PARTE II: O ESPAÇO DISCURSIVO DO EXPERIMENTALISMO
2. Neorrealismo
2.2 Barcarola
Seguindo o processo de análise proposto, além de poemas representativos que demonstram as especificidades de cada discurso, serão analisados poemas de cada um dos movimentos dentro de determinadas temáticas a fim de reforçar a importância do contexto e tradição que compartilham, permitindo também discernir as peculiaridades estruturais propostos em um mesmo motivo. Assim, serão tratados dois motivos típicos do imaginário português: a navegação e o campesinato. Além disso, será inserido um motivo comum da linguagem poética: o papel do poeta, a metalinguagem da composição literária.
A navegação está no imaginário desse povo desde que Portugal se estabelece como nação. A localização geográfica desse país, na península ibérica com enorme território de contato com o oceano Atlântico favoreceu a atividade marítima, que proporcionou o estabelecimento como Estado, diversas colônias, riquezas e a soberania como nação mais rica e influente nos séculos XV e XVI. Graças a isso, a navegação se mantém um motivo muito caro aos portugueses. Também possui relação forte com o contexto da época graças à colonização, que justamente, se iniciou com as chamadas grandes navegações, e que no governo salazarista, representou extrema falta de humanidade, administração falha e violência com as guerras coloniais.
Não obstante, Manuel da Fonseca, um dos autores mais ativos do movimento, e colaborador da coletânea Novo cancioneiro, dedica uma seção inteira a essa temática em seu livro Poemas Completos , as “Canções beira-mar”, onde se encontra o poema “Canção da beira mar” (1969: 25-27)
Ó mar Atlântico
à beira donde sofremos, quando virá a maré-cheia da partida? Ó mar de vendavais,
quando, quando?
tudo temos:
barcos, remos e tripulação, só nos falta partir…
Ó mar que és um leão, com tua garra,
a vaga,
despedaça a amarra que nos prende à terra.
Queremos partir mesmo sem mestre! Estamos fartos do marasmo
deste balanço de lago
onde apodrece nossa carne dolorida.
Que ansiedade de mar largo, ai que desejo de Vida! Todas as noites a lua nasce e o mar se aquieta… Faminta na beira do rio tremendo no frio
que a miséria dias e dias renova, a tripulação inquieta
murmura chorando
-Será amanhã a nossa lua nova? Ó mar, quando partimos, quando?
A noite passa, o dia volta…
e no peito dos homens
sempre o mesmo grito de ansiedade e de desgraça: -Ó mar de revolta!
montanha de água, oceano de
Atlântico da partida!
A nossa mágoa, a nossa mágoa… Não podemos mais…
Quando nos levas mar? Quando começa a vida?
No nível fundamental, há a dicotomia liberdade versus opressão, tema comum no movimento neo realista. Porém, ao analisar os semas que retomam cada categoria, sendo “mar”, “vendavais”, “leão”, “vida”, “montanha de água”, “oceano de vendavais”, “Atlântico da partida” semas relacionados à categoria de liberdade e “barcos”, “remos”, “tripulação”, “ansiedade”, “desejo”, “peito dos homens”, “mágoa” semas relacionados à opressão, pode-se identificar categorias mais básicas para o nível fundamental: natureza vs. homem.
No nível narrativo, os sujeitos são os homens. Neste caso, não há nenhum indício evidente de que se trata dos homens, mais especificamente, da população portuguesa. Porém, ao considerar as categorias do nível fundamental e o contexto do poema, pode-se concluir que os sujeitos, aqueles que fazem a súplica, a canção para o mar, são os portugueses. A conjunção com o objeto de desejo, porém, é impedida justamente por aquele a quem suplicam: o mar. Este se coloca ,portanto, como anti-sujeito da narrativa. Como a motivação dos sujeitos para a busca pelo objeto não se dá por nenhuma manipulação, mas sim, pelo desejo primordial, primitivo da liberdade, não há um percurso da manipulação. Tampouco há um percurso de ação e sanção, já que, graças ao mar que nunca vem ao encontro dos homens, não há ação nenhuma. Deste modo, o percurso narrativo encontra-se interrompido através da suspensão dos seus próprios elementos.
No nível discursivo, forma-se a isotopia da liberdade. A repetição do mote “Ó mar”, se insere no regime do poeta pregador mais uma vez. Neste caso porém, não se trata de uma pregação, mas de uma súplica. Tal suplicia evidencia a miséria desse sujeito coletivo, que não vê saída a não ser deixar que o mar o carregue. O papel que o mar tem nessa narrativa é multifacetado, pois, apesar de ser um anti-sujeito, a partir da relação com a
categoria de natureza do nível fundamental que o mar carrega e os valores da busca de algo que depende dele, possui caráter eufórico. Além disso, se se considerar a situação miserável, faminta, sem saída dos sujeitos, e este escape repentino que “despedaça a amarra/ que nos prende à terra” (e. 3 , v.4 e 5) , a busca por uma nova etapa “-Será amanhã nossa lua nova?” ( e.4 v.10), representada pela passagem de um evento natural, como as fases da lua, especificamente da lua nova, e a angústia dos homens com a passagem dos dias “A noite passa/ o dia volta.../ e no peito dos homens/ sempre o mesmo grito de ansiedade e de desgraça” ( e.5 v. 1-4) , insere-se um outro tema: o da morte. O conceito de morte nesse poema, porém, é eufórico, representando uma forma de liberdade da miséria da vida. Assim, pode-se considerar que há uma isotopia mítica de liberdade e uma isotopia prática de morte.
No plano de expressão, o texto se divide em cinco estrofes, sendo dois quartetos, uma nona, uma estrofe com onze versos e uma última com doze. Essa disposição não se encaixa em nenhum padrão regrado da poesia tradicional, mas tampouco quebra com a estrutura textual. Nota-se um gradiente no número de versos, que vão de um número menor para um maior. Essa progressão, porém, não segue nenhuma lógica, o que leva a suposição de que o número de versos se relaciona somente com o aumento da angústia da população. A contagem de sílabas também não possui nenhuma regularidade. Quanto às rimas, não há um padrão tradicional, mas notam-se algumas rimas internas sonoras, ou seja, que consideram o som produzido pela última sílaba, e não a sua grafia. Trata-se da identificação de assonâncias no interior e no fim do verso. Na terceira estrofe, “garra” ( v.2), “vaga” ( v.3) e “amarra” ( v.4) rimam entre si, e “mestre” (v.6) e “apodrece” (v.9) formam outra rima. Na quarta estrofe, “rio” (v.5) e “frio” (v.6) rimam, e “renova” (v.7) e “nossa lua nova” (v.10) se relacionam entre si.