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3. DEVELOPMENTAL STATE

3.1. BASES TEÓRICAS DO DEVELOPMENTAL STATE

Ainda que o Developmental State seja um modelo apreendido da experiência histórica de desenvolvimento destes três países do leste asiático, é possível fazer a correspondência com a teoria econômica consagrada. Cabe, todavia, fazer uma distinção entre as influências no Developmental State histórico e no Developmental

State teórico. Isto é, distinguir as ideias econômicas que influenciaram os dirigentes

estatais sul coreanos, japoneses e taiwaneses e aquelas cujos teóricos do

Developmental State fazem correspondência a posteriori.

As principais influências, tanto do pensamento político como econômico, da elite governante dos países do Developmental State eram os pensadores da Europa Continental, associados à tradição germânica – que contrapunha o pensamento liberal da Grã-Bretanha (Anglo-Saxon model).

Japan’s political economy can be located precisely in the line of descent

from the German Historical School – sometimes labeled ‘economic

nationalism’, Handelspolitik, or neomercantilism; but this school is not exactly in the mainstream of economic thought in the English-speaking countries. (JOHNSON, 1982, p. 17)

Chalmers Johnson (1982) conta em detalhes como a visita de burocratas japoneses à Alemanha na década de 1930 influenciou a política industrial do MITI. Cumings (2005, p. 213) aponta que as influências teóricas no Japão e na Coréia do Sul “go back to mid-nineteenth-century German thinking about state science (as opposed to political science) and national economy (as opposed to market economy) conceived in the context of the world economy”. Atul Kohli (1999) conta a história de Ito Hirobumi, Primeiro Ministro japonês do período Meiji e um dos líderes das reformas que levaram a construção do Developmental State naquele país, e que posteriormente foi alçado a General Residente no protetorado coreano, cargo que lhe outorgava poderes “quase absolutistas”. Ito viajou para a Europa no final do século XIX e ficou fascinado pela burocracia prussiana. Enxergou-a como um modelo a ser seguido no Japão. De volta ao país natal, em 1881, Ito ajudou a reorganizar a Universidade de Tóquio como uma escola para formação de burocratas do governo. Em 1887, Ito reformou os concursos e treinamentos da burocracia pública japonesa nos moldes da prussiana. As influências sobre Ito se estenderam tanto na forma de organização da burocracia estatal e quanto na função que o Estado assumiu de prover visão estratégica33.

Chang (2010) aponta que as faculdades de economia japonesas eram dominadas pelo pensamento marxista até os anos 80 e que as teorias de Schumpeter e List eram amplamente ensinadas. Essa influência foi transmitida à Coréia durante o período colonial japonês e no período posterior quando burocratas coreanos eram enviados para o Japão para treinamento técnico – influência que perdurou mesmo com o banimento do ensino de marxismo imposto pelo governo após a Guerra da Coréia. Chang afirma que

While Park government was fiercely anti-communist and gave lip service to “free enterprise”, its developmental strategy was built upon Marxist (or at least classical) notions such as capital accumulation, technological upgrading, surplus extraction from rural areas, and labor discipline in

factories – and not neoclassical concepts like “getting the prices right” and

allowing maximum competition. (Chang, 2010, p. 92)

Friedrich List forneceu aos dirigentes sul coreanos argumentos para sua política industrial protecionista. Em seu The National System of Political Economy

33 Sobre a influência do pensamento político e social alemão na Coréia ver também Bruce Cumings

(1841), List argumentou a favor de políticas de proteção da indústria infante34,

artifício exaustivamente utilizado nos três países em questão. Joseph Schumpeter abriu os olhos da elite governante para o papel da inovação no sistema econômico e a necessidade de alcançar a fronteira tecnológica dos países desenvolvidos. Schumpeter inclusive visitou o Japão durante os anos 1930 (WOO-CUMINGS, 1998).

A teoria do Developmental State, por sua vez, enfatiza a necessidade de acumulação de capital através de investimentos produtivos e a questão tecnológica como fator importante da extração de excedente econômico e inserção na economia global. Chang (2011) fala em “production tradition’ of development”, cujo foco é numa “robust transformation in the underlying productive structure and capabilities”. Essa linha de pensamento “producionista”, com ênfase nas “estruturas produtivas” remete aos economistas clássicos Adam Smith e David Ricardo.

Robert Wade (2011) afirma que o Developmental State está ancorado nos trabalhos dos “pioneiros” do desenvolvimento econômico do pós-Segunda Guerra como Rosenstein-Rodan, Myrdal, Nurkse, Hirschman e Prebisch.

No caso específico dos três países, houve uma política deliberada de investimentos maciços em indústrias-chave de setores estratégicos e dinâmicos, que contivessem potencial de incorporação de tecnologia intensiva permitindo uma maior extração de excedente no longo prazo em nível maior do que o mercado, através dos seus mecanismos “naturais”, conseguiria. Com esse objetivo, o Estado intervém no mercado, não de forma a suprimi-lo, mas de guia-lo, comprometido com os fundamentos da propriedade privada, buscando maximizar o crescimento, a produtividade e a competitividade, usando como meios instrumentos burocráticos e institucionais – normalmente associados às agências-piloto estatais –, formulando e executando políticas econômicas. Nesse sentido, o Developmental State observado no leste asiático cumpre a função de “empresário substituto” da qual falava Gerschenkron35 (CHANG & SHIN, 2003, p. 7-11). Quando a fronteira tecnológica com que se depara um país de desenvolvimento tardio, como foi o caso da Coréia, exige mais capital do que o setor privado está disposto a acumular, então não basta apenas criar o ambiente institucional economicamente propicio. Cabe ao Estado,

34 O argumento da proteção à indústria infante já tinha sido expresso por Alexander Hamilton no

século XVIII, mas certamente ele foi incorporado no pensamento coreano através dos escritos de List.

resumindo a tese de Gerschenkron, criar um sistema de crédito, organizando efetivamente a acumulação de capital de maneira a superar os obstáculos de escala, forçando os capitalistas ao limite de sua acumulação de capital, para competir com o mercado internacional e assim avançar sobre a fronteira tecnológica (EVANS, 1993). Uma estrutura financeira baseada em mercado de capitais é típica dos países de industrialização precoce. Os países de industrialização tardia, como consequência da escassez de recursos de capital, necessitam organizar a estrutura financeira através do crédito bancário privado ou estatal.

In Korea, instead of the market mechanism allocating resources and guiding private entrepreneurship, the government made most of the pivotal investment decisions. Instead of firms operating in a competitive market structure, they each operated with an extraordinary degree of market control protected from foreign competition. (AMSDEN, 1989, p. 139)

O fato de o Developmental State priorizar o avanço de posição nos mercados internacionais lhe confere características mercantilistas – ou neomercantilistas, como sugere Johnson (1982). A estratégia agressiva de competição no mercado internacional através de empresas monopolistas, identificada nos países do

Developmental State, utiliza instrumentos mercantilistas clássicos: altas taxas de

importação, subsídios para exportadores e proibição de exportar matérias-primas essenciais para a indústria nacional.

“To summarize, the secret of East Asian trade policy is in its simultaneous and coordinated pursuit of infant-industry protection and export promotion. (…) A successful infant-industry programme needs continued export success if it is to be sustained by a continued inflow of advanced technologies”. (CHANG, 2008, p. 34)

Jung-en Woo (1991, capítulo 4) mostra que o “take-off” desenvolvimentista do início dos anos 1960 encontra paralelo no trabalho de Walt Rostow, “The Stages of Economic Growth”36. A fase de “decolagem” se caracteriza, segundo o autor, pela

realização efetiva de rápido crescimento econômico em um conjunto limitado de setores onde técnicas industriais modernas podem ser aplicadas. O investimento produtivo nessa fase deveria alcançar 10% ou mais da renda nacional, forçando a

36 ROSTOW, W. W. The Stages of Economic Growth: A Non-Communist Manifesto. Cambridge

economia a passar por transformações estruturais. Existem quatro condições para que uma economia atinja o estágio de “decolagem” e, segundo Woo, todas elas foram atingidas com a ascendência de Park ao poder: a) pré-requisitos tecnológicos. Woo argumenta que a sua notável base em capital humano dava a Coréia uma extraordinária capacidade de absorver tecnologias; b) a emergência de um ou mais setores líderes. Na Coréia, o setor têxtil já possuía capacidade de cumprir essa função; c) condições financeiras. O governo tinha acesso à recursos externos e à burocracia pública tinha capacidade gerencial para dar-lhes bom destino; e d) uma liderança política que pudesse mobilizar a sociedade para o crescimento econômico. Para Woo, a subida ao poder do General Park responde à essa condição. “During this decade [1960’s]”, afirma Woo (1991, p. 74), “Korea would indeed take off, in the Rostovian sense, inundating the world market with textile goods, taking wing again in the ‘flying geese pattern’ (…)”.