CONSIDERAÇÕES FINAIS
3 CONFLITOS SOCIOAMBIENTAIS DECORRENTES DOS IMPACTOS NA PESCA, NA PRODUÇÃO DE ARROZ E NA PERDA
3.2 IMPACTOS AMBIENTAIS E CONFLITOS SOCIOAMBIENTAIS
O modelo de apropriação dos recursos naturais, e em particular dos recursos hídricos do baixo São Francisco, tem gerado impactos ambientais negativos, que põem em risco a sustentabilidade do meio ambiente e do ser humano.
Os mesmos impactos colocam em confronto os diversos atores e usuários, indivíduos ou grupos que interagem para ter acesso ou controle dos escassos recursos, estabelecendo os conflitos (SIMMEL, 1964; 1983; 2006; 2010; HOBBES, 2005). Sendo estes, em função do ambiente ou recursos naturais, caracterizam-se como conflitos socioambientais (CHAVEZ, 2002) e as proporções são determinadas pela complexidade das relações sociais nelas imbricadas. E ainda, “Os conflitos ambientais eclodem quando impactos indesejáveis, transmitidos pelo ar, pela água ou pelo solo, comprometem a coexistência localizada entre distintas práticas sociais de uso do território e de seus recursos” (ACKSERALD, 2004, p. 7 e 9), ou pela multiplicidade de percepções sobre esses usos (BARROS-PLATIAU, 2005).
Nesse sentido, os impactos negativos gerados pelo setor elétrico, pela Hidrelétrica de Xingó, como assoreamento do leito, erosão das margens, aumento do espelho d‟água, mudanças na hidrodinâmica do rio, nos ecossistemas fluviais e marítimos com reflexos nos processos sociais e a cunha marítima provoca a salinização das águas do rio e influencia não só na sua composição química, nem só na fauna e na flora, como também, na introdução de indivíduos da biota marítima e no solo das várzeas impedindo o seu uso para agricultura, mesmo a dos projetos de irrigação e outros.
Os municípios do baixo São Francisco mais afetados pelos impactos da barragem pelo lado são os ribeirinhos como mostra a Figura 3.2.27.
Figura 3.2.27 - Mapa dos municípios ribeirinhos do baixo São Francisco dos Estados de Sergipe e Alagoas. Fonte: IBGE (2013); ANA (2014); SERGIPE (2014)
Estes impactos foram tratados, enquanto geradores de conflitos socioambientais potenciais, a partir de três processos manifestos. Aqueles que estão relacionados à extinção da ilha do Cabeço e, por conseguinte de seu povoado; da extinção de lagoas marginais e consequentemente da cultura do arroz e; redução da produção de pescados de água doce, por conta da regularização da vazão do rio São Francisco.
Essas mudanças no ecossistema chegam ao ponto de se encontrar nas proximidades de da cidade de Neópolis/SE, em frente a Penedo/AL, distante do mar a aproximadamente 40km, indivíduos do ecossistema marítimo que migraram para as águas do rio, e possibilitando a prática da pesca de siri (Callinectes spp), crustáceo oriundo de ambiente de mangue ou marítimo, conforme depoimento do Entrevistado 16, pescador da região de Santana do São Francisco/SE e expressado na fala do Entrevistado 15, “e o siri também, o siri era no mar,
não era aqui nessa área e agora os pescadores tão pegando siri” (Entrevistado 15, 2013).
O assoreamento na calha do rio modifica a rota de navegação ou impede a sua prática em algumas áreas como o caso de São Brás que está com seu acesso bloqueado pela formação de um banco de areia em seu porto de chegada de embarcação. E, ainda, nos últimos cinco anos, os processos de erosão e deposição provocaram a formação de um banco de areia que se encontra na foz do rio entre Sergipe e Alagoas, mesmo depois da inundação do povoado Cabeço em Sergipe com graves consequências para os moradores locais, mudança no curso do rio, alterando a foz de norte para sul do continente.
Em parecer de admissibilidade número 001/2014 – Câmara Técnica Institucional (CTIL) – Comitê de Bacia Hidrográfica do rio São Francisco (CBHSF), foi admitido o conflito pelo uso das águas do rio São Francisco, este encaminhado pelos suscitantes: Canoa de Tolda Sociedade Sócio-Ambiental do baixo São Francisco e Empresa Fluvial Estrela Guia, com adesão da Associação de Transporte Aquaviário de Penedo, Neópolis e Santana do São Francisco e Colônia de Pesca Z-12 – Penedo, contra o suscitado Companhia Hidrelétrica do São Francisco.
A Figura 3.2.28, mostra trecho do riacho da ilha do Monte, entre Brejo Grande/SE e Piaçabuçu/AL, conforme o Entrevistado 13 relatou em julho de 2013, que navega há 25 anos na região e conhece o rio desde Piranhas/AL até a foz no Cabeço/SE, afirmou que a profundidade nesta região atingia 25,0m, hoje, se encontra em torno de 1,5m a 3,0m, de acordo com a maré seca ou cheia respectivamente. Este fato denuncia o grau de
degradação que se encontra o baixo São Francisco, considerando que navios de grande porte já sulcaram estas águas.
Figura 3.2.28 – Riacho da ilha do Monte entre os Municípios de Brejo Grande/SE e Piaçabuçu/AL.
Fonte: ARAÚJO, Sérgio S. (jul/2013).
Na Figura 3.2.29 observa-se o banco de areia formado na foz do rio São Francisco entre Sergipe e Alagoas, o Farol do Cabeço postado no banco de areia e resquícios de vegetação de mangue na margem esquerda do rio, no Pontal do Peba em Alagoas.
Figura 3.2.29 - Farol do Cabeço submerso na foz do rio São Francisco. Fonte: ARAÚJO, Sérgio S. (jan/2014)
No estudo sobre os impactos antrópicos no estuário do baixo São Francisco, Souza e Neuman Leitão (2000), demonstram que “estes processos causam profundas alterações no ecossistema provocando uma série de danos, muitas vezes irreversíveis com um acentuado desequilíbrio das características geomorfológicas, físicas, químicas e biológicas, além de prejuízos socioeconômicos” (SOUZA e NEUMANN LEITÃO, 2000, p. 100).
O aumento do espelho d‟água em decorrência da erosão das margens associado ao assoreamento, permitindo maior evaporação da água e contribuindo também, com a salinização da água e do solo. Aguiar Netto et al., (2011), evidenciam a gravidade dos problemas ambientais e do cenário dos recursos hídricos, cujas atividades humanas na região do baixo São Francisco têm forte impacto nas vazões médias do rio e no carreamento de sedimentos, influenciando a qualidade, o uso da água e do solo.
Modificações ocorrem nas características nutricionais dos corpos hídricos, especialmente nos teores de nitrogênio, fósforo e agrotóxicos. A erosão marginal, a salinização de solos, com ênfase para áreas irrigadas, desmatamento, deposição inadequada de resíduos sólidos e lançamento de efluentes domésticos e industriais „in natura‟ (AGUIAR NETTO et al., 2011), este último somado à baixa capacidade de diluição associado à redução
da vazão do rio, agrava ainda mais o quadro de poluição das águas. Mudanças no regime hidrosedimentológico e na morfodinâmica fluvial do baixo curso do rio São Francisco, implicações nos ecossistemas e na vida socioeconômica da região são outros impactos observados por Fontes (2011), impactos negligenciados no EIA-RIMA (ENGE-Rio, 1980).
O rio é afetado pela proliferação de plantas macrófitas que se deve à poluição por agrotóxicos oriundos dos processos de adubagem dos perímetros irrigados, ou mesmo de esgotos das áreas urbanas. Ou ainda, mudanças na biota do rio, devido à proximidade da luz no solo do leito do rio, permitindo que a fotossíntese de microflora, criando espécies novas de flora.
Nas áreas onde se formam as crôas, estas transformam-se em ilhas e os proprietários de terra às margens do rio se apropriam projetando suas cercas para o interior da calha do rio. A ocupação das margens e da planície de inundação, é um problema recorrente no rio do São Francisco, tanto na calha, nas lagoas marginais e várzeas. Entre os impactos que foram observados ao longo da viagem realizada entre os dias 10/07 a 14/07/2013, destacam-se a erosão marginal e o assoreamento do leito.
Na Figura 3.2.30, observa-se a existência de processos erosivos na margem esquerda, que carreiam sedimentos para o leito do rio, na região do Xinaré/AL. A erosão marginal é uma constante no baixo São Francisco. A Figura 3.2.31 mostra a região do povoado Munguengue/AL, na margem esquerda do rio e o avanço desse impacto tem carreado sedimentos para o leito do rio, formando bancos de areia, ilhas, por conseguinte reduzindo a profundidade do rio e impossibilitando a navegação.
Figura 3.2.30 - Região do Xinaré/AL com erosão marginal, no rio São Francisco. Fonte: ARAÚJO, Sérgio S. (jul/2013).
Figura 3.2.31 - Processos erosivos às margens do rio, no povoado Munguengue/AL, no rio São Francisco.
Na Figura 3.2.32, observa-se o riacho da barra do riacho de Itiúba, no perímetro irrigado em Porto Real do Colégio/AL que teve seu leito alargado para que houvesse inundação da área de plantio de arroz, ou seja, a vazão do rio não alcança as várzeas de inundação, mesmo aquelas que se encontram no perímetro irrigado. Na Figura 3.2.33 mostra processos erosivos às margens do rio São Francisco pelo lado alagoano próximo à barra do riacho de Itiúba/AL. Na Figura 3.2.34 observa-se as variações da linha d‟água no processo erosivo das margens do rio, no município de Santana de São Francisco/SE, na margem sergipana.
Figura 3.2.32 - Barra do riacho de Itiúba em Porto Real do Colégio/AL às margens do rio São Francisco.
Figura 3.2.33 - Margens do rio São Francisco com processos erosivos próximo à barra do riacho Itiúba em Porto Real do Colégio/AL.
Fonte: ARAÚJO, Sérgio S. (jul/2013).
Figura 3.2.34 - Erosão das margens do rio São Francisco no município de Santana de São Francisco/SE.
O Entrevistado 17 (2013), pescador e agricultor de 70 anos, natural de Neópolis/SE, a 30 (trinta anos) morando em Propriá/SE, ao se referir às condições de navegação, de pesca e até da qualidade da água do rio São Francisco ele relata:
aqui, a vista o que era, é mesmo que ser uma lagoa, começava de lá (sic!) e ia sai lá (sic!) ai vem secando (sic!) prá baixo é cheio de ilha, de Brejo Grande prá cá, é cheio de ilhas, tanta ilha no mundo. Eu sei que, de Piaçabuçu prá cá, Pichaim...Cabeço... já trabalhei ai tudo... Sabe porquê? Pescaria pescaria é bom, mas é doentia, era de tarrafa, (...) era de linha. (...) de 2000 prá cá diminuiu foi muito, 2011 o rio tava por ali assim (sic!)e cada dia mais constante descendo. (...) dali da Ilha das Flores prá lá, tem época ninguém não pode beber água porque tá salgada, porque o mar já tá dominando o rio, agora quando faz fila, (...) ai a água endoça de novo (ENTREVISTADO 17, 2013).
Também na Figura 3.2.35, observa-se o crescimento de vegetação no leito do rio devido à formação de crôas, ilhas decorrente do assoreamento na região entre os povoados de Lagoa Comprida em Traipu/AL e Escuriais em Nossa Senhora de Lourdes/SE. Na Figura 3.2.36, observa-se banco de areia formado entre as cidades de Neópolis/SE e Penedo/AL dificultando a navegação das balsas de transporte entre as duas cidades, forçando-as a fazerem um retorno longo para chegar ao final da viagem, prolongando esse tempo. Em Propriá/SE se repete a formação de bancos de areia; na Figura 3.2.37 , observa-se o assoreamento em frente à cidade nas proximidades da ponte da Integração Nacional.
Figura 3.2.35 - Rio São Francisco com seu leito assoreado entre os povoados de Lagoa Comprida em Traipu/AL e Escuriais em Nossa Senhora de Lourdes/SE.
Fonte: ARAÚJO, Sérgio S. (jul/2013).
Figura 3.2.36 - Banco de areia formado entre as cidades de Neópolis/SE e Penedo/AL. Fonte: ARAÚJO, Sérgio S. (nov/2013).
Figura 3.2.37 - Assoreamento do rio São Francisco na ponte da Integração Nacional em Propriá/SE.
Fonte: ARAÚJO, Sérgio S. (jul/2013).
Medeiros et al., (2003) e Martins et al., (2011), detectaram redução significativa da quantidade, qualidade e distribuição do transporte de água, do sedimento em suspensão e materiais dissolvidos particulados, que foram retidos na barragem de Sobradinho e Xingó, o que modifica substancialmente o funcionamento dos ecossistemas, tanto estuarino como costeiro. Medeiros et al (2007), enfatiza que a área da Foz apresenta um campo de dunas na sua margem esquerda (AL) com cerca de 3km na direção continental e se estendendo cerca de 15km junto à praia, este campo de dunas está parcialmente cobrindo regiões de antigos manguezais os quais aparecem, atualmente, em pequenas áreas somente. Oliveira et al., (2003, p. 3) observou “que todo manguezal existente no local já foi quase totalmente destruído junto com toda a vegetação de coqueiros”. Na Figura 3.2.38 ao observar as raízes dos coqueiros próximo à foz do rio São Francisco, no Pontal do Peba em Piaçabuçu/AL, nota- se área remanescente de solo de manguezal.
Figura 3.2.38 - Solos de mangues nas raízes dos coqueiros na foz do rio São Francisco, no Pontal do Peba em Piaçabuçu/AL.
Fonte: ARAÚJO, Sérgio S. (jul/2013).
A Figura 3.2.39, apresenta a vazão de restrição e a vazão medida do rio São Francisco, a média anual e vazão mínima e máxima ocorrida desde 1994 e a média mensal até dezembro de 2014, as quais foram registradas na estação fluviométrica de Pão de Açúcar/AL (49370000), localizada no baixo São Francisco, em Alagoas. Nota-se que ocorreu redução da variabilidade interanual e da magnitude da pulsação da vazão, mostrando que o Rio São Francisco sofreu drástico decréscimo na variabilidade sazonal da vazão (VASCO, 2015). A linha vermelha demarca a vazão de restrição fixada em 1300m³/s.
Figura 3.2.39 - Sucessão de vazões 1994 a 2014.
Elaborado por ARAÚJO, Sérgio S. & MENEZES NETO, Edson Leal (2015). Fonte: BRASIL/ANA/CHESF (2015).
Os picos de enchentes com vazões altas de 7.500 a 14.500 m³/s que ocorriam naturalmente nos primeiros meses do ano (janeiro a março) foram notavelmente reduzidos, com exceções das vazões que ultrapassaram a capacidade limite de controle das barragens, mas isso não ocorre com frequência. Recentemente, ainda, em decorrências da regularização da vazão das águas do rio São Francisco, houve mudanças nesses períodos de cheias, fenômeno que causa modificações nas características nutricionais dos corpos hídricos, aqueles ligados especialmente às taxas de nitrogênio e fósforo, como também aos agrotóxicos, e ainda, alterações na temperatura da água e, por conseguinte, mudanças na biota, no ecossistema, com perda de espécies da flora e da fauna. O que caracteriza conflitos em torno dos impactos em decorrência da degradação e contaminação de ecossistemas.
Em 2001, ocorreu longo período de seca ocasionando uma das piores reduções dos níveis de vazão de todos os tempos, ano que se registrou uma vazão mínima de 631m³/s, no mês de agosto (CHESF, 2013). Ainda que se tenham registradas cheias esporádicas como em 2004 e 2007, anos em que as vazões atingiram níveis como 5.762m³/s em Piranhas/AL, em 2004 e 5.436m³/s em Propriá/SE, no ano de 2007. Em outras palavras, além do controle imposto pelas barragens, há que se contabilizar nesse processo, as características da região, que sofre longos períodos de seca.
Por efeito da redução da vazão do rio, o povoado Cabeço situado em Brejo Grande/SE, na foz do rio São Francisco sofreu inundação pelas águas marítimas, deixando de existir , e no seu lugar ficou apenas o farol do pontal à mostra. As várzeas, lagoas marginais e ribeirões afluentes marginais que existiam ao longo do baixo São Francisco tiveram o ciclo de cheia anual interrompidos, secaram ou assorearam perdendo a capacidade de produção de arroz e de reprodução de diversas espécies de peixe, a exemplo Várzea do povoado Ilha do Ouro, em Porto da Folha/SE, a Lagoa do Valadão entre Canhoba/SE e Amparo do São Francisco/SE, Lagoa do Morro (Propriá, SE) e Lagoa da Pindoba (Neópolis, SE).
Os peixes que procuravam a segurança das lagoas e afluentes com suas águas escuras, também deixaram de existir, a navegação livre e continuada ficou prejudicada pelo assoreamento, com formação de bancos de areia no leito e a erosão das margens do rio. Na foz, a redução da vazão facilitou a intrusão salina, o assoreamento do leito do rio fez alterar a dinâmica do rio, baixar a qualidade da água e prejudicou a manutenção da vida fluvial, com graves perdas de pescados e alteração na flora em decorrência do aumento da fotossíntese em função da baixa espessura da lâmina d‟água.
Esses impactos ambientais refletem no modo de apropriação dos recursos, alterando as relações entre o homem e a natureza e modificando os conhecimentos ambientais. Trata-se da perda da memória histórica dos ribeirinhos, da memória coletiva e da identidade, em decorrência da desterritorialização, reterritorialização e territorialização de comunidades autóctones e/ou estrangeiras, indígenas, que segundo Borges (2003), altera a lógica de vivência tradicional por uma nova lógica, desconhecida e quase sempre dependente dos processos de urbanização e modernização tecnológica.
A bacia hidrográfica do rio São Francisco é uma estrutura sistêmica composta de elementos que despertam o interesse da sociedade, seja de grandes grupos empresariais, ou de órgãos públicos, ou mesmo de pequenos grupos sociais, comunitários, até de indivíduos. É portanto, gerador de conflitos socioambientais, cujo controle reflete nas dimensões políticas, sociais e jurídicas em torno dos impactos, como foi observado no campo. Conflitos que se caracterizam por meio das disputas engendradas no processo de distribuição, acesso e controle formal sobre os recursos naturais (Little, 2001), os quais quando definidos suas finalidades de uso, adquirem status de objeto das representações e domínios sociais e integram-se ao modo de produção dominante. A contaminação do meio ambiente através de poluentes como agrotóxicos, efluentes domésticos e industriais, o esgotamento dos recursos naturais, a exemplo da pesca e a degradação dos ecossistemas e do modo como é utilizado os conhecimentos ambientais, entre os grupos sociais ao redor da percepção de risco, envolvendo o controle formal dos conhecimentos ambientais e em torno dos lugares sagrados.
O desmatamento das matas ciliares do rio São Francisco tem sido uma constante, sempre visando à obtenção e o controle dos recursos utilizados para queima da vegetação, aquisição de lenha ou do carvão vegetal, uso do solo para cultura de subsistência, a formação de pastos para criação de animais ou mesmo para o plantio da monocultura da cana-de-açúcar, com expansão das fronteiras agrícolas pela agroindústria, cercamentos promovidos por proprietários de terras das circunvizinhanças do rio, que se apropriam do leito do rio, contribuindo ainda mais, com sua erosão (FERREIRA et al, 2011).
Estes fenômenos, fatalmente incorrem na degradação das margens, no empobrecimento do solo, no carreamento de partículas sólidas para o leito do rio, consequente assoreamento e encalhamento do leito do rio, modificação da rota de navegação bloqueada pela formação de bancos de areia próximos aos portos de chegada de embarcação.
Estes são processos que geram conflitos. Inicialmente se dão em torno do controle do uso dos recursos ali existentes, e reaparecem como conflitos de impacto ambiental. Soma-se ainda, a priorização das políticas públicas para o transporte rodoviário e a utilização das margens do rio como espaço para construção de estradas, contribuindo para compactação e impermeabilização do solo.
Com a baixa vazão do rio, também se vê malograr o processo de assoreamento das lagoas marginais, que sem as inundações perdem a finalidade de absorção das águas excedentes das cheias naturais. Em decorrência, também afeta a reprodução e criação dos peixes, que durante o secamento ou na próxima inundação retornam ao leito do rio. Enquanto que, a lama residual na várzea serve para o plantio de arroz de sequeiro, que por sua vez, deixou de ser realizado na maioria dos municípios da região.
Mesmo o plantio de arroz irrigado, encontra-se comprometido devido à baixa vazão do rio, que tem sido mantido em 1.300m³/ ou 1.000m³/s, cujo projeto inicial requeria uma vazão em torno de 2.060m³/s19. Outro fator impactante na produção de arroz, tem sido as consequências danosas da salinização dos solos nos projetos irrigados da CODEVASF, especialmente aqueles próximos à foz (FEDURPE, 2007).
No Povoado Potengy, em Piaçabuçu/AL, água sem tratamento para consumo humano é captada por uma bomba de responsabilidade da prefeitura que fica no leito do rio São Francisco, há 10 (anos). O Entrevistado 14 (2013), assim relata as condições em que é feito a coleta:
Chega esta maré grande, a água aqui é mesmo que ser água do mar, o pessoal aqui tem que escolher hora, porque em maré cheia a água é da praia. De 2 anos para cá foi que ela piorou. Antigamente a água não salgava tanto, só quando tinha maré grande, naquele tempo o rio era fundo. Salgando direto, até na maré morta também tem que escolher hora. Quando a maré enche fica salobra que não dá nem para tomar banho. Na Boca da Barra, há 10 anos atrás onde está a crôa (banco de areia) era bem fundo, passava qualquer navio, hoje dá para passar andando. A 4 anos atrás aquilo não existia terra. Do jeito que nós estamos vendo vai secar tudo (ENTREVISTADO 14, 2013).
19 Esta vazão de 2.060m³/s não se trata de vazão ecológica, mas tão somente o necesário para implementar o
Medeiros et al., (2014), afirmam que um dos fatores facilitadores da intrusão salina é a perda de variabilidade interanual do fluxo de água doce do rio. E a vazão é o principal fator