4 OS SUJEITOS DO CLUBE
4.1. MAPEAMENTO DOS FREQUENTADORES
4.1.2 Baila comigo, como se baila na tribo: as festas na marina
No que concerne às festas – shows de axé, réveillons ou de música eletrônica –, o entrosamento por parte do público é mais enfático e incisivo, pela própria natureza do evento, como descreve um dos freqüentadores:
Essa festa [do Bonfim Light], normalmente, acontece em uma data comemorativa religiosa. Eu gosto muito da cultura popular, mas não gosto de me meter em uma festa de largo. Como lá tem segurança e boas atrações musicais, é minha preferência. Mil vezes prefiro ir para uma festa do Bonfim indoor, como é lá, do que na Colina Sagrada. Eu posso até assistir a procissão de manhã, mas o profano da Colina não me agrada. Eu prefiro pagar por uma coisa mais segura. [...] Geralmente, estas festas têm cinco atrações musicais, levando em conta que o convite é setenta reais. Você divide setenta por cinco, sim, condiz. Eu acho que é bom porque seleciona, nivela por cima. Se botar um preço muito baixo, vai acabar virando uma festa de largo. [...] Nas festas da BM, eu prefiro ficar na pista. (JÚLIO).
A típica festa popular ganha uma versão diferenciada para atender aos freqüentadores da marina. Realizada na área do estacionamento, onde são montados palco e camarotes, o acesso se dá mediante a compra de camisa, equivalente a um ingresso, para se assistir às atrações do axé local. O consumidor ainda arcará com bebidas e alimentação. Desde a sua primeira edição, a banda Asa de Águia participa do evento, atraindo fãs, que, independente do local de apresentação, sempre comparecem ao show.
Bonfim Light geralmente eu vou. Bom, eu fui esse ano até. Não é todo ano, mas eu vou quase todo ano. Porque eu adoro Asa de Águia. [Risos]. Esse ano eu fui com um grupo de cinco a seis pessoas, a gente foi em dois carros. [...] Na verdade, esse ano eu ganhei um camarote. Porque minha amiga conhece alguém [...], sobrou um camisa e eu fui de última hora. Mas no último ano que eu paguei [pela camisa], que foi ano retrasado – ano passado eu não fui –, o camarote estava R$150. [...] Eu acho que você recebe três a quatro fichas [para consumo de bebida] e o resto você tem que comprar. (SOLANGE).
Devido à realização da festa em dia comercial – segunda quinta-feira de janeiro –, esta festa atrai um público bastante específico, composto por turistas, estudantes ou citadinos em férias e profissionais autônomos, capazes de gozar de folga. O valor do ingresso e a ocorrência da festa em dia útil restringem o número de freqüentadores, embora represente, mesmo assim, um evento de grandes proporções, como se pode ser visto no Anexo G.
Este ano, pude observar um grande número de adolescentes, dedicados a beber antes do início do evento ou da grande apresentação – no caso, Asa de Águia – dispersos pela Avenida Contorno. No trecho que se estende do Largo do Aflitos – principal via de acesso, já com a presença de cambistas – até o Restaurante Amado, os grupos de adolescentes dedicam-
se a beber energético (Red Bull, Mad Dog) e vodca (Smirnoff e Sky) e a dançar a trilha sonora oferecida pelas barracas populares montadas na região, o que consiste em principalmente em pagode. Trata-se do momento da preparação ou, como mencionou um deles em conversa com um amigo: “Isso é o esquente, tá ligado?!”. O objetivo é ingressar na festa já tendo consumido algumas doses de álcool com o intuito de, em seu interior, dar continuidade à ingestão e poder explorar com maior prazer a festa.
É interessante notar como a uniformização proporcionada pela camisa convite ganha diferenciações nas reduções, ajustes e cortes realizados pelas jovens. As blusas são recortadas e “customizadas”, com o intuito de oferecer maior visibilidade ao corpo. Os rapazes, por sua vez, antes de adentrarem a Marina, dispensam o uso da camisa. Suas camisas ganham recortes mais amplos nas laterais, seja como forma de aliviar o calor ou como meio de expor o corpo moldado em academia de ginástica.
Atentos a estas modificações na vestimenta, os cambistas oferecem tesoura aos clientes, a fim de que os mesmos possam realizar sua intervenção e personalizar o convite de acesso. Estes mesmos cambistas são hábeis no entendimento da engrenagem social e usam de apelos dos mais diversos como forma de persuasão. Um deles bradava sobre a camisa que comercializava: “É camarote, não é fuleragem, não, viu?!”. O termo “fulêro” em Salvador relaciona-se a um bem ou serviço de qualidade ruim. Mesmo se tratando de um evento como o Bonfim Light, o “fulêro” manifesta-se em assistir o show da pista principal, sem ter acesso às regalias e privilégios que um camarote concede aos seus usuários, como algumas bebidas de graça ou alimentação diferenciada.
Particularmente, em Salvador, a realização de uma festa privada, como esta, em meio à realização de evento de cunho popular pode ser encarada como uma compartimentagem semelhante a praticada no carnaval baiano, como identifica Risério (1981) ao analisar as segregações relativas às agremiações carnavalescas e músicas praticadas nos diferentes contextos:
Historicamente, o carnaval baiano já nasceu dividido. De uma parte, o carnaval dos brancos, carnaval de salões, com bailes em clubes fechados, onde a dança girava entre quadrilhas e valsas. De outra parte, o carnaval dos pretos, carnaval de rua, nada europeu, ao som do samba dos batuques, em meio a búzios e ganzás. (RISÉRIO, 1981, p. 47).
É este tipo de segregação e a segurança que a mesma oferta que permite a Júlio participar do Bonfim Light na pista, dispensando a compra de um ingresso para camarote – normalmente mais caro. Outro ponto interessante é como o acesso à festa pode ser obtido a
partir da própria relação social dos entrevistados: ganha-se a camisa a partir de um amigo, conhecido de alguém, que é próximo de outro sujeito.
A rede social assume importância ímpar por um duplo aspecto: traduz-se como companhia para as festas e permite que o acesso a estas seja facilitado, dispensando-se, inclusive, a aquisição do ingresso – embora o valor do mesmo seja compatível com a realidade financeira destes sujeitos. A dispensa da compra, neste caso, valida o seu pertencimento a determinado círculo social e confere importância às relações de sociabilidade em jogo nesta convocação para a festa. O exercício de consumo estende-se a estes gestos de entrosamento e participação (DOUGLAS; ISHERWOOD, 2006).
O relato de Júlio sobre sua participação nos réveillons da BM também evidencia o manejo deste tipo de jogo social. O interlocutor relata sua ida a este evento em virtude da aproximação que um amigo jornalista possui com a organizadora da festa. Assim, no último ano (réveillon de 2008-2009), Júlio acompanhou a passagem de ano no Clube Espanhol e, em seguida, dirigiu-se à marina, a fim de aproveitar o acesso livre e as maiores comodidades ofertadas pelo espaço.
Especificamente, neste ano, o réveillon da marina foi realizado através de uma parceria entre a produtora local (Licia Fabio) e a revista Contigo!. Vendido por cerca de novecentos reais cada, os ingressos para as mesas rapidamente se esgotaram em virtude da atração musical: a banda Chiclete com Banana. Com este ingresso tem-se direito a tudo na festa, incluindo bebida (água, refrigerante, cerveja, uísque, vinho e champanhe) e vasta alimentação, ofertada por diferentes restaurantes, os quais firmam parcerias com os organizadores do evento. Assim, montam-se mesas com tipos específicos de alimentos: doces; culinária japonesa; culinária italiana (pizza e massas); culinária internacional; carnes de churrasco etc.
No que se refere ao réveillon, há uma diversidade de opiniões. Entre os entrevistados que aprovam a participação em uma festa como a oferecida pela marina, a escolha decorre da combinação de elementos, como, por exemplo, presença de amigos, familiares – em alguns casos – e atração musical, como revela a fala de Wilton:
Os últimos dois anos [de réveillon] foram na BM por causa dos amigos. As pessoas vão para lá e te convidam. Vão estar outras pessoas amigas, parentes, às vezes. E termina sendo um ponto de encontro. Para prestigiar os amigos. E as atrações também, eu acho que são boas atrações. O mix de atrações no caso. É um local agradável. É legal passar o final de ano ali. A marina tá próxima do mar e numa cidade dessa.
Em 2009, ocorreram algumas modificações. O evento promovido na área do estacionamento foi redimensionado para a região da área de espera entre os restaurantes Soho e Lafayette, sendo comercializadas mesas nestes estabelecimentos, além do convite individual para permanência exclusiva na área externa16. Apesar da presença de DJ, a ausência de uma atração musical fez o valor do ingresso reduzir para quatrocentos reais.
Além deste evento, o restaurante Gengibre promoveu festa de réveillon tendo como atrações dois DJ’s e um grupo de samba. O acesso custava duzentos e cinqüenta reais, sendo esta a opção escolhida por mim para passar réveillon de modo solitário, mas certo de que teria acesso a bons dados, como apontam as imagens do Anexo H.
Cheguei à BM por volta das 22 horas. A movimentação era intensa de pedestres e carros – com acesso bastante restrito. Permaneci na área do estacionamento, a fim de observar o trânsito e a freqüência dos convidados. Constatei, inclusive, a utilização de barcos, situados mais próximos ao píer, para a realização de pequenas festas.
Nesta ocasião, tive acesso a uma das melhores frases, proferida por uma senhora para seu marido, ao cruzar com um jovem, quando se dirigiam à entrada da festa de Licia Fabio: “pode vir de bermuda, se é esporte fino?”. A indagação justificada pelo traje do rapaz é indicativa de um aspecto valioso e típico do local: a capacidade de alguns freqüentadores em alterar os códigos de vestuário normalmente sugeridos (a) pela compreensão de que a aura social que possuem dispensa esta exigência; (b) pela noção de que a escolha por marcas internacionalmente reconhecidas conferem-lhe a legitimidade necessária para ultrapassar as regras propostas; (c) pelo entendimento de que a marina dispensa tamanha formalidade, dada sua localização e descontração.
O questionamento torna-se revelador da diversidade de clientes que esta festa agrega: desde habituais freqüentadores, capazes de subverter as regras vigentes, como também sujeitos inábeis no manejo dos códigos ali praticados, no qual a ruptura deve ser compreendida como uma proposição diferenciada que apenas os sujeitos integrantes deste círculo – ou campo, como sugeriria Bourdieu (2008) – podem traçar.
Ao ingressar no Gengibre, ganhei uma pulseira auto-adesiva para ser fixada no punho, o que me permitia sair do estabelecimento quando desejasse. Inexistia áreas restritas em seu interior, onde famílias e grupos de amigos – em maior número – ocupavam algumas mesas e serviam-se de tira-gostos e bebidas.
16 Normalmente, o controle de acesso a áreas específicas se dá com uma pulseira auto-adesiva colorida, fornecida
Por volta da meia-noite, a maioria dos participantes dirigiu-se à entrada do local, a fim de ver os fogos da outra festa. Neste momento, identifiquei alguns barcos nas imediações da marina, ouvindo som – pagode – extremamente alto. A música e o porte das embarcações impediam-me de associá-los a usuários do local. Decerto, eles pareciam fazer do mar e da marina sua paisagem, invertendo a lógica usual de ser este espaço o centro de observação em direção ao litoral. Constatei ainda, na área comum do estacionamento, veículos de emissoras de televisão e ambulância de suporte às festas.
A festa transcorreu calmamente. Dividido em cinco ambientes, o fluxo dos participantes condiciona-se pelo interesse em acomodar-se na área para fumante (espaço aberto), descanso (com amplos sofás), alimentação (com mesas) e dança, já que havia uma pequena pista para apresentação de banda e performance de DJs. Após a primeira hora, casais já saiam de ambas as festas, sem indícios de embriaguez ou outros excessos.
Outra festa realizada na BM, especificamente no mesmo restaurante Gengibre é a
Sins. O térreo do restaurante é mantido para refeições de modo independente durante todo o evento, porém seus dois salões, localizados no segundo andar, são usados como pista e bar, onde há um som mais baixo, além da varanda – sem música.
Destinada ao público homossexual, entre 23 a 40 anos de idade, interessado em música eletrônica, a periodicidade do evento é irregular – embora se respeite um intervalo mínimo de três meses entre as festas. A realização é sempre aos sábados a partir das 23h.
A concretização do projeto foi possível, segundo seu idealizador – Lúcio, pelo interesse do Gengibre em abrigar uma festa voltada a este público, com garantia de alto consumo, já que as bebidas têm seu valor elevado, além da parceria deste empresário com um DJ, como ele mesmo elucida:
O Gengibre, na verdade, a gente procurou. Não conhecia os donos e eles deram bastante abertura. A confiança se deu a partir da primeira festa, do primeiro público que a gente teve, que foi, justamente, um público que eles consideraram fenomenal em termos de consumo – um público bonito e que não havia briga nenhuma. Ou seja, a minha festa estava muito bem estruturada. Era uma festa perfeita para uma casa que queria ter um consumo alto.
O acesso à festa custa quarenta reais ou vinte e cinco reais para aqueles com nome na lista de convidados ou que apresentem panfleto de divulgação – o chamado flyer (vide Anexo I). O pagamento desta entrada sempre deve ser feito em dinheiro, mas a consumação pode ser paga em cartão de crédito ou débito.
Uma vodca em lata custa dez reais e, em uma das últimas festas, repuseram energético três vezes ao longo da noite. Apesar da grande ingestão de álcool, Lúcio destaca a inexistência de brigas ou tumultos.
A realização de um evento deste porte requer a contratação do seguinte número de empregados: (a) dois funcionários para som e iluminação; (b) hostess17; (c) dois funcionários para a bilheteria; (c) empresa para impressão das pulseiras; (d) seis funcionários do próprio
Gengibre; (e) três DJs; (f) entre cinco e seis seguranças.
Soube deste evento por meio do interlocutor Júlio, que a descreveu da seguinte forma: “são festas para o púbico GLS meio blasé. Fui a duas e não voltei mais”. A partir desta menção, senti-me na obrigação de entrevistar um freqüentador assíduo, além de marcar presença em uma delas. Surgiu a dúvida: quando iria ocorrer a próxima? Após alguns meses de espera, estive na (última) edição realizada no dia 04 de dezembro de 2009 – curiosamente, após esta data, suas ocorrências foram suspensas.
Enquanto isso, identifiquei Roberto, ator baiano, habitué das Sins e próximo de um dos seus realizadores – responsável, inclusive, por meu contato com este profissional. Sua descrição da festa aproxima-se da feita por Júlio. Vejamos:
Nunca fiz amizade com ninguém [no local]. [...] Muito menos no Soho e no
Gengibre. Eu estava prestando atenção: foi a quarta vez que fui nessa festa, que tá completando um ano, e as pessoas se caracterizam por serem “bicudas”, que é uma gíria que diz que elas são metidas, com nariz empinado, difícil. (ROBERTO).
A categoria “bicuda” aproxima-se da atitude “blasé” mencionada por Júlio, conferindo o distanciamento exigido entre os atores e a ocupação mental descrita por Simmel (VELHO, 1973). De fato, o imperativo do dinheiro mostra-se como divisor de águas para adesão e vinculação ao clube:
Normalmente, você deve conhecer alguém [para ter acesso]: ou os DJs, ou o
promoter, ou alguém de lá de dentro para que seu nome esteja na lista. Essa festa é interessante porque, para o círculo GLBT [gays, lésbicas, bissexuais e
transgêneros], Salvador conta somente com a Off Club18, que é considerada boate
de primeira linha e mais algumas casas que são – digamos assim – de segunda linha, mais popular, com uma freqüência de pessoas com poder aquisitivo menor. E esse promoter dessa festa é uma tentativa dele de abrir um outro espaço para que as pessoas saiam desse círculo vicioso de somente ir à Off Club. Então, a Sins se caracteriza por não ter uma publicidade muito grande. São convidadas através de amigos e, segundo ele, se tenta fazer uma triagem. Só pessoas bonitas, de poder aquisitivo alto. Eu acho uma crueldade, que qualquer pessoa pode ir, basta ter grana para pagar e tal, cada um cobra o que quiser. Mas é uma das características
17 Funcionário(a) situado na porta do evento, a fim de recepcionar os convidados, fornecer eventuais orientações
e administrar a formação de filas, facilitando o acesso de vips.
18 Situada na Barra, era, até setembro/2009, a única boate gay de renome da cidade. Após esta data, a San
desse mundo GLBT: essa crueldade de exigir estampa e classe social. Teve uma curiosidade no último sábado. Um amigo chegou para um menino e o menino
perguntou onde ele morava, ele falou: “Ah, eu moro em Feira [de Santana19]. E
você?”. “No Itaigara”. E reforçou a coisa “Itaigara” assim. [...] E você percebe isso. São pessoas que não estão muito no circuito e que aparecem porque sabem que vai ser uma festa exclusiva. (ROBERTO).
A dicotomia centro e periferia ganha nova dimensão ao perpassar as relações travadas no próprio contexto urbano, algo que Vianna (1997) já mapeia muito bem. A fim de legitimar a fala acima, vejamos o quê o organizador da festa, Lúcio, declara sobre sua organização e composição da lista de convidados:
É um público muito complicado de se trabalhar. Ao mesmo tempo que pode estar o final de semana aqui, pode estar em São Paulo. No mailling que a gente faz, [...] personalizado [...], faço questão de fazer um por um e digo: “Querido, estou lhe esperando no Gengibre. Vamos ter mais uma festinha”. E aí, as pessoas respondem, às vezes: “Ah, eu estou em Milão esse final de semana, estou na Espanha”. A gente dá muita risada com tudo isso. [E como você supre eventuais ausências?] O
mailling da gente é grande. A gente tem hoje oito mil pessoas cadastradas. [...] A gente dá uma enxugada neste mailling, seleciona mesmo. E aí, incrivelmente, está em voga várias questões: beleza, postura, se a pessoa é conhecida, se tem uma roda de amigos bacanas ou se é indicada por pessoas influentes. Então, é uma festa meio escrota neste sentido. O que eu não impeço também que, às vezes, tem pessoas que não fazem aquele perfil, mas dá para dar um jeitinho. Eu não tenho problema nenhum com isso. Mas tem pessoas que chegam lá, às vezes, que não fazem parte e pode ter o dinheiro que for.
As restrições de acesso ultrapassam o âmbito financeiro e abarcam questões como porte, rede social, trajes etc., ou seja, a própria polidez do ator (DHOQUOIS, 1993). O acesso pode ser impedido identificada a incongruência entre sujeito e a estruturação do social ali representada por regras que perpassam inclusive a contenção dos gestos reveladores de sua orientação sexual.
É uma festa que permite você conversar. Você não vê pessoas se agarrando, se beijando. Uma vez ou outra e mesmo assim, você vai perceber que ela veio pela primeira vez. [...] É um perfil bem diferente de festa. Eu não compararia com boate porque com boate você fica bem à vontade para se beijar, se agarrar, fazer o quê quiser, embora, na primeira edição, quebraram o mármore do banheiro. Aí, agora, eu já coloco segurança no banheiro para evitar isso. Mas geralmente é assim um público mais comportado. (LÚCIO).
De fato, no dia em que estive na festa, com entrada por volta da uma hora da manhã, o público parecia comportado, apesar do intenso consumo de álcool – precisamente, a combinação de vodca (Absolut) com energético – e do consumo de drogas, impressão suscitada pela saída de três jovens de uma mesma cabine do toalete, precedido pelo som de
sucção nasal. O comentário “a comida não me fez bem” mencionado por um deles servia como menção inconveniente e blefe impróprio.
Por volta de duas horas, a festa foi invadida por rapazes trajando apenas calça, sapato e gravata borboleta distribuindo panfletos para promoção de outro evento direcionado ao público GLBT. De fato, o fluxo de participantes coincidia com a descrição feita por Lúcio:
As festas do Gengibre começam muito tarde. Se você chegar lá meia noite, meia noite e meia, você começa ver algumas pessoas chegando e passeando pela marina. Agora, uma hora, duas horas, é o horário em que a festa está “bombando”. [...] Incrivelmente, é uma festa que começa tarde e acaba cedo. [...] Vai até cinco e meia, seis horas no máximo.
Por volta das duas horas e quarenta minutos, o espaço estava bem concorrido. Nos círculos de discussão, alguns grupos mencionavam a festa promovida pela grife de moda
Ellus dias anteriores como bastante disputada; outros, já combinavam a ida para a barraca de
praia Marguerita (Praia do Flamengo) no dia seguinte; enquanto alguns se articulavam em direção à boate Off Club, a fim de acabar a noite. Ao longo da noite, três DJs revezaram-se no