3 CONSUMO E SOCIABILIDADE
3.2 SOCIABILIDADE E INTERAÇÃO SOCIAL
Com o claro intuito de institucionalização da sociologia em âmbito universitário, a Escola de Chicago, atuante no período de 1890 a 1940, emerge de um contexto de grandes alterações na sociedade americana da época. O quadro social redesenhava-se diante da industrialização e urbanização vivenciada; afluência de imigrantes provenientes de outras culturas; dissolução da estrutura política e econômica descentralizada, aliada a mudanças econômicas, o que acarretava modificações na estrutura de classes da sociedade, como, por exemplo, o surgimento de uma nova classe média profissional.
É neste cenário que se tenta promover uma reforma social, a fim de preservar os ideais democráticos de autogoverno das comunidades locais das grandes corporações e do governo federal centralizado – ações que só se tornam possíveis por meio da adequação dos ideais das pequenas comunidades às novas comunidades urbanas emergentes – e Chicago, por sua vez, filia-se a este perfil empreendedor. As questões apresentadas pela Escola de Chicago eram os problemas da cidade moderna, ou seja, ela própria.
Torna-se compreensível a assunção, por esta Escola, de uma orientação política reformista, objetivando transformar a sociologia em ciência empírica por meio da adoção de uma filosofia pragmática – uma “filosofia da ação” ou da “intervenção social”, revendo o problema da ação propriamente dita e da consciência humana. Até então, a sociologia desenvolvida era impregnada de moralismo e de um suposta “investigação científica” que mais se aproximava do “jornalismo investigativo”, como critica Coulon (1995).
Dewey e Mead são os intelectuais da Escola de Chicago responsáveis pelo reembasamento do pragmatismo nas ciências sociais e biológicas. Ambos voltam-se contra as teorias que reduzem a ação como uma conduta determinada pelo meio, o que já exibe a adoção da psicologia funcionalista por parte destes pensadores – gesto que implica na interpretação de processos e operações psíquicas de acordo com sua eficácia para a dissolução de questões enfrentadas pelos indivíduos no curso de qualquer ação que se apresente.
A recorrência à ação se dá porque é através dela que a imediaticidade qualitativa do mundo é revelada. Logo a relevância dos “habitus” para a noção pragmática é nítida, já que novos problemas implicam em novos saberes:
As soluções para os problemas da ação não são armazenadas na consciência dos agentes, mas utilizadas para novas ações que, rotineiras no caráter, seguem seu curso fora da consciência deles. Somente os problemas novos é que tornam
ineficazes os hábitos e a rotina, exigindo novos conhecimentos. (JOAS, 1999, p. 138).
Como percebemos no trecho destacado, nas situações sociais, compete ao agente ser a fonte de estímulo para aquele com quem irá interagir, o que requer atenção sobre os modos de ação praticados, já que os mesmos suscitam reações do parceiro e, por isso, oferecem condições para a continuidade da própria interação. Trata-se de uma análise da auto- reflexividade, a qual, “nesse tipo de situação, não apenas a consciência, mas também a autoconsciência são funcionalmente requeridas.” (JOAS, 1999, p. 139).
Assim, Mead permite o entendimento da ação como um “comportamento autocontrolado” na medida em que se estabelecem as condições de interação simbólica e da auto-reflexão. Tal corpus de pensamento do autor contribui para a expansão de novas frentes de conceitos, como, por exemplo, a adoção de papéis em diferentes contextos de situação social.
Thomas (1918, 1923 apud BERGER, 1980, p. 107) compreendia “a situação social como uma realidade estabelecida por acordo ad hoc entre aqueles que dela participam ou, mais exatamente, entre aqueles que a definem.”. Se é nítido que o entendimento sobre a realidade repousa em uma compreensão particular de cada ator social, a existência da sociedade deriva, justamente, da existência de um padrão de definições dos indivíduos para a maioria dessas situações, as quais funcionam estimulando os indivíduos, a fim de fornecerem as respostas adequadas. No entendimento de Berger (1980, p. 97, grifo ao autor): “uma situação social é o que seus participantes crêem que ela seja.”
É, precisamente, a crença na situação enquanto uma realidade que exige do indivíduo o desempenho de um papel específico para o enfrentamento da mesma, praticando uma “resposta tipificada” a uma “expectativa tipificada”, a qual advém de uma tipologia fundamental já previamente definida pela sociedade. Percebe-se nitidamente a confluência entre o conceito de “situação” e o de “papel”, o qual provém dos estudos de Goffman (1985), também integrante da Escola de Chicago, desenvolvidos na década de 60 nos EUA.8
As designações de “situação” e “papel” relacionam-se intimamente e, quiçá, permitem a indispensabilidade de um para a existência do outro: a situação espera e requer a
8 Contrapondo-se a Goffman (1980), Giddens (1989) destaca as lacunas temáticas deixadas pelo autor, como, por
exemplo, a pressuposição da existência de agentes motivados, o que dispensaria a investigação dos aspectos motivacionais destes sujeitos, mas, exclusivamente, a compreensão do manejo da identidade social do indivíduo por meio da sua “representação do eu”. Já Sennett (1998) aponta o desprezo de Goffman pelas forças históricas, as quais originam e geram as inúmeras “cenas sociais” analisadas pelo sociólogo americano. Para Pais (1986), a metáfora teatral do autor resulta no encobrimento da real identidade do sujeito por máscaras, além de ter sua análise prejudicada pelo privilégio aos aspectos rotineiros e episódicos da vida social em momentos de interação.
emergência de um papel e este é acionado mediante a ocorrência de diferentes situações – o que se aproxima da identificação feita por Berger (1980, p. 111): “O papel dá forma e constrói tanto a ação quanto o ator. [...] Normalmente, uma pessoa incorpora o papel que desempenha.”
Visto que este assunto articula um significativo feixe de distinções e aproximações identitárias, a possibilidade de visualização ou compreensão de convergências e disparidades se dá a partir do processo interacional entre os sujeitos, já que, segundo Goffman (1985, p. 21, grifo meu): “A sociedade está organizada tendo por base o princípio de que qualquer indivíduo que possua certas características sociais tem o direito moral de esperar que os outros o valorizem e o tratem de maneira adequada.” São estas “certas características sociais” que ensejam uma prática diferenciadora, um capital simbólico de distinção e vinculação a um determinado estrato social.
Enriquecendo a conceituação, é importante considerar que a emergência destes papéis sociais se dá frente a um contexto de “privilégio” ou de “ascensão”, como diferencia Velho (2008). Segundo ele, o “privilégio” associa-se a uma situação mais tradicional, de estabilidade, onde as regras e valores estão claros e definidos, cabendo aos indivíduos serem avaliados e situados dentro de um modelo hierarquizante com categorias delineadas; já “ascensão” vincula-se com mudança e transformação – seja no que concerne a trajetórias individuais ou contextos sociais.
A capacidade de Velho (2001, 2008) em expandir os horizontes teóricos ofertados pela Escola de Chicago é profícua. Decerto, há uma indiscutibilidade quanto às contribuições deste centro americano para as ciências humanas. Porém, no que concerne à antropologia brasileira, Velho (2001) amplia este escopo analítico ao manifestar sua relação com a Escola – o quê não convém aqui esmiuçar –, além de propor novas articulações em consonância com as particularidades nacionais9. Detenhamo-nos na noção de sociabilidade.
O autor reconhece como este conceito foi explorado pela antropologia e como sua conceituação, para ele, encontra-se próxima da sociologia da vida cotidiana (VELHO, 2001; PAIS, 1986) em oposição à ótica de simmeliana sobre o assunto. A princípio, esclarecerei a visão deste autor para, em seguida, deter-me nas considerações do pesquisador brasileiro.
Para Simmel, a sociabilidade consiste no “social puro”, na própria interação em si, dispensando qualquer razão de ordem política, econômica ou de outra natureza. Consistiria, portanto, um tipo ideal, uma “forma arquetípica de toda a socialização humana, sem quaisquer
propósitos, interesses ou objetivos que a interação em si mesma, vivida em espécies de jogos, nos quais uma das regras implícitas seria atuar como se todos fossem iguais.” (FRÚGOLI, 2007, p. 9).10
Apesar desta igualdade entre os sujeitos, o estudioso destaca como estas formas de sociabilidade podem ser vistas, paradoxalmente, como nichos intraclassistas, delimitados pela homogeneidade dos estratos sociais entre os envolvidos nas relações, já que estes comungam de valores similares, além de construírem uma significação para as coisas ou eventos a partir desta interação. Logo, para Simmel, inexiste um significado intrínseco ou fixo, como se poderia suspeitar. A sociedade, portanto, deriva da permanente interação dos seus membros, os quais se constituem como sujeitos da ação, cuja vida psíquica é abarcada neste fazer social incessante.
Obviamente, este exercício para a manutenção da sociedade em seu pleno funcionamento exige, por parte do indivíduo, uma relação de proximidade com as práticas culturais em cursos e o ordenamento social e simbólico que a mesma suscita. Particularmente, vejo a noção de estilo de vida aventada pelo autor como uma forma de garantia dos exercícios de interação social por parte dos indivíduos com o intuito de que a sociedade prossiga seu fluxo contínuo.
No entendimento de Waizbort (2006), o estilo de vida simmeliano expõe o trânsito entre cultura e sujeito, retratando a realidade momentânea que é vivida nas ações, manifestações e predisposições que o indivíduo oferta. Trata-se de equacionar como o longo processo cultural reflete-se na realidade momentânea dos indivíduos:
estilo de vida é uma rubrica sob a qual se entende um arranjo histórico, ou melhor, uma configuração histórica, uma configuração sincrônica das relações entre indivíduos e sociedade, entre sujeito e objeto, entre cultura objetiva e cultura subjetiva. [...] Pois o estilo tem a ver com as qualidades, tendências, disposições, efeitos, atmosferas e afinidades fundamentais dos elementos históricos: o estilo é um fenômeno histórico. (WAIZBORT, 2006, p. 179, grifo do autor).
De acordo este fragmento, é perceptível como a história perpassa e dialoga com a caracterização de um determinado estilo de vida. A manifestação deste efeito temporal torna- se mais nítida quando recorremos à indumentária como forma de simbolizar uma época ou a prevalência da tradição em sociedades mais antigas. No universo contemporâneo, o estilo de vida funde-se com o instante do presente e tem sua configuração diretamente afetada pela divisão do trabalho.
10 Frúgoli (2007) atribui, em concordância com Waizbort (2006), esta visão de Simmel à vivência do mesmo em
Para Waizbort (2006), é esta divisão do trabalho que faz com que as coisas articulem-se consigo mesmas, dispensando toda e qualquer interferência humana necessária e imprescindível à sua produção. Porém, é justamente este sentido – já sublimado – que o exercício etnográfico deseja recuperar, como ratifica Appadurai (2008) e Miller (2007). Vejamos o trecho a seguir:
O sentido do objeto não é mais dado por sua relação com os envolvidos em seu processo de criação, senão que o sentido dos objetos provém da relação que eles estabelecem com outros objetos, provenientes de outras fontes. Há como que a idéia de um mundo das coisas, no qual as coisas atribuem sentido a elas mesmas. (WAIZBORT, 2006, p. 180).
Há que se ponderar algumas coisas do ponto de visa de Simmel, apresentado por Waizbort. Decerto que os bens relacionam-se com outros bens, esta interação só torna-se possível a partir da intromissão do sujeito para executá-la. Portanto, a coisa estaria a se relacionar também com o próprio. Logo há uma dupla tarefa para a antropologia do consumo – tarefas estas que a disciplina tem plena consciência –, a saber: recuperar a cadeia de produção que a confecção de determinado bem engendra e reforçar o caráter relacional que as mercadorias travam com seus consumidores. Afinal, como sugere Miller (2007), se materialidade e humanidade são indissociáveis, há uma sociabilidade relacionada a esta comunhão.
É precisamente esta defesa a praticada por Velho (2001) no que tange a um direcionamento do olhar para as particularidades que a daily life projeta na sociabilidade.
Se você ficar preso exclusivamente à definição que o Simmel deu para sociabilidade no início do século XX, pode perder muita coisa interessante [...], e que acho que está muito mais próxima de uma discussão sobre interação, cotidiano e costumes. Acho que é o estudo do cotidiano, a preocupação com a etnografia, que vai ser uma das variáveis mais importantes para o diálogo entre antropologia e história. O que é a interação senão uma relação entre indivíduos que são diferentes uns dos outros? Se não existe diferença, não existe relação – isso é óbvio, mas nem sempre parece tão óbvio assim. São justamente essas diferenças entre os indivíduos, essas singularidades, que vão permitir que haja relação, porque é isso que possibilita algum tipo de troca, de reciprocidade. A interação é isso; se os indivíduos são iguais, não há sociedade. Portanto, não temos nem mônadas isoladas, pairando, nem uma sociedade homogênea em que todos os indivíduos são determinados, condicionados e produzidos por forças ou estruturas maiores. (VELHO, 2001, p. 22).
Na compreensão do autor, o mérito da antropologia é retratar, através da etnografia, exercícios rotineiros de interação – sejam eles em respeito às normas de cordialidade e convívio ou conflituosos e dramáticos, os quais, através da observação devotada pelo pesquisador, poderão expor os gestuais; modos de conversação, relacionamento, aproximação ou rejeição; demonstração de afeto, antipatia ou recusa entre os envolvidos.
Para que estas relações ocorram há que se contemplar o envolvimento dos indivíduos com sua cultura material, o que reforça a necessidade de revisão e expansão do referencial de Simmel, o qual, além de compreender o sentido das coisas como atribuição das mesmas, deve incorporar a participação dos sujeitos neste processo, já que estes, para a realização de suas atividades cotidianas e o desempenho de seus exercícios rotineiros de interação, precisam atribuir um significado às mercadorias integrantes deste jogo.
Afinal, é o caráter assimétrico e lacunar entre os sujeitos que garante a manutenção de fluxos de sociabilidade, com o intuito de que estes espaços sejam preenchidos mediante trocas de palavras, afagos, bens e cumplicidades. Instituir a um suposto macro-social a prevalência para a ocorrência destas interações arruína a própria condição humana de depositária de sua subjetividade e de consciente do seu maior exercício de realização e afirmação social: ser mediante o outro.