não escondeu as reservas daquele patriarcado face aos apetites totalizantes do regime em matéria educativa. Porque a missão de
natureza moral e religiosa pertencia à Igreja e não ao Estado, o cardeal receava que este segundo
quisesse assumir-se como seu único missionário. E, insinuando que o regime podia ceder a tentações teocráticas, recordou o perigo que decorria dos Estados totalitários (...) que querem para
si, não só o poder temporal, mas também o espiritual, como acontecia em Itália e na Alemanha. Daí
a necessidade de mais do que nunca, conservar as organizações da Acção Católica, escudo anti- comunista e arma de doutrinação religiosa. Em causa estava o triunfo da ACP sobre as almas juvenis, numa época tão determinante em que: A juventude intelectual está desarmada por falta de
ideal e a operária não tem patrões que cuidem da sua elevação material e moral.258
Ao mesmo tempo que o comissário nacional alimentava estes receios através de respostas sarcásticas e sempre escorregadias, refugiando-se no argumento da “incompreensão pela obra” em construção, o também dirigente Marcelo Caetano partiu em defesa da articulação entre a MP e as juventudes católicas. Numa conferência proferida em Maio de 1937, aos estudantes católicos do Porto, sobre “A educação cristã da juventude e a nova concepção do Estado”, Caetano assegurou
256
Quanto aos primeiros, Durão Ferreira aludiu às (...) dificuldades que os dirigentes têm para dar instrução, por motivo dos obstáculos que lhes são postos pelos directores e professores de escolas secundárias e primárias. Referir- se-ia mesmo a casos de inimizade à organização que teriam levado alguns dirigentes ao seu abandono. Quanto aos segundos, o congressista afirmava conhecer exemplos de (...) patrões que expulsaram rapazes das suas oficinas unicamente por eles terem ido à instrução dos Centros extra-escolares. I Congresso (...) pp. 122 e 194.
257
Discurso do Cardeal Gonçalves Cerejeira aos assistentes eclesiásticos diocesanos da ACP, “segundo as notas tomadas pelas «Novidades» de 13 de Maio de 1936 in CEREJEIRA, Manuel Gonçalves, Obras Pastorais, vol .II 1936- 1943, União Gráfica, Lisboa, p. 29.
258
que a ética cristã do Estado Novo fixada pelo texto constitucional, não impedia que (...) os católicos
prossigam na sua obra de organização e doutrinação da juventude. E afastando essa ética do
Estado de apetites totalitários, concluiu: Nem hostilidade dos católicos contra a obra educativa
oficial, nem hostilidade do Estado contra a acção docente da Igreja – eis a fórmula necessária! 259
A Acção Católica Portuguesa, remetida para um tipo de intervenção fundamentalmente social, lançou-se na “reconquista cristã da sociedade” desde a sua constituição. A partir de 1934, deu início à constituição de organismos específicos, e com estatutos próprios, que contemplavam diferentes camadas sociais e áreas profissionais. Foi o caso da Liga da Acção Católica Feminina, a Liga dos Homens da Acção Católica ou a Associação dos Médicos Católicos Portugueses, entre muitos outros. A par destes movimentos concretos, também a juventude mereceu organizações próprias: entre 1934 e 1935, nasceram as juventudes escolares (JEC), das juventudes operárias (JOC), das juventudes universitárias (JUC) ou das juventude agrárias (JAC), divididas por sexo e idades.260 Muitos destes movimentos aproveitaram organizações anteriores, permitindo uma intervenção mais profunda do catolicismo no tecido social. A entrada efectiva da MP nas estruturas escolares e as sucessivas tentativas de agregar sob sua tutela toda a juventude não estudante resultou também na ameaça aos organismos da ACP, não surpreendendo por isso as frequentes intervenções do cardeal Cerejeira pela sua conservação. No sentido contrário, as organizações de juventude dependentes da Acção Católica constituíam um óbice para o projecto de enquadramento totalizante da MP, a par dos movimentos escutistas e de tantos outros associativismos.
Solução concordatária
As esperanças alimentadas pelos círculos católicos com a chegada de Salazar ao poder levaram alguns daqueles sectores a avançar, desde o início da década de 30, a hipótese de concordatar as relações entre o Estado e a Igreja. Entre as prerrogativas que lhe tinham sido retiradas em 1910, e que o clero pretendia recuperar, salientava-se o reconhecimento da personalidade jurídica da instituição eclesiástica e o direito à administração do seu património, embora sem enunciar a restituição dos bens anteriormente expropriados. O processo de negociação de uma concordata entre a Santa Sé e o Estado português, iniciado (embora com várias hesitações) logo em 1929, só teria expressão mais concreta a partir de 1937, altura em que foi constituído para o efeito um grupo de trabalho chefiado pelo futuro ministro da Educação Nacional, Mário de Figueiredo. Ao longo de três anos de discussão, um dos pontos fundamentais a acordar prendeu-se com o papel da Igreja no domínio da educação, procurando garantir-lhe presença no ensino público
259
“A educação cristã da juventude e a nova concepção do Estado” in Diário da Manhã, n.º 2172, de 9 de Maio de 1937, p. 3.
260
Cf. REZOLA, Maria Inácia, O Sindicalismo Católico no Estado Novo (1931-1948), Ed. Estampa, Lisboa, 1999, pp.76-77.
e privado e assegurar a educação religiosa da juventude. Em 7 de Maio de 1940, foi finalmente assinado em Roma o acordo entre o Estado português e a Santa Sé, inaugurando um ciclo de separação de competências que entregou à Igreja um papel exclusivamente social. Esta “separação concordatada” estava, porém, em harmonia com os fins da revolução nacional. Segundo Braga da Cruz: Satisfazia-se, com a assinatura da Concordata, uma das maiores reivindicações que trazia os