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APÊNDICE M PRODUÇÃO DE ARROZ EM TONELADAS NO BAIXO SÃO FRANCISCO EM SERGIPE NO PERÍODO ENTRE (1990-2013)

1 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

1.1 BACIA HIDROGRÁFICA

Para constituir o conceito de bacia hidrográfica é preciso que se faça uma exegese do surgimento e de como os homens fixaram-se em aldeias, cidades e construíram impérios e civilizações, visto que os conceitos e teorias são frutos do pensamento humano e, portanto, são históricos e passíveis de mudanças. Pois, os conceitos dependem da abordagem e dos modos de lidar com os usos dos recursos naturais, visto que, as diferenças multiculturais, sejam de populações nativas ou de origem migratória, sejam de migrações recentes ou antigas, atribuem finalidades e usos também diferenciados, que moldam as relações socioambientais nas diversas regiões do planeta e nas diversas épocas (LEONEL, 1998: 1-26).

Os rios, a bacia hidrográfica e todos os recursos que se encontram no entorno dessas unidades geográficas, como o território e os corpos d‟água tiveram e têm múltiplos usos, sempre combinando com os modos de produção dominantes dos povos e/ou civilizações antigas ou modernas. Estão presentes no processo de surgimento, ascensão e decadência de aldeias, cidades, impérios e civilizações, ou mesmo no momento da sua finalização.

Desta forma, em todo o percurso da humanidade, inclusive nos períodos paleolíticos e neolíticos, impérios e civilizações com maior ou menor complexidade, sempre foram e são erigidos em torno dos lagos, rios, nascentes e outras fontes de água, sejam na superfície ou em subterrâneos para estabelecerem o modo de produção material e imaterial, a sobrevivência e a reprodução da existência das populações, garantindo-lhes a segurança e os suprimentos alimentares. Campos (1972: p. 118), destaca que “os rios sempre foram fatores importantes

para o surgimento de civilizações. Verdadeiras estradas líquidas que proporcionam a penetração de desbravadores e pioneiros”. A exemplo da bacia hidrográfica do rio Nilo, considerado o berço da civilização egípcia; os mesopotâmicos que habitaram os vales dos rios Tigre e Eufrates; os hebreus que se abrigaram ao lado do rio Jordão; os chineses às margens dos rios Yangtzé e Huang Ho; ou mesmo, os hindus que se desenvolveram nas planícies dos rios Indo e Ganges. “Ao longo dessas águas, há 3.000 anos A.C., floresceram os grandes centros da civilização antiga” (AGUIAR NETTO; MENDONÇA FILHO e ROCHA, 2010: p. 40).

A segurança nutricional dos homens e mulheres encontra-se na base líquida da sua existência, na sua fixação em aldeamentos para a produção de alimentos, seja em lavouras irrigadas, ou nas enchentes e vazantes sazonais dos rios e lagos. Seja para o abastecimento humano, ou dessendentação dos animais. Durante a Idade da Pedra e do Cobre, o uso da água era coletivo, e esta arte já era controlada por aldeões que habitavam as margens do Nilo e do Eufrates.

Na antiguidade, especificamente nos períodos de formação de aldeamentos e cidades, a água era considerada dádiva dos Deuses e em seu entorno construíam-se toda produção e reprodução material e simbólica daqueles povos. Em algumas regiões os rios serviram de base estruturante da revolução agrícola ocorrida no Oriente Próximo, sul da Mesopotâmia e Vale do Nilo. Em outros lugares, como Líbano, Síria ou Israel se estruturavam em torno de uma terra fértil e chuvas de inverno. Já o caso dos rios Tigres e Eufrates, na Mesopotâmia, praticava-se a contenção das águas que desciam às montanhas degeladas por meio de arranjos de valas e aproveitamento da própria topografia local, que desviavam as águas através de canais e braços de rios naturais (PINSKY, 2012).

Se o uso da água fosse dos rios ou das chuvas eram regidas por normas que garantiam o abastecimento das pessoas e da produção agrícola. Nesse sentido, durante as cheias dos rios a prática era o represamento, transposição de águas através de canais, construção de valas, diques e reservatórios “para controlar a água, soltando-a lenta e adequadamente, de modo a não encharcar em excesso após as cheias nem permitir que a terra gretasse meses depois” (PINSKY, 2012: p. 59). Em outras situações, valiam-se das inundações provocadas pelos rios, caso emblemático, o rio Nilo, que aproveitava os sedimentos ricos em matéria orgânica carreados pelas águas para efetuarem a sua agricultura e suprimentos de alimentos. Sendo assim, o uso da água era de controle coletivo estava voltado para a produção de alimentos,

para fabricação de utensílios domésticos de cerâmica, com a finalidade de armazenamento de alimentos e água para o abastecimento humano.

Portanto, os homens ao se fixarem em aldeias, cidades, impérios e civilizações, na ascensão e decadência, ou mesmo o seu fim, estiveram sempre nas proximidades de corpos hídricos, superficiais ou subterrâneos. Dessa forma, com a permanência de comunidades humanas em aldeamentos “as privadas, os esgotos e a poluição dos rios assinalaram a data de encerramento do processo: do ponto de vista ecológico, um passo atrás, e até agora um avanço técnico mais ou menos superficial” (MUMFORD, 2004: 21). Assim, findaram-se aldeias e cidades, impérios e civilizações, como também, lagos, rios e outras fontes de reserva de água.

Os conceitos de bacia hidrográfica pautavam-se, apenas, na forma de utilização dos rios como elemento estruturador da sociedade, ou seja, com as construções de barragens, reservatórios, canais, com o fim de criar infraestrutura para o desenvolvimento. Mais recentemente o uso dos recursos hídricos tem sido gerido com medidas estruturais, não- estruturais, para a gestão integrada e preditiva das águas, incluindo nesses casos o controle de inundações, leis, regulamentos, seguros e sistemas de alerta de cheias, conservação da energia (BRAGA, ROCHA, e TUNDISI, 1998; TUNDISI, 2006). Contudo, a água, ainda é fator estruturante e estruturado nas relações entre homem e natureza, conforme afirma Magalhães Júnior (2007: 41), a água, comporta-se “como fator estruturador do espaço e condicionador da localização e da dinâmica das atividades humanas, possui importância estratégica no desenvolvimento e expansão dos povos”.

Atualmente, o conceito é um exercício multi e interdisciplinar (NAKAMURA & NAKAJIMA, 2002; TUNDISI et al., 2003), exige do intérprete uma compreensão mais ampla da diversidade que permeia o ambiente, principalmente em uma bacia hidrográfica, a qual por si só é uma grande integração ecossistêmica, só sobrevive pela relação oculta de tantos fatores essenciais para a continuidade da vida. Caldecott (2011), demonstra que os rios dão lições de integração e que a ação humana com obras grandiosas coloca em risco todo esse equilíbrio. É fundamental entender que a água segue várias fases completarem chama-se ciclo hidrológico, como definido por Gribbin (2013), a natureza e seus ecossistemas são grandes recicladores, e a água é um dos exemplos importante, que na sequência do seu ciclo passa por várias fases e estados físicos, em cada etapa, retornando ao seu patamar inicial de origem.

Essa interdisciplinaridade, não se dá por acaso, advém de características e integração ecossistêmica de seus elementos físicos, bióticos e socioeconômicos, e garante à bacia

hidrográfica, o status de unidade geográfica de planejamento. De tal forma que os cursos de águas hierarquizados, o rio principal, seus afluentes e subafluentes permanentes ou intermitentes, suas nascentes, foz e os divisores de água, ao sofrerem interferências das atividades humanas ou naturais, em um desses componentes ou na sua totalidade, altera sua dinâmica. Modificam-se as condições ambientais, a quantidade e a qualidade da água, a fertilidade do solo, a paisagem, a topografia e outros (SANTOS, 2004).

Dessa forma, o conceito de bacia hidrográfica permite uma tradução ecossistêmica, com fundamentos na Teoria Geral dos Sistemas (BERTALANFY, 2008), cuja diversidade de organismos vivos ali existentes se encontra imbricados em processos vitais, complexos, interdependentes e interagindo com o meio ambiente natural e social, a ponto de um impacto produzido em um determinado elemento refletir-se em toda dinâmica do ecossistema. E isto, se inclui todos os componentes bióticos e abióticos em um mesmo território ou espaço, assim é compreendido por Christofoletti (1980: 1 “como o conjunto dos elementos e das relações entre si e entre os seus atributos” e permite que a gestão dos recursos hídricos trilhe por este caminho. Como define Pinto & Aguiar Netto (2008), “a bacia hidrográfica é estabelecida como unidade de planejamento, sendo analisada como um sistema aberto, resultante da interação das ações humanas com os elementos e formas do meio físico e, dentre estes, em especial, a disponibilidade e qualidade das águas” (PINTO & AGUIAR NETTO, 2008: 183).

E do ponto de vista da Geografia, apresenta característica topográfica, geológica, de solo e vegetação e de águas, e também “o conjunto de terras drenadas por um corpo d‟água principal e seus afluentes” e “representa a unidade mais apropriada para o estudo qualitativo e quantitativo do recurso água e dos fluxos de sedimentos e nutrientes” (PIRES; SANTOS & DEL PRETE, 2008: 17), ou ainda, um conjunto ambiental integrado de matéria e energia em rios e canais fluviais, através de agentes bióticos, climáticos, socioeconômicos, socioculturais e históricos inter-relacionados (TUCCI, 2002; CHRISTOFOLETTI, 1980; MAGALHÃES JUNIOR, 2007). Christofoletti (1980: 102), acrescenta que, uma bacia de drenagem fluvial é constituída por “um conjunto de canais de escoamento inter-relacionados” e formada por subsistemas que compõem a bacia hidrográfica de um determinado rio, sendo estes: “vegetação, superfície, solo, zona de aeração, zona de água subterrânea e canal fluvial” (CHRISTOFOLETTI, 1979: 47), e fisicamente, deve ser analisada como um sistema geomorfológico aberto e resultante da interação das ações humanas com os elementos que compõem a bacia de drenagem.

Ainda, segundo Christofoletti (1980), os rios são veículos de grande importância no transporte de materiais, levando das áreas mais elevadas para as mais baixas, alguns fazem a ligação entre o continente e o mar, funcionam como canais de escoamento através de processos aluviais como a erosão, o transporte e a sedimentação, fatores fundamentais para a formação de lagos temporários e praias.

A concepção de bacia hidrográfica como unidade física de gerenciamento e planejamento, deve transpor os marcos das fronteiras político-administrativa limitadas pelos municípios, estados, países, para que seja, aplicado um gerenciamento de recursos hídricos sistêmico e eficiente, que atenda o sinergismo inerente ao funcionamento das bacias hidrográficas, de forma que, os recursos da bacia hidrográfica, viabilizem o desenvolvimento econômico e social adequados à realidade regional (SCHIAVETTI & CAMARGO, 2002; MAGALHÃES JUNIOR, 2007).

O conceito de bacia hidrográfica como qualquer outro conceito da ciência, também imbrica em um espaço físico, onde ocorrem as relações de poder e socioeconômicas da sociedade, seus aspectos jurídicos e culturais, as práticas de apropriação dos recursos naturais, as representações sociais e construções simbólicas da realidade. Esta, se encontra totalmente inserida na vida biológica dos seres vivos, incluso vegetais e animais; na vida social, na vida afetiva e emocional, na resolução dos conflitos; na vida econômica da sociedade, nos modos de produção, desde os processos de irrigação, como também no processo de fabricação dos bens de consumo e duráveis.

Nesse sentido, combina-se o olhar da Geografia, da Sociologia, da Economia, da Física, das Ciências Ambientais e da Engenharia para caracterizar uma abordagem interdisciplinar estrutural (Japiassu, 1976), que coloca em igualdade todas as áreas do conhecimento envolvido neste estudo. Ao combinar a pesquisa e as reflexões das diversas ciências no estudo da bacia hidrográfica permite-se conceitos à altura do que ela representa, tanto para o ambiente físico quanto social. Contudo, sendo um conceito histórico, é passível de se alterar com o tempo e o espaço, como lembra Santos (2004: 15) que “todo conceito esgota no tempo”. Portanto, ao adotar o conceito de bacia hidrográfica enquanto unidade de planejamento ambiental de estudo e gerenciamento. Esta deve ser direcionada a um projeto de conservação dos recursos naturais agregado aos pressupostos de desenvolvimento sustentável (PIRES, SANTOS & DEL PRETE, 2008).

No Brasil, a utilização da bacia hidrográfica tem priorizado a geração de energia, por conseguinte, as instalações das usinas hidrelétricas vêm se construindo sob os auspícios da argumentação do desenvolvimento econômico a qualquer custo, sem levar em conta a capacidade de resiliência dos recursos naturais, cujo planejamento não atende os pressupostos ecossistêmicos de unidade territorial. Obras que atingem e embotam as comunidades de conflitos socioambientais, que absorvem totalmente os riscos do empreendimento, sem que necessariamente garantam o bônus, pois estes se distribuem fora dos espaços e territórios afetados.

As construções desses grandes complexos hidrelétricos têm-se justificado, segundo Le Preste (2000), pelo viés de três argumentos principais que o governo tem utilizado para dar continuidade às obras de infraestrutura: a) o argumento econômico, em que os custos locais podem ser superados pelos lucros nacionais contabilizados; b) o argumento político, em que uma minoria não poderia se opor a medidas proveitosas para o conjunto; e c) o argumento ecológico, em que a opção por fonte de energia mais limpas seriam ecologicamente mais vantajosas em relação a outros métodos, em que o interesse privado pode referir-se às comunidades locais afetadas, e o interesse público ao interesse do país como promotor do processo de desenvolvimento. São embates frequentes entre grupos de interesses em grandes obras de infraestrutura, em especial as de grandes hidrelétricas, e as populações diretamente afetadas, promovendo o desencadeamento de conflitos de ordem socioambientais.