5. OS PROGRAMAS DE AJUSTAMENTO ESTRUTURAL: BENEFÍCIOS E
5.2. Impacto do PAE sobre os Indicadores Macroeconómicos
5.2.3. Balança Comercial e Balança de Pagamentos
A Balança Comercial mantém-se negativa como se visualiza na Figura 6 apresentando um deficit de aproximadamente 20 milhões de dólares no ano 2000 e com tendência agravante ( Figura 6-a). A Balança global de Pagamentos, que até 1997, embora negativa evoluía para o positivo, mudou novamente para negativo.
Fonte: INE -( 1993, 1995, 1999) PNUD (1993 e 1998)
Figura 6: Evolução da Balança de Pagamentos e Comercial entre 1990 e 2000
-25 -20 -15 -10 -5 0 5 90 91 92 93 94 95 96 97 98 99 0 anos ( Milhões de dolares )
De acordo com os dados publicados pelo INE (2006) apresentados na figura 6-a este indicador conheceu melhorias.
-40 -30 -20 -10 0 10 20 30 2001 2002 2003 2004 2005 anos (M il hõe s de dól ar es )
Balança global de pagamentos Saldo da Balança Comercial
Fonte: INE (2006)
Figura 6-a: Evolução da Balança de Pagamentos e Comercial entre 2000 e 2005
De acordo com o Figura 7 nota-se que a taxa de cobertura das importações pela exportação atingiu 15,4% no ano de 1999 e em 2006 baixou para 5,6 %. De notar que nos anos de 2002 e 2003 a mesma atingiu 16%. 0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 ano Ta xa de c o b er tur a ( % )
Fonte: Banco Central de S. Tomé e Príncipe (2007) -INE (2006)
Apesar do desenvolvimento de alguns indicadores relativos as contas monetárias e fiscais e a evolução do investimento em 2001 apontarem para um crescimento da economia São- Tomense em 3% (BCSTP, 2001) verificou-se que a economia São-Tomense continua muito vulnerável, caracterizada pela forte dependência do exterior devido a importações de bens essenciais - sobretudo de produtos alimentares e bens de investimento - e as dívidas externas para o desenvolvimento ( Figura 8 ).
Fonte: PNUD (1993 e 1998)
Figura 8: Evolução da dívida externa entre 1990 e 2000
Conclui-se, no entanto, que a economia nacional conheceu uma certa melhoria na década de 90 -00. Alguns indicadores, após esta década degradaram-se. Considerando a evolução de seguintes indicadores económicos, constata-se que:
• a taxa de inflação que já estava diminuindo, encontrava-se no ano de 2000 em 9,6%, voltou a crescer no último ano ( Anexo 13 ela se situa no ano de 2006 em 27,6%);
• a taxa de crescimento do PIB encontra-se acima da taxa de crescimento demográfico; o Produto Interno Bruto real cresceu de -2,5 em 1990 para 8% em 2006 enquanto que a taxa de crescimento da população decresceu de 2,5 para 2,0 no mesmo período (Figuras 2 e 2-a); como consequência deste facto o rendimento per capita conheceu um aumento de 430 para 519 dólares (BCSTP, 2007) ou de 764 (INE, 2007); 0 50 100 150 200 250 300 90 91 92 93 94 95 96 97 98 anos Milhõe s de D o la re s
• a Balança de Pagamentos, embora ainda negativa, conheceu melhorias no ano 2000 (-3 Milhões de dólares) em relação ao ano 1990 (- 19,6 Milhões de dólares) e na década 2000 atingiu o valor positivo.
6. A PRODUÇÃO AGRÍCOLA EM SÃO TOMÉ E PRINCIPE
A Produção agrícola nos PMAs é sempre influenciada pelos seguintes factores: - mercados
- mão-de-obra - subsistência
6.1. Descrição histórica – Revisão Bibliográfica
A Agricultura foi sempre o sector económico de vital importância para a economia das ilhas de S.Tomé e Príncipe. Esta, dependendo dos interesses dos mercados europeus, da disponibilidade da mão-de-obra barata (escravos e serviçais) e das condições edafo- climáticas das ilhas, sempre foi dominada pela monocultura. A evolução da monocultura marcou, como consequência, várias etapas na economia destas ilhas que podemos caracterizar nas seguintes fases:
¾ após a descoberta das ilhas em 1470 a introdução da cana-de-açúcar em 1501 e a instalação da indústria açucareira deu início a um sistema económico baseado apenas nesta cultura -“ ciclo de cana-de-açúcar”-;
em 1550 foram exportadas, para Lisboa, 12000 toneladas deste produto; esta etapa económica conheceu o seu fim com a destruição das plantações e industrias pelos invasores das ilhas (franceses e holandeses em meados de 1567 e 1641, respectivamente) a que se pode ainda acrescentar os sucessivos ataques às indústrias e plantações pelos escravos fugitivos que se organizaram;
¾ em 1800 e 1822 foram introduzidas as culturas do café e do cacau (Ferrão, 1979), respectivamente, dando início ao ciclo do café e do cacau; a exportação do café, que em 1877 constituía 90% das exportações agrícolas totais, atingiu, segundo Rodrigues (1974), o seu máximo em 1881 com 2416 toneladas, e produções superiores a 2000 toneladas se mantiveram até ao ano
de 1892; esta cultura conheceu um período de declínio ao ponto de, em 1925, constituir apenas 2% das exportações totais das ilhas; este declínio deveu-se à degradação do solo, problemas fitossanitários e à maior exigência da cultura de café em mão-de-obra que a do cacau.
¾ ciclo do cacau; cacau passa a dominar a agricultura e consequentemente a economia, podendo distinguir-se os seguintes períodos da evolução da cultura: a) implementação das primeiras plantações –fins do século XIX e início do século
XX;
b) desenvolvimento de grandes plantações coloniais - 1910-1920;
c) sensível diminuição da produção-1920-1940;
d) estabilização da produção em aproximadamente 10 000 t/ano – 1940-1974;
e) nova queda de produção da ordem dos 25-30% entre 1974 e 1980;
f) continuação de queda de produção com alguma estabilização em torno de 4 000 toneladas, embora evidenciando tendência para declínio de 1980 até aos nossos dias.
As primeiras referências que encontramos, relativamente à produção de cacau remontam a 1842, com 1,4 toneladas (Rodrigues, 1974). A primeira centena de toneladas de cacau ocorre por volta de 1870, e o primeiro milhar em 1886. No final do século atingia-se as 10000 toneladas. As produções máximas ocorrem entre 1910 e 1920, da ordem das 30 000 toneladas. Segundo Rodrigues (1974) o cacau teria rendido em média 600 kg/ha por hectare numa área de 50 000 a 60 000 hectares na última década do século XIX.
Quadro 1.1: Evolução da Exportação e do Preço Mundial de Cacau Comercial (Médias Quinquenais) entre 1895 e 1974 ANO t MIL ESCUDOS ESC/t 1895 5055 1226 245 1900 9528 2367 241 1905 18140 5081 280 1910 25825 7490 290 1915 32920 7254 220 1920 29522 7991 265 1925 20034 47653 2513 1930 14410 54319 3651 1935 11131 22710 2050 1940 9423 27719 3080 1945 6958 41784 6423 1950 8390 118176 14636 1955 7901 154521 19864 1960 8895 150717 17283 1965 9424 106433 11311 1970 9490 nd nd 1974 7400 nd nd Fonte: Rodrigues (1974)
Durante a década de 1920 ocorre já um declínio evidente que estabiliza na ordem das 10000 toneladas por volta dos anos 40. Com variações importantes embora atingindo as 10 mil toneladas em vários anos, as médias passaram a ser inferiores conforme se verifica no quadro 1.1..
O quadro 1.2., em que se apresenta os dados referentes ao período que se segue à independência, começando com um dado referencial de 1974, apresenta também cotações para a maioria dos anos, obtidas em diferentes fontes.
Na análise da informação sobre a exportação ao longo do século XX, (Quadro 1.1 e 1.2.) verifica-se que as produções mais baixas foram registadas nos anos pós-independência, ou seja a partir do ano de 1975.
Devemos salientar que estes dados resultam de informação coligida de diferentes autores e fontes, o que limita claramente a sua consistência. Contudo, tendo presente as limitações existentes, esta informação, apesar de não ser muito rigorosa, espelha bem a evolução da situação.
Para além de todas as dificuldades edafo-climáticas, de gestão dos sistemas produtivos face aos mercados, entre outros condicionalismos, não há dúvida que as questões políticas e socio-económicas jogaram um papel decisivo nesta queda. Evidentemente que estes últimos factores mencionados têm o seu maior impacte através das questões institucionais e organizacionais, que podem e devem ser melhor estudados.
A maior exportação de cacau, da ordem das 30000 toneladas, registou-se no período de 1915-1920. As divergências que surgem nas séries de dados são motivadas, pelo menos em parte, pelas diferenças entre produção e exportação que podem ser consideráveis entre anos contíguos, mas que perdem significado quando se trabalha com médias de vários anos. No caso presente optámos por trabalhar com médias de 5 anos, sendo o ano indicado o último do período. Em alternativa é possível trabalhar com médias centradas num ano de referência.
A importância do cacau na captação de divisas é indiscutível. Também se perspectiva, por outro lado, que o cacau continue a perder importância relativa e até mesmo em termos absolutos, se não houver alteração das condições vigentes e se não forem tomadas medidas de apoio ao sector, designadamente como consequência do programa de privatização de terras implementado nos últimos anos (Carvalho e Espírito Santo, 1998).
Quadro 1.2: Evolução da Exportação e do Preço Mundial de Cacau Comercial após a Independência política do país
Ano Exportação
(toneladas) ( dólares/toneladas.) Preço Médio
1974 7400 1559 1975 5640 1 245 1976 8000 nd 1977 6000 nd 1978 6000 3 402 1979 8000 nd 1980 6998 2 602 1981 8000 nd 1982 4 000 1 741 1983 4000* 2 118 1984 4000* nd 1985 3 848 2 254 1986 4 123 2 068 1987 4 500 1 996 1988 4 800 1 584 1989 3 707 1 241 1990 3 640 1 268 1991 3 607 1 195 1992 4 188 1 099 1993 4 305 1 117 1994 3 392 1 396 1995 4 577 1 433 1996 3 753 1 455 1997 3 138 1 618 1998 4512 1 675 1999 3825 1 139 2000 3899** 888 2001 3042** 2.603,10*** 1.089 2002 3163** 3.274,60*** nd 2003 1140** 3.356,10*** nd 2004 1564** 2.510,10*** nd 2005 752** 2.413,90*** nd 2006 1413** 2.434,5*** nd 2007 1413** nd * - estimativas
**- quantidade controlada pelo CIAT na exportação ***- dados do INE (2006)
Fontes: -ICCO (2000), - CIAT (2008)
A percentagem do valor das exportações de cacau na exportação total dos produtos produzidos no país, mesmo durante a época de maior baixa de produção desta cultura, continua sendo alta (superior a 70%) como se evidencia no quadro 2.
Quadro 2: Importância do cacau na economia Santomense
Milhões de US Dólares Ano Total da exportação Exportação de Cacau % 1990 4,38 3,74 85,4 1991 6,02 5,09 84,5 1992 5,43 4,23 77,9 1993 6,55 4,18 63,8 1994 6,47 4,97 76,8 1995 5,10 4,70 92,2 1996 4,95 4,77 96,4 1997 5,30 4,60 93,9 1998 4,90 4,70 95,9 1999 3,90 2,90 74,4 Fontes: - INE (1993,1995,1999) - AGUILAR (1997)
Durante a época colonial a agricultura sempre foi equacionada como uma actividade dirigida para a exportação, sendo os géneros alimentares de primeira necessidade quase todos importados. Após 1975, ano da Independência, devido à queda vertiginosa da produção de culturas de exportação, registou-se um desequilíbrio entre exportação total e a importação de produtos alimentares, sendo o mesmo menos acentuado a partir do ano de 1995 (Quadro 3) devido ao efeito positivo do surgimento das pequenas unidades familiares que produziam apenas e essencialmente para a subsistência, diminuindo a importação e consumo de bens alimentares importados.
De facto, o país deixou de ter uma balança alimentar deficitária do ponto de vista do comércio internacional (tradicionalmente) e conseguiu nos últimos tempos tornar-se num país em que a agricultura passou a dar uma contribuição líquida em termos de comércio interno, portanto com algum excedente, ao mesmo tempo que diminui em muito a importação de produtos alimentares.
Quadro 3: Relação Exportação / Importação de produtos alimentares no país. (Milhões de USD) Ano Relação Exp/Imp Total da exportação Importação Alimentar 1990 - 4,38 nd 1991 - 6,02 nd 1992 0.78 5,43 6,98 1993 0.58 6,55 11,34 1994 0.62 6,47 10,52 1995 0.75 5,10 6,8 1996 0.84 4,95 5,9 1997 1.71 5,30 3,1 1998 1.14 4,90 4,3 1999 1.03 3,90 3,8 Fonte: - INE (1993,1995,1999) Fonte: ICCO (2000)
Figura 9: Preços internacionais de exportação de cacau entre 1971 e 1998
6.1.1. – Épocas, Organização e Sistemas de Produção Agrícola
Na época colonial a forma de organização económica, social e administrativa da Agricultura colonial baseava-se em grandes propriedades privadas, “roças”, integrando grandes contingentes de trabalhadores (escravos até a altura em que foi atribuída a carta da alforria e, mais tarde, os serviçais) com a produção agrícola orientada predominantemente para a exportação. Estas roças surgiram durante o ciclo do café e do cacau – em meados do
0 1000 2000 3000 4000 1971 1974 1977 1980 1983 1986 1989 1992 1995 1998 ano US$/ton
século XIX – com a chegada de colonos portugueses provenientes do Brasil. De recordar que com o desaparecimento do ciclo da cana-de-açúcar, em meados do século XVII (Rodrigues, 1974), os colonos portugueses dirigiram-se para o Brasil onde a cana de açúcar estava no auge, deixando as terras aos chamados “filhos das ilhas “ descendentes dos primeiros colonos e escravos. Segundo Rodrigues (1974), após alguns anos os portugueses regressam do Brasil, os denominados “ Os novos colonos” e usando muitas vezes a força, expropriaram as terras aos “filhos da ilha” dando origem a grandes latifúndios denominados roças. As propriedades que, por qualquer razão, escaparam a esta expropriação continuando a pertencer aos filhos da ilha, foram denominadas “Glebas”. Estas praticavam em simultâneo a agricultura de subsistência e alguma cultura de exportação.
A estrutura de produção colonial era, assim, constituída do seguinte modo:
⇒ Roças (grandes Empresas Privadas)
⇒ Glebas (parcelas de terreno obtidas por herança, ou comprada, sujeitas a repartições sucessivas geração após geração, o que provoca a sua redução a dimensões muito pequenas. Eram terrenos cultivados essencialmente pelos forros).
⇒ Lavras (pequenas parcelas de terreno marginal, geralmente pertencentes às grandes empresas privadas, ocupadas “ilegalmente” pelos trabalhadores das empresas, onde praticavam a agricultura de subsistência. A produção nestas parcelas funcionava como uma espécie de complemento ao salário, em que os terrenos eram cultivadas nos tempos livres dos mesmos).
Tanto nas Glebas como nas Lavras praticava-se a policultura destinada à subsistência familiar.
No período pós-independência a actividade agrícola está claramente inserida ainda no ciclo do cacau, embora este já em fase descendente de importância relativa. Para melhor definir a sua evolução podemos considerar dois períodos distintos:
b) de 1987 até aos nossos dias.
No período entre 1975 a 1987 (até às primeiras privatizações de terra) um conjunto de 45 médias e grandes empresas, no sector da agro-pecuária e/ou simplesmente agrícola, existentes na era colonial e na sua maioria pertencentes a colonos portugueses ou seus descendentes de origem europeia, foram nacionalizadas pelo governo e unificadas em apenas 15 grandes explorações estatais.
As principais razões destas nacionalizações foram o grande abandono dos gestores colonos das propriedades agrícolas, e até dos trabalhadores, e a instabilidade social caracterizada por greves sucessivas dos trabalhadores.
A Lei da nacionalização de terras de 1975 conferiu ao estado a propriedade de terras e de bens imóveis e móveis das explorações agro-pecuárias existentes em todo o país pertencentes aos antigos colonos. Esta nacionalização não teve um suporte jurídico, senão a ocupação oficial das explorações dos antigos proprietários e a apropriação pelo estado de todos os bens. No entanto, as glebas conservaram o seu estatuto de propriedade privada, assim como algumas médias propriedades (casos excepcionais) que mantiveram a sua actividade.
Atendendo a que os possuidores de conhecimentos de gestão destas propriedades agro- pecuárias foram sumariamente afastados, nomeou-se pessoas com influência política para a gestão. Portanto, a falta de conhecimentos dos novos gestores a que se adiciona a falta de pessoal qualificado e falta de motivação a nível dos trabalhadores aceleraram a queda vertiginosa de produção (Quadro 1.2.) e resultaram no atraso de pagamento dos salários que vieram a agravar a situação social no País. De salientar que a produção permaneceu desde 1975 abaixo dos 5000 toneladas por hectare.
Face a esta situação, e tendo em conta o evoluir da economia no seu todo como consequência de políticas de orientação de economia centralizada, o governo decide, com o apoio do FMI e Banco Mundial, privatizar gradualmente o sector económico incluindo as empresas agro-pecuárias. Este processo ocorre de forma mais decisiva nos finais dos anos 80 e início da década de 90. A diversificação agrícola visando o aumento de produção de alimentos de subsistência e a produção para o mercado local e internacional foram acções encorajadas, bem como outros sectores, como as pescas e o turismo. Das 15 empresas construídas com as nacionalizações, criou-se empresas subvencionadas, ou seja, de gestão
estrangeira e empresas de gestão nacional. Mais tarde, devido aos maus resultados obtidos na expansão da produção de cacau ou de outras culturas de exportação, surge a necessidade de redimensionar as empresas através da desanexação das terras marginais à plantação do cacau.
A partir de 1980, algumas áreas das empresas estatais começaram a ser atribuídas a particulares sob a forma de médias empresas, de dimensão 50 a 200 hectares, sem qualquer cobertura legislativa. Esta situação conduziu à necessidade do estabelecimento de vias de normalização institucional que vieram a ser implementadas dentro da estrutura PAE aplicados a S. Tomé e Príncipe, com a sua proposta concreta no âmbito da privatização das terras.
De 1987 até aos nossos dias a agricultura é caracterizada pela aplicação do PAE - PPADPP.
O PAE, iniciado em meados de 1987, teve como uma das principais vertentes o apoio ao investimento agrícola. Neste âmbito a implementação do programa de distribuição de terras com vista à promoção da diversificação e melhoria da produção que teve o seu início em 1990/91, ano em que se iniciou a segunda fase do PAE.
Este processo de distribuição de terras encontra-se ainda em curso na República Democrática de S. Tomé e Príncipe, embora não sob a égide do PPADPP, mas sob a responsabilidade do Ministério titular da Agricultura.
O PPADPP previu profundas alterações no sistema agrário do país visando incentivar a diversificação de culturas, no sistema sócio-económico (reduzir os assalariados agrícolas estatais, criar pequenos e médios agricultores e, consequentemente, reduzir a pobreza rural) e na economia nacional (reduzir o défice orçamental, com a redução de quadros na função pública).
Este projecto, através da distribuição de terra aos assalariados agrícolas e aos licenciados da função pública, transformou a estrutura agrária herdada da colonização, caracterizada pela existência de grandes empresas agrícolas Roças e Glebas, em pequenas unidades
(Quadro 4), foram criadas 5918 pequenas unidades familiares e 4529,60 hectares de terra foram distribuídas em forma de médias empresas. Os dados mais recentes, do Gabinete de Reforma Agrária, dão por conta que existem, em 2005, um total de 9129 pequenas unidades familiares e 6667,3 hectares de terra foram distribuídas em forma de médias empresas. De salientar que, devido à especificidade das glebas, o que está explicado mais adiante, esta “unidade” não desaparece.
Quadro 4: Total de área, em ha, distribuída até 2000
Anos Área Bruta (ha) Área pequeno agricult. (ha) Área Média empresa atribuída (ha) Área Média empresa reconfir mada (ha) Área Média empresa por distribuir Florestas (ha) N.º de famílias beneficia das 1993 4452,60 1591,50 0,00 1287,00 91 1483,10 846 1994 8737,10 3083,00 212,90 580,00 183,50 4677,70 859 1995 6849,70 2571,00 2115,50 117,50 105,80 1939,90 917 1996 4432,90 1763,60 321,00 66,00 22,00 2259,80 730 1997 6342,90 2472,30 1691,70 0,00 0,00 2178,90 1151 1998 4615,04 1158,76 188,50 106,00 2180,69 1560,00 665 1999 1394,70 1166,60 0,00 119,00 175,40 113,50 750 *2000 nd 1461,80 nd nd nd nd nd Total 36824,94 15268,56 4529,60 2275,50 14212,90 5918 Área total distribuída 18336,36 (ha)
Área total reconfirmada 2275,50 (ha) Área por distribuir 175,40 (ha)
Fonte: Gabinete de Reforma Fundiária - Ministério da Agricultura * Direcção de planeamento e estudos do Ministério da Economia
A estrutura da produção pós-colonial é a seguinte:
⇒ Grandes empresas estatais
Tratam-se de explorações de nível empresarial, cuja produção era essencialmente virada para a exportação. Com a mão-de-obra somente assalariada, as culturas dominantes são as de exportação (cacau, café, copra e coconote). A dimensão das 15 empresas estatais existentes cobria uma área de aproximadamente 30 000 hectares (Aguilar, 1997). Recentemente sofreram processos de reestruturação, desaparecendo quase por completo.
⇒Médias empresas e roças privadas
Estas explorações chegam a cobrir uma superfície de cerca de 10000 hectares em 1999, viradas para a produção mista, ou seja de culturas de exportação (aproximadamente 70% da superfície) e culturas de subsistência (30%). A mão-de-obra é mista, isto é familiar e salarial, sendo esta última mais dominante. Este tipo de estrutura veio a ser muito dinamizada inicialmente pelo processo de privatização, mas tem estado também em vias de grande diminuição, principalmente em relação às unidades que surgiram com o processo de privatização, por falta de meios financeiros e gestão deficiente.
⇒Pequenos produtores ou pequenas explorações familiares
A superfície ocupada é de cerca de 10000 hectares, produzindo apenas para o mercado interno, à base da agricultura de subsistência, na qual a mão-de-obra familiar é dominante. As culturas nelas praticadas são alimentares (Banana, Matabala e outras) em consociação com algumas plantas de cacau e culturas hortícolas. Este conjunto de explorações incluem as “Glebas”.
⇒ Lavras
Estas micro-explorações encontram-se sobretudo localizadas em redor das cidades e empresas estatais, produzindo algumas hortícolas e culturas de sequeiro. Existiam tradicionalmente e mantêm-se ainda embora com menor importância após o processo de privatização e distribuição de terras.
Actualmente, em 2008, distingue-se a seguinte tipologia de explorações agrícolas:
• Duas grandes empresas agrícolas privadas com cultura de exportação dominante, uma das mesmas com origem nas empresas estatais
intervencionadas onde a gestão era mista (nacional e estrangeira) com capital financeiro externo (empréstimo ao país).
• Do conjunto de novas médias empresas, criadas no âmbito do PAE/PPADP, estima-se que somente cerca de meia centena tenha actividade efectiva e se mantenha produtiva.
• Pequenos agricultores, beneficiários de terras de pequena dimensão, mais ou menos especializados, praticando horticultura, cacauicultura, culturas alimentares e sistemas mistos.