O Núcleo de Estudos e Pesquisas Sociais - NEPES da UERJ aponta que foi na década de 1970 que pela primeira vez a população urbana superou a população rural no Brasil. Os diferentes estágios da urbanização nessa trajetória podem refletir, a partir de uma perspectiva, o grau de desenvolvimento sócio econômico local, bem como do país. (NEPES, 1978)
Em estudos sobre urbanização, Tolosa (1978) destacou que os países de terceiro mundo apresentam características próprias e diversas das historicamente experimentadas pelas economias avançadas. No Brasil, o sistema de cidades já enfrentava fatores considerados complexos, tais como: a extensão territorial, o prenúncio de novas fontes de recursos naturais e os movimentos migratórios, sem precedentes em períodos anteriores, causando padrões diferenciados de comportamento urbano.
As taxas de crescimento demográfico, o crescimento da população e o período de urbanização mais intenso, tinha sido até então, entre as décadas de 1940 e 1960, com comprometimento na uniformidade da distribuição do sistema urbano. As cidades de porte médio com 100 a 250 mil habitantes, nesse processo, foram as que compatibilizaram com o auge da industrialização, atingindo a taxa média de 8,9% ao ano.
Tolosa (1978) relata ainda, que em termos gerais, à medida que as cidades crescem na hierarquia urbana, elevam a importância da indústria. A região Sudeste é um dos sistemas regionais de distribuição espacial das cidades com características bem definidas, sendo considerado até o período citado como tendo o espaçamento equilibrado.
Desde a década de 1970 que se faz notar a pressão migratória e o crescimento explosivo da população urbana com distorções no mercado de trabalho e na distribuição de renda.
A migração, como não podia deixar de ser, vem passando por mudanças profundas nas últimas décadas, resultado destas alterações quantitativas e qualitativas na sociedade brasileira. De modo sintético, cabe destacar a estagnação dos fluxos rural urbano desde a década de 1980 (PACHECO; PATARRA, 1998; BRITO, 2009), que representaram o motor da urbanização brasileira, alterações quantitativas e qualitativas nos tradicionais fluxos de longa distância Nordeste-Sudeste (CUNHA; BAENINGER, 2007), além do aumento nos fluxos de média e curta distância, representados pelos movimentos intraestadual, intrametropolitano e de mobilidade residencial (DOTA, 2016, p. 143).
83 O processo de industrialização influencia a tendência para que a ocupação ocorra em um pequeno número de cidades onde a contrapartida espacial seja favorável, como Aracruz, que é servida por um sistema viário, o qual favorece o transporte, a distribuição e o escoamento da produção.
O desenvolvimento socioeconômico de qualquer segmento de investimentos, aqui representado pela implantação de indústrias, chama a atenção pelo fato de essa região ofertar empregos e absorver as pessoas para postos de trabalhos, sobretudo os operadores e os de formação técnica. O quantitativo da migração interna tende, nesse caso ascender, atraindo pessoas que se deslocam na tentativa de tornar sua condição de vida diferenciada, o que por sua vez pode levar ao agravamento dos problemas urbanos. A esse movimento chamamos: mobilidade humana espacial/ fluxos migratórios, que no avançar dessa pesquisa, se vê o quanto modifica cenários, influenciando na forma e na distribuição das pessoas em um determinado território, bem como, no seu modo de viver.
A ação do governo, nesse sentido, cooperou e coopera para o estabelecimento desse novo padrão migratório, por um lado pelas oportunidades de emprego frustradas pela aplicação do capital nas políticas de desenvolvimento regional. De outro lado, em função dos chamados efeitos não intencionais de políticas de caráter nacional, no caso, a promoção da exportação de manufaturados, com impacto espacial claramente concentrador (TOLOSA, 1978, p.116).
Tradicionalmente, diz Tolosa (1978), “no Brasil, as políticas urbanas têm um sentido corretivo, sobretudo quando se trata dos recursos investidos na infraestrutura social (transportes, habitação, saneamento e água) das áreas metropolitanas, ou seja, com maior volume de pessoas”. O governo, concretamente, não disporia de instrumentos adequados para resolver os problemas urbanos decorrentes de uma economia sujeitada a rápidas mudanças estruturais, como tem se apresentado a economia brasileira.
Para atender essas demandas de processos migratórios urbanos, o decreto número 74.156, de 6 de junho de 1974 criou a Comissão Nacional de Regiões Metropolitanas e Política Urbana (CNPU), órgão que debate e busca gerar alternativas que solucionem questões das metrópoles e de política urbana.
No Brasil, entretanto, as desigualdades na renda pessoal e na distribuição espacial provocam sintomas como a alta densidade demográfica, especulação imobiliária e sobrecarga do equipamento público.
84 Assim, para uma boa compreensão das implicações imediatas e mais evidentes do ponto de vista sócio-urbano que acometeram Barra do Riacho, especificamente a partir da implantação da indústria Aracruz Celulose, é fundamental compreender, inicialmente, as principais transformações urbanas e também sociais que se sucederam na cidade a partir da década de 1970, uma vez que o bairro de Coqueiral de Aracruz foi concebido, planejado e concretizado para oferecer, ao profissional que vinha de longe compor o quadro efetivo da Aracruz Celulose, beleza, conforto, lazer e segurança.
Percorrer o caminho de Vitória à Barra do Riacho é semelhante a visitar qualquer uma das várias vilas presentes no litoral do Espírito Santo. A semelhança é reforçada quando olhamos para o rio Riacho, em cuja foz se situa Barra do Riacho. Notamos placas penduradas nas janelas e prédios de dois andares, oferecendo “aluguel para empresas”; percebemos o movimento de homens, na maioria uniformizados com macacões que os identificam como embarcados, mecânicos de manutenção, soldadores, estivadores, trabalhadores da planta química, entre outros, e o movimento frenético dos ônibus fretados pelas empresas.
Fora isto, o ritmo de Barra do Riacho é vagaroso, sobretudo quando comparado com a parte mais recente da Vila, situada no alto da colina que beira o rio Riacho. Na parte baixa, enxergamos as ruas sem calçamento, casas de alvenaria, muitas sem acabamento e pequenos negócios instalados na mesma rua, como bares e peixarias. De um lado a rua de terra, do outro, o rio onde estão barcos de variados tamanhos.
Para compensar a construção do PORTOCEL e outras fábricas instaladas, foi concedido à comunidade de pescadores o direito de administrar o pequeno estaleiro com capacidade para até três barcos, doado pela extinta Aracruz Celulose.
Para quem não conhece, é difícil discernir que no entorno de Barra do Riacho existe um complexo industrial que abarca duas cadeias produtivas distintas: a primeira, petroquímica, composta pela Petrobras e pela Nutripetro; a segunda, ligada à cadeia produtiva da celulose, como a Aracruz Celulose e a Evonik Degussa.
85 A abertura de novas ruas em Barra do Riacho reduziu distâncias, criou novas centralidades e novas áreas residenciais. Atividades comerciais surgiram a partir de pequenas quitandas, expandindo para o que se tornou área comercial. A atividade administrativa, por sua vez, é concentrada no município de Aracruz, onde funcionam os principais órgãos municipais, estaduais e escritórios de empresas estatais.
O sistema de abastecimento de água de Barra do Riacho tem como principal manancial o Córrego de Santa Joana. Consiste em uma barragem de elevação de nível de concreto de onde parte a água, seguindo para o poço de sucção das bombas. O tratamento é do tipo convencional (casa química) e se dá na ETA-Estação de Tratamento de Água- localizada no centro de Barra do Riacho. A rede de distribuição possui aproximadamente 13.673 metros lineares de extensão com um total de 1.778 ligações de água. O sistema de coleta e tratamento do esgoto totaliza 1.571 ligações e atende a 88% da população. O agravante é que o bairro não dispõe de um sistema de tratamento de esgoto. 5