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Percebe-se que as áreas ocupadas por vegetação de cerrado visualizada nas fotografias de 1964 cederam lugar aos processos produtivos especialmente da agricultura de culturas de colheita temporária como a soja, o milho, e menos intensamente, a cana-de-açúcar. A pastagem se destaca em segundo plano, seguida pelas florestas homogêneas que atualmente estão sofrendo um declínio na quantidade de áreas. (BORGES, 2012, p. 121).

Esta descrição faz referência ao rio Uberabinha antes deste passar pela cidade. Após esta passagem, a degradação do curso d’água é ainda maior, pois é na cidade que o rio recebe boa parte dos efluentes domésticos e industriais não tratados, resíduos sólidos, além de passar próximo ao aterro sanitário municipal.

Concomitante a estes processos de degradação do rio Uberabinha, Borges e Nishiyama (s/d) realizaram um levantamento de dados sobre a utilização da água na bacia em questão. Foi constatado que 47% da água captada vai para a irrigação, 25% para as indústrias, 16% para o abastecimento humano, 6% dessedentação de animais, e outros. Este cenário mostra, também, um pouco do uso e ocupação da bacia do rio Uberabinha e da pressão antrópica sobre o uso de um bem natural.

Todos estes usos são preponderantes para a qualidade do curso d’água. Eles demonstram que a pressão antrópica não se restringe somente às PCHs, mas a uma gama de atividades. Estes estudos chamam a atenção para uma bacia que possui diferentes atividades e necessidades, e por isso deve ser reconhecida como de suma importância para a população regional.

Diante da degradação dos cursos d’água, uma questão tem sido levantada por empreendedores, não só na bacia do Uberabinha, mas em várias partes do Brasil: se um rio já está poluído a exploração a partir de usinas hidrelétricas seria viável. Estes empreendedores não poderiam se camuflar no discurso de que a degradação socioambiental das bacias hidrográficas já é uma realidade e que, por isso, a instalação de usinas hidrelétrica não agravaria este quadro e sim traria desenvolvimento para a região.

A degradação de um curso d’água não pode ser tomada como algo finalístico, ou seja, coloca- se que se um rio já está degradado, porque então não permitir outros usos, como a instalação

de PCHs? Na realidade o que se espera é que todas as atividades econômicas, sociais e culturais possam usufruir do mesmo bem natural, de forma harmônica e respeitando os diferentes usos.

Por isso, se acredita na necessidade destas empresas realizarem, também, um desenvolvimento sociocultural da região, com abertura ao uso público deste bem natural. Este tipo de medida aproxima a sociedade ao seu bem natural, que é intrínseco ao desenvolvimento regional. Esta aproximação abre caminho para a percepção social e ambiental que a água deve ter na sociedade, como algo que subsidia a economia, mas que também garante o equilíbrio socioambiental.

Um rio pode servir a diversas finalidades. O equilíbrio socioambiental, por sua vez, diz respeito à possibilidade de usufruir de um bem natural, como a água, também na forma de lazer, de tradições, seja para a prática de esportes, para o ecoturismo ou para a preservação ambiental. É preciso que estes usos sejam respeitados e colocados, também, como direito e suporte para uma boa qualidade de vida, fazendo a aproximação da sociedade com um ambiente natural, o qual é de todos.

No caso do Uberabinha, atividades das mais diversas impactam o equilíbrio da bacia, e no conjunto de todas essas atividades nunca foram mensurados os impactos cumulativos e sinérgicos existentes na bacia. É mais que urgente proteger as áreas de veredas, de nascentes, de preservação permanente e conciliar para que a bacia não chegue ao patamar de área de conflito pelo uso da água.

Schneider (1996) já colocava sobre a urgência de se ter um planejamento territorial da bacia do rio Uberabinha. Se este planejamento já tivesse ocorrido, hoje caminharíamos no sentido de ter uma bacia hidrográfica com potencial para exploração de diversas atividades e com a preservação de áreas importantíssimas para a manutenção do equilíbrio entre o que se conserva e o que se explora num dado ambiente.

Recentemente, foi realizado um relatório por um grupo de trabalho ligado ao Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Araguari. O trabalho, intitulado: “Proposta para criação de APA na Chapada do Bugre / Triângulo Mineiro” (DI MAURO [et al.], 2011), desenvolveu pesquisas que mostraram a fragilidade da região das nascentes do rio Uberabinha, e de outros rios que ali nascem. O desafio é criar uma unidade de conservação, do tipo Área de Preservação Ambiental (APA) na Chapada do Bugre, onde existe um manancial de águas que abastece várias cidades da bacia do Araguari.

Outro trabalho de suma importância para a conscientização sobre o rio Uberabinha foi o documentário realizado por Umberto Tavares (2013), intitulado “Murundu”. O documentário conta a história do rio Uberabinha para a cidade de Uberlândia. No filme se constata e é discutido o descaso público e dos cidadãos uberlandenses com um rio que representa a história de desenvolvimento e a base para o avanço das atividades na cidade de Uberlândia. O documentário traz uma série de pesquisadores, cidadãos e poetas que viam no rio um modo de vida, e que agora o veem como um ambiente em descaso.

O mapa 6 traz o cenário da conjunção das atuais e futuras instalações de PCH ao longo do rio Uberabinha.

Neste mapa se constata 02 PCHs em operação, 01 em implantação e mais 03 potenciais hidrelétricos, totalizando uma projeção de 06 PCHs, para um rio com um pouco menos de 120 Km de extensão. O estudo integrado destas obras e a somatória com outros empreendimentos, que utilizam ou descartam resíduos e efluentes no rio Uberabinha, ainda não foi contemplado. Esta já é uma exigência desde 2012, com a Deliberação Normativa nº 175, que dispõe sobre a Avaliação Ambiental Integrada.

Estas usinas representam para o rio a exploração de seus últimos monumentos naturais com grande beleza cênica. A cachoeira do córrego Bom Jardim, por exemplo, é um local

frequentado por moradores da cidade de Uberlândia, seja para se refrescar na cachoeira, ou de passagem, por bicicleta pela conhecida trilha do Bom Jardim.

Quando da instalação de todas estas obras, estes tipos de usos não serão considerados. Os usos indiretos de um local, geralmente não são contabilizados, negando à população um direito que é seu, de utilização de um bem natural. Nega-se ao cidadão a possibilidade de fazer uso de um bem que é de todos em favor de um empreendedor que, neste caso, tem o objetivo de produzir energia a qualquer custo.

O uso social de um bem natural fica em segundo plano quando da instalação de um empreendimento. E esse fato se confirma na cachoeira do Bom Jardim. O local sempre foi frequentado pela população de Uberlândia e nunca se pensou em investir na manutenção do mesmo para atender a sua população. O mesmo ocorre em outras regiões com cachoeira, como a cachoeira do Sucupira, que era muito frequentada pela população, mas como não havia um controle e manutenção do local para a vinda de visitantes, acabou que se criou uma unidade de conservação, tanto para preservá-la como para garantir que o abastecimento urbano não fosse prejudicado, já que ali se instalou uma rede de captação de água para a população de Uberlândia.

É preciso colocar o uso social como uma prerrogativa não só de uso para o lazer, mas como algo que insere e conscientiza a população sobre a importância da água e da manutenção de um ambiente com qualidade socioambiental. O convívio e o respeito pelas necessidades sociais, ambientais e econômicas perpassam pela inserção da população com os bens naturais, como forma de lhes fazer experimentar e conviver com estes bens, respeitando e valorizando a sua preservação.