5. OS PROGRAMAS DE AJUSTAMENTO ESTRUTURAL: BENEFÍCIOS E
6.5. Conclusões e Perspectivas
Da descoberta das ilhas até aos nossos dias, embora tivessem acontecido transformações profundas na agricultura e consequentemente na economia das duas ilhas, o processo de desenvolvimento da agricultura do país, desde a independência, não aparece claramente definido e/ou assumido como prioritário no contexto dos principais agentes económicos e de decisão política do país.
As ilhas de São Tomé e Príncipe, que foram consideradas ricas, sob o ponto de vista agrícola, entre 1880 e 1925 (Rodrigues, 1974) devido à pluralidade e quantidade da exportação, estão hoje incluídas no grupo de países mais pobres do mundo, e com a exportação dominada claramente por monocultura. Naquela época a exportação era composta principalmente por cacau, café, copra, coconote, óleo de palma, quina, cola, rícino, canela e banana seca, enquanto que hoje apenas afiguram os três primeiros produtos, ocupando o cacau mais de 70 % desta exportação, o café 1 % e a copra 9 %.
As mudanças estruturais e institucionais têm sido determinantes no processo evolutivo da agricultura São-Tomense.
As empresas estatais desapareceram por razões de má gestão e carência de mão-de-obra. As empresas privadas sofrem de várias restrições, de que se destaca também a carência de mão-de-obra. Grande parte das grandes empresas privadas desapareceu, restando somente duas (Bela Vista e Diogo Vaz, SODEAP). Cerca de 200 médias empresas que surgiram com o programa de privatização, também sofreram um processo de desactivação estimando-se que somente 50 se encontrem com actividade produtiva, apresentando
no projecto de privatização, vieram a estimular significativamente a produção alimentar de subsistência, com excedentes colocados no mercado de razoável dimensão. Este conjunto de produtores veio melhorar significativamente o nível de disponibilidade de produtos alimentares e a própria segurança alimentar do país, sobretudo do conjunto de agregados familiares beneficiados com este processo.
A caracterização das estruturas de produção ao longo dos tempos, que muito se alteraram nos últimos 25 anos, tem sido determinante para se entender a evolução do Sector.
Contudo, as recentes alterações da política económica, a evolução das instituições democráticas na década de 90, a instauração dum regime económico baseado no funcionamento do mercado e a consequente liberalização dos sistemas de produção conduziram a melhorias significativas na produção/consumo de alimentos.
A referida melhoria na produção de alimentos para consumo interno, pode ter problemas de sustentabilidade, com efeitos negativos na produção do cacau e eventuais impactos negativos de carácter ambiental que importa estudar. No momento actual tem tido um impacte muito positivo, embora possa ter também efeitos negativos designadamente na produção de cacau.
O Sector agrícola é claramente estrutural para a economia São-Tomense e também estruturante, com uma importância claramente superior ao peso relativo no produto nacional bruto.
O programa de privatização agrícola, parte integrante do PAE, alterou profundamente a realidade agrícola do país. Ao beneficiar cerca de 6 000 famílias, afectou directamente cerca de 30 000 pessoas, o que corresponde a mais de 20% da população nacional.
A privatização no sector agrícola não parece ter tido efeitos significativos na produção de cacau, constituindo mesmo, uma possível ameaça ao sector cacauícola.
Em 1998, Espírito Santo já tinha notado através das análises dos resultados dum inquérito que havia uma grande preferência para a prática de culturas de subsistência e um ligeiro abandono do cacau (Figura 10). O Cacau tendia a baixar pelo facto dos agricultores terem a necessidade de garantir a satisfação das suas necessidades alimentares durante a época de não colheita. Para além disso, o preço no mercado internacional era desmotivador.
A definição de eixos de desenvolvimento e estabelecimento de políticas orientadoras pode ser uma necessidade premente para defender este sector tradicional, tão importante na captação de divisas.
A procura de diversidade na produção e na exportação é uma prioridade, existindo já exemplos com relativo sucesso. O caso da matabala, produto espontâneo no país com mercado na costa ocidental africana, é um exemplo a explorar.
A melhoria de qualidade do cacau, através de uma melhor tecnologia de transformação e processo de comercialização, com identificação de nichos de mercado, estabelecimento de possível denominação de origem com certificados de garantia de qualidade, pode ser uma outra alternativa promissora a merecer a melhor atenção dos responsáveis no sector. De salientar que apenas 25% do cacau de S.Tomé é cotado como de qualidade ao nível internacional (ICCO, 2000).
Segundo a apreciação interna do CIAT, proferida verbalmente pelo seu director científico, a qualidade do cacau comercial, que tinha sofrido uma grande baixa devido ao abandono de regras e medidas tecnológicas pelos produtores e comerciantes, está melhorando consideravelmente com a implementação do projecto para a produção dum cacau de qualidade e biológico.
A título conclusivo é muito importante verificar que, no contexto da balança de comércio externo agrícola (Quadro 3), o país saiu claramente a ganhar. Esta postura, claramente não ortodoxa, de aposta no mercado interno (vis a vis as exportações de commodities e importação de alimentos) pode ser justificável nas condições particulares de um país com as características de São Tomé e Príncipe. Fica neste trabalho, pelo menos, evidente que o “trade off” entre mercado interno e externo não é um assunto inquestionável e que necessita de melhor e mais profunda ponderação, sendo contudo inquestionável que são complementares.
Dado o conjunto de restrições existentes, designadamente a insularidade, a pequena dimensão do mercado e de capacidade de exportação, entre outros factores, pode significar que a qualidade de vida da população pode ser melhorada recorrendo a uma estratégia
complementar e/ou alternativa que passe por uma “internalização” das condições de vida. Queremos dizer com “internalização” uma melhor adaptação dos sistemas de consumo e produção às condições locais, evitando a pura importação de modelos de consumo e de sociedade não devidamente adaptados, seja do ponto de vista económico/social seja do ponto de vista dos recursos naturais.
Não há respostas absolutas, acabadas e/ou definitivas para os múltiplos problemas do processo de desenvolvimento, mas ficou evidente que a aposta no binómio Produção/Consumo interno tem reais possibilidades de poder ser uma solução parcial para o sector agrícola e alimentar no caso de São Tomé e Príncipe. O mercado externo sendo imprescindível, não pode nem deve substituir por completo as necessidades internas do ponto de vista agrícola e alimentar, aliás como acontece na maioria dos países.
A produção de cacau está em diminuição, não obstante a subvenção e incentivação desta cultura pelo projecto PNAPAF, situação que já tinha sido alertada por Espírito Santo (1998). Apesar disso, o cacau ainda domina a exportação São-Tomense em mais de 70%. A produção de culturas alimentares, sobretudo a Banana, aumenta quer no ponto de vista de cultivo como na sua importância na venda e, consequentemente, em rendimento para a família, por ser o produto/alimento de subsistência mais consumido pela população. As outras culturas alimentares como a matabala, é menos produzida devido a impossibilidade da continuação da exportação informal que existia entre SãoTomé e Gabão nos anos atrás e devido a existência de Búzios, que constitui uma praga para esta cultura. Embora não haja dados numéricos para a justificação, fora exportada várias toneladas de matabala para o Gabão nos anos passados.
No que diz respeito ao café e as frutícolas, existe tendência para crescimento no respectivo cultivo, o que pode ser prometedor para a diversificação agrícola tanto internamente como na exportação.
Em suma, as aplicações das medidas correctivas provocam dum modo geral o descontentamento social e misérias que poderão ser traduzidas por aumento da criminalidade e corrupção, violência, prostituição, etc. como no caso do Senegal.
No caso concreto de São Tomé e Príncipe este impacto foi traduzido sobretudo com a explosão de pequenos comércios informais e ilegais de géneros alimentares, vestuários e abate e venda de árvores incluindo as sombreadoras do cacau.
Por falta de implementação de medidas de apoio social em simultâneo as medidas do BM e FMI, tais como criação de créditos aos agricultores, assiste-se até agora impactos negativos sobre o ambiente caracterizado pelo desequilíbrio ecológico devido ao abate indiscriminado de árvores praticado pelas pequenas unidades familiares como fonte de rendimento para a subsistência e de investimentos em insumos e materiais agrícola.
Contudo no sector agrícola tudo indica que a aplicação do PAE veio aumentar a oferta em produtos alimentares de base e de criação e consumo ao nível de animais de pequeno porte e consequentemente contribuir para a melhoria qualitativa da vida. Referente aos produtos de exportação, esta política não alterou a tendência decrescente da produção, incentivou a diversificação de culturas como Pimenta e Baunilha que por enquanto estão ainda em fase embrionária.
A implementação do PAE foi claramente estruturante do sistema produtivo e da actividade económica em geral. Das profundas alterações salienta-se as seguintes:
- no sistema agrário foi incentivada a diversificação e a produção de culturas; como se pode observar no quadro 5 registou-se até 2000 um aumento de produção nas culturas alimentares e hortícolas;
- no sistema sócio-económico reduziu os assalariados agrícolas estatais através de licenciamentos e doação de parcelas de terras aos licenciados; reestruturou-se o sector rural em pequenas unidades familiares ou pequenos agricultores e médios empresários agrícolas, continuando a existir apenas uma das grandes empresas mas em vias de extinção. A existência de pequenas unidades familiares veio aumentar a capacidade de produção de subsistência e consequentemente contribuir em certa medida para a redução da pobreza rural;
- na economia nacional reduziu o deficit orçamental. O produto interno Bruto real cresceu de -2,5 em 1990 à 8% em 2006 e a taxa de crescimento da população decresce de 2,5 à 2,0 no mesmo período (Figuras 2 e 2-a). Como consequência deste facto o rendimento per capita conhece um aumento de 430 à 519 (Banco central, 2007) 764 (INE, 2007).
Necessário se torna perspectivar a aplicação urgente de medidas que venham a minimizar o lado negativo do impacto da aplicação do PAE. Neste pacote de medidas está incluído:
- orientação sobre a diversificação após o estudo de mercado dos produtos e possibilidade de exportação do excedente;
- aplicação de uma política agrícola realista e séria;
- estudo da necessidade de introdução de um sistema de segurança alimentar como instrumento regulador das importações de géneros alimentares, incentivadora da produção local e capaz de reforçar o funcionamento dos mercados.