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AVANÇOS E RETROCESSOS NOS DOIS ÚLTIMOS ANOS

No documento FUNDAÇÃO CARLOS CHAGAS (páginas 161-165)

PESQUISA COM COLETIVOS

gerações dispostas a continuar o caminho das antecessoras. As três experiências di-ferem quanto ao seu alcance, à sua organização, bem como às perspectivas de futuro.

A Comissão do Pró-Equidade do Crea-RJ teve como público-alvo para o desenvolvi-mento das metas das sucessivas edições do Programa a própria instituição, mais pro-priamente, a sede do Crea-RJ situada na cidade do Rio de Janeiro. No decorrer dos seis anos de desenvolvimento das sucessivas edições do Programa, a Comissão nunca conseguiu chegar às sedes regionais. A existência da própria Comissão e a gama de atividades que ela poderá desenvolver na instituição fica à mercê das correntes polí-ticas eleitas e da importância que é dada para a temática da igualdade de gênero e raça nas diferentes gestões. Nesse sentido, o risco de descontinuidade e desmobilização é grande. Algumas conquistas obtidas na instituição nos últimos seis anos correm o risco de se perder, caso não haja uma rápida retomada do Programa no Crea-RJ. Por exemplo, a mobilização dos funcionários e das chefias que as edições anteriores do Pró-Equidade tinham conseguido, as ações de conscientização e o debate sobre as questões de gênero e raça, bem como a busca por outros patamares de igualdade na instituição, com a nomeação de mulheres para cargos de chefia e com a definição de proporção para a seleção de negros nos concursos de ingresso. O esboço do Programa de ação para a 6ª edição do Pró-Equidade feito pela atual coordenadora foca as ações na área da saúde e não menciona a intenção de ampliar a participação de mulheres e negros em cargos de decisão. Aparentemente, a intenção de participar de uma 6ª Edi-ção do Programa se justificaria mais para manter a pontuaEdi-ção no Programa de Quali-dade Gespública do qual o Crea-RJ participa e, menos, em função um real interesse na reversão das desigualdades da instituição.

O PoliGen tem como público-alvo alunos e professores da Escola Politécnica, expan-dindo-se para outras unidades da USP, campus Cidade Universitária. Mesmo que o PoliGen seja reconhecido em redutos de tecnologia e de discussões feministas fora da USP, sua possibilidade de atingir um público maior é restrita. A informalidade do grupo joga ao seu favor, permitindo liberdade de ação e flexibilidade suficiente para rápida reação a demandas diversas, mas também pode engendrar alguma dificuldade de organização e de coesão, característica que se acentua pela adoção do princípio de autogestão, que tem como base a tomada de decisões por consenso coletivo. Em tal contexto, corre-se o risco de a diversidade de opiniões, orientações e propósitos distanciar o grupo dos seus propósitos originais como vem acontecendo atualmente, à medida que novas gerações de estudantes a ele estão se integrando. Seu diferencial originalmente era o foco no debate das questões de gênero na computação, nas exatas e nas engenharias, destacando as dificuldades de inserção e de ascensão, bem como as discriminações sofridas pelas mulheres na área profissional. Recentemente essas temáticas vêm ficando em segundo plano, sendo privilegiadas pautas típicas dos mo-vimentos feministas, como violência contra as mulheres, sexualidade e diversidade de orientação sexual. Se ainda existem algumas atividades para mulheres na com-putação e nas ciências, elas se devem à insistência da fundadora e de uma das duas coordenadoras executivas. Nesse caso se incluem a manutenção da premiação para jovens na Febrace 2016 e a participação em oficinas de programação para mulheres.

Outra mudança em curso diz respeito à diminuição do protagonismo e das atividades organizadas coletivamente para dar visibilidade à posição das mulheres nas exatas e nas engenharias, em prol “um espaço de acolhimento e proteção” para as estudantes que se sentem confrontadas ou desafiadas na escola e no campus poderem partilhar suas vivências. O processo de transformação do PoliGen está em curso e tende a se aprofundar à medida que a fundadora e coordenadora se afaste mais ainda do coti-diano do coletivo, como é seu plano. Não seria de estranhar que o reconhecimento

conquistado pelo PoliGen até aqui venha a se perder no percurso futuro, dando lugar a uma nova configuração do grupo.

A Diretoria da Mulher da Fisenge é, entre as três iniciativas, a mais estruturada (está inscrita no estatuto da Fisenge e tem verba atribuída anualmente) e com maior al-cance ao visar a categoria profissional dos engenheiros, principalmente a sua parcela associada aos Sindicatos de Engenheiros filiados à Federação. A formação político--sindical das engenheiras as preparou para agir em ambientes duplamente difíceis para as mulheres, os sindicatos e a categoria profissional engenheiro(a). O coletivo de mulheres da Diretoria se destaca entre as três iniciativas pela sua organização, pela coesão grupal em torno da definição de metas, pela persistência na realização de atividades relacionadas a essas metas, ano após ano. O combate ao assédio moral, a formação política contínua das mulheres, a ocupação de espaços de poder são metas fundamentais para a continuidade da existência da Diretoria da Mulher da Fisenge, para a expansão e consolidação de novos coletivos e diretorias e foram tratadas como prioritárias durante os dois anos da pesquisa de acompanhamento. Mesmo que a disseminação das atividades da Diretoria da Mulher não tenha chegado às bases na amplitude desejada pelo Coletivo e pela Diretoria da Mulher, o desempenho do gru-po não deixa dúvidas: seus objetivos serão atingidos no curto e no médio prazo pelas engenheiras que lá estão no momento e pelas novas gerações que estão sendo prepa-radas para dar continuidade ao trabalho, por meio das ações dos Senge Jovem.

Seja qual for o rumo que as três iniciativas tomarão no futuro, elas representam um universo feminino em movimento, dinâmico e inovador. A simples existência desses coletivos, assim como as discussões e debates e as atividades que eles puderam e po-derão desenvolver promovem a conscientização sobre as desigualdades no mercado de trabalho e na sociedade, ponto de partida para a transformação das relações so-ciais entre os sexos na sociedade e na categoria profissional.

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No documento FUNDAÇÃO CARLOS CHAGAS (páginas 161-165)