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3. FONTE DE DADOS E METODOLOGIA

3.1 Base de Dados

O trabalho utiliza as informações registradas nos formulários de Autorização de Internação Hospitalar (AIH), processadas pelo SIH/SUS, para o ano de 2002. A base de dados da AIH apresenta informações sobre atenção hospitalar que possibilitam a verificação do fluxo de pacientes para tratamento de saúde no sistema de saúde público, pois possui informações sobre o município de residência do paciente e do município no qual a internação aconteceu. Consiste em um levantamento mensal das AIHs, proporciona, dentre outras informações, dados sobre morbidade, mortalidade, idade, sexo, gastos com saúde, características da população atendida, volume de pacientes e informações sobre o hospital que efetua o atendimento.

As desagregações possíveis para se avaliar o comportamento da utilização dos serviços de saúde do SUS são: especialidades, diagnósticos e procedimentos. A análise das internações apenas por especialidades médicas não proporciona um conhecimento apurado do comportamento da utilização dos serviços de saúde, uma vez que as agregações não são feitas considerando-se a complexidade dos serviços ofertados. As informações de diagnósticos e das características dos pacientes podem ser anotadas de forma precária nos prontuários médicos, com eventuais equívocos de codificação (TRAVASSOS, 1996). Problemas como ilegibilidade e/ou ambigüidade das anotações médicas, falta de treinamento, não adesão dos funcionários dos hospitais às regras de codificação e a presença de vários diagnósticos em uma internação podem influenciar a qualidade dos dados clínicos (VERAS & MARTINS, 1994; MATHIAS & SOBOLL, 1998).

A não existência de registros de reinternações, havendo contagens múltiplas de um doente crônico, bem como de seu diagnóstico, também consistem em uma limitação (TRAVASSOS, 1996). Além disso, a possibilidade de ocorrência de fraudes aponta para a necessidade de cuidados quando da utilização de informações sobre gastos do sistema SUS (VERAS & MARTINS, 1994; TRAVASSOS, 1996; MATHIAS & SOBOLL, 1998; MARINHO et al., 2001).

Estudo realizado por Lebrão para o estado de São Paulo, em 1974, verificou uma concordância de 82,5% para codificação em três dígitos entre as variáveis contidas no Boletim CAH-101, posteriormente denominado Boletim CH-106, e as registradas nos prontuários (VERAS & MARTINS, 1994; MATHIAS & SOBOLL, 1998). VERAS & MARTINS (1994), em estudo realizado em hospitais no Rio de Janeiro, para o ano de 1986, verificaram uma maior concordância para os diagnósticos em categorias mais

agregadas (kappa6 foi igual a 0,72 e 0,82 para os diagnósticos codificados com quatro e

três dígitos, respectivamente). Os resultados da concordância de diagnósticos com três dígitos apresentaram-se muito próximos, apesar de este último trabalho ter sido elaborado para um ano mais recente.

VERAS & MARTINS (1994) e MATHIAS & SOBOLL (1998) verificaram uma maior

concordância para os diagnósticos com alta freqüência, como, por exemplo, parto normal. Os diagnósticos secundários praticamente não se encontravam registrados nos formulários das AIHs dos hospitais do Rio de Janeiro focalizados no estudo: estavam presentes em apenas 1,9% dos formulários das AIHs amostrados, ao passo que em 42,4% dos prontuários relativos a estas internações verificou-se a presença de pelo menos um diagnóstico secundário (VERAS & MARTINS, 1994).

A análise por procedimentos é a mais adequada para se trabalhar, dado que a remuneração dos serviços médicos é com base nesta variável e o comportamento da utilização dos serviços de saúde depende do grau de complexidade dos procedimentos. Os serviços de menor complexidade tendem a estar mais próximos da população para a qual se destina e os de alta complexidade são fornecidos apenas por alguns municípios. Há também outras particularidades, como, por exemplo, quando se trata dos procedimentos estratégicos, resultantes de campanhas do Governo Federal, bem como dos psiquiátricos, que tendem a ser ofertados apenas por alguns municípios.

Dado o que foi mencionado, a análise deste trabalho será feita com base na complexidade dos procedimentos, bem como segundo especificidades de tratamentos. Para tanto, serão considerados dois recortes:

6

A estatística de Kappa é interpretada como a proporção de concordância entre duas ou mais medidas de n observações, após se remover a concordância devido ao acaso (VERAS & MARTINS, 1994; MATHIAS & SOBOLL, 1998).

(i) complexidade dos procedimentos: alta e média complexidade;

(ii) especificidades dos tratamentos: estratégicos e psiquiatria.

A classificação dos procedimentos torna-se bastante complexa quando se considera a diversidade de classificações existentes, bem como o fato de que alguns procedimentos, que são identificados por códigos, podem ser extintos de um ano para outro, ou até mesmo em um período mais curto de tempo. Há, também, situações em que os nomes dos procedimentos sofrem alterações.

Esta base impossibilita a identificação das reinternações, o que poderia levar a sobrestimações do número de pacientes atendidos. No entanto, isso não consiste em um fator limitador para o objetivo geral deste trabalho, que consiste na identificação do volume de pacientes que buscam tratamento para determinados problemas de saúde – (TRAVASSOS, 1996). Como parcela dos pacientes que se desloca aos pólos busca serviços de maior complexidade, as múltiplas contagens de um único paciente podem refletir a polarização exercida por determinada localidade (UNICAMP/NESUR/NEPO, 2000). Considerando-se a possibilidade de se verificar este comportamento, optou-se por analisar o fluxo segundo três dimensões: (i) macrorregião de saúde, (ii) microrregião de saúde e (iii) municípios.

As variáveis utilizadas neste trabalho são identificadas no Quadro 1:

QUADRO 1

Descrição das Variáveis Utilizadas no estudo

Nome Descrição UF_ZI Código da Unidade da Federação com cuja superintendência

regional o hospital mantém vinculação ANO_CMPT Ano de competência da AIH

MES_CMPT Mês de competência da AIH IDENT Identificação da AIH

MUNIC_RES Código do município de residência do paciente PROC_REA Procedimento realizado

MUNIC_MOV Código do município onde se localiza o hospital

A análise do preenchimento dessas variáveis apontou para apenas dois casos de não identificação do município de residência do paciente. Dado o número total de internações (1.286.456) ocorridas em Minas Gerais em 2002, esse não preenchimento não causa impacto no resultado encontrado. Já as demais variáveis em análise não apresentaram nenhum missing, não sendo necessário, portanto, adotar pressuposto relativo à distribuição dos casos não declarados ou desconhecidos.

A forma como serão mensurados os deslocamentos populacionais para tratamento de saúde, segundo grupos de procedimentos e agregação geográfica, está descrita na próxima seção.

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