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Humanista insubmisso e precursor

1. Aveirense insubmisso e aventureiro

O padre Fernão de Oliveira nasceu provavelmente em 1507. Pelo que se diz, foi seu pai Heitor de Oliveira, juiz de órfãos de Pedrógão, e sua mãe D. Branca da Costa. A modéstia social e económica da vida do casal e do filho e as próprias palavras deste na dedicatória da Gramática, dirigidas a D. Fernando

de Almada — o qual «não se contentando com os altos princípios de Almada, ajuntou consigo a glória imortal e vitória de Abranches» — denunciam a humildade da sua origem e da sua vida: «Estas coisas me obrigam e fazem julgar que ele abasta não só para meu intento que sou um homem baixo; e estendesse a pouco meu ânimo.» A sua biografia pode ser reconstituída, graças à documentação existente, como auto-informações, processos da Inquisição, cartas e testemunhos coevos.

Reinava em Portugal D. Manuel I e o nome do nosso país, tendo ultrapassado há muito as fronteiras nacionais, era conhecido quer na Europa quer em diversas partes do mundo. Decorria a gesta heróica de um povo, cujas caravelas cruzavam os mares e cuja acção já se fazia sentir no remoto Oriente e na longínqua América do Sul. Graças a Portugal, tornara-se possível promover uma nova rota para as trocas comerciais entre os continentes, estabelecer-se um relacionamento inter-cultural das civilizações e dilatar-se a fé cristã em remotas paragens. Os portugueses, abrindo as grandes vias da comunicação, davam o primeiro salto no futuro da universalidade e da transnacionalização do mundo. A aldeia global começara a ser uma realidade.

A partir de 1898, quando Henrique Lopes de Mendonça publicou o processo do Tribunal da Inquisição em que Fernão de Oliveira foi réu pela primeira vez, tem-se repetido, sem mais, que ele nasceu em Aveiro. De facto, o arguido, no depoimento que fez em 21 de Novembro de 1547 (Mendonça, 1898: 108), «perguntado como se chamava e donde era natural, disse que se chamava Fernão de Oliveira e que era natural do bispado de Coimbra, da vila de Aveiro.» Porém, dias depois, em 29 de Novembro (Mendonça, 1898: 101), respondendo à barra do mesmo Tribunal, diria que «era cristão e por tal se tinha e que recebera água do santo baptismo e que fora baptizado na igreja do Couto do Mosteiro, couto do bispado de Coimbra.»

Numa primeira abordagem, dando o significado vulgar à palavra natural, os dois depoimentos são discordantes, senão mesmo contraditórios. De facto, não era plausível, nessa altura, que o nascimento de Fernão de Oliveira fosse na vila de Aveiro e o baptismo se realizasse na distante freguesia do Couto do Mosteiro, do actual concelho de Santa Comba Dão. E isto pelo simples motivo de que esse sacramento se administrava, por costume secular e pela legislação eclesiástica em vigor, num dos primeiros oito dias de idade do recém-nascido, na igreja matriz da paróquia onde residiam os pais e se dera o respectivo parto; ademais, as deslocações, além de serem morosas e difíceis, eram assaz incómodas e prejudiciais à saúde das crianças. Mantinha- -se também a tradição, conservada ainda nos meados do século XX, de que,

antes de se celebrar o baptismo, a mãe não devia sair de casa nem sequer ir à igreja e, porque ausente da cerimónia religiosa, recebia alegremente a criança à porta da sua casa. Por tais motivos, não é viável a hipótese de que Fernão de Oliveira haja nascido em Aveiro e tenha sido baptizado na freguesia do Couto do Mosteiro. Mas... como conciliar as duas afirmações no exigente Tribunal?

Posteriormente, decorridos mais de vinte anos após o processo inquisitorial, Fernão de Oliveira redigiu em latim a Ars Nautica; o texto, manuscrito e inédito, foi conhecido em 1960, como adiante se dirá. Duas das suas páginas são de extrema importância para esclarecer a dúvida que nos ocupa aqui e agora. De facto, o autor no título do prefácio (fl. 2r) declarou sucintamente a sua proveniência:

Præfatio in artem nauticam Ferdignandi Oliuerij de Sancta Columba. Prefácio para a Ars Nautica de Fernando Oliveira, de Santa Columba.

Mais ainda. Metade da folha 7v é ocupada por uma esclarecedora nota autobiográfica, também escrita pelo seu punho, numa sextilha em hexâmetros latinos, sob a epígrafe «Auctoris de patria, parentibus et nominibus suis, exametrum» (Hexâmetro sobre a terra natal do autor, seus pais e nomes). Assim se lê:

Auiger est locus, in quo me genuere parentes. Ordine equestres, mores modesti, et re mediocres. At primos vagitus Gestosæ edidit ortus.

Baptismum Fidei dedit ecclesia alma Columbæ. Ferdignandus Oliuerius postum est mihi nomen. Sicut oliua ferax dignos nautæ affero fructus. Aveiro é a localidade onde me geraram os pais.

Da classe equestre, condição modesta e diminutos haveres. Mas o recém-nascido soltou os primeiros vagidos na Gestosa. A igreja matriz de [S.ta] Columba deu o baptismo da fé. Fernando Oliveira foi-me posto como nome.

Já com mais de 60 anos de idade e liberto do ambiente de pressão que o teria levado a exprimir-se sinteticamente no Tribunal — e até poderá ter sucedido que o escrivão António Roiz haja abreviado os depoimentos — quis ser claro nos elementos que desejou fornecer aos vindouros, apesar de limitado ou constrangido pela métrica a que se tinha sujeitado.

Então, terá acontecido o seguinte: em certa altura, os pais, nascidos, casados e moradores em Aveiro, emigraram para o lugar da Gestosa, da freguesia do Couto do Mosteiro. O menino, já concebido antes da deslocação e vivendo no seio materno, acabou por vir à luz nessa povoação, onde o casal passara a residir; com o nome de Fernando, foi baptizado na igreja matriz, dedicada à mártir Santa Columba.

A mencionada anotação autobiográfica proporciona-nos, neste momento, algumas considerações:

1.ª Auiger, segundo o pensamento do autor, quer significar Aveiro. De facto, em 1536, ao escrever a Gramática da Linguagem Portuguesa, referiu- -se especialmente a Aveiro (XXXI), dizendo que a vila tinha esta designação «porque dantes nessa terra morava um caçador de aves ao qual como de alcunha chamavam o ‘aveiro’.» Convencido de tal etimologia, Fernão de Oliveira não poderia logicamente traduzir de outro modo, para latim, o nome de Aveiro, senão por Auiger — palavra por ele composta com radicais do mesmo idioma para significar, à letra, caçador ou criador de aves. É evidente que, desde há muito tempo, tal etimologia para o topónimo Aveiro se encontra plenamente posta de lado, mercê dos recursos documentais que hoje se possuem, sobretudo a partir do conhecimento e do estudo do testamento- -doação da condessa Mumadona Dias, datado de 26 de Janeiro de 997 da era de César (959 da era de Cristo), onde se referem as «terras in Alauario et salinas quæ ibidem comparauimus», doadas ao Mosteiro de Guimarães.

2.ª Ao afirmar em 1547, perante o Tribunal, que era natural de Aveiro mas que fora baptizado no Couto do Mosteiro, o depoente teria sido levado a isso por um dos dois seguintes motivos, ou conjuntamente por ambos: ou porque, segundo um certo entendimento comum na época, considerasse como terra natal a dos pais e antepassados, mesmo nascendo noutra qualquer por razão de viagem, estadia casual ou trabalho fortuito; ou porque, com a precisão dos conceitos de um humanista, quisesse dizer que Aveiro seria, com verdade, a sua terra natal, pois, para ele, genuere (gerar) ou genus (geração) — fundamento pelo qual uma nova pessoa se inseria numa determinada gens (família consanguínea ou estirpe natural) — significava a sua conceição, o mesmo é dizer, o princípio da sua vida.

3.ª Efectivamente, pelo menos desde os princípios do século XIV, tem sido constante em Aveiro a presença de pessoas com o apelido Oliveira. O meirinho-mor de el-rei D. Dinis, após a morte do monarca em 1325, viria a casar-se com a aveirense D. Constança de Oliveira; na sua descendência, além dos Oliveiras, irão aparecer os Vasconcelos, os Mendes, os Roiz, os Rangéis, os Ribeiros e os Barretos — alguns com situação de relevo na sociedade, já no século XVI. Quanto ao apelido materno Costa, também este era aqui usado nos anos de quinhentos por destacados indivíduos.

4.ª Fernão de Oliveira decerto sentiria satisfação em declarar-se natural de Aveiro, pátria dos seus pais e antepassados paternos e maternos, onde, aliás, tinha sido gerado; outrossim, não ocultaria que havia visto a luz do dia na Gestosa — terra que fora do domínio de vários dos seus avoengos e por onde terá vivido durante alguns dos seus primeiros anos. Semelhante conclusão parece confirmar-se com as recordações que ele próprio nos deixou por escrito, tanto na Gramática da Linguagem Portuguesa (XLVII) como na Arte

da Guerra do Mar (I, VIII e XIV), e que confirmam que o ambiente natural

e social da Beira também o moldou. Contudo, por outro lado, é de admitir que tenha passado parte do tempo de criança ou de adolescente nas terras alavarienses, uma vez que na Gramática, ao discorrer sobre a etimologia de três topónimos, não esquece o de Aveiro, sendo os outros dois os de Lisboa e de Santarém. O mesmo tencionaria dizer quando, na História de Portugal (I, II), teve o cuidado de aludir a Aveiro, «povoada por mandado do infante D. Pedro», aproveitando a ocasião para, logo a seguir, pôr a claro o erro de os nossos naturais cuidarem que os romanos ou os mouros edificaram e enobreceram as povoações, quando a sua feitura se ficou a dever às «gentes naturais antigas destas terras que viviam nelas em paz e faziam suas moradas para si e para seus filhos, sem cuidar que haviam de vir os romanos nem mouros a tomar-lhas.»

Volvido bastante tempo, já com cerca de quarenta e sete anos de idade, cansado das turbulências da vida, dos desassossegos da sorte e das aventuras sem parança, voltaria às terras da Beira, passando algum tempo no meio calmo da sua infância, talvez na residência dos Cunhas, em Santar.

Na adolescência, aí por 1516, no caso de residir em Aveiro, Fernão de Oliveira talvez começasse a ser educado no convento dominicano de Nossa Senhora da Misericórdia, que existia na localidade. Depois, contando os seus treze ou catorze anos, seria transferido para o convento de Évora, onde adquiriu cultura humanista e cursou estudos teológicos, como ele próprio havia de afirmar na Gramática (XLVII):

Sendo eu moço pequeno fui criado em São Domingos de Évora, onde faziam zombaria de mim os da terra porque o eu assim pronunciava segundo que o aprendera na Beira.

Neste cenóbio, em que o saber era cultivado e transmitido por homens eminentes, depois da necessária formação intelectual, moral, religiosa e sacerdotal e do competente noviciado preparatório, envergando o respectivo hábito da Ordem dos Pregadores, fez a profissão dos votos religiosos e recebeu o sacramento do Presbiterado, em data que se desconhece. Como tradicionalmente se sustenta embora sem fundamento certo, aí terá sido discípulo, especialmente em lições de Gramática Latina, do mestre André de Resende, um dos célebres eruditos portugueses do século XVI, «de geração nobre e filho de hábito do convento e que nele foi noviço» (Sousa, 1937: I, V, XI), cujas capacidades o aluno subestimou na sua História de Portugal (I, II), afirmando pejorativamente, a propósito da sua curiosidade «de ler pedras romanas», que «tinha o entendimento duro como as mesmas pedras». Provavelmente este juízo teve como fundamento primordial o facto de André de Resende, em 1547, não ter concordado com ele e de o ter recriminado pelas ideias pró-heréticas que o levaram ao Tribunal do Santo Ofício.

No mesmo convento encontrava-se então o seu e nosso patrício frei Pedro de Aveiro que foi «de vida ilustre por santidade e profecia», conforme regista o epitáfio da lápide evocativa, exposta no Museu de Évora, cujo texto completo em latim é o seguinte:

Frater Petrus huius domus cœnobita laicus in hoc sacello sepultus est in incerto loco: cuius vita sanctimonia et prophetia clara literis proditur. D. A. M.DC.I.

Frei Pedro, religioso leigo deste convento, foi sepultado nesta capela, em lugar incerto; tem-se escrito sobre a sua vida, ilustre por santidade e profecia. Ano do Senhor de 1601.

Este religioso, sendo irmão leigo, exerceu o cargo de porteiro; dele ficou a memória de que muito carinhosamente sempre atendia os pobres, os velhinhos e os doentes e de que, com igual caridade, aceitava os pedidos de orações da parte das pessoas que se lhe dirigiam, entre as quais se menciona a rainha D. Maria de Castela, mulher de D. Manuel I, a qual morreu em 1517. Cansado pelos anos e pela penitência, acabou por falecer em 8 de Janeiro de 1528, com cerca de setenta anos de idade. O dito André de Resende escreveu

a sua biografia, publicada em 1570 — mas escrita antes de 1535 – sob o título

Da santa vida e religiosa conversação de Frei Pedro, porteiro do mosteiro de São Domingos de Évora.

Entretanto, aos vinte e cinco anos de idade, não dominando o seu temperamento rebelde e insubmisso, frei Fernão de Oliveira não suportou o rigor da disciplina monástica e, perante qualquer incidente ocasional, enveredou pelos caminhos largos da liberdade e do saber em terras estrangeiras. Consequentemente, desertou do claustro e refugiou-se no país vizinho, talvez em Toledo, tendo obtido do papa Paulo III o breve de secularização, decerto com o valimento de algum dos seus amigos. Porém, o problema do documento pontifício nunca foi completamente esclarecido, apesar de ele ter dito, em 1547, no decorrer do processo da Inquisição (Mendonça, 1898: 108):

Perguntado como se saíra da Ordem, disse que fugira e que depois houve uma letra apostólica para se fazer clérigo secular e que esta letra deixou aqui em esta cidade e que agora que a não acha e porém que foi juiz dela o provisor e escrivão João Lopes.

A ausência em Espanha foi pouco demorada, de cerca de três anos, que ele aproveitou para desenvolver as suas aptidões de filólogo e para talvez começar a redigir uma gramática da língua portuguesa. A isso o incentivaram os contactos com humanistas espanhóis e especificamente o exemplo inspirador e mobilizador de Élio António de Nebrija (1444-1522), espírito dotado de uma curiosidade universal, pois era aberto aos estudos de filosofia, de teologia, de direito e de cosmografia. Sabendo grego e hebraico como qualquer humanista de então, trouxera da Itália para Espanha o domínio de um método filológico rigoroso. Fernão de Oliveira leu e em parte copiou a sua Grammatica de la

Lengua Castellana, impressa em 1492, mas apenas para uso pessoal e para lhe

servir de modelo; todavia, foi em Lisboa que finalizou a redacção da Gramática

da Linguagem Portuguesa, publicada em 1536.

Além disso, continuou no exercício do ministério sacerdotal como clérigo secular e, segundo recordou com assomos de orgulho, dedicou-se ao ensino das primeiras letras. De facto, dada a sua formação humanista, foi escolhido como professor particular dos «filhos e filhas de alguns senhores principais desta terra» (Mendonça, 1898: 20, Proc. Inq.), como João de Barros, cronista e feitor das Casas da Índia e da Mina, D. Fernando de Almada, alcaide-mor de Lisboa e capitão-mor do Mar, e D. João Fernandes da Silveira, primeiro barão do Alvito, em cuja casa residiu. Nesta altura, em virtude dos réditos

que usufruía pelo seu mister, alcançou certa estabilidade económica, que nunca mais reencontraria. Por coincidência, nesse ano de 1536, aconteceu que a Inquisição foi oficialmente instituída para Portugal pelo papa Paulo III e o aveirense Aires Barbosa publicou o poema Antimoria, verdadeiro libelo contra o Encomium Moriæ, de Erasmo de Roterdão — este falecido também no mesmo ano.

Num dos primeiros anos da década de 1540, o padre Fernão de Oliveira, de carácter dinâmico e propenso para a acção, voltou a sair de Portugal para Espanha; uma vez em Barcelona, fascinado pelo mar e pelas artes de navegar, embarcou para Génova nos finais de 1541 ou nos princípios de 1542. Na viagem, o navio com os seus homens foi capturado pelas galés de França; ele manifestou logo os seus conhecimentos náuticos, o que lhe proporcionou a escolha para piloto de um dos barcos gauleses, os quais provavelmente atracaram no porto de Marselha.

Depois de uma breve permanência pelo sul de França, onde continuavam acesas as discussões e lutas entre católicos tradicionalistas e cristãos reformados, talvez tivesse ido até Roma, aqui se demorando durante pouco tempo. Discutia-se então aí o problema da concretização do estabelecimento efectivo da Inquisição em Portugal, em nada do agrado do papa e da Cúria Pontifícia. Regressou a Lisboa em Março de 1543, na companhia do bispo de Modena, mons. Luigi Lippomano, que em Maio do ano anterior havia sido nomeado núncio apostólico junto da corte de el-rei D. João III. O padre Fernão de Oliveira, durante a longa viagem, teria ocasião de trocar impressões particulares com o bispo-diplomata, chegando ambos à conclusão de que a Inquisição era para temer e não para amar. Admitida a conjectura de se ter deslocado a Roma e de ter permanecido aí por um breve período, desconhece- -se a finalidade que o terá levado lá, havendo embora quem assevere ter lá ido em missão de espionagem ao serviço de el-rei D. João III. Seja como for, uma vez chegado a Portugal, logo criou conflitos pelo seu carácter arrebatado e irrequieto, pela sua linguagem inconveniente e pelas suas ideias pouco ortodoxas para a política de então, sendo mal visto pelos dominicanos e abandonado pelos amigos de outrora, que começaram a tê-lo sob suspeita. Por tudo isto — e talvez por vocação para outros estudos ou por inimizades com quem o tinha protegido — perdeu a fonte das suas receitas, qual era o ensino de Humanidades.

Deve ainda referir-se que, nesta altura, surgiram graves inimizades com o livreiro João de Borgonha, a que ele aludiu no processo inquisitorial (Mendonça, 1898: 99-105). Desta dissidência surgiu, da parte do vingativo

livreiro, um ódio intenso contra o clérigo, cujas influências se iriam reflectir no futuro da sua vida, nomeadamente com as acusações à barra do Tribunal do Santo Ofício.

Na continuação da vida, «constrangido por muita necessidade de pobreza que tinha e fome que padecia por os anos serem muito apertados nesta terra» (Mendonça, 1898: 102, Proc. Inq.) por motivo de escassas colheitas, em Junho de 1545, indo consigo o padre egresso dominicano frei Miguel Lobo, Fernão de Oliveira alistou-se com o nome de capitão Martinho na armada de vinte e cinco galés francesas sob a capitania-mor de Antoine Escalin, barão de La Garde, vindas de Marselha e então de passagem pela barra do Tejo a caminho do canal da Mancha. Dados os conhecimentos que adquirira com o barão de Saint-Blancard, ofereceu-se como piloto do seu navio, alcançando tal notoriedade como técnico naval que alguns dos seus conselhos foram tidos em consideração. Tais barcos juntar-se-iam à armada com que Francisco I de França iria tentar defender os interesses do país contra as pretensões de Henrique VIII de Inglaterra. Na realidade, em Maio de 1546, a frota, sob o comando do almirante Anebault, saiu da foz do rio Sena para perseguir a dos ingleses; contudo, por hábeis estratégias e pela ajuda dos ventos favoráveis, estes capturaram os gauleses. Fernão de Oliveira, que à barra do Tribunal da Inquisição havia de declarar que às vezes se tinha confessado ao sacerdote companheiro e, durante a Quaresma desse ano, no convento de S. Domingos de Rouen, também caiu nas mãos dos bretões e por eles foi aprisionado e levado para a Inglaterra. Por coincidência, começara naquele ano de 1545 o Concílio Ecuménico de Trento, apostado em promover uma séria reforma na vida e nas estruturas da Igreja Católica, o qual viria a encerrar-se em 1563.

Decorrido breve tempo, já em liberdade, Fernão de Oliveira identificou-se como português, conseguiu assinalado prestígio em Londres e — não se sabe como, mas decerto pela sua atracção às ideias reformistas do Anglicanismo — ganhou a confiança e a simpatia de Henrique VIII, rei da Inglaterra entre Abril de 1509 e Janeiro de 1547, o qual o protegeu e lhe estabeleceu uma tença. Após a morte do soberano, continuou a gozar da mesma protecção junto do sucessor, Eduardo VI. Resolvendo regressar a Portugal, embora duvidoso do acolhimento que o esperava, o jovem rei britânico passou-lhe uma carta