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1.1 AUTORIA E SEUS DESLOCAMENTOS

1.1.3 Borges e o(s) Outro(s)

1.1.3.1 Borges Personagem

O fator Borges, isto é, a propriedade, a pegada digital, essa molécula que torna Borges Borges, que Alan Pauls trata em seu livro El Factor Borges de 2000, é composto por vários elementos. Em nove capítulos, cada um dedicado a uma de suas moléculas, Pauls aponta como procedimentos identificatórios: o classicismo, os livros de armas, a política do pudor, a voz argentina, as letras periféricas, a biblioteca, a escrita de segunda mão, a metafísica e a erudição. Em uma perspectiva intertextual, seus textos se impõem e reverberam a partir de seu nome de autor, e a ele são associadas às metáforas de biblioteca, labirinto, cegueira e a temática da leitura do mundo sob a perspectiva do paradoxo, da citação, da leitura e da reescrita.

Seu nome passa à categoria de adjetivo, caracterização construída que reúne estratégias narrativas e mitografias por ele difundidas. Partindo de alguns biografemas que estão sempre presentes em entrevistas e relatos, segundo Lefere (2005), Borges constrói sua automitografia (ou automitofonia) que busca reforçar sua imagem de homem das letras, sábio que se interessa apenas pelo essencial e perene com desapego ao êxito ou ao dinheiro, sem preocupações em ter opiniões contrárias à doxa e indiferente a (re)aprovação da maioria. Essa imagem se perpetua, como afirma Urli (2015):

La insistencia con que los diversos poemas evocan la figura de un Borges ciego, bibliotecario, poeta, amante de los tigres y receloso admirador de los espejos, por citar sólo algunos de los biografemas, no es inocente y de allí que no pueda sorprender que las diversas manifestaciones de la figura de nombre Borges se ensanchen por un

lado, simulen clausurarse por momentos y sean retomadas nuevamente, como si se tratase de una construcción en espiral. (p. 7) A construção da imagem feita através do relato de sua vida e de pequenas práticas, falas ou imagens segue a lógica do arquivo em que se empreende uma série de seleções, classificações e ordenações com a finalidade de garantir o sentido que se deseja imprimir a essa imagem. “Numa autobiografia, a prática mais acabada desse arquivamento, não só escolhemos alguns acontecimentos, como os ordenamos numa narrativa; a escolha e a classificação dos acontecimentos determinam o sentido que desejamos dar às nossas vidas.” (ARTIÈRES, 1998, p. 11) Isso, segundo Artières, torna visível a “intenção autobiográfica” que, juntamente com uma “injunção social” e com a “prática do arquivamento”, comporia os três principais aspectos que caracterizam os “arquivos do eu”. O que poderia aparecer a princípio um processo de objetivação, na verdade, cede lugar a um movimento de subjetivação. Em um mundo em que a escrita se tornou prática determinante, arquivar é forma necessária para a afirmação do sujeito – “para existir, é preciso inscrever-se”, afirma Artières (1998, p. 12). Mas, independentemente de quais os métodos adotados para tal, “o arquivamento do eu não é uma prática neutra; é muitas vezes a única ocasião de um indivíduo se fazer ver tal como ele se vê e tal como ele desejaria ser visto”. (ARTIÈRES, 1998, p. 31)

Na ficcionalização do autor por ele mesmo, “Borges que é revelado na leitura não é exterior à própria obra.” (GOMES JR, 1991, p. 141) Assim como Velásquez, está dentro da obra: “Não mais autor, mas personagem. Não mais idêntico a si mesmo, imitação do autor, mas outro em permanente trabalho de constituição.” (GOMES JR, 1991, p. 141) No entanto, Gomes Jr faz questão de salientar em seu trabalho que, apesar da tentativa de mitificação que realiza, não há aproximação possível entre o escritor e seu personagem. Diferentemente dos trabalhos de Monegal e Anzieu1, que, segundo ele, pressupõem o sucesso do disfarce e a crença de que o autor existe e nele possa se encontrar o âmago da literatura, “o personagem é um outro, é aquele que transforma tudo em „atributos de um autor‟, é aquele que por detrás da identidade não faz mais que ocultar a realidade da diferença.” (GOMES JR, 1991, p. 147)

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O autor se refere aos seguintes textos:

ANZIEU, Didier. Le corps et le code dans les contes de J.L.Borges. Nouvelle Revue de Psychanalyse, Paris, n.3, 1971.

MONEGAL, Emir Rodriguez. Jorge Luis Borges: biographie littéraire, Trad. Alain Delahaye. Paris: Gallimard, 1983.

Esse homem transfigurado em sua própria escrita é lido em diferentes tempos. “La historia de la recepción de Borges, no menos paradójica, va del rechazo por el extranjerizante a su canonización en tanto que emblema de la cultura nacional, demostrando así lo dúctil de esa percepción de la identidad.” (PREMAT, 2006a, p. 10) A imagem controversa de ser considerado ao mesmo tempo nacionalista e cosmopolita alimenta em grande medida o debate sobre o autor ser moderno ou pós-moderno. A crítica contemporânea, cada vez mais busca ler em seus textos um Borges irreverente, manipulador e contraditório, em oposição a um Borges modesto, conservador e classicista de até então. O aparente classicismo criticado anteriormente passa a ser visto como forma de esconder uma dimensão subversiva que na verdade estaria mostrando o caos cósmico e um universo desprovido de sentido. (PREMAT, 2006a) A erudição passa a ser vista como forma de denúncia da falsidade e as citações um efeito caricatural. (MOLLOY, 1999) Dessa forma, seus procedimentos intertextuais deixam de ser lidos como reverência à tradição, mas, ao contrário, como forma de procedimento, de sintaxe (PIGLIA, 2001), em última análise, de ruptura e transgressão.

No campo biográfico, “na medida em que vemos a literatura de Borges fundar-se na ideia da dissolução da autoria, vemos também essa mesma literatura construir-se como uma permanente revelação autobiográfica que se manifesta em vários planos entrecruzados.” (GOMES JR, 1991, p. 101) É o caso, por exemplo, de El Sur em que aparece o episódio do acidente que Borges sofreu nas vésperas de Natal de 1938; Un Ensayo Autobiográfico, que, mesmo respeitando o formato do gênero e estabelecendo todos os pactos com o leitor, é considerada pela crítica sua mais suprema farsa (GOMES JR, 1991, p. 147); e El Hacedor, que “es tal vez el más autobiográfico de todos, en el cuádruple sentido de autor-referencialista, auto«bio»gráfico, autobiográfico stricto sensu y, muy especialmente, automitográfico.” (LEFERE, 2005, p. 97)

Segundo Castelli (1991), quando retoma o trabalho de Paul de Man, a autobiografia apresenta um duplo movimento entre fugir e escutar a voz do morto, de buscar e refutar a inscrição de um sujeito unitário. Um sujeito que se revela como retórica, “como una figura, una emergencia de la postulación de identidad entre dos sujetos: un autor que es una firma y que se declara a la vez (en tanto que narrador y segundo sujeto) objeto de su propia comprensión.” (CASTELLI, 1991, p. 16) Assim como a prosopopeia, figura da retórica clássica que consiste em “poner en escena a los ausentes, los muertos, los seres sobrenaturales o los inanimados.” (CASTELLI, 1991, p. 15) e possui em si a ambiguidade de representar ao mesmo tempo o rosto e a máscara, o

homem e o personagem, a autobiografia também não supõe identidade ou semelhança entre o que carece de rosto ou de voz e aquele que se propõe como sua máscara. (CASTELLI, 1991, p. 16-7) Através da narração aparecem dois sujeitos que não possuem correspondência e sua heterogeneidade aponta que são dois e não um, porque não coexistem no tempo ou no espaço. (CASTELLI, 1991, p. 18)

Dessa forma, há uma escrita biográfica apenas em aparência, preocupada na verdade com a encenação de uma vida. O autor é construído através da autoficção que cria um lugar narrativo para sua existência. A narração de alguns acontecimentos “parecen desempeñar el papel de fijar, en un texto canónico, autobiografemas hasta ahora desperdigados y, así mismo, una versión literalmente autorizada de la vida de Borges.” (LEFERE, 2005, p. 156) Assim, Borges autor suplanta o homem Borges, que permanece desconhecido.