Coutinho (2006) conta que Barra do Riacho se originou basicamente de uma das três grandes fazendas que havia nas proximidades do Rio Riacho, surgidas com a criação do município de Santa Cruz, que abrangia aquela região. Em 1848, a fazenda chamada Flor da Barra começava na saída norte da (atual) Barra do Riacho e ia até o Córrego das Minhocas, na Praia das Conchinhas, sendo sua sede um casarão na foz do Rio Riacho.
FIGURA 8
Perspectivas da Casa grande – (Século XIX e XX) – Hoje Casa Assombrada
Fonte: Site www.morrodomoreno.com.br Acesso 12/2015.
A casa grande de uma das outras fazendas, a Mercantil, de Luís de Mattos, hospedou o imperador Dom Pedro II em fevereiro de 1860. O monarca visitava a Província do Espírito Santo. (CRUZ, 1997, p. 59)
72 Nessa ocasião percorreu praticamente toda a orla marítima do Município de Santa Cruz. O Imperador D. Pedro II, ao passar por Barra do Riacho, registrou apontamentos que podemos apreciar:
Na praia, por onde andei, tem lugares cheios de fucê, e alguns pareceram-me curiosos, sentindo a estreiteza do tempo para examiná-los. A areia atira para cor de rosa. Depois vêm os riachos Tacipeva, Timbotiba e Saí, onde há vau [em] vazante; encontrei aí o Matos, dono da casa do Riacho onde me hospedo; é falador, mas parece bom homem; nunca saiu quase de seu sitio, o que não admira num capixaba (IMPERADOR DOM PEDRO II, 1860).
O anfitrião a que se refere D. Pedro II é o Coronel Joaquim Ribeiro Pinto de Matos, proprietário da Fazenda Santa Joana, onde se situa a dita casa assombrada. Antônio Lobo resolveu doar aquelas terras, num total de trinta hectares, diante da quantidade de posseiros que ocupavam a área em torno do pasto da Fazenda Flor da Barra.
Foi dessa forma que surgiu o povoado de Barra do Riacho. Tempos depois Armando Lobo doou mais de vinte hectares. Na década de 1930, Barra do Riacho já contava com cerca de 150 habitantes, destacando-se as famílias Azeredo, Alvarenga, Souza, Leal, Bandeira, Pimentel, Matos, Andrade. Relata ainda o historiador Coutinho (2006) que:
Nessa época não havia carros nem estradas. Apenas caminhos abertos à foice ligavam Barra do Riacho a outros povoados e toda viagem era feita a cavalo ou a pé. Os doentes eram transportados em redes (COUTINHO, 2006, p. 202).
Coutinho (2006) relata ainda que seu pai passou a morar no progressista povoado de Barra do Riacho por volta de 1932, dedicando-se à agricultura e depois ao comércio. Na condição de vereador, por dois mandatos, ajudou a desbravar a região, tendo comandado os índios e caboclos na abertura de estradas a foice, machado, facão e enxadão, ligando o povoado à Vila do Riacho, Pau-Brasil e Barra do Sahy. Outro grande feito foi à construção das pontes sobre os Rios Sahy e Gemunhuna e do primeiro cemitério; por fim, seu pai liderou a construção da Igreja de São Sebastião.
Afinal de contas, uma comunidade fundada por volta de 1850, por onde havia passado o Imperador, não podia desaparecer.
73 Após um período de decadência, Barra do Riacho voltou a destacar-se, a partir de 1976, quando foi literalmente “ocupada” pelos milhares de operários que trabalhavam na construção da fábrica da Aracruz Celulose, a cerca de 1quilometro ao sul da vila.
O processo de industrialização, com a chegada do progresso entre 1975 e 1978, assustou os moradores que eram aproximadamente 1.000 pessoas, tendo crescido para 3.000 repentinamente, relata Coutinho (2006) ao repórter do jornal A GAZETA Mauro Fraga, na década de 1980. Barra do Riacho era basicamente constituída por fazendas, pequenos roçados que desapareceram, dando lugar às plantações de eucaliptos. Os tabuleiros dos recifes, de onde se retiravam búzios, polvos, lagostas, cederam lugar ao porto de exportação da celulose, fazendo desaparecer o que restava da mata.
FIGURA 9
Fonte: Acervo IJSN AJ07799: Progresso assusta Barra do Riacho. Fraga, Mauro A Gazeta, Vitória, ES, 09/07/1984, p.1, cad.2. c.1-5.
74 Os nativos recuaram diante do complexo multinacional. A contínua chegada de pessoas, sobretudo homens que atuariam na planta industrial, aqueceu a prática da prostituição, modificando o ritmo de vida do povoado. Por ser a princípio um recanto perdido no meio de uma floresta, segundo moradores mais antigos, as moças usavam caixotes de madeira empilhados para esconder os encontros furtivos, conforme figura 10.
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FIGURA 10
Fonte: Acervo IJSN AJ07800: Barra do Riacho pede socorro. Maia, Pedro A Tribuna, Vitória, ES, 12/05/1981, c.1-5.
Transcrição:
O confinamento do lenocínio em Barra do Riacho funciona de maneira precária e sem as mínimas condições de higiene. Conhecido como Caixotes.
Transcrição:
Marino da Silveira, presidente da Associação Comunitária, quer conscientizar o povo para combater as ameaças trazidas pelo progresso.
Transcrição:
D. Magdalena: “aqui todo mundo vive intranquilo e ameaçado pelas prostitutas. É um horror”.
76 As Figuras 11 e 12, refere a organização na divulgação do negócio e estabelecimento de normas de conduta a partir da nova administração.
FIGURA 11
FIGURA 12
Fonte: Acervo empresa Tecvix, 12/2015, compradora do Terreno da proprietária “Mama” Catarina da Silva Gomes.
77 A Figura 13, mostra a declaração de venda do Imóvel adquirido, visando melhor localização e organização do estabelecimento.
FIGURA 13
Fonte: Acervo empresa Tecvix 12/2015 Empresa que adquiriu o referido terreno aos 22 de novembro de 2005. Declaração de Compra e Venda datada de 28 novembro de 1988, quando deixou de ser chamado por “Caixote”.
78 Esse impacto manteve o povo arredio até a década de 1980, quando surgiu a Associação Comercial e por meio dela a consciência de luta por parte dos moradores, que elegeram com 350 votantes e por voto direto seu subdelegado, cujo representante trabalhou no sentido de mitigar a delinquência local. Algumas conquistas foram registradas como: a melhoria de ruas, saneamento e ampliação da rede de água encanada, a redução de doenças venéreas. Mas o grande desafio persistia: conviver com a gigantesca fábrica.
A Associação Comercial trabalhou no resgate dos valores culturais e, para tanto, cobrou da própria empresa recursos, conseguindo-os e executando inúmeros projetos que envolviam nutrição, saúde, educação, trabalho, habitação e atenção ao serviço e equipamento público (COUTINHO, 2006).
A mediação era delicada, pois, assim como produziu perdas, em algumas circunstâncias a empresa evitou que o bairro sucumbisse, como por exemplo, em 1979, quando socorreu vítimas de uma enchente e impediu a destruição de Barra do Riacho, ao colocar pedras nas margens do Rio Riacho.
Coutinho (2006) apresentou propostas e projetos que absorvidos pelas empresas e poder público, cooperariam para contrabalançar o impacto industrial e desequilíbrio socioeconômico, usando sua terra e sua gente.
Nos processos seletivos, nem o barrense e tampouco os migrantes, por ausência de qualificação, alcançavam êxito nos postos de trabalho. Assim, tanto os moradores quanto os migrantes permaneciam desempregados ou subempregados, além de terem padecido com a perda da Mata Atlântica já devastada anteriormente pela Companhia de Ferro e Aço Vitória (COFAVI).
À época, Barra do Riacho era a maior colônia pesqueira do Espírito Santo, contando com cem pescadores, o que deu base para o requerimento de uma cooperativa por parte da Associação Comercial com o propósito de torná-los sócios proprietários, cuidando desde a instrumentalização até a comercialização do pescado. A meta era evitar que os pescadores fossem explorados e descapitalizados pelas empresas de pesca.
79 Aos 15 de janeiro de 1979 o repórter José Maria Batista destacou, em matéria publicada em A GAZETA, a apreensão dos moradores por serem surpreendidos com a promessa da chegada de oito mil operários com vistas a suprir postos de trabalho, decorrente da expansão do porto da fábrica Aracruz Celulose, rememorando situação semelhante à vivida entre 1975 -1978, quando a população se agigantou.
FIGURA 14
80 Dessa vez a permanência e disponibilidade de prostitutas em cinquenta barracos distribuídos do lado esquerdo da Avenida que dá acesso ao centro da cidade, chamados na época de caixotes ou lajotas, a falta de policiamento, os índices de criminalidade e a propagação de doenças venéreas foram os enfrentamentos que a Associação Comercial, na pessoa do seu presidente Marino da Silveira, precisou combater.
Hoje, de acordo com as lideranças das Associações, o bairro carrega uma imagem estigmatizada, tanto por parte das pessoas que vivem no entorno quanto pelos que cotidianamente desfrutam dos seus cantos e recantos. Moradores, trabalhadores do posto de saúde e policiais do posto local, em nossa primeira visita para reconhecimento da área, falaram com pesar do amargo preconceito sofrido pelos que escolheram por alguma razão viver no local intitulado “terra de ninguém”.
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FIGURA 15
Cartografia do bairro Barra do Riacho
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