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A separação tão rigorosa feita por Beccaria entre as convenções sociais e a lei natural pode parecer estranha considerando a vinculação de nosso autor com os teóricos do Direito Natural. Nestes, como se procurou demonstrar, as convenções sociais, os termos do pacto social, são deduções ou derivações lógicas das condições do estado de natureza. Em outras palavras, cada teórico deriva os termos do contrato social de acordo com a forma com que caracterizou o estado de natureza e as leis (naturais) que o governam. E como o estado social é instituído e governado pelo contrato que lhe deu origem, temos entre a lei natural, as convenções sociais e o próprio estado social, por trás da ruptura, uma continuidade lógica. Podemos dizer, por fim, que o estado político ou visa dar plena vigência à lei natural, como em Locke, ou derivando logicamente dele e, sendo a base do pacto, continua a subsistir como idéia reguladora das relações políticas.

A contraposição feita por Beccaria entre a lei natural e as convenções sociais pode ser atribuída a outra referência teórica fundamental presente em Dos Delitos e

das Penas. Trata-se de Claude-Adrien Helvétius e sua obra Do Espírito159. Analisando a

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O impacto desta obra de Helvétius sobre o marquês de Beccaria nos é atestado por um trecho da famosa carta dele a Morellet, em que diz: “A segunda obra que terminou a revolução do meu ânimo foi a do Sr. Helvétius. Ele lançou-me com força no caminho da verdade e foi o que primeiro despertou minha atenção para a cegueira e as desventuras da humanidade. Devo à leitura do “Espírito” uma grande parcela de minhas idéias” (BECCARIA, Cesare. Carta de Beccaria a Morellet. Dos Delitos e das Penas. 11ª ed. Tradução de Torrieri Guimarães. São Paulo: Editora Hemus, 1996, p.159). Gianni Francioni não deixou de notar a importância que as idéias de Helvétius têm em Beccaria, a par das influências contratualistas: “Il ‘sistema’ teorico di Dei delitti e delle pene è frutto della combinazione di precisi blochi concettuali della cultura sei-settecentesca: assunta da Montesquieu la tematica di fondo dell’opera (lo scopo de Beccaria potrebbbe dirsi quello di comporre uma sorta di ‘Spirito delle leggi criminalli’ mutuato dall”Esprit des lois, prelevando altresì da Montesquieu diverse soluzioni di problemi specifici via via affrontati nei Delitti), l’autore connete questa tematica ad un contrattualismo fondamentalmente lockiano, anche se reso spesso tramite suggestioni e immagini che provengono da Grozio, Hobbes e Rousseau. Il quadro filosofico di fondo – la filosofia che propriamente circola nel fortunato pamphlet – è costituito dalla teoria utilitarista di Helvétius.” (FRANCIONI, Gianni. Beccaria filosofo utilitarista in Cesare Beccaria tra Milano e l’Europa: convegno di studi per il 250º anniversario della nascita. Milano: Cariplo- Laterza, 1990, p. 69.). Analisando a citada carta a Morellet, Francioni ressalta, ainda, o destaque especial que é dado ao nome de Helvétius: “La centralità di Helvétius tra le fonti di Beccaria viene esplicitamente dichiarata nella nota lettera ad André Morellet del 26 genaio 1766, vera e propria

presença das idéias de Helvétius em Beccaria poderemos entender o papel secundário atribuído por Beccaria à idéia de direito natural.

A obra de Helvétius, que constitui um sistema de psicologia política, fundada sobre uma ética hedonista e pródiga em adágios anti-clericais e anti-nobiliárquicos, se insere, juntamente com as de autores como Julien-Offroy de la Mettrie, Holbach e Étienne Bonnot de Condillac, dentro de uma corrente de pensamento, desenvolvida no século XVIII, no seio do Iluminismo, que podemos chamar de materialismo radical

francês. O Iluminismo francês é preponderantemente materialista, enquanto isto signifique

empirismo. No entanto, o materialismo radical francês do século XVIII se diferencia dentro do Iluminismo por anular qualquer possibilidade de uma perspectiva metafísica com relação à idéia de alma160, à qual mesmo autores como Voltaire e Diderot não estavam dispostos a renunciar, ainda que criticassem as formulações metafísicas. Nestes autores, em geral, a alma é vista como um resultado mecânico da interação dos processos biológicos

(seppur rapidissima) autobiografia intellettuale del nostro autore: qui Beccaria dedica al philosophe una particolare menzione, nominandolo subito dopo l’‘immortale Presidente di Montesquieu’, autore di quelle Lettres persanes che cinque anni prima avevano provocato la conversione alla filosofia del giovane milanese. Seguono, nell’ordine, i nomi di Buffon, Diderot, Hume, d’Alambert e Condillac, ciascuno dei quali à accompagnato da generiche frasi di stima e di elogio (e manca, significativamente, il nome di Rousseau: ma non bisogna dimenticare che il destinatario della lettera appartiene al gruppo di philosophes col quale il ginevrino aveva rotto ogni rapporto). Nessuno di essi riceve un giudizio così enfatico e circostanziato come Helvétius: dopo le Lettres persanes, afferma Beccaria, il libro che ha prodotto una vera e propria rivoluzione nella sua mente è appunto l’Esprit: ‘c’est lui qui m’a poussé avec force dans le chemin de la vérité et qui a le premier réveillé mon attention sur l’aveuglement et les malheurs de l’humanité. Je dois à la lecture de L’esprit une grande partie de mes idées’. Dichiarazione da prendersi allá lettera, come si può provare com una attenta disamina del testo dei Delitti; nel quale, pure, come è noto, il nome de Helvétius non è mai menzionato.”(FRANCIONI, Gianni. Beccaria filosofo utilitarista... p. 71.). Da mesma forma, Gianmarco Gaspari, valendo da mencionada carta, ressalta a importância de Helvétius para a obra de Beccaria: “Quanto a Helvétius, la sua presenza nell’area terminale della speculazione beccariana non può a sua volta non ricondurci nuovamente al principio di quella, e non soltanto per considerare il ruolo prioritario assunto dalle tesi utilitaristiche dell’Esprit nel tessuto dei Delitti, ma anche perché senza equivoci sia chiara la portata dell’afermazione che s’incontra nella celebre lettera a Morellet del gennaio 1766 [...].” (GASPARI, Gianmarco. Beccaria e la crisi del sensismo. In Cesare Beccaria tra Milano e l’Europa: convegno di studi per il 250º anniversario della nascita. Milano: Cariplo-Laterza, 1990, p. 110.).

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Não significa isto que estes autores abandonem, propriamente, a idéia de alma, mas tão-somente que esta não será mais considerada a partir de uma perspectiva metafísica. Ao contrário, a alma, para estes autores, é uma conseqüência do desenvolvimento das formas orgânicas da matéria. Deve- se fazer uma pequena ressalva com relação a Condillac, autor no qual uma teimosa tendência a reafirmar, isoladamente, teses espiritualistas parece contrastar com o conjunto de seu pensamento onde todo o modus operandi da alma vai depender de sua interação com as sensações primárias.

com o seu meio ambiente. Em outras palavras, o sujeito se transforma em um epifenômeno da objetividade. No campo da psicologia e da teoria do conhecimento, o Iluminismo, de uma forma geral, dá continuidade ao projeto empirista de Locke, enquanto que estes materialistas radicais à influência de Locke somam a de Newton e buscam, explicitamente, encontrar, para as ciências morais, um princípio análogo ao da gravitação universal que o cientista havia encontrado para a Física. Não é aqui o lugar para dissertarmos sobre a importância do impacto da obra do físico inglês sobre o conjunto do Iluminismo francês, que vai muito além dos temas ligados à física e aos astros celestes. De uma certa maneira, pode-se dizer que o espírito de alguns pensadores do século XVIII estava animado pela intenção de criar uma “física” das coisas humanas assim como Newton fez em relação às da natureza. Essa é a razão da busca de um princípio motor para o mundo humano equivalente ao da gravitação universal, que Newton encontrou para o mundo natural. De Holbach e La Metrie a Condillac e Helvétius este projeto aparece.161

Entretanto, o que gostaríamos de ressaltar é que este conjunto de teses desenvolvidas em meio ao iluminismo francês, e de alguma forma um tanto olvidadas pelos historiadores das idéias filosóficas e políticas, constitui justamente as origens remotas de uma outra grande corrente da filosofia, que marcaria de forma indelével inúmeros campos do conhecimento como a ética, a política, a psicologia e a economia: a saber, o utilitarismo.

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Luiz Roberto Monzani descreve o impacto das idéias do físico inglês sobre os filósofos setecentistas de maneira bastante precisa: “A obra de Newton fornecia o exemplo mais sólido e acabado de como o verdadeiro conhecimento se constitui e quais os seus limites: a partir da experiência e, única e exclusivamente, para dar conta dos fenômenos, sendo a pesquisa sobre as substâncias e essências das coisas interditada ao espírito humano. Isso fornece a chave para se entender o pensamento do século XVIII nas suas linhas principais. O empirismo ganha um inusitado valor através da obra de Newton. Mas o admirável na obra desse gênio foi, através desses princípios, conseguir a façanha de reduzir o sistema do mundo físico a um único princípio, o da gravitação. Pela primeira vez na história um conjunto à primeira vista heteróclito de fenômenos era explicado através de um único princípio e, através disso, tornou-se possível a constituição de um verdadeiro sistema do mundo físico. O século XVIII viverá sob o fascínio dessa síntese admirável e partindo do princípio de que se há leis em algum domínio deve haver em toda parte, sua grande obsessão foi encontrar para o domínio espiritual (moral, como se dizia na época) algo similar ao papel exercido pela gravitação, isto é, um princípio unitário que desse conta dessa massa complexa de fenômenos que denominamos humanos. Faltava um Newton das ciências humanas, para falar anacronicamente. E as tentativas não faltaram. Hume, por exemplo, subintitula sua obra principal de Ensaio para Introduzir o Método Experimental na Matérias Morais. Mas ele é apenas um exemplo de uma longa série daqueles que procuram obstinadamente atingir tal objetivo.” (MONZANI, Luiz Roberto. O empirismo na radicalidade: introdução à leitura do Tratado das Sensações. In CONDILLAC, Étienne de. Tratado das sensações. Tradução de Denise Bottman. Campinas: Editora da UNICAMP, 1993, p. 8.).

O utilitarismo, que em solo inglês transformou-se em movimento filosófico e encontrou, em Jeremy Bentham, seu nome mais ilustre e uma de suas primeiras grandes (talvez a maior) elaborações sistemáticas, seria, em seu desenvolvimento mais rigoroso, francamente incompatível com a perspectiva contratualista e jusnaturalista. A presença destas idéias de índole utilitarista, oriundas deste materialismo francês, na obra de Beccaria parece colocar alguns obstáculos para o desenvolvimento mais rigoroso e, digamos, mais clássico das teses contratualistas. As relações estabelecidas entre as duas correntes no interior da obra do marquês e a função que é cumprida por cada uma delas merecem uma análise mais detida.162 Igualmente, o significados políticos e jurídicos mais amplos destas duas teorias políticas, no contexto do século XVIII, merecem ser analisado e talvez possa nos levar a algumas conclusões sobre a posição de Beccaria com relação às questões políticas de seu tempo.163

Concentremos, assim, nossa atenção, por um momento, justamente nas relações entre contratualismo e utilitarismo no interior da obra de Beccaria. Como dissemos, o sistema teórico do utilitarismo apresenta determinados princípios que, quando levados a todas as suas conseqüências, se mostram incompatíveis com os esquemas políticos contratualistas. Esta circunstância levou, algumas vezes à observação crítica segundo a qual Beccaria perdeu-se na confusão de duas correntes não só distintas, mas contraditórias entre si.164 Uma outra postura relata, ao contrário, que as duas correntes teóricas contrapostas se apresentam, no interior da obra de Beccaria, em um “difícil equilíbrio”, como se nosso autor, estando ou não cônscio da contradição entre ambas, de certa forma procurasse sustentar um singular ecletismo filosófico, relutando a abandonar

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Gianni Francioni percebeu bem a importância desta questão: “È rimasto tuttavia al centro della discussione un problema non secondario: ci si continua a chiedere in quali termini possa avvenire, nel pensiero di Beccaria, la conciliazione di contrattualismo e utilitarismo. Molti critici (il Mondolfo fra questi) hanno rilevato nei Delitti una confusione di due correnti teoriche distinte e di fatto incompatibili.” (FRANCIONI, Gianni. Beccaria filosofo utilitarista... p. 69.).

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ZARONE, Giuseppe. Etica e politica nell’utilitarismo di Cesare Beccaria. Napoli: Istituto Italiano per gli studi storici, 1971.

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Além do caso de Mondolfo (conforme a nota 54), também Riccardo Campa, que, em prefácio a uma edição brasileira de Dos Delitos e das Penas, talvez influenciado pelo próprio Mondolfo, afirma: “Beccaria talvez não perceba a contradição existente entre o utilitarismo e o contratualismo [...]”. (CAMPA, Riccardo. Prefácio in Dos Delitos e das Penas. Tradução de Lucia Guidicini e Alessandro Berti Contessa. São Paulo: Martins Fontes, 1997, p. 13.).

duas ordens de argumentação tão sedutoras e de capacidades persuasivas tão fortes.165 Esta postura (representada por Franco Venturi) é, por Gianni Francioni, transformada em uma característica não só de Beccaria, mas de toda uma época do desenvolvimento da teoria utilitarista. Na opinião desse autor, o equilíbrio entre essas duas correntes teóricas é o que caracteriza, não apenas Beccaria, mas grande parte do utilitarismo deste período, que por ele é representado.166 Francioni sustenta sua tese na observação de que as críticas dirigidas à postura eclética de Beccaria em um tom que apontaria para um equívoco insustentável do marquês estariam fundadas em uma leitura anacrônica de seu utilitarismo, mais precisamente em uma retroprojeção do utilitarismo de Bentham no jurista italiano. Assim, estas acusações são possíveis apenas se se parte dos princípios utilitaristas de Bentham, estes sim franca e explicitamente inconciliáveis com o contratualismo. Mas isso, é claro, constituiria um grave erro, pois significaria procurar em Beccaria princípios benthamianos, reprovando-o, depois, por ele não os possuir.167

De tal forma, na opinião de Francioni, diversamente do que acontece no utilitarismo de Bentham (e no utilitarismo pós-benthamiano, em geral), onde se rechaça cabalmente o contrato social e o direito natural, no utilitarismo dos século XVII e XVIII o princípio da utilidade e a idéia de contrato vão aparecer conjugados. Já em Helvétius, e não apenas em Beccaria, este fenômeno é observável.168 Essa afirmação é acompanhada pela

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VENTURI, Franco. Introduzione. In BECCARIA, Cesare. Dei Delitti e delle Pene. Com uma raccolta di lettere e documenti relativi alla nascita dell’opera e alla sua fortuna nell’Europa del Settecento. A cura di Franco Venturi. Torino: Einaudi, 1958.

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“In modo più pertinente, rispetto a precedenti interpreti, Franco Venturi ha segnalato il “difficile equilibrio” in cui le due tendenze filosofiche in questione si presentano nella pagina di Beccaria. Io vorrei cercare di andare più in là, e mostrare come l’equilibrio fra le due componenti del pensiero di Beccaria sia quello che caratterizza gran parte dell’utilitarismo settecentesco.”(FRANCIONI, Gianni. Beccaria filosofo utilitarista... p. 70.).

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Referindo-se às tais críticas, Francioni reage nas seguintes palavras: “Ma si tratta di un’accusa formulabili solo assumendo come pienamente rappresentativa dell’utilitarismo la concezione di Bentham, cioè la teoria che – peraltro prendendo le mosse proprio da Helvétius e Beccaria – viene a collocarsi come capostipite di una scuola di pensiero che avrà fortuna e svilluppi ottocenteschi (nonché una ripresa dai tratti molteplici e complessi nel dibattito filosofico odierno). Sarebbe errato ricercare nel nostro autore dei caratteri che l’utilitarismo presenterà solo da Bentham in poi, per poi magari segnalare come una lacuna la non-presenza in Beccaria di principi che sono esclusivamente benthamiani.” (FRANCIONI, Gianni. Beccaria filosofo utilitarista... p. 70.).

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“Infatti, se (coerentemente ad una presa di posizione che, per il pensiero britannico, risale a Hume) in Bentham, e nell’utilitarismo da Bentham in poi, l’idea del contratto sociale e di un diritto naturale precedente il diritto positivo è esplicitamente rifiutata, diversa è la situazione per quel filone utilitaristico che percorre la filosofia sei-settecentesca, dove principio di utilità e idea del

observação de que o pensamento jusnaturalista e contratualista, ao longo dos séculos XVII e XVIII, era geralmente acompanhado de uma certa “moderna idéia de utilidade”, cujos “pais fundadores” teriam sido, justamente, Hobbes e Locke. Assim, de certa forma, o utilitarismo teria nascido dentro da perspectiva contratualista e jusnaturalista. De tal maneira, desenvolvendo-se dentro destes quadrantes, o utilitarismo demoraria ainda algum tempo até poder se emancipar das suas origens jusnaturalista e, principalmente, contratualista. A conjugação do utilitarismo com uma perspectiva contratualista seria, portanto, uma conseqüência, de certa forma, natural de seu desenvolvimento e não o produto de um incompetente ecletismo filosófico. Seria, aliás, justamente com Helvétius que o utilitarismo começaria a desvencilhar-se do jusnaturalismo, transformando-se em um sistema filosófico, até atingir o nível encontrado na cultura anglo-saxônica com Bentham e Mill.169 Observa, ainda, Francioni, que, no século XVIII, uma importante diferença a separar o utilitarismo inglês e escocês do continental é justamente o fato de, neste, a perspectiva utilitarista não ser nunca o núcleo central das doutrinas filosóficas dos pensadores que o utilizam. Precisamente Helvétius constituiria uma exceção. Evidentemente, isto significaria um importante ponto de inflexão na teoria utilitarista continental, marcando o momento em que ela adquiriria centralidade e proeminência em relação ao contratualismo.

As idéias de Francioni ressaltam alguns pontos importantes e avançam muito na análise das relações entre contratualismo e utilitarismo. De fato, como vimos na parte destinada à teoria do contrato social, há um raciocínio utilitário no âmbito do

contratto sono compresenti, anche se diversamente coniugati. In questo quadro Helvétius – che pure è al di fuori del giusnaturalismo, anche se non è infrequente nelle sue pagine il riferimento a leggi e diritti naturali – rappresenta, prima di Beccaria, l’ultimo grande tentativo di coniugare l’utilitarismo, che si sta costituendo come teoria morale e politica, con la problematica del contratto sociale.” (FRANCIONI, Gianni. Beccaria filosofo utilitarista... p. 70.).

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“Qualsiasi analisi dell’utilitarismo beccariano deve partire dunque da una presa d’atto della netta differenza che intercorre fra utilitarismo sei-settecentesco e successive trasformazioni della dottrina. Hobbes e Locke possono essere individuati come i “padri fondatori” di una moderna idea di utilità che caratterizza nettamente il pensiero europeo dei secoli XVII e XVIII, affiancandosi al motivo giusnaturalistico, anzi intersecandosi con esso. Tuttavia solo con Helvétius l’utilitarismo diventa un vero e proprio sistema filosofico. E si potrebbe sostenere, come da alcuni è stato fatto, che proprio nella seconda metà del Settecento (e proprio con Helvétius) l’utilitarismo comincia a soppiantare progressivamente la teoria giusnaturalistica, per divenire sempre più ciò che sarà in modo organico solo nella cultura anglosassone, principalmente per opera di Bentham e Mill [...]”(FRANCIONI, Gianni. Beccaria filosofo utilitarista... p. 70.).

contratualismo, pelo menos do contratualismo hobbesiano-lockeano. Esse certo utilitarismo se traduz na circunstância de que o estado social ou político nasce de um imperativo da razão instrumental relativo ao cálculo utilitário das conseqüências, onde ele (o estado social) é sempre o mais adequado à consecução de determinadas finalidades consideradas úteis. Em outras palavras, o estado social é um produto racional e, de certa forma, intencional de um ser humano movido por um certo egoísmo utilitário. Pode-se dizer que, no esquema hobbesiano-lockeano, o estado social é um produto da composição de interesses egoístico-utilitários e não, propriamente, de uma finalidade moral que o homem é chamado a cumprir (como seria, por exemplo, o caso do contratualismo kantiano). Em Hobbes, esta racionalidade utilitária aponta para a conservação da vida, enquanto que em Locke, para a conservação da propriedade (o que significa, simultaneamente, a conservação da liberdade). Assim, por motivos que ficam claros, podemos dizer que no interior do contratualismo inglês há um utilitarismo racionalista, isto é, um utilitarismo onde os sujeitos agentes buscam racionalmente a consecução de objetivos considerados úteis.

O que de certa forma vai marcar a passagem deste utilitarismo que orientava o contratualismo inglês para o utilitarismo de Helvétius, Beccaria e Bentham é um deslocamento das atenções da racionalidade dos agentes para a sua passionalidade. Enquanto no primeiro utilitarismo nós temos uma ênfase na calculabilidade racional-

consciente, no segundo a ênfase é no condicionamento passional-inconsciente, onde o

determinante será a associação de idéias baseada no natural hedonismo humano. Enquanto no esquema contratualista o cálculo das conseqüências é (supostamente) feito pelos sujeitos agentes e leva, por um raciocínio lógico (de inspiração matemática170), a um determinado tipo de sociabilidade considerada aquela que atende de forma mais eficaz aos objetivos almejados171, no utilitarismo moderno o cálculo das conseqüências (segundo o princípio da utilidade, que aponta para um critério hedonista de felicidade) é feito pelo sujeito que arquiteta a sociedade e é usado como base para planejá-la da forma que direcione a ação

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Mais precisamente, inspirado nos desenvolvimentos da geometria, conforme vimos.

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Não é necessário recordar cada um dos passos do esquema hobbesiano-lockeano de contrato