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Oliveira, copista da Gramatica castellana nebrissense

portuguesa à luz da Gramatica castellana

2. Oliveira, copista da Gramatica castellana nebrissense

Que Fernando Oliveira era profundo conhecedor da gramática castelhana de Antonio de Nebrija fica evidenciado pelo facto de o próprio autor ter copiado parcialmente a Arte do humanista andaluz (Asensio, 1951: xlvii; Asensio, 1960: 410). A cópia, juntamente com duas outras obras – Historia de Portugal e

Columella traduzido2 –, integra um manuscrito guardado na Biblioteca Nacional

de França3 e intitula-se Arte de grammatica de lengua castellana por el doctissimo

maestro Antonio de nebrissa compuesta. José Eduardo Franco (2000: 34, n. 48)

levou a cabo um índice dos capítulos da autoria de Fernão de Oliveira4.

Do confronto realizado entre o manuscrito de Oliveira e a gramática castelhana de Nebrija5, pode concluir-se que o gramático português não

se assume apenas como um simples copista da obra nebrissense. Afora os erros característicos decorrentes do processo da cópia – aos quais não se fará referência por serem irrelevantes para observar os critérios e a atitude de Oliveira na elaboração daquela –, o autor da Grammatica da lingoagem

portuguesa procede – em nossa opinião, de forma consciente –, em diversas

passagens, à alteração – por omissão, por substituição ou por adição – do texto. Assim acontece no prólogo, do qual Oliveira omite mais de metade, precisamente aquela parte em que Nebrija começa a desenvolver o tópico da unidade do reino:

2 «Estas obras [inclusive a cópia da gramática castelhana nebrissense] integravam-se,

primitivamente, em manuscritos independentes, pois ainda se nota os vestígios de uma paginação anterior de carácter autónomo, paginação que convive com a numeração das páginas que foi introduzida na fase da reunião de todos estes manuscritos no códice que acabou por resistir aos desvarios do tempo» (Franco, 2000: 35).

3 Fonds Portugais, cota Ms. 12. Foi descrito por M. Alfred Morel-Fatio (1892: 249).

Há microfilme do manuscrito nos Serviços de Documentação da Universidade de Aveiro (cota AV/RS-142). Agradecemos encarecidamente ao Prof. Carlos Morais o facto de nos ter facultado fotocópia do referido microfilme.

4 «Note-se que nem todos os capítulos copiados são da pena ortógrafa de Fernando

Oliveira» (Franco, 2000: 34).

5 Em tal, tivemos em conta a questão suscitada por José Eduardo Franco sobre os

capítulos que não foram da autoria de Oliveira, porquanto apenas considerámos, para o cotejo, os capítulos escritos por ele e que Franco apresenta na nota acima citada. Quanto à gramática nebrissense, servimo-nos da edição ao cuidado de Miguel Ángel Esparza e Ramón Sarmiento (1992), por se tratar de um fac-símile – aspecto que falta na edição de Antonio Quilis (1989), utilizada nos seguintes apartados do estudo – com edição crítica.

Nebrija Oliveira [...] I assi crecio hasta la monarchia

τ paz e que gozamos primera mente por la bondad τ prouidencia diuina: despues por la industria trabajo τ diligencia de vuestra real majestad. Enla fortuna τ buena dicha dela cual los miembros τ pedaços de españa que estauan por muchas partes derramados: se reduxeron τ aiuntaron en un cuerpo τ unidad de reino. La forma τ travazon del cual assi esta ordenada que muchos siglos iniuria τ tiempos no la podran romper ni desatar [...] (Nebrija 1992[1492]: 102-105).

[...] y assi crescio hasta la monarchia, y paz de que gozamos, primeramẽte por la bondad, y prouidencia diuina, despues por la industria, trabajo, y diligencia de vra. Alta magestad enla fortuna, y buena dicha (f. 275r).

Não nos parece, com efeito, que a eliminação de grande parte do prólogo nebrissense seja resultado da distracção do copista; pelo contrário, a lacuna textual indicada revela parte da motivação de Oliveira, que, insistimos, não se limita a realizar uma cópia, stricto sensu, da Arte nebrissense: no caso concreto da mutilação acima reproduzida, a atitude do gramático luso ter- -se-á pautado por um sentimento nacionalista – muito provavelmente – de rejeição à unificação política da Hespanha.

Contudo, não julgamos que a motivação ideológica esteja presente ao longo do acto da cópia realizada por Fernão de Oliveira, nem que tal seja um elemento relevante nesta. Noutros casos, com efeito, o autor da primeira anotação sobre o Português procede a profundas alterações do texto nebrissense, chegando, em certos casos, a reestruturar capítulos da Gramatica castellana; é o caso dos capítulos VI – Del metaplasmo (Nebrija, 1992[1492]: 289-293) – e VII – De las

otras figuras (Nebrija, 1992[1492]: 293-311) –, que finalizam o livro IV. Na cópia

escrita por Oliveira, pelo contrário, a matéria gramatical respeitante aparece estruturada em quatro capítulos: Capitulo sexto, del methaplasmo (ff. 332v- -334r); Capitulo septimo, de la schema (ff. 334r-335v); Capitulo octauo, de algunas

figuras (ff. 335v-336v); Capitulo nono, de algunos vicios6 propinquos a las figuras

6 Na fotocópia do manuscrito que utilizámos para levar a cabo o confronto, aparece

riscada ou muito pouco legível a palavra que corresponderia a ‘vicios’; seja como for, parece- -nos congruente com o sentido do enunciado e com o conteúdo do capítulo a leitura que oferece Franco (2000: 35).

(ff. 338r-339v). Na verdade, o que faz Oliveira, além de dividir o capítulo VII nebrissense em três, é reordenar a matéria gramatical integrada nele; a saber: aparecem pospostos, integrando o capítulo nono, os uitia, que, no capítulo sétimo da Gramatica castellana, se situam de forma intercalar. A reordenação pode ser sintetizada do seguinte modo:

Nebrija Oliveira

Capitulo .vii. Delas otras figuras: Prolepsis; Zeugma; Hypozeusis; Sylepsis; Apposición; Synthesis; Antiptosis; Sinechdoche;

Acirologia; Cacophaton; Pleonasmo; Perissologia; Macrologia; Tautologia; Eclipsi; Tapinosis; Cacosyntheton; Amphibologia;

Anadiplosis; Anaphora; Epanalepsis; Epizeusis; Paranomasia;

Schesisonomaton; Paromeon; Omeoteleuton; Omeoptoton;

Polyptoton; Hyrmos; Polysyntheton; Dialyton; Methaphora; Catachresis; Metonymia; Antonomasia; Epitheton; Periphrasis;

Hysteron proteron o hysterologia; Anastropha; Parenthesis; Temesis; Synchesis, Alegoria; Antiphrasis; Enigma; Calepos; Carientismos.

Capitulo septimo, de la schema: Prolepsis; Zeugma; Hypozeuxis; Sylepsis; Synthesis; Apposicion; Antiptosis; Synedoche.

Capitulo octauo, de algunas figuras: Anadiplosis; Anaphora; Epanalepsis; Epizeuxis; Paranomasia; Schesis onomaton; Paromeon; Homeoteleuton. Capitulo nono, de algunos vicios propinquos a las figuras:

Acyrologia; Cacophaton; Pleonasmo; Perissologia; Macrologia; Tautologia; Eclipsis; Tapinosis; Cacosyntheton; Amphibologia.

Para além de se verificar uma redução das figuras que integram, na proposta de Fernão de Oliveira, o capítulo oitavo, a alteração dos conteúdos relativos à construção figurada poderá explicar-se como uma tentativa do gramático português para discriminar melhor os desvios da norma linguística considerados correctos daqueles que o não são.

Noutras passagens, Oliveira procede não só a reformular a matéria, mas também a introduzir nova informação; por exemplo, no capítulo sobre o artigo:

Nebrija Oliveira E por que como diximos enel capitulo

passado: el pronombre se pone en lugar de nombre proprio. tan bien quitamos el articulo al uno como al otro. assi que no diremos el io. el tu. Mas por que en los pronombres derivados siempre se entiende algun nombre comun: podemos les añadir articulo. como diziendo el mio. entiendese ombre. diziendo la mia. entiendese muger. lo mio. entiendese cosa mia. Mas como dios sea comun nombre: quitamos le el articulo cuando se pone por el verdadero que es uno. τ por que la sagrada escriptura haze mencion de muchos dioses no verdaderos: usamos deste nombre como de comun: diziendo el dios de abraham. El dios delos dioses. τ entonces assi le damos articulo como lo añadiriamos a los nombres proprios: cuando los ponemos por comunes. como si dixiessemos: los pedros son mas que los antonios (1992[1492]:

243).

Y por q̃ diximos enel capitulo passado, q̃ el pronombre se pone en lugar de nombre proprio, por tanto tambien quitamos el articulo al mismo pronombre: y por esto no dezimos, el yo, el tu. Empero, por q̃ en los pronombres dirivados siempre se entiende algun nombre commun, podemosles annadir articulo: como diziendo, el myo; la tuya, lo tuyo: en los quales se entienden nombres cõmunes, como el my dinero, la tu hazienda, las sus cosas. Es tambien de notar, q̃ este nõbre dios algunas vezes recibe artigo, y otras no: la razon es, que el no es nombre proprio, por quãto a dios verdadero no hay nombre q̃ se le pueda apropriar: mas por q̃ huuo, y aun hay muchos falsos, q̃ se llamaron dioses, quando les applican este nõbre hazesse cõmun, y damosle articulo y mas numero plural: mas quando por el significamos a dios verdadero, ny tiene plural, por q̃ es uno solo, ni recibe articulo, por q̃ es entonces como nombre proprio: y ansi dezimos, dios es criador, dios hizo el hombre: mas quando dezimos, el dios del cielo, el dios eterno, aquella partezilla no es entonces articulo, si no pronombre demõstratiuo, q̃ demostra, y distingue la cosa, y no el genero: digo q̃ distingue, y declara, qual es aquel dios, de que hablamos, y no demostra solamẽte el genero daquel nombre, q̃ es solamente el officio del artigo (ff. 319v-320r).

No fragmento reproduzido, estamos perante a introdução de novas propostas gramaticais não existentes no passo correspondente da Gramatica

castellana – a interpretação da forma ‘el’, anteposta a ‘dios’, não como artigo,

mas como pronome –. Tal poderá dar-nos uma ideia da motivação de Oliveira para fazer a cópia da gramática nebrissense; a saber: aproveitar a matéria desenvolvida por Nebrija, introduzindo – quando julga oportuno – informação nova, a fim de a aplicar a um projecto de gramática portuguesa que não parece ter sido concretizado. Segundo a nossa interpretação, portanto, os apontamentos nebrissenses não terão servido a Oliveira para a realização da Grammatica da lingoagem portuguesa; seriam destinados para outra obra de maior extensão de que se nos informa em diversas passagens daquela que é a primeira anotação do Português7.