1.
Assim alguém o qualificou com justiça afirmou o orador na exposição que fecharia o ato aquela manhã66. Um arquiteto porque Balseiro estava trabalhando no desenho do projeto que resultou no instituto que hoje leva seu nome. Tempos tormentosos que referem à crise política que culminou na derrocada, em setembro de 1955, algumas semanas depois do início das primeiras aulas, do governo Perón. Por esse e por outros motivos assegurou o orador.
A referência a Balseiro em práticas que envolveram o uso da linguagem falada ou escrita - discurso segundo Fairclough (1992) - nas imagens e até nos movimentos realizados durante o aniversário da instituição foi contundente. O rosto sorridente, ressaltado com uma luz focal nos corredores de acesso à sala do cinema Arrayanes, dava as boas-vindas 43 anos depois do falecimento - a maior e mais trágica disputa que se enfrentou a instituição, segundo afirmou o então diretor do instituto na intervenção. O rosto e uma frase de Shaw escrita na fotografia que resumia aquilo que durante o evento se quis transmitir sobre ele67.
“Há homens que vêem ao mundo como é e perguntam por quê, outros sonham mundos que jamais foram e se perguntam por quê não?”
Como veremos, Balseiro foi catacterizado, então, como aqueles que sonham mundos e que, a respeito desses sonhos, perguntam-se: “Por que não?”,como aventureiro, inspirador, impulsor, nas exposições cuja dimensão textual – a dimensão que, segundo Fairclough, tem a ver com a relação entre os elementos da linguagem que constituem o texto e os sentidos sobre o mundo que se abrem dele (1992) - apresenta-nos
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O alguém é Jaim Etcheverry, ex-reitor da Universidade de Buenos Aires. Ele faz essa descrição no prólogo da biografia de Balseiro: “Balseiro: Crónica de una Ilusión” escrita pelo orador junto com Norma Badino.
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como um herói. Mais precisamente, em termos de um herói fundador que teve um protagonismo central no passado mas, paralelamente, que tem relevância e atualidade no presente e na projeção futura da instituição.
Outra forma que assumiu a presença do físico cordobês nascido em 1919 na comemoração foi constituída por suas próprias palavras68. Mais especificamente por aquelas palavras que ele tinha escrito com motivo da graduação da primeira turma e que foram distribuídas entre os participantes ao ingressar na sala. As palavras de Balseiro numa impressão cor sépia que estava acompanhada pelas insígnias de uma fundação que também leva seu nome69 e por uma pequena foto dele.
Balseiro também estava presente, simbolicamente, na assistência anunciada, remarcada e celebrada das homenagens à senhora Maria das Mercedes Covadonga Cueto de Balseiro - Covita - junto a seus filhos e família, ou seja, sua viúva e seus descendentes. É provável que Covita tivesse a sua própria dimensão celebratória no evento, que fosse destacada pelas tarefas que ela realizou nos tempos iniciais do instituto70. Mas também é verdade que Balseiro era celebrado na presença dela através da relação que os vincula. E também em outras relações que, como veremos, foram objeto de anúncio, movimento e homenagens.
Finalmente o fundador teve uma presença central em cada uma das intervenções realizadas no ato. Naquelas que foram pronunciadas pela apresentadora do evento, nas intervenções dos oradores. Todas essas intervenções o nomearam mais de uma vez. E fizeram referência a pensamentos a ele atribuídos, à trajetória e reconhecidos valores, aos
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Balseiro nasceu no ano 1919 na cidade de Córdoba, Argentina. Em 1939 recebeu uma bolsa para realizar um doutorado em ciências fisico-matemáticas na Universidade de la Plata. Foi professor nessa universidade, membro - e presidente - da Associação Física Argentina e trabalhou no Observatório Astronômico de Córdoba. Em 1950 viajou à Inglaterra para trabalhar na Universidade de Manchester em física nuclear sob a direção do professor León Rosenfeld mas teve que voltar em 1952 devido ao requerimento do governo argentino para integrar a Comissão Investigadora do Projeto Huemul. Nesse ano foi designado Diretor do Instituto de Física da Universidade de Buenos Aires.
No ano 1954 Balseiro ingressou na CNEA. No ano seguinte foi assinado o Convênio entre a Universidade Nacional de Cuyo e a CNEA formalizando a criação do Instituto de Física de San Carlos de Bariloche. Em agosto se iniciaram as atividades acadêmicas com 15 alunos e ele como diretor, cargo que manteve até março de 1962 quando, aos 42 anos, faleceu.
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A Fundação Balseiro é uma unidade de vinculação da CNEA.
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Os assistentes a esses cursos anteriores à fundação do instituto e os primeiros estudantes lembram o esforço de Covita, e também de outras mulheres de professores, para fazer a vida mais fácil apesar das complexas condições desses primeiros tempos em Bariloche.
acontecimentos nos quais esteve envolvido, aos critérios que - segundo os oradores - estimularam e orientaram a sua ação.
2.
Balseiro convocó al núcleo inicial de profesores y su determinación animó al grupo desde el comienzo. Trabajaron arduamente para diseñar los planes de estudio reuniéndose en el edificio de la CNEA en Libertador 8250. Alberto Maiztegui cuenta que estaba presente en esas reuniones y que en junio del 55, que ya se dijo acá que eran momentos difíciles para el país, mientras este núcleo trabajaba en los planes de instituto escucharon el vuelo de los aviones que se dirigían a bombardear Plaza de Mayo (intervenção do graduado das primeiras turmas)
O vínculo de Balseiro com o originário Instituto de Física Bariloche, nome com o que se batizou o instituto em 1955 e que foi conservado até 1962, remonta precisamente ao início. Ele representa a idéia de um começo que, sendo de raízes coletivas, aparece nas intervenções - como deixa ver o fragmento citado - associado quase exclusivamente a sua pessoa, aparece individualizado nela (Visacovky, 2002). A figura de Balseiro particulariza, desde esse começo, a configuração de um depois que nas representações parece não tomar distância da trajetória pessoal dele71.
Todos estos méritos de la institución de alguna u otra manera están ligados a la figura excepcional como científico y conductor de personal como fue el doctor Balseiro (intervenção do presidente da CNEA)
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Na realidade, figuras simbólicas como a de Balseiro aparecem em todos os campos da vida social. Disso dão conta inúmeros trabalhos de história e antropologia, entre outras disciplinas, que abordam os mecanismos a partir dos quais determinadas pessoas individualizam processos ou formas de organização social cujos fundamentos são de raiz coletiva. As instituições relacionadas à produção, desenvolvimento e/ ou à aplicação de ciência e tecnologia, como mostram Daston e Sibum na edição da Science and Context dedicada à incidência de certas personalidades no campo da ciência, não são exceção (2003). “Pode-se falar de um relato ‘essencial’ que possui a estrutura típica de um mito fundador” afirmava Hernández numa etnografía de um laboratório de genética e microbiología francês (2001: 43). Neste caso, trata-se de um “mito fundador” unido à pessoa que se reconhece como fundador e às definições, ações e processos que o têm como protagonista.
A constituição de Balseiro como símbolo que condensa, entre outros sentidos, as razões de origem da instituição, é histórica. Portanto, excede a especificidade do acontecer da comemoração. Isso é observável, como vimos no início deste capítulo, no olhar ao espaço do campus CAB-IB que conserva a imagem do fundador em fotos, que tem os restos mortais num monumento, que leva o nome dele no próprio nome da instituição. Também emergiu das entrevistas realizadas durante meu trabalho de campo, fundamentalmente naquelas que coloquei o eixo dos questionamentos no relato das trajetórias profissionais. Nelas os estrevistados mencionam repetidamente, a relevância de Balseiro nos motivos, valores e justificativas tanto do passado como do presente institucional. Vejamos alguns exemplos dessas menções:
Ana: ¿Viniste a estudiar física a Buenos Aires? Juan72: A Bariloche, al Balseiro
Ana: ¿En que año fue eso?
Juan: En el 58, vine en mayo del 58 con el gordo Balseiro, con los prohombres de, los pocos prohombres de la institución, los matemáticos los físicos experimentales, pero poca gente en general. Prácticamente todas las materias teóricas las tenía que dar el gordo Balseiro y traía alguien no sé un poco por corto tiempo y después volvía (entrevista, Buenos Aires, 2001).
Clara: ( ) entonces yo siempre pensé que era importante preservar la historia. En el caso del instituto siempre pensé que lo que había hecho Balseiro en el instituto era algo que uno tenía, que se justificaba que se supiera, la vida que había tenido lo que había significado el esfuerzo que había puesto en este lugar en esta institución. Hay muchas gente y muchos años de trabajo y de lealtad y hay mucho cariño en muchas de las cosas que se hicieron y yo pensaba bueno los que somos más viejos y nos acordamos nos vamos a morir y nadie va a saber nada (Entrevista, Bariloche, 2002)
Nesses fragmentos de entrevistas a graduados das primeiras turmas do IB, Balseiro é destacado, entre outros prohombres, pelo trabalho, pela personalidade e pelo esforço. Esse destaque se repete em outras fontes e materiais escritos - fundamentalmente artigos jornalísticos e de divulgação - que lhe rendem homenagem, que resgatam e valorizam sua
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participação. Um exemplo é o livro Balseiro: Crónica de uma Ilusión que relata extensamente, desde o nascimento do fundador até os últimos dias de sua vida, uma biografia sublinhando na trajetória as virtudes, os valores e a dedicação.
No entanto, além da sedimentação histórica, é na comemoração que o fundador volta a afirmar atualidade, recria significatividade no espaço e tempo. Nessa direção, se constitui numa figura chave para avançar no mundo de significação que o evento apresenta. Isso é, nos sentidos, históricos mas também atuais, que sustentam a relevância desse herói no presente da instituição e na sua projeção futura. Nesses sentidos históricos que são, paralelamente, objeto de transmissão.