2 A RETÓRICA E OS GÊNEROS TEXTUAIS/DISCURSIVOS
2.2 As Conceituações de Gêneros Textuais/Discursivos
2.2.3 Gêneros na Perspectiva de Bazerman (2009) e Bhatia (1993)
2.2.3.2 Bhatia (1993)
Bhatia (1993) traz grande contribuição para o estudo dos gêneros, destaca-se pelo trabalho com os gêneros acadêmicos, mas, em especial, com os gêneros profissionais escritos, ou seja, com o estudo do uso da língua escrita em documentos públicos, jurídicos e empresarias.
A concepção de gênero do autor é bastante influenciada por Swales, porém, há as diferenças. Para Bhatia (1993, p.16),
Swales oferece uma boa fusão de fatores linguísticos e sociológicos na sua definição de gênero, entretanto, ele subestima os fatores psicológicos, diminuindo a importância dos aspectos táticos da construção de gêneros, o que desempenha um papel significativo no conceito de gênero como um processo social dinâmico e não como um processo estático.
Para o autor, cada gênero estrutura a realidade de forma peculiar, o que implica dizer que a mesma realidade provoca uma forma diferente de estruturá-la, caso o sujeito utilize outro tipo de gênero. Bhatia (1993) enxerga a análise de gênero como uma prática multidisciplinar, sendo uma aplicação da análise do discurso que, por sua vez, usufrui de diversas perspectivas teóricas que subsidiam os analistas para as análises conforme os seus interesses.
Nesse sentido, esse autor sugere três orientações para uma compreensão equilibrada de gênero, quais sejam: linguística, sociológica e psicológica ou psicolinguística. A primeira refere-se ao estudo dos traços linguísticos, tais como os elementos gramaticais, lexicais, os estilos, registros e os aspectos discursivos e retóricos.
Silveira (2005, p.98) destaca que o autor apresenta quatro níveis de descrição linguística: a descrição linguística ao nível da superfície que é a análise do registro; a descrição funcional da língua que é a análise retórico-gramatical; a descrição da língua como discurso que são os aspectos interacionais; e a descrição da língua como explicação que é a análise de gênero.
Essa autora salienta que, quando Bhatia (1993) faz alusão à análise do discurso, ele está se referindo ao estudo da língua além dos limites da sentença e que na Linguística assume
vários nomes diferentes, como análise da conversação, análise retórica, análise do texto, dentre outros nomes. Segundo Bhatia (1993), o objetivo de todas essas denominações é entender a estrutura e função do uso da língua para comunicar significados.
A segunda orientação possibilita o analista entender como um determinado gênero define, organiza e comunica a realidade social. Nesse tipo de análise, o texto não é um objeto completo que possui significado em si mesmo, mas deve ser considerado como um contínuo processo de negociação do contexto situacional.
Para Bhatia (1993), os estudos sociológicos devem observar os usos dos recursos linguísticos, pois colaboram com os fins sociais enquanto os linguistas adicionam a explanação sociológica às suas interpretações, ao uso da língua em contextos acadêmicos e profissionais.
A terceira orientação é aquela que focaliza os aspectos táticos ou estratégicos da construção de gêneros. O aspecto psicolinguístico refere-se à análise de gênero com a estruturação cognitiva. O aspecto tático relaciona-se às escolhas estratégicas individuais que o sujeito realiza, a fim de tornar seu texto eficaz, alcançando os propósitos comunicativos. É claro que a escolha dessas estratégias levam em consideração vários fatores, quais sejam: as especificidades da audiência, os meios utilizados, e as convenções e restrições do próprio gênero utilizado.
Bhatia (1993) sugere uma metodologia para análise abrangente de qualquer gênero. Apresenta sete passos que podem ser seguidos na sua totalidade ou mesmo na sua parcialidade, dependendo do interesse do analista. Nesse sentido, esses passos ajudam na nossa análise e identificação dos gêneros, em foco, acusação e defesa. Eis os respectivos passos: 1) o texto-gênero deve ser posto num contexto situacional; 2) a literatura existente sobre o gênero em foco deve ser investigada; 3) a análise contextual/situacional deve ser refinada; 4) o corpus deve ser selecionado; 5) o contexto institucional deve ser estudado; 6) os níveis de análise linguística devem ser definidos; 7) as informações especializadas para a para análise de gêneros devem ser observadas.
O primeiro passo, o texto-gênero deve ser posto num contexto situacional, trata de situar o texto-gênero no seu contexto de produção, usando-se a experiência do gênero em questão do próprio analista ou a de usuários em suas atividades profissionais, observando-se as convenções comunicativas relacionadas ao gênero inserido naquela comunidade que se realiza.
O segundo passo, a literatura existente sobre o gênero em foco deve ser investigada, trata do levantamento da literatura existente acerca do gênero em tela, observando os
seguintes aspectos: análises linguísticas de diversos textos e de gêneros similares ou relacionados ao gênero em questão; metodologias e instrumentos relevantes para o estudo; guias profissionais, manuais que sejam relevantes para o texto em análise; discussões sobre os tipos de interação social, as crenças e demais questões da comunidade que usa o gênero em pauta.
O terceiro passo, a análise contextual/situacional deve ser refinada, trata do refinamento da análise a ser realizada em que devem seguir alguns procedimentos, tais como: as definições de falante ou escritor do texto, da audiência; da comunidade em que o discurso acontece acerca dos aspectos histórico, filosófico e sociocultural, bem como os reconhecimentos de textos e tradições linguísticas, que fazem parte do meio discursivo de determinado gênero, e da realidade extratextual, além da relação do texto e a realidade.
O quarto passo, o corpus deve ser selecionado, trata da seleção do corpus, ou seja, do material para análise, sendo preciso definir claramente o gênero ou subgênero, baseando-se nos propósitos comunicativos, nos contextos situacionais nos quais é usado e nas características textuais, bem como os critérios de análise para uma seleção adequada do corpus conforme o propósito específico, podendo ser apenas um texto longo para uma análise detalhada, vários trechos para uma investigações exploratória ou mesmo uma extensa amostra para apresentar a recorrência de indicadores de fácil identificação.
O quinto passo, o contexto institucional deve ser estudado, trata da necessidade que o analista deve ter para analisar o contexto institucional em que o gênero em foco se realiza, devendo incluir o sistema ou a metodologia na qual tal gênero é usado e as regras e convenções, sejam linguísticas, sociais, culturais, acadêmicas e profissionais.
O sexto passo, os níveis de análise linguística devem ser definidos, trata dos níveis de análise que o analista deve decidir, apresentando três níveis: o dos traços léxico-gramaticais que se referem a uma análise estatística, quantitativa, baseada num corpus de larga escala; o da padronização de texto ou textualização que se refere ao fato de o aspecto da análise linguística realçar o aspecto tático do uso convencional da língua, especificando a forma que os membros de uma determinada comunidade adotam os valores restritos a vários aspectos do uso da língua (do léxico, da sintaxe, do discurso) quando opera um determinado gênero (SILVEIRA, 2009, p.106); e o da interpretação estrutural do texto-gênero que é a análise que enfatiza os aspectos cognitivos da organização linguística do texto, ou seja, a análise das maneiras preferidas de estruturar e organizar, de forma discursiva, a informação no intuito de comunicar intenções.
O sétimo e último passo, as informações especializadas para a análise de gêneros devem ser observadas, trata da necessidade que o analista deve ter de buscar informações acerca do gênero estudado junto a um informante especialista, ou seja, um sujeito praticante da cultura e da disciplina que o gênero é usado na rotina de sua realidade, bem como é recomendável um segundo informante para validar os dados obtidos com o primeiro sujeito informante.
Estes são os sete passos sugeridos por Bhatia (1993) para a análise de gênero. É importante salientar que o autor não considera tais procedimentos como regras a serem seguidas, mas sugestões que podem colaborar no processo de estudo, sendo os passos seguidos nesta ordem apresentada ou parcialmente, conforme os interesses e as adequações demandados da pesquisa.
O autor destaca a importância dos fatores culturais, considerando que são relacionados às atividades comunicativas, pois para ele “o gênero é um evento comunicativo culturalmente dependente e é considerado eficiente na medida em que possa assegurar o sucesso pragmático na administração ou noutro contexto profissional em que é usado” (BHATIA, 1993, p. 108).
Não há nenhum método de análise de gênero que seja perfeito, pois todos têm as suas limitações, entretanto, o autor destaca que o referido modelo possibilita uma descrição mais substancial das variedades funcionais da linguagem falada e escrita mais do que qualquer outro tipo de análise na literatura existente, considerando que ele contempla não somente os propósitos comunicativos do gênero em pauta, mas também as estratégias individuais usadas pelo falante/escrevente para obter seus propósitos.
Além disso, salienta que os passos não devem ser vistos de forma singular, mas na sua pluralidade e que em todas as investigações não é necessário que o analista passeie por todos os passos elencados. Deve haver, obviamente, uma seleção dos passos e níveis que determinado gênero demanda para análise. Não obstante, Bhatia (1993) ainda acrescenta, dizendo que é aconselhável a observação nos três níveis linguísticos.