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BEHOLD THE MAN, de Michael Moorcock (1969)

2.2 “IGNOSCENDO DEO!” Ignorando Deus ou relativizando a importância do Cristianismo na compreensão do

2.4 CASOS DE ESTUDO Os títulos escolhidos não exaurem nem a vasta lista dos trabalhos passíveis de serem

2.4.5. BEHOLD THE MAN, de Michael Moorcock (1969)

Nascida da NEW WAVE britânica de forte crítica e pessimismo sociais, esta e outras histórias de Ficção Científica recuperam a temática da viagem no tempo (nascida com H. G. Wells e C. Flammarion, de quem já falámos), desta feita ao Passado e ao tempo de Jesus Cristo.

O romance do aclamado e merecidamente consagrado escritor inglês Michael John Moorcock (1939-) utiliza uma variante da temática enunciada, cujo título parece43 ter

sido inspirado pelo Novo Testamento, versículo 19:5 do Evangelho Segundo São João: “Then came Jesus forth, wearing the crown of thorns, and the purple robe. And Pilate

saith unto them, Behold the man!” (versão da “King James Bible”).

Esta intrigante história de SF retrata os problemas da fé religiosa e os riscos de um impulso messiânico, quando levado às suas últimas consequências.

Um impulso ou arquétipo messiânico44 resulta do retrato feito, por um(a) autor(a), de

uma certa personagem, principal ou secundária, e cujos traços parecem antever ou espelhar os da entidade divina. Jesus Cristo, neste caso. “All men have a messiah- complex” (Pág. 98), assegura Monica, uma personagem, a Karl, o protagonista da história...

Karl Glogauer, cidadão do Século XX é um judeu obcecado desde tenra idade pela figura histórica de Jesus, a sua existência duvidosa e a sua crucificação. A possibilidade de uma viagem no tempo (que mais tarde se afigurará irreversível) ao Passado, leva-o ao ano de 28 d.C. e ao encontro de várias personagens da Bíblia, como alguns apóstolos (os que mencionámos anteriormente no sub-Capítulo 2.3) e o próprio João Baptista, ele próprio figura messiânica, pregador itinerante e uma das personagens principais mais importantes de toda a obra:

43Uma pesquisa mais exaustiva à Bíblia Cristã mostrou que o título poderia, em alternativa, ter sido inspirado pelo Antigo Testamento, versículo 3:22 do Livro do Génesis (“And the Lord God said, Behold, the man is become as one of us”).

44No artigo "The Messianic Idea and Messianic Delusion", escrito por L. Perez (1978), podemos ler:

“The messianic delusional syndrome (…) expresses a serious impairment of identity and reflects a social, cultural and religious reality (…) its clinical features comprise a delusional system, centered on the patient's conviction that he has been chosen by God for a special and intransferable mission. He is a savior and announces resurrection. His delusions have a clear symbolic character. It represents a flight from the human sphere and an attempt to be God. The patient's behavior (…) expresses itself, on the one hand, through preaching

repentance and compassion and, on the other hand, the patient gives up his earthly links and replaces them by parental relations with God”.

According to the New Testament, the Baptist had been killed some time before Christ’s crucifixion. It was strange, however, that John of all people had not heard of Jesus of Nazareth. Did that mean, after all, that Christ had not existed? [Cap. 2, Pág. 17]

Com mudanças de estados de espírito e de comportamento que o aproximam de um quadro patológico lento, mas gradual de demência e de esquizofrenia,

’So – you are our friend. Perhaps more than just our friend…’ Glogauer frowned. ‘I do not follow you.’ He was relieved that the Baptist (…) had decided he was a friend. ‘I think you know what I mean,’ John said. Evidently, the Baptist saw him as fulfilling some role in his own scheme of things [Cap. 5, Pág. 36],

o crescente grau de credibilidade incutido à personagem principal, por Moorcock, faz o leitor incorrer noutras viagens temporais, tais como à infância de Glogauer e à relação com o seu pai, às experiências homosexuais com um tutor, e até aos desaires com crucifixos e mulheres no início da sua idade adulta.

Complexo e contraditório, multi-facetado, e emocional e psicologicamente perturbado, Karl Glogauer oscila entre os extremos da incerteza da sua existência...

“He began to wonder if (…) not an illusion, (…) The idea of a time machine now seemed completely ludicrous to him. The thing was an impossibility” [Cap. 7, Pág. 53],

...e do seu papel enquanto libertador de um povo oprimido pelos Romanos: “Did he really have a mission? Could he alter history and be the one responsible for aiding the Jews to throw out the Romans? For all he knew, he could be the one”. [Cap. 5, Págs. 41-42]

Após descobrir que quer a Virgem Maria, quer o próprio Jesus são completos retardados mentais,

The figure was misshapen. It had a pronounced hunched back and a cast in its left eye. The face was vacant and foolish. It took a crooked, lurching step forward (...) [Cap. 12, Pág. 85] He had seen Jesus, the son of Mary and Joseph. He had seen a man he recognized without any doubt as a congenital imbecile [idem, Pág. 87]

e que aquele nunca viria a cumprir os desígnios esperados, é o próprio Glogauer que assume esse papel: “I am a prophet of sorts. I believe I can foretell the future” [id., Pág. 84].

pensa que toda esta religião irá ocupar: “Religion was the creation of fear. Knowledge destroys fear. Without fear, religion can’t survive” [Cap. 7, Pág. 50].

A forma como a personagem irá sofrer danos físicos incomensuráveis será o meio que permitirá a salvação a outros: a uma pessoa, uma população ou toda a humanidade... “The rabis (...) had accepted him as a holy man” [Cap. 14, Pág. 100].

Será ele realmente de outro tempo, ou terá ele cortado todos os laços com a realidade vivendo algo que é fruto de uma fértil, mas deturpada, perturbada imaginação?

(…) as the prophet’s fame grew. Not only the Roman authorities, but the Jewish ones as well seemed unwilling to tolerate the new prophet as they had tolerated John. Karl Glogauer, witch-doctor, psychiatrist, hypnotist, messiah, taught them how to pretend to eat and take their minds off their hunger. [Cap. 16, Pág. 108]

A forma magistral com que Michael Moorcock descreve esta pessoa-sombra ao longo de toda a história, adjectivando-a da forma mais insólita, é o reflexo da vivência da personagem e da sua caminhada para um desfecho sabido há 2000 anos:

The madman, the prophet, Karl Glogauer, the time-traveller, the neurotic psychiatrist manqué, the searcher for meaning, the masochist, the man with a deathwish and the messiah- complex, the anachronism, made his way through the market place gasping for breath. [Cap. 12, Pág. 87]

No fim, concluimos nós, comprovar a premissa da existência ou não de Jesus deixará de fazer qualquer sentido. Numa entrevista sua e sobre este romance, Michael Moorcock afirmou que não tinha estado interessado em atribuir o rótulo de SF à história; relativamente à máquina do tempo, esse elemento fora reduzido ao mínimo, de modo a privilegiar a perspectiva mais simbólica do objecto: um útero, um renascimento. De igual forma, o papel que a personagem principal desempenha na história adquirirá maior importância que os traços físicos de alguém com quem ela possa assemelhar-se:

The pain filled him. He slumped forward, but nobody released him. He was being slowly asphyxiated. Every part of his flesh, every muscle and tendon and bone of him, was filled with impossible pain. He knew he would not survive until the next day as he had thought he might. [Cap. 19, Pág. 123]

Seja como for, Glogauer jaz morto e apodrece por todos nós:

Later, after his body was stolen (…) there were rumours that he had not died. But the corpse was already rotting in the doctors’ dissecting-rooms and would soon be destroyed. [Pág. 124]