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1.2 DETETIVES NA BIBLIOTECA

1.2.3 Begazo + Veríssimo + Borges

Nos dois textos analisados em “Detetives na Biblioteca”, pode-se observar a presença de Borges como personagem, a apropriação dos textos-Borges e a construção dialógica dos textos que colocam em convivência autores vivos e mortos. A ficcionalização do autor é reafirmada tanto através da presença de Borges como personagem quanto pela ficcionalização dos autores contemporâneos que marcam sua voz através de narradores em primeira pessoa. A imagem da biblioteca está presente, nas duas obras elencadas, sendo o lugar que representa a memória, a totalidade infinita e o labirinto. No jogo entre se encontrar e se perder, o leitor busca respostas e encontra perguntas e enigmas, ao mesmo tempo em que os autores, dotados do conhecimento do passado, passam a fazer parte de um grande grupo e de uma grande rede de conexões, colocando-se no centro do labirinto atemporal. Desse mecanismo de criação nascem as versões e as traduções em uma relação infinita de recriação e leitura, pois “leer es en Borges una de las operaciones que mejor pone en escena ese vértigo que nunca deja de sobresaltar a su literatura: la relación entre lo mismo y lo otro, entre la repetición y la diferencia”. (PAULS, 2004, p. 75) Dentro da perspectiva de Pierre Menard, o mesmo é sempre outro e, dessa forma, a escrita não é mais o produto original, mas o fruto de uma memória compartilhada.

Begazo constrói com os textos-Borges uma relação intertextual que se estabelece pela citação do conto, pela apropriação das temáticas por ele abordadas e pela presença de Borges como personagem. As versões propostas reafirmam a temática borgeana das multiplicidades de realidades e a escrita como memória subjetivada pela interpretação. Os papéis de leitores e autores e os limites entre a ficção e a realidade estão no centro do debate. Reedita também os gêneros policial e autoficcional e coloca na voz de um Borges ficcionalizado a tarefa de reescrever seu próprio texto. Do gênero policial se apropria da construção narrativa que busca desvendar um enigma que é arquitetado com o objetivo de envolver o leitor em seu deciframento. Da autoficção utiliza o apelo testemunhal que a caracteriza, mesmo que “O pacto que os narradores podem fazer com seus leitores é quanto à força e à legitimidade de seu relato, fundado numa experiência instável, dividida, estilhaçada, como se fosse verdade, no fundo marcadamente estética.” (NASCIMENTO, 2010, p. 198) Atingem-se, assim, os efeitos do vivido e do real na construção de mais uma versão possível dos fatos.

A partir de uma engenhosa construção narrativa e do uso da enunciação nos trechos em forma de diálogo, Begazo constrói um texto em que a função autoral é compartilhada entre o narrador Begazo e o personagem Borges, já que os dois autores- leitores constrõem diferentes versões do conto. É interessante observar que, de sua posição de personagem, Borges ganha relevo na narrativa a ponto de ditar o andamento da entrevista e da história que narra, o que em vários trechos o torna mais presente que nunca no exercício da autoria e na manutenção de sua identidade nominal. Tem-se, assim, no universo da fabulação, a teatralização de sua presença ausente, tornando possível o encontro entre os dois autores-leitores nas malhas das letras. Quanto à autoria praticada por Begazo, pode-se afirmar que se caracteriza pela reverência ao cânone, pelo estudo pormenorizado da obra de Borges e de sua apropriação na construção de uma reescrita que alimenta a manutenção do estilo, dos mitografemas, dos temas e dos jogos textuais. A relação construída não impediu que a obra manifestasse um estilo próprio e sua presença autoral, demonstrando o livre trânsito pela obra borgeana como fonte de inspiração nos atos apropracionistas.

As mudanças que a função autor e o conceito de originalidade sofreram na produção literária contemporânea também são observáveis no romance Borges e os Orangotangos Eternos de Luis Fernando Veríssimo, pois é uma obra que se propõe em diálogo com a produção de Jorge Luis Borges e Edgar Allan Poe, o que desconstrói a noção de autor criador dotado de originalidade; ficcionaliza o autor Borges quando o transforma em personagem e também se apropria de seus textos-Borges. Possui uma construção narrativa dialógica que através de dois narradores oferece ao leitor mais de uma versão sobre os fatos, estabelecendo com o leitor uma relação horizontal, apresentando leituras sobrepostas a nível estrutural e temático.

Veríssimo cria um texto totalmente composto de referências literárias, em que autores e personagens são transportados de outras obras para um novo universo ficcional, além de ser narrado por um autor-tradutor-leitor e lido como uma versão confessional pelo personagem Borges. Sua obra se apresenta como um texto, como caracteriza Barthes (2004a), que é deslocado de qualquer materialidade e é formulado como trabalho, como produção, numa relação de inacabamento e devir. (p. 67) As funções de autor, tradutor, leitor se imbricam e, no ato de ler e traduzir reside também a função autoral. Essa autoria presente, porém descentralizada, também é praticada por Veríssimo através do autor como falso compilador. Reúne supostos textos escritos por outros, dividindo com seus narradores a função autoral, ressemantizando o

entendimento da criação como edição, leitura e tradução. O efeito da não originalidade é atingido tanto pelas referências intertextuais explícitas em todo o texto das obras e personalidades de Borges e Poe, como pela estrutura dialógica que coloca na cena narrativa autores, narradores e leitores na construção de sentidos.

Nos textos analisados os efeitos do enigma, do testemunho, da memória e da confissão são magistralmente explorados, utilizando a experiência como artifício ficcional. Além disso, autor, personagem e narrador passam a exercer funções autorais, tornando as obras analisadas excelentes exemplares da apropriação dos gêneros policial e testemunhal, das temáticas borgeanas e do nome Borges, promovendo um complexo e emaranhado debate sobre autoria e originalidade.

Os escritores Begazo e Veríssimo trazem Borges ao tempo presente através de suas leituras. São autores-leitores que se utilizam de Borges como matéria literária e tema metaficcional e o reescrevem em seus textos reforçando sua ficcionalização. Alimentam e reeditam assim os mitos e as imagens que o identificam mantendo vivo o autor morto. A presença ausente não retira o autor contemporâneo de seu lugar e de sua função autoral, apenas desloca o conceito de autor para uma posição menos centralizadora no texto e o coloca em convivência com outras vozes. A autoria vista como função textual é exercida através das categorias narrativas, principalmente através dos narradores e personagens. Percebe-se a presença de Begazo e Veríssimo através dos narradores em primeira pessoa construídos a fim de inscrevê-los, e a presença de Borges através dos personagens homônimos que carregam consigo suas mitografias. Dessa forma, é possível fazer conviver de forma não hierarquizada dois autores de tempos e espaços distintos na esfera textual.

2 TEXTOS-BORGES EM REVERBERAÇÕES