4. CARTOGRAFIAS DE VIAGEM QUE AS FOTOS REALIZAM
4.2. Algumas classificações (e desvios) possíveis
4.2.3. Beleza – cor intensa
Na categoria “Beleza ou Cor Intensa, foram agrupadas apenas 20 fotografias, destacadas em função das características da imagem, com intensidades que se destacaram mais do que as feições da paisagem. Algumas imagens poderiam ser classificadas como informativas ou as da professora de Geografia ou de Turismo, mas na arbitrariedade de todas as rotulações, é preciso reconhecer a subjetividade e as intenções que direcionam as lentes de uma máquina fotográfica. O litoral, as praias, o mar, a zona portuária exercem um certo fascínio sobre a mineira112, assim como as planícies... Das paisagens
de vales e intermináveis ondulações dos mares de morros do sul da Zona da Mata Mineira, às planícies e ao mar que oferecem uma amplidão ao horizonte... Dos diferentes tons de verde à uma gama de azuis...
Na Figura 50 o predomínio da cor azul na vista a partir da Ponte Rio – Niterói, RJ. A nitidez da imagem é um pouco prejudicada pela fotografia em baixa resolução, feita a partir do telefone celular.
Figura 50 Azuis - Rio De Janeiro – RJ.
Foto: ALMEIDA, Maria Aparecida de. 2013.
Nas Figuras 51 e 52 os contêineres coloridos e grandes guindastes fazem a composição da paisagem da zona portuária.
Figura 51 Rio De Janeiro – Zona Portuária (1).
Figura 52 Rio De Janeiro – Zona Portuária (2).
Foto: ALMEIDA, Maria Aparecida de. 2013.
As cores das frutas em barracas à margem da rodovia, emolduradas pelo reflexo da cortina do ônibus, na Figura 53 e do artesanato na Figura 54.
Figura 53 A Feira Na Beira Da Estrada.
Figura 54 O Artesanato Na Beira Da Estrada.
Foto: ALMEIDA, Maria Aparecida de. 2013.
E um homem caminha à margem do rio e outro rio vira oásis em maio às paisagens secas ao redor.
Figura 55 Comunidade Ribeirinha.
Figura 56 O Rio Busca Caminho.
Foto: ALMEIDA, Maria Aparecida de. 2013.
E as paisagens também ficam mais coloridas com as pessoas, que dão vida e movimento aos lugares. Crianças brincando na rua fazem uma cena cada vez mais rara nas áreas centrais das cidades de médio ou grande porte e a região metropolitana se enfeita com os vendedores ambulantes preparando a exposição das camisas e bandeiras para um clássico pernambucano.
Figura 57 Crianças Na Rua.
Figura 58 Futebol.
Foto: ALMEIDA, Maria Aparecida de. 2013.
O solitário senhor junto às casa simples “na beira da estrada” ou à margem da rodovia, camuflado na paisagem. Talvez à espera de algum ônibus ou simplesmente, repetindo um costume das pequenas cidades interioranas ou das periferias das cidades maiores, dos migrantes que levaram a herança do hábito de colocar as cadeiras na calçada, ao final do dia, para “apreciar o movimento e saber das novidades”. Figura 59.
Figura 59 Homem Casa.
Foto: ALMEIDA, Maria Aparecida de. 2013.
As fotografias do arquivo “Beleza – Cor Intensa”, como as demais, foram reunidas em um vídeo não publicado, com o objetivo de analisar o conjunto. As imagens, também de características híbridas quanto à composição, ganharam destaque individual por critérios estéticos e por estarem impregnadas por possibilidades de estórias imaginadas atrás das lentes da viajante e do vidro do ônibus em movimento.
4.2.4. “A primeira noite”.
Das fotografias que não se enquadraram nas classificações criadas e foram descartadas, uma será “resgatada” do subconjunto “noite 1209”, anteriormente parte de “Entremeio 1” e denominada “Alívio” no texto sobre “A primeira noite”.
Na organização das imagens produzidas ao longo da viagem, os grupos “Entremeio 1 e 2” ainda apresentavam subconjuntos temporais nomeados como “Noite 1209” e “Manhã 1309”, entre outros. As dez fotografias d’ “A primeira noite”, a de 12 de setembro de 2013, a etapa inicial da viagem do Rio de Janeiro a João Pessoa não exibem nenhuma qualidade técnica ou visibilidade (Figura 60).
Figura 60 Composição: Noite Viagem.
Mesmo assim, houve a opção pelo resgate da penúltima foto, a da Figura 61. Em um esforço para descrevê-las, pouco seria possível explorar da escuridão das imagens, feitas a partir de um “olhar jornalístico”, mas talvez sejam as mais impregnadas de surpresa, insegurança, desterritorialização e caos.
Se uma “geografia particular” ou um “espaço novo” é produzido no entremeio, segundo Onfray (2009), é necessário delinear a nova comunidade temporária formada, na primeira etapa da viagem.
O tempo para percorrer o corredor de um ônibus, da entrada ao fundo, é mais longo em viagens de maiores distâncias, pelo movimento de organização das bagagens, alimentos, cobertas, travesseiros e acomodações. Os passos lentos são insuficientes para conhecer as pessoas, mas ainda que de relance, formamos uma impressão inicial sobre os novos vizinhos e seus microterritórios. Logo após as poltronas dos idosos113, tinha um homem mais
jovem, com um comportamento bastante agitado e falava sozinho. Mais ao fundo, na fileira do lado do motorista, outro jovem resmungava para a janela, ao lado de um senhor que insistia em sentar no braço da poltrona para conversar com o passageiro de trás, na minha direção. Na penúltima poltrona, mais um jovem, com fones de ouvido e cantando alto as suas músicas religiosas. Enquanto me acomodava na penúltima fila de poltronas à frente do banheiro, junto à janela, o ônibus iniciou a viagem e alguns passageiros trocaram de lugar. Esta breve apresentação de personagens é uma introdução aos escritos seguintes, metamorfoseados em narrativa, que oscila em forma e estilo, para justificar o resgate de uma fotografia noturna e de baixa qualidade técnica, como a da Figura 61.
113 O Estatuto do Idoso (2006) garante a gratuidade de 2 passagens para idosos em viagens
interestaduais. Em caso de ocupação, o idoso tem direito a um desconto mínimo de 50%. As empresas costumam deixar reservadas para este fim as poltronas dianteiras.
Entre o porto e o início da ponte, algumas fotos pelo celular e depois admirar a paisagem...
Ao longo da travessia da ponte Rio – Niterói os passageiros foram se acomodando, trocando seus lugares pelas poltronas duplas que estavam vazias. Alguns mantiveram a posição da passagem, como o falador agitado lá na frente, o “moço que
resmungava” e seu vizinho sentado no braço da poltrona, que eu imaginei parentes,
e o moço cantador, que abaixou o volume da voz , mas manteve alto do volume do seu fone...
Aos poucos, a tagarelice do entorno começa a despertar mais interesse do que a paisagem.
O senhor do corredor reclamava do alto preço da passagem, do desconforto do ônibus e do tempo
perdido em relação a uma viagem de avião. O homem atrás, que devia ter lá as suas desconfianças em
relação ao transporte aéreo ou medo de avião, como eu, pergunta porque, se ele acha tanta vantagem, não foi de avião? E deu a “deixa” para a estória...
Ele era um pedreiro-empreiteiro, que já estava “bem de vida”. Passou a trabalhar por 8 meses do ano no Rio de Janeiro. Estava a caminho da “terrinha” para aproveitar as férias, gastando o dinheiro que conseguiu juntar. Por medo da violência carioca, todo final de ano ele leva praticamente uma
mudança com seus equipamentos de trabalho, entre máquinas e ferramentas. Procurou saber o preço da bagagem no transporte aéreo e desistiu porque o valor dava para comprar várias passagens. Comprou
passagem de ônibus e chegou cedo na rodoviária. Lembrei do meu espanto ao ver um homem na plataforma ao lado de uma pilha de caixas de
papelão, maior que ele. Não teve o perdão na balança. Pagou o excesso de bagagem....
À minha frente, mais um volta-se para o corredor e entra na conversa.
Tinha sido da Marinha e preferia as viagens de navio. Enquanto dizia que negociava carros no Rio e na
Paraíba, “faturando alto”, e fazia o trajeto com frequência.
Fui consultada e depois de registrar a minha
preferência pelas viagens de ônibus, o “quadrado” de conversa tornou-se “triângulo” e os homens seguiam em seus assuntos de negócios e sobre todos os outros... Enquanto a tarde avançava, a conversa fluía e a maioria dos passageiros parecia cochilar...
Com a atenção dividida entre revistas, livros, as paisagens da janela e as conversas ao lado, o tempo passou rápido ...
No fim da tarde, o companheiro resmungão (CR) do empreiteiro acorda com um grito:
- “Você matou a minha mãe!!!!”
Com o susto, o empreiteiro (E) pula no corredor: - “O quê????”
CR: - “Isto mesmo!!!! Você matou a minha mãe!!! Eu lembro!!! Eu vi!!!”
Alguns passageiros levantam as cabeças em seus bancos...
Ainda assustado e perplexo, o empreiteiro manteve a tranquilidade, em dúvida, se era algum tipo de brincadeira estranha do outro e sugeriu:
- “Calma... você sonhou com alguma coisa e acordou assustado. Levanta, vai no banheiro, lava o rosto que passa...”
- “Sô acha?” (O Senhor acha?)
- “Tenho certeza... foi um sonho... vai lá...”
Ele levantou e foi ao banheiro, demorou mais que o habitual e saiu, aparentemente mais calmo e retornou ao seu lugar.
A conversa começa de novo, mais baixa...
De repente, CR levanta outra vez, encosta na janela e começa a gritar...
- “Você tá querendo me enganar!!! Mas eu vi que você matou a minha mãe!!! E eu sei que você tá
querendo me matar também!!! Eu não vou deixar... ou então eu vou ter que te matar!!!!”
Ele gritava o seu refrão inúmeras vezes e cada mais alto. O empreiteiro no corredor argumentava que não o conhecia, nem a sua mãe e que nada tinha
acontecido... Todos já assistiam. Alguns tentavam apaziguar os ânimos...
O moço do fone entoa mais alto o seu hino de louvor... O moço agitado da frente, levanta e posta-se como um comissário de bordo, com a mão esquerda na orelha e na direita, carrega um microfone imaginário:
- “Atenção Comandante Hamilton!! Segue com o helicóptero prá rodovia! Atenção Câmera! Foca em mim! Eu vou contar tudo o que tá acontecendo!!” (E repetia... e repetia... e repetia...).
Eu não sabia se ria ou chorava, mas precisava perguntar ao marinheiro: “Quem é Comandante
Hamilton?” E descobri que é um piloto que faz cobertura aérea de um programa policial vespertino na TV.
CR avisa ao empreiteiro que um dos dois vai ter que sair do ônibus. O outro avisa para CR que não vai sair e que ele pode ir, à vontade...CR pula no corredor, o
empreiteiro desvia e CR começa a correr entre os bancos, indo e voltando em toda a extensão do ônibus.
O louvor fica mais fervoroso e a “cobertura jornalística” continua. Durante as corridas, CR caiu sobre algumas poltronas e pessoas. Cansado, resolveu começar a bater na porta da cabine que separa o motorista dos
passageiros. Os idosos lá na frente, muito apavorados, começaram a bater também, no vidro em frente às suas poltronas.
Após algum tempo, o motorista conseguiu um
acostamento, a fim de parar o ônibus e saber o motivo da agitação na traseira... Ao abrir a porta, foi recebido com uma algazarra de aplausos, assobios, gritos e
cantoria...
O motorista teve uma certa dificuldade para conseguir entender o que estava acontecendo... se é que que
alguém ali estivesse...
Enquanto alguns tentavam explicar, CR continuava a gritar e a querer descer. Quando foi impedido, exigiu continuar a viagem na cabine do motorista, e nessa hora, foi apoiado por todos... com direito a aplausos da assembleia...
O motorista evocou a legislação da ANTT que proíbe passageiros na cabine e avisou que não deveria e nem poderia ficar parado ali, no meio da estrada e da escuridão, esperando por algum tipo de socorro e
faltava “pouco” para a primeira parada, um ponto de apoio da empresa. Tentou argumentar um pouco
mais...desistiu... virou as costas... saiu e trancando a porta atrás de si...
E lá ficamos nós... abandonados à própria “sorte”, entre aqueles sons perturbadores...
Quase todos aninharam-se de volta aos seus lugares. CR continuou a gritar e a esmurrar a porta da cabine. O repórter trocou a frente pelos fundos do ônibus, e foi continuar a transmissão na porta do banheiro... com fundo musical gospel...
E eu comecei mentalmente a tecer considerações sobre a relatividade dos conceitos de tempo e espaço...
Quantas eternidades caberiam em “pouco tempo”? Quantos quilômetros significam “estamos perto”? Por que os celulares ficam sem sinal ao longo das estradas?
Por que a minha ansiedade não acelera o ônibus? Os territórios invisíveis tem fronteiras frágeis... Onde haverá abrigo seguro?
O tempo foi se arrastando...
Até as primeiras luzes surgirem no horizonte... Muito longe...
Procuro o celular e começo a fotografar A esperança de paz...
Não há como precisar exatamente a duração do tumulto dentro do ônibus. Após a chegada ao ponto de apoio, o veículo ainda permaneceu trancado, com todos os passageiros, enquanto o motorista buscava a equipe de socorro médico da concessionária da rodovia para atendimento. O que seria uma parada rápida estendeu-se por duas horas. Com o paciente medicado e encaminhado para a família, a viagem pode continuar. Ficam os registros da memória: sons e imagens meio deslocados e desfocados.
Figura 61 Alívio.
Foto: ALMEIDA, Maria Aparecida de. 2013.
As imagens desfocadas como desvios entre imagens e paisagens. As imagens como dobras na paisagem: há uma grande diferença entre o olhar da fotógrafa e as imagens capturadas pelas lentes das câmaras.