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2 A RETÓRICA E OS GÊNEROS TEXTUAIS/DISCURSIVOS

2.2 As Conceituações de Gêneros Textuais/Discursivos

2.2.3 Gêneros na Perspectiva de Bazerman (2009) e Bhatia (1993)

2.2.3.1 Bazerman (2009)

O fio condutor da teoria bazermaniana18 é a perspectiva sociointerativa que, por sua vez, está intimamente vinculada ao aspecto histórico e cultural no contexto da linguística aplicada, com ênfase na produção e no uso de conhecimentos retóricos, além de um forte senso antropológico e sociológico.

O autor é filiado à escola de gêneros na linha da nova retórica de base pragmática com pé na filosofia analítica. Esse estudo parte da interação na situação histórico-social, estendendo-se à realidade social para observar conjuntos e sistemas de gêneros, além das atividades, não se limitando às formas individuais.

Assim, a sua convicção central, segundo Marcuschi19, é a de que pelo uso de textos, não só organizamos nossas ações diárias, mas também criamos significações e fatos sociais num processo interativo tipificado num sistema de atividades que encadeia significativamente as ações discursivas.

A perspectiva teórica de Bazerman (2009) apresenta uma natureza mais retórica e histórico-social do que mesmo formal e linguística. Como exemplo disso, há o ensaio sobre as cartas como base social de enorme número de gêneros escritos de nosso cotidiano. Esse ensaio, na verdade, comprova a tese de que os gêneros são formas típicas de usos discursivos da língua desmembrados de formas anteriores, eles nunca partem do zero, mas de uma linha histórica, cultural e interativo dentro de instituições e atividades preexistentes.

Os gêneros não são cristalizações formais no tempo, pois apresentam uma origem sociointerativa. O autor critica a ideia de que gêneros são formas típicas prontas para uso por ignorar vários fatores, tais como as diferenças de percepção e compreensão, o uso criativo da comunicação para atender às novas necessidades comunicativas e a maneira de compreensão do gênero ao longo do tempo. Assim, o gênero se apresenta como uma categoria fundamentalmente sócio-histórica em constante mudança.

Nesse sentido, um gênero é condicionado por outro e não se dá solto na realidade sócio-histórica. O autor observa a sociedade como uma entidade concreta em que os indivíduos estão situados e devem agir colaborativamente, pois são, sobretudo, seres sociais e nesta condição agem discursivamente na sociedade.

18

Refere-se à teoria de Bazerman (2009), recebendo essa adjetivação neste trabalho. 19

Marcuschi faz essa declaração na apresentação do livro de Bazerman, intitulado Gêneros textuais, tipificação e interação que foi organizado por Ângela Paiva Dionísio e Judith Chambliss Hoffnagel, publicado pela Cortez.

Assim, Bazerman (2009, p. 49) entende que os gêneros

são o que as pessoas reconhecem como gêneros em qualquer momento do tempo. Podem reconhecer os gêneros por nomeação, institucionalização e regularização explícitas, através de várias formas de sanção social e de recompensa.

Essa noção de gênero está associada a fato social, à identificação, conforme a função e o propósito comunicativo. O autor apresenta os seguintes conceitos: fato social, atos de fala, tipificação e gêneros, além de discutir o gênero nas ciências sociais, na retórica e na linguística, e apresentar uma metodologia para o reconhecimento de um gênero.

Em quaisquer situações do dia a dia do ser humano, demandam-se vários textos que são produzidos conforme a sequência de eventos existentes. E, nessas ocasiões, diversos fatos sociais são produzidos que, segundo o autor, não poderiam existir se as pessoas não as realizassem por meio da criação de textos.

Nesse sentido, cada texto, bem sucedido, cria para seus interlocutores um fato social. Assim,

os fatos sociais consistem em ações sociais significativas realizadas pela linguagem, ou atos de fala. Esses atos são realizados através de formas textuais padronizadas, típicas, e, portanto, inteligíveis, ou gêneros, que estão relacionadas a outros textos e gêneros que ocorrem em circunstâncias relacionadas. Juntos, os vários tipos de textos se acomodam em conjuntos de gêneros dentro de sistemas de gêneros, os quais fazem parte dos sistemas de atividades humanas (BAZERMAN, 2009, p. 22).

O autor faz um resumo conceitual de sua teoria nesse trecho, apresentando como cada um de seus conceitos está relacionado a outro conceito. Para Bazerman (2009, p.23), “fatos sociais são as coisas que as pessoas acreditam que sejam verdadeiras e, assim, afetam o modo como elas definem uma situação. As pessoas, então, agem como se esses fatos fossem verdades”. Se um indivíduo é acusado de um crime, e as pessoas acreditam que isso ocorreu, de fato, tem-se um fato social, assim como se na sala de aula o professor passa um trabalho para ser entregue numa data X e essa data é uma sexta-feira que fica após um feriado, e o professor, em algum momento, proferiu em sala uma possibilidade de adiamento do recebimento do trabalho, os alunos teriam uma tendência de uma nova data para a entrega, assumindo, assim, um novo fato social.

Os fatos sociais, nesse sentido, são essencialmente relacionados com temas de matéria de compreensão social, ou seja, compartilhados entre o grupo social, de maneira interacional. Segundo o ator, “frequentemente os fatos sociais afetam as palavras que as pessoas falam ou

escrevem, bem como a força que tais enunciados possuem” (2009, p. 24), assim os fatos sociais são determinados por textos.

No âmbito jurídico, os eventos institucionais forenses demandam a produção textual bastante diversificada, seja na modalidade oral ou escrita da língua. Os gêneros acusação e defesa, foco de análise deste trabalho, são fruto de fatos sociais abarcados pela justiça.

O autor destaca a intertextualidade no que se referem aos fatos sociais, pois cria uma compreensão compartilhada sobre o que foi dito anteriormente e a situação atual como se apresenta. Noutras palavras, as referências intertextuais tentam estabelecer os fatos sociais sobre uma nova afirmação que o escritor tentar realizar.

Os fatos sociais, em sua maioria, têm uma dependência dos atos de fala e quando certas formulações verbais são realizadas de forma apropriada, as palavras são consideradas atos completos, sendo respeitados como feitos, ações concretizadas ao serem proferidas, pois segundo Austin (1962), filósofo da linguagem, palavras não apenas significam, mas realizam coisas.

No entanto, para que as nossas ações sejam realizadas de fato, as palavras devem ser ditas pela pessoa certa na ocasião apropriada, senão não terá efeito real. Ora, ao ser proferido pelo juiz de direito “declaro aberta a sessão”, esse enunciado terá um feito autêntico e daí se inicia a referida sessão, porém se qualquer outra pessoa isso dissesse, não teria valor algum, pois tal pessoa não teria autoridade para tal. Esse ato é o chamado performativo feliz, que é aquele ato de fala que, ao ser proferido, realiza ações. Outro exemplo: “eu te perdoo”, no momento que é proferido, já está realizando o próprio ato de perdoar.

Austin (1962) e Searle (1981), que analisaram os atos de fala, apresentam que os tais atos operam em três níveis distintos, quais sejam os atos: locucionário, ilocucionário e perlocucionário. O primeiro refere-se ao que é propriamente dito, como na seguinte situação: um sujeito que está numa sala qualquer profere “Hoje, o dia está muito quente”, esse enunciado faz uma proposição sobre a temperatura do dia, referindo-se ao estado das coisas.

O segundo ato, o ilocucionário, é uma força específica sobre determinado enunciado, é o falar indireto, neste exemplo em tela, seria a intencionalidade do sujeito pelo fato de este indivíduo pedir, de maneira indireta, para que o ar condicionado ou ventilador fosse ligado, ou mesmo abrissem janelas e portas para correr o ar ou a brisa no intuito de minimizar o calor da referida sala.

O último refere-se à recepção/ação do interlocutor acerca dos atos proferidos, é o ato real daquilo que se intencionou, é o chamado efeito perlocucionário, ou seja, é “o modo como as pessoas recebem os atos e determinam as consequências deste ato para futuras interações”

(BAZERMAN, 2009, p 27). Nesse caso, os ouvintes podem-se mostrar satisfeitos e cooperativos ou não. Ainda acerca do exemplo em evidência, o responsável pela sala, em que o tal sujeito está, pode ligar ou aumentar o condicionador de ar ou similar, abrir portas e janelas, ou simplesmente dizer que “as taxas de energia aumentaram” ou “estamos no tempo de poupar energia” ou ainda “o vento tá tão quente e traz muita poeira”.

Em suma, esses três níveis dos atos de fala – o que é literalmente proferido (locucionário), o que é pretendido (ilocicionário) e o efeito real (perlocucionário) – são aplicáveis aos textos, em especial aos da oralidade, mas também aos escritos e que, do ponto de vista retórico, é bastante recorrente no intuito de se obter a adesão do interlocutor a quem se dirige.

Esse processo distintivo dos atos de fala em três níveis mostra como nossas intenções podem ser mal compreendidas e como é difícil coordenarmos nossas ações. Para que haja uma melhor coordenação de nossas ações, Bazerman (2009, p. 29) fala em agir de modo típico, modos facilmente reconhecidos como realizadores de determinados atos em determinadas circunstâncias, pois “seguir padrões comunicativos com os quais as outras pessoas estão familiarizadas, elas podem reconhecer mais facilmente o que estamos dizendo e o que pretendemos realizar”.

Com os padrões facilmente reconhecíveis, torna-se mais fácil descobrir quais as reações das pessoas. Assim, considerando que os padrões se reforçam mutuamente, as formas de comunicação emergem como gêneros. Dessa forma, criar formas tipificadas ou gêneros faz com que se tipifiquem também as situações do cotidiano porque a tipificação dá certa forma e significado às circunstâncias e direciona os tipos de ação que acontecerão.

Esse movimento em direção a formas e enunciados padronizados, que reconhecidamente realizam certas ações em determinadas circunstâncias, e de uma compreensão padronizada de determinadas situações é o que Bazerman (2009) chama de tipificação.

O conceito de tipificação e o de tipos textuais não devem ser confundidos, pois a tipificação refere-se às formas-padrão na constituição dos gêneros, enquanto os tipos textuais referem-se às sequências textuais ou retóricas, como as sequências argumentativas, injuntivas que serão estudadas em tópico mais adiante quando tratar da relação de gênero com tipo textual e domínio discursivo.

A tendência para se identificar e definir gêneros é aquela por meio dessas características sinalizadoras especiais e depois por todas as outras características textuais, apesar de que a definição de gênero como apenas um conjunto de traços textuais ignora o

papel do indivíduo no uso e na construção dos sentidos. Nesse sentido, surge uma compreensão, segundo o autor, mais profunda de gênero que é como fenômenos de reconhecimento psicossocial que são parte de processos de atividades socialmente organizadas.

Assim, o nosso entendimento de gêneros fundamenta-se em Bazerman (2009, p.31),

como fenômenos de reconhecimento psicossocial, [..] são o que nós acreditamos que sejam. Isto é, são fatos sociais sobre os tipos de atos de fala que as pessoas podem realizar sobre os modos como elas os realizam. Gêneros emergem nos processos sociais em que pessoas tentam compreender umas as outras suficientemente bem para coordenar atividades e compartilhar significados com vistas a seus propósitos práticos.

Dessa forma, os gêneros também tipificam além da forma textual, são parte do modo como os seres humanos dão forma às atividades sociais. Configuram-se e se enquadram em organizações, papéis e atividades mais amplas. Para caracterizar os gêneros, o autor propõe conceitos que se sobrepõem, porém cada uma envolve um aspecto diferente dessa configuração, quais sejam: conjunto de gêneros, sistema de gêneros e sistema de atividades.

O conjunto de gêneros constitui-se de uma coleção de tipos de textos que uma pessoa, num determinado papel, tende a produzir. Conhecer os gêneros orais ou escritos que alguém exercita, na sua atividade profissional, faz com que se identifique boa parte do seu trabalho. Já o sistema de gêneros constitui-se dos diversos conjuntos de gêneros produzidos por pessoas que trabalham juntas de uma forma organizada, bem como as relações padronizadas que se estabelecem na produção, circulação e uso desses documentos.

Conforme Bazerman (2009, p. 32), “um sistema de gênero captura as sequências regulares com que um gênero segue um outro gênero, dentro de um fluxo típico de um grupo de pessoas”. Para melhor compreender essa ideia de conjunto e sistema de gêneros, tomamos o seguinte exemplo: um defensor público produz vários gêneros, tais como a defesa, o interrogatório, a petição, mandado de segurança, dentre outros; o promotor produz a acusação ou a defesa, conforme seu entendimento acerca do caso em tela, despacho, vistas do processo, o juiz, por sua vez, produz o interrogatório, despachos, dentre outros. Cada profissional trabalha com um conjunto de gêneros. Juntando todos esses conjuntos, tem-se um sistema de gêneros.

Esse sistema de gêneros faz parte do sistema de atividades do judiciário, pois, ao defini-lo, identifica-se um frame que organiza o seu trabalho, sua atenção e suas realizações,

pois “levar em consideração o sistema de atividades junto com o sistema de gêneros é focalizar o que as pessoas fazem e como os textos ajudam as pessoas a fazê-lo, em vez de focalizar os textos como fins em si mesmo” (BAZERMAN, 2009, p. 34).

Nesse sentido, as práticas linguísticas, que são organizadas por gêneros, por meio das quais as pessoas indicam os traços de tempo, espaço, pessoas, ou seus próprios corpos, constroem o que é discursivamente saliente e, assim, o que forma o contexto relevante para enunciados. O autor, baseado em Giddens (1984), diz:

o gênero se torna um meio de ligar a macrossociologia de papéis, normas e classes à mais recente microssociologia, que, ao olhar detalhes de interações concretas, tem sido cética com respeito às macrocategorias tradicionais que não são facilmente identificadas no nível de encontros únicos entre indivíduos. O gênero fornece um meio para que os indivíduos possam orientar-se e realizar situações de modo reconhecível, com conseqüências reconhecíveis, e assim estabelecer um mecanismo concreto para teorias estruturais, as quais sugerem que a estrutura social é refeita constantemente em cada interação, restabelecendo as relações ordenadas (BAZERMAN, 2009, p. 55-56).

Essa é a perspectiva de Bazerman (2009) acerca dos gêneros dentro das ciências sociais, pois o repertório de gêneros comunicativos numa dada sociedade torna-se o centro das dimensões comunicativas da vida social.

Com relação à Linguística, as preocupações com a linguagem em uso e a análise do discurso têm renovado o interesse no gênero como meio de organizar os aspectos linguísticos em relação à situação situada e, em se tratando da Retórica, o gênero tem uma longa história, pois esta é embasada nos diversos gêneros aos quais a Retórica forneceu conselhos práticos, tais como o jurídico, deliberativo, demonstrativo, sermão, carta comunicação técnica e outros gêneros.

Segundo o autor, o gênero tem dado uma grande contribuição para a compreensão das práticas discursivas acadêmicas e profissionais, e que enunciados altamente individuais e estratégicos são produzidos em formas bastante distintivas e reconhecíveis. Apresenta que o surgimento dos gêneros tem uma relação muito íntima com as mudanças nas relações nos papéis profissionais, às mudanças institucionais bem como o surgimento das normas e identidades profissionais, à ideologia, à epistemologia, à ontologia e à psicologia.

Os gêneros, em sua maioria, possuem características de fácil reconhecimento que sinalizam a espécie de texto que são. Tais características relacionam-se com as funções principais ou atividades realizadas pelo gênero. Nesse sentido, o ser humano tende a ver os gêneros como uma coleção desses elementos característicos. Isso pelo fato de os gêneros

serem reconhecidos por suas características distintivas que parecem dizer muito sobre sua função.

Nessa perspectiva, analisam-se os gêneros selecionando as características regulares que se percebe e descreve a razão para tais características como base no conhecimento de mundo que se tem. Entretanto, há as diferenças de padrões, quando são áreas diferentes, ou seja, o mesmo gênero pode apresentar diferenças na forma quando muda de área. Bazerman (2009) fala das diferenças e semelhanças que podem ser percebidas, ao se analisarem artigos de pesquisa experimentais em Biologia e Psicologia, por exemplo. É o mesmo gênero empregado em campos diferentes. Assim, as diferenças nas formas estão relacionadas às diferenças na organização social e na organização da atividade de cada campo.

É importante observar também que a compreensão do gênero muda quando um campo e o contexto histórico mudam, pois

a análise de sistemas de gênero e de atividades permite avaliar a eficiência dos sistemas totais e a adequação de cada um dos documentos característicos como gêneros em levar adiante aquele trabalho. Essa análise poderá ajudá-lo a determinar se alguma mudança em qualquer dos documentos, distribuição, sequência, ou circulação pode melhorar o sistema de atividades como um todo. (BAZERMAN, 2009, p.43-44)

Bazerman (2009) oferece algumas diretrizes metodológicas para definir e realizar uma investigação sobre gênero, com três pontos, quais sejam: 1) os propósitos e as questões para delimitar o foco da pesquisa devem ser enquadrados, ou seja, devem estar claros; 2) o corpus deve ser definido, ou seja, definir os textos ou coleções que se quer examinar, uma vez que se sabe o que está procurando; e 3) a seleção e a aplicação das ferramentas analíticas, isto é, selecionar as ferramentas apropriadas para examinar as consistências e variações das características, funções ou relações em toda a coleção que ajudam a reconhecer um gênero. Nessa análise, ficará evidente se há ou não alguns padrões relativamente estáveis de textos e atividades.

A noção de gênero do autor em evidência está relacionada às questões sociais, históricas e culturais. Tem como pontos da teoria, o gênero como fato social, os atos de fala e a tipificação com a ideia de conjunto e sistemas de gêneros e sistema de atividades, conforme abordamos. Essa teoria é fundamentada num arcabouço sociológico e interacional, preocupado com as relações humanas, voltada para observações do nosso cotidiano, seja nas

práticas espontâneas diárias ou aquelas, mais precisamente, dos meios institucionais e organizacionais.