• Nenhum resultado encontrado

2. UMA RELAÇÃO-PROBLEMA: VIAGEM E IMAGEM

2.2. Fotografar é preciso

2.2.1. Memórias das imagens nas escolas e geografias

Na Geografia, o uso de imagens, a princípio ‘croquis’, desenhos e mapas, procuraram oferecer aos textos um recurso de ilustração, de síntese, de “comprovação da realidade”. Quando a Geografia foi institucionalizada como uma disciplina escolar, os livros escolares seguiram essa tendência. No Brasil, como em outros países, a Geografia universitária teve sua constituição posterior à escolar, em função da necessidade de formação de professores na área.

A partir do final do século XIX e ao longo do século XX, houve a popularização do uso das fotografias e das máquinas fotográficas portáteis no mundo, assim como da aerofotogrametria e do sensoriamento remoto, inicialmente com finalidades militares.

Angotti-Salgueiro (2005)63 ao tratar d’ “A construção de representações

nacionais: os desenhos de Percy Lau na Revista Brasileira de Geografia e outras ‘visões iconográficas’ do Brasil moderno”, como as fotografias dos franceses Pierre Monbeig e Marcel Gautherot, aponta para a generalização de uma “cultura visual”, na busca de uma “síntese sobre o pensamento imagético da época”. Inseridas na abordagem vidaliana da geografia brasileira, as imagens tornam-se iconográficas, “por extensão e repetição”, quando “evidenciam itinerários figurativos geograficamente coincidentes resultando em representações (...)”. (2005. Pág. 21) A autora analisa especificamente a série de desenhos de Percy Lau, denominada “Tipos e Aspectos do Brasil”, em seção da Revista Brasileira de Geografia (R.B.G.), a partir de 1939, que contribuíram para a divulgação de imagens, como a mostrada na Figura 2, que estavam de acordo com o processo de edificação do projeto de nação, à época. Essas imagens posteriormente tiveram ampla divulgação, nos manuais universitários e em livros escolares para o ensino fundamental e médio, assim como em alguns atlas escolares ilustrados, como o do Padre Geraldo Pauwels64.

63 Angotti-Salgueiro, Heliana. A construção de representações nacionais: os desenhos de

Percy Lau na Revista Brasileira de Geografia e outras “visões iconográficas” do Brasil moderno. Anais do Museu Paulista. v. 13. n.2. Jul. Dez. 2005. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/anaismp/v13n2/a03v13n2.pdf. Acesso em 1 set. 2017.

64 PAUWELS, Pe. Geraldo José. Atlas Geográfico Melhoramentos. São Paulo: Melhoramentos,

Figura 2: Caatinga.

Desenho de Percy Lau para Tipos e aspectos do Brasil. Acervo da biblioteca do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo.

As reflexões de Angotti-Salgueiro (2005) apontam como questão chave: “A imagem da nação seria conforme os estereótipos de uma ‘imagerie’ construída ao longo do tempo e que se convencionaliza em momentos determinados, ou as imagens, afinal, estão todas lá, na realidade, esperando para serem captadas/escolhidas/recompostas pelo desenho ou a fotografia, em cenas cuja descrição apoia- se em monografias locais, na literatura, em outras fontes?” (2005. Pág. 59).

Ao comparar as séries fotográficas, a autora observa que, além do aspecto documental, ou simples registros como “croquis de diário de campo” sugeridos ao “viajante ativo” ou ao geógrafo-fotógrafo, em alguns casos, a estética sobrepõe-se ao conteúdo. Muitas fotografias foram produzidas para a divulgação da imagem do Brasil, interna e externamente, pelo setor

responsável no governo de Getúlio Vargas65, tendo como características

“composições estudadas, de construções artificiais, não raro sensacionalistas, na linha do fotojornalismo.” (2005. Pág. 60)

Além dos desenhos e as fotografias em preto e branco, a partir da década de 1970, os livros escolares de Geografia no Brasil começam a ser ilustrados com reproduções de fotografias coloridas, com as mesmas características quanto ao conteúdo e estética dos desenhos acima apresentados.

Considerando a influência da abordagem vidaliana na minha formação como geógrafa e futura docente, de acumuladora de imagens para o preparo de aulas e atividades até a produção atual de imagens, com a exploração de outras possibilidades, reitero os escritos de Angotti-Salgueiro (2005).

No prefácio dos Tipos e aspectos atribui-se o estatuto de “documentos geográficos” às imagens da série. O artigo “Arquivo fotográfico do geógrafo” fixa temas e códigos; a “coleção de fotografias” reza o artigo, se faz com “dados que se colhem diretamente da realidade”, as fotografias funcionam como “registro”, para “rememorar” e “reestabelecer” com “fidelidade” o que foi visto. Para uma ciência que se caracteriza pelo estudo dos “fenômenos que se verificam no espaço”, ciência, portanto da “observação que exige multiplicidade de visões” (do texto do artigo, citando P. Deffontaines, em sua Géographie humaine) e que tem um caráter científico e filosófico, mas também um caráter descritivo e realista” (o grifo é meu) estabelece-se um “plano para fotografias geográficas do Brasil”, que parte de duas entradas: “Paisagem” e “O Homem” – que são justamente as mesmas que direcionam a concepção dos Tipos e aspectos.

A insistência em retratar a realidade, praticada pela geografia e a etnologia desde o final do século XIX, comprovada nos textos e coleções, parece-nos hoje um debate datado, pois sabemos que são os padrões culturais que estão na base da percepção dos grupos que registravam as cenas e tipos; no caso específico da representação fotográfica, além da função documental e arquivística clássica desse médium a serviço das duas disciplinas, sabe-se hoje que o caminho da “coisa à

65 Estado Novo, ou Terceira República Brasileira, foi o regime político brasileiro instaurado por

imagem nunca é direto [...] a fotografia não registra jamais sem transformar, construir, criar”. (2005. Pág. 60)

A ressalva do final da citação teve pouco efeito sobre os materiais didáticos de Geografia nos quais me formei professora, ainda no Ensino Médio.

Na constituição docente inicial, realizada no curso “Normal”, correspondente ao ensino médio, com ênfase na formação de professores para as séries iniciais do ensino fundamental, as imagens eram comumente encontradas nos manuais escolares das disciplinas cursadas, e especialmente exploradas, na forma de desenhos, nos livros didáticos destinados à alfabetização dos futuros alunos, uma influência da Cartilha e o método de “Comenius” (1658), como aponta Miranda (2011)66. Devido à necessidade de

produção de grande quantidade de imagens, como os desenhos, para as atividades alfabetizadoras, as figuras, assim como os gráficos e os mapas eram desenhados no “estêncil” e reproduzidos para os alunos através do mimeógrafo67.

As figuras, gráficos e mapas também eram reproduzidos em folhas de acetato ou de celofane, para uso através do retroprojetor68. O barateamento do

custo do equipamento a partir da década de 1990 e o uso de fotocópias para a reprodução de imagens e textos tornou a utilização do mesmo, mais frequente. No curso de graduação em licenciatura em Geografia, na década de 1980, em especial nas disciplinas Didática e Prática de Ensino, os futuros professores eram incentivados a produzir e organizar o seu próprio acervo de imagens a ser usado em aulas. A economia brasileira estava em um período de hiperinflação, com média anual de 330%, e entre 1990 e 1994, média de 764% ao ano69, atingindo especialmente a população assalariada. Nesse cenário, o

valor de uma máquina fotográfica ainda era alto, tal como o preço da revelação das fotografias, o que se refletia nos alunos do curso. O acervo de imagens era

66 MIRANDA, Carlos Eduardo Albuquerque. Orbis Pictus. Pro-Posições vol.22 no. 3 Campinas

Sept. /Dec. 2011. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/S0103-73072011000300014. Acesso: 05/2016.

67 Equipamento que produz cópias a partir de matriz perfurada (estêncil) afixada em torno de

pequena bobina de entintamento interno e acionada por tração manual ou mecânica.

68 O retroprojetor é um dispositivo capaz de projetar imagens ampliadas de textos (ou fotos)

sobre uma tela, ou numa parede. Estas imagens são obtidas a partir de objetos impressos em lâminas de plástico transparentes, popularmente conhecidas como transparências ou acetatos.

composto por coleções de cartões postais, reproduções de paisagens, preferencialmente coloridas, retiradas de revistas ou de calendários grandes, coladas em cartolinas tamanho ofício e identificadas no verso. Um dos objetivos era a utilização das imagens no epidiascópio70, para o enriquecimento

das aulas. O único aparelho existente na cidade de Juiz de Fora, MG, ficava no Laboratório de Estudos Sociais, do Colégio de Aplicação João XXIII, local de estágio curricular obrigatório para as licenciaturas da Universidade Federal de Juiz de Fora.

O futuro professor de geografia deveria também saber utilizar o projetor de “slides” e adquirir um acervo básico sobre os grandes temas que seriam tratados no ensino da disciplina. Também era um equipamento considerado caro e pouco disponível para a maioria das escolas públicas de ensino fundamental.

Nas últimas décadas do século XX, as máquinas fotográficas mais populares eram analógicas e no início do século XXI começaram a ser suplantadas pelos modelos portáteis digitais, barateadas pela economia de escala e com maior capacidade de armazenamento. Ao tratar da utilização da linguagem visual, Bonin (1978) afirma que o homem está habituado a ver, reconhecer formas e imagens. Contudo, à época, as experiências com o cinema tinham pouco mais de meio século e a televisão cerca de vinte anos, não havendo ainda o uso generalizado da comunicação através da linguagem visual, nesses meios, que inseriam o movimento às imagens. Ao longo do tempo, a produção de filmadoras portáteis, e a liberação para a importação desses equipamentos no Brasil, foram aos poucos, incentivando também a produção de imagens, por muitos daqueles que eram antes apenas consumidores de imagens ou meros espectadores. A passagem do uso da “imagem estática” para a “imagem em movimento” reflete-se na ampliação do “acervo visual” escolar, a partir da década de 1990, quando muitas escolas foram equipadas com televisores e “aparelhos de videocassetes”, para a reprodução de filmes em fitas VHS, sendo substituídos mais tarde, por

70 Aparelho utilizado no ensino para a projeção por reflexão (de imagens sobre suportes

opacos ou de pequenos objetos) e para a projeção por transparência (diapositivos fotográficos etc.).

aparelhos “DVD players”, para mídias digitais, que se popularizaram no Brasil a partir de 2003. Esses equipamentos entraram em obsolescência mais rápida que os anteriores, em função dos avanços tecnológicos, pois muitas escolas já tem disponibilidade de acesso à internet, além de computadores e projetores digitais.

Tanto a tecnologia disponível para a aquisição e a reprodução das imagens nos percursos escolares, quanto às mudanças no modo de ver, que o mundo vai produzindo, foi compondo as referências visuais em geografia escolar, fundiram-se ao percurso profissional e em especial, às minhas memórias de professora sobre a produção e o uso das imagens na docência de geografia e cartografia. É importante ainda ressaltar, que a evolução técnica não significou necessariamente, em uma mudança relacionada ao “aspecto de documentário”, de “fiel registro da realidade”, considerado pertinente à imagem, e ao contrário ou “apesar de”, a noção de verdade da imagem sempre esteve presente.

Segundo Rodrigues Lestegás (2002, p. 175)71, a Geografia Escolar,

assim como as outras disciplinas, são compostas por quatro elementos: “uma Vulgata, uma série de exercícios característicos, procedimentos de motivação e um conjunto de práticas de avaliação”. O autor distingue a “Vulgata” como “um conjunto de conhecimentos ou conteúdo explícito compartilhado por professores e considerado como característico da disciplina, [...] um saber absolutamente aceito por todos” 72. Ainda que a Geografia Escolar não tenha

uma orientação teórico-metodológica predominante, a “vulgata” também é influenciada pelos temas recorrentes aos exames de acesso às universidades. Entre os exercícios e práticas de avaliação constam a elaboração e a interpretação de gráficos e mapas temáticos e a capacidade de “comentar uma imagem”. A divulgação por diferentes mídias de imagens relacionadas aos problemas ambientais ou acidentes naturais, temas da atualidade como conflitos sociais, políticos ou econômicos, segundo o autor, pode servir de

71RODRIGUES LESTEGÁS. Francisco. Concebir La Geografía Escolar Desde Una Nueva

Perspectiva: Una Disciplina Al Servicio De La Cultura Escolar. Boletim de la Asociación de Geógrafos Españoles. Nº 33, p. 173-186, 2002. Tradução da autora.

estímulo e comprovar a “utilidade” da Geografia escolar ao debater as questões contemporâneas aos alunos.

É necessário frisar que o trabalho docente, em diferentes escolas, enfrenta menor ou maiores dificuldades relacionadas às diferenças nos processos socioespaciais e das condições da infraestrutura escolar.

A ausência de equipamentos de uso coletivo nas escolas tais como máquinas fotográficas ou filmadoras, poderia ser suprida pelo uso de aparelhos individuais de telefonia celular, devido à evolução tecnológica que reserva à obsolescência os aparelhos citados anteriormente. Contudo, a alternativa de utilização do aparelho celular sofre restrições, ao menos oficialmente, devido a legislação73 que proíbe o uso de celulares e bonés nas dependências das

escolas públicas municipais de Juiz de Fora, MG.

Quando as condições são limitantes, é através do livro didático que a maioria dos alunos tem acesso e usa as imagens na Geografia escolar.

Buscamos traçar acima uma breve e possível arqueologia das imagens no ensino de geografia através dos objetos necessários para fazê-las circular nos ambientes e situações educativos, desde o livro didático, que apontam para a formação de uma memória visual comum, até os materiais criados- impressos pelo professor, que apontam para uma memória mais dispersa das imagens que comporiam a vulgata dessa disciplina escolar.

Desdobrando-se com as memórias, as referências acadêmicas e políticas, emergem outras questões, relacionadas à questão central desta parte da tese: o que leva uma professora de Geografia a fotografar?

Hoje existem grandes bancos de imagens digitais disponíveis aos professores para compor aulas dentro da “cultura geográfica”. O volume de fotografias tiradas ao longo de viagens em ônibus seria justificado pela

73 LEI Nº 11.890 - DE 11 DE DEZEMBRO DE 2009. “DISCIPLINA A PROIBIÇÃO DO USO DE

CELULARES E BONÉS POR ALUNOS NAS DEPENDÊNCIAS DAS ESCOLAS PÚBLICAS MUNICIPAIS E DÁ OUTRAS PROVIDÊNCIAS. Projeto nº 064, de autoria da Vereadora Ana do Padre Frederico. A Câmara Municipal de Juiz de Fora aprova e eu sanciono a seguinte Lei: Art. 1º É proibido o uso de celulares e bonés por alunos nas dependências das escolas públicas municipais, localizadas no Município de Juiz de Fora.”

ausência de ângulos diferentes, detalhes ou singularidades não encontradas nesses bancos de imagens presentes na internet?

A grande produção de fotografias em suas viagens relaciona-se a gestos políticos do professor, para escapar dos bancos de imagens que criam memórias públicas semelhantes?

O desejo da professora de geografia que fotografa sente atração pela ideia do testemunho ocular, no sentido edipiano citado por Deleuze (1988), ou seria a “viagem para comprovar se o que eu penso está lá”; o entretenimento com fotos únicas, a sabedoria geográfica na escolha dos temas, ângulos, enquadramentos?

A escassez de equipamentos e a disponibilidade de imagens ao longo da trajetória docente seriam suficientes para conduzir ao grande número de fotografias tiradas durante uma viagem? A produção e a possibilidade de armazenamentos atuais levam ao excesso na criação de “dispositivos de memória”?

Essa carência de variedade de imagens e a condição tecnológica temporal aliada ao percurso de formação acadêmica parecem ter composto a intensa força que levou e leva a professora a fotografar insistentemente durante suas viagens, como um refúgio, “um pouco de ordem para nos proteger do caos” (DELEUZE e GUATTARI, 2010: 237) 74 ou ainda como “a canção que acalma” (Idem, 2010: 239), ou ainda, o apoio em um “roteiro canônico geográfico” para o “situar(-se)”.

Mas para, além disso, restam muitas perguntas: as fotografias feitas durante a viagem de ônibus seriam uma forma de ocupar as longas horas de insônia, provocadas pelo medo de acidentes na estrada durante a noite ou do motorista dormir ao volante? E nas viagens diurnas, serviriam para ocupar o tédio do silêncio ou dissimular a atenção para o exterior a fim de evitar algum interlocutor inconveniente? Viagens longas e curtas são fotografadas com a mesma intensidade? Depois de sucessivas viagens realizadas sobre o mesmo trajeto, ainda haveria o desejo de fotografar? As diversas forças atuando sobre

74 DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Felix. “Do caos ao cérebro”. In O que é filosofia? 3 ed. Trad.

o corpo no interior do ônibus tem intensidade inferior, igual ou superior às forças externas, aquelas que poderíamos dizer afetam esse corpo provenientes das singularidades de cada lugar por onde o ônibus passa?

Não se pretende aqui respondê-las, mas entrar em seus interstícios para buscar responder a outras perguntas, relativas não ao entremeio-ônibus, mas as reverberações fotográficas para se realizar cartografias de uma viagem.

Quais seriam as “cartografias de viagem que as fotos realizam” através das diferentes “pistas” da experiência espacial que é uma viagem de ônibus atravessada por câmeras fotográficas?

Qual seria a potência da cartografia no sentido de busca de representação do espaço e da cartografia no sentido de analítica do processo de pensamento/ação no encontro com um lugar – nesse caso, um lugar composto por um ônibus em trânsito entre duas cidades, com trajetórias múltiplas que atuam nos corpos ali presentes, no corpo da câmera –, na constituição das “cartografias de viagem que as fotos realizam”?

3. ARQUIPÉLAGO – DESTERRITORIALIZAÇÃO - O MEIO DA