3.2. Abordagem clínica do trabalho
3.2.1. Bases epistemológicas e ferramentas conceituais
As clínicas do trabalho constituem conjunto de teorias que têm, como princípio comum, a análise da atividade (Lhuilier, 2014). Buscam lançar um olhar sobre as vivências de sofrimento ancoradas tanto nas experiências objetivas quanto subjetivas de trabalho, enfatizando a pesquisa e a intervenção na realidade vivida pelos indivíduos. Contudo, não estão atentas apenas ao sofrimento, mas enfocam a capacidade de mobilização, ação e resistência do sujeito frente ao real do trabalho, bem como seus processos construtivos e criativos (Clot, 2006; 2010a; 2013; Bendassolli & Soboll, 2011).
Essas teorias podem ensejar pesquisa-ação, pois atuam no sentido de, simultaneamente, “compreender para transformar e de transformar para compreender” (Lhuilier, 2014, viii), ou seja: almejam não somente compreender, mas transformar a prática (Bendassolli & Gondim, 2014).
As intervenções têm início na etapa de observação e contrato, momento em que o clínico tem a oportunidade para se aproximar do campo e conhecer a situação geral de trabalho. Este passo é primordial para a construção de confiança entre o clínico e os trabalhadores e para conhecimento do campo que será pesquisado (Da Silva, 2014).
os sujeitos – que, nem sempre, têm consciência do que os leva a agir de determinada forma – sejam indagados, descrevendo o seu próprio comportamento e justificando as motivações para as suas ações. Ao explicar seus atos, torna-se possível desvendar sentidos, sendo a interpretação o caminho para acessá-los (Bendassolli & Gondim, 2014).
Nesse curso, nota-se que as técnicas, instrumentos e procedimentos usualmente utilizados permitem reformulações com base no feedback daqueles que estão implicados no processo (Bendassolli & Gondim, 2014)
Como se observa, nas clínicas do trabalho, há um enfoque na atividade de trabalho a partir da ótica do próprio trabalhador; todavia, é indispensável sua fundamentação teórica, sem a qual este agir não poderia ser pensado ou mesmo concretizado. O desenvolvimento teórico ocorrerá à medida que houver um empenho em analisar experiências e eventos, com o fito de identificar os meios e estruturas que lhes conferem sentido (Bendassolli & Gondim, 2014).
É ainda fundamental, para o desenvolvimento do seu trabalho de pesquisa e intervenção, que os clínicos do trabalho estejam abertos à possibilidade de interlocução entre as várias abordagens clínicas – ergonomia, psicopatologia do trabalho, ergologia, psicodinâmica, psicossociologia do trabalho e clínica da atividade, dentre as mais relevantes, estruturando as diretrizes que guiam a sua prática (Lhuilier, 2014).
No que se refere às premissas dessas abordagens, as clínicas do trabalho defendem que é necessário lutar contra as expressões de alienação, invisibilidade social, ocultação do real e vulnerabilização social (Bendassolli & Soboll, 2011). Concebem o trabalho enquanto atividade através da qual o sujeito se afirma em sua relação não apenas consigo, mas também com aqueles com quem interage no contexto laboral (Bendassolli & Soboll, 2011).
Embora as prefaladas teorias clínicas possuam alguns pressupostos coincidentes, cada uma delas parte de conceitos específicos no que versa a subjetividade e o trabalho. Elas
propõem formas específicas para a compreensão e apreensão dos processos de subjetivação e das situações de trabalho (Bendassolli & Soboll, 2011).
A clínica da atividade, fundamentada nas teorias da vertente histórico-cultural então soviética – com destaque para as contribuições de Vygotski e Leontiev – e nas contribuições do Círculo Bakhtin, foi o quadro teórico de referenciamento escolhido para nortear a reflexão acerca da relação entre trabalho e subjetividade, com seus desdobramentos em termos de desenvolvimento, sofrimento e adoecimento vinculados à atividade laboral.
A Clínica da Atividade se situa como uma das vertentes mais recentes dentre as clínicas do trabalho. Essa perspectiva pretende modificar as situações laborais a partir da atuação dos próprios trabalhadores, que se deslocam da posição de observados para a de observadores (Clot, 2010b; Lima, 2014).
A mencionada abordagem almeja ser um desenvolvimento da ergonomia da atividade francófona a partir do desenvolvimento de uma perspectiva clínica, havendo um aprofundamento dos aspectos subjetivos advindos do processo de transformação da atividade de trabalho. Nesse sentido, no interior da atividade, encontram-se a emoção e o afeto, aspectos primordiais a serem analisados, pois se assim não fosse, restaria apenas a análise das operações cognitivo-motoras (Lima, 2014).
Esse contexto teórico de enquadre, que tem como principal referência Yves Clot, atribui papel central ao trabalho na mediação entre o campo social e a vida psíquica do indivíduo trabalhador. Busca instrumentos que viabilizem o entendimento acerca da situação do trabalho real para ampliar, seja no âmbito coletivo ou individual, o poder de agir do indivíduo- trabalhador sobre si e sobre o contexto de atividade de trabalho – o coletivo e o próprio gênero profissional (Clot, 2010a).
Compreender o seu trabalho, contudo, consiste em um processo desafiador, sendo deveras relevante a adoção de métodos indiretos para alcançar tal objetivo (Da Silva, 2014;
Lima, 2014). Na esfera teórico-metodológica da clínica da atividade, há uma série de dispositivos técnicos disponíveis que contribuem para essa análise, em que o trabalhador – deslocado para a posição de analista ou observador de sua atividade – assume o papel de protagonista e responsável pelas realidades que constrói (Da Silva, 2014).
A instrução ao sósia, autoconfrontação simples e autoconfrontação cruzada são técnicas utilizadas pela clínica da atividade, as quais visam proporcionar um movimento que favoreça o exame da atividade de trabalho com possibilidade de expressão de emoções em função, por exemplo, de um aprofundamento da compreensão sobre o que se poderia fazer, mas não se faz. Esses métodos indiretos são utilizados para acessar a experiência dos trabalhadores, os quais são atores das transformações a serem empreendidas e verdadeiros especialistas nas atividades que desempenham (Lima, 2014).
Os métodos propostos por essa abordagem – cujo objetivo, como dito, é oportunizar uma coanálise do trabalho – contam não apenas com a presença do indivíduo, que traz o seu conhecimento do ofício, mas do clínico, que participa deste diálogo e é estranho à atividade (Da Silva, 2014).
Durante a análise do trabalho, através da experiência concreta de exame de sua própria atividade laboral, o indivíduo-trabalhador participante da referida análise estabelece terreno para o diálogo entre o conhecimento da experiência e o conhecimento acadêmico, neste caso, do clínico. Os trabalhadores cujas atividades são analisadas não expressam premissas incontestáveis sobre ela, mas têm a oportunidade de se confrontar com as várias perspectivas do seu trabalho diante do clínico, e, em algumas técnicas, diante de um colega trabalhador que exercita atividade semelhante (Da Silva, 2014).
Nesse contexto, o trabalhador é o protagonista da transformação e desenvolvimento da sua organização do trabalho, enquanto o clínico apenas proporciona os meios e recursos para
que isso aconteça3. Há uma ênfase na ação do sujeito, sendo esta início e término de qualquer
processo, tanto de pesquisa quanto interventivo (Lima, 2014).
Assim, enquanto de um lado, o sujeito elabora e reformula recursos para a sua atividade, de outro, o clínico propicia que o trabalhador se surpreenda com algo que não havia sido notado, tamanha a familiaridade (banalidade) de tal aspecto no âmbito de sua atividade. Nessa análise ativa, ocorre um confronto com o real da atividade, permitindo que a atividade seja desvendada por meio dessa experimentação transformadora e que o trabalho seja resgatado e transformado na direção não somente do que se faz ou se fez, mas também na direção do que se pode fazer (Da Silva, 2014).
Ao longo desse processo, os trabalhadores se tornam sujeitos da situação e protagonistas da transformação à medida que têm a possibilidade de cuidar do trabalho, o que gera mudança na organização do mesmo (Clot, 2010b). Isso porque, à medida que examinam os modos de fazer, refletem sobre a maneira com que priorizam seus objetivos em meio a tantos outros. Nesse caminho de constante negociação, contempla-se o surgimento e aumento do poder de agir desses sujeitos sobre o seu trabalho (Da Silva, 2014).
Assim, é de grande relevo o exercício de aprofundar o exame da própria atividade de trabalho e a possibilidade de transformação das circunstâncias de sua realização, pois o trabalho realizado com qualidade constitui fonte de saúde para os sujeitos – e tal qualidade pode ser ampliada, desde que o trabalhador exercite seu poder de agir nessa direção (Clot, 2010a). Clot alude a essa possibilidade de trabalho voltado para a clínica da atividade de trabalho nos termos seguintes:
Não cuidar das pessoas, mas cuidar do trabalho. Quando digo cuidar do trabalho, em francês, tem um duplo
3 Como se pode verificar, não estamos longe, aqui, do contexto e perspectiva da abordagem clínica lato senso (cf.
sentido: transformar o trabalho, mas também, em francês, fazer um bom trabalho, é a qualidade do trabalho bem feito que é uma fonte de saúde (Clot, 2010b, p. 222).
Sob esse prisma, para a clínica da atividade, o sofrimento no contexto laboral surge diante de algumas circunstâncias experimentadas pelo indivíduo, como a impossibilidade de trabalhar de acordo com os ideais do seu coletivo de trabalho ou conforme sua própria vontade (Clot, 2006). Nessas situações, ocorre um desencontro entre o sujeito e sua atividade, gerando “amputação da ação”, além do silenciamento de várias atividades que poderiam ser desenvolvidas (Clot, 2006; Bendassolli & Da Rocha Falcão, 2013). Diante do cenário de impossibilidade de superação dos impedimentos intrínsecos e extrínsecos da atividade é que surge o sofrimento (Bendassolli & Da Rocha Falcão, 2013).
Após esse breve preâmbulo acerca da abordagem clínica do trabalho, serão brevemente retomados e aprofundados operadores conceituais que integram o referenciamento teórico da Clínica da Atividade, que contribuem amplamente para o entendimento acerca do dinamismo presente nos contextos de trabalho e para análise dos fenômenos que ocorrem nessa esfera, e que já foram, direta ou indiretamente, aludidos nas considerações anteriores.