1.2 QUALIDADE DE VIDA E ENVELHECIMENTO
1.2.2 Bem-estar
Este subcapítulo trata da influência do bem-estar na qualidade de vida do sujeito. Inicia com uma discussão geral sobre o tema e apresenta sua divisão conceitual em duas correntes: bem-estar psicológico e bem-estar subjetivo. Aborda a escolha da corrente que adota o bem-estar subjetivo, associando-a à importância desse tema no processo de envelhecimento. Também são apresentados os possíveis fatores que o influenciam, bem como as formas de avaliar a temática.
O bem-estar surge como uma experiência subjetiva valorizada pela psicologia positivista junto ao otimismo, à esperança, à satisfação e à felicidade (Seligman, & Csikszentmihalyi, 2000). Juntamente com o afloramento de novas pesquisas que abordam essa temática, foram descritas duas correntes principais para o estudo do bem- estar (Keyes, Shmotkin, & Ryff, 2002). Uma corrente é baseada nos estudos da felicidade (bem-estar subjetivo) e a outra, no potencial humano (bem-estar psicológico). Essas duas perspectivas refletem paradigmas filosóficos distintos sobre o tema. Enquanto a primeira adota uma visão de bem-estar como prazer ou felicidade, a segunda apoia-se na noção de que o bem-estar é baseado na valorização do funcionamento das potencialidades humanas, ou seja, a capacidade de pensar, usar o raciocínio e o bom senso (Ryan, & Deci, 2001).
Para Lawton (1983), em seu modelo sobre qualidade de vida na velhice, o bem-estar psicológico consiste na avaliação subjetiva da experiência interna do indivíduo quanto à sua vida em geral. Segundo seu modelo, que se aproxima das concepções de Diener et al. (1999), o bem-estar psicológico é um constructo formado por quatro domínios ou indicadores: satisfação com a vida, felicidade, afetos positivos e afetos negativos.
No entanto os estudos de Diener et al. (1999) adotaram a perspectiva do bem- estar subjetivo. Para os autores, o bem-estar subjetivo é considerado como uma dimensão subjetiva da qualidade de vida e se manifesta por meio da satisfação com a vida e de respostas emocionais. Liberalesso (2002), em seus estudos sobre o bem-estar subjetivo, relatou que esse constructo compreende uma avaliação baseada em valores e expectativas pessoais e sociais, bem como em condições orgânicas e psicológicas presentes no indivíduo. Seria uma avaliação pessoal de vivências de capacidade, das condições ambientais e da própria qualidade de vida relacionada a três elementos:
domínio global, específico e estado emocional de aspectos positivos e negativos (Neri, 2005).
De acordo com Diener et al. (1999), a satisfação engloba dois domínios: o global e o específico. O domínio global envolve sentimentos relacionados à vida atual, passada e futura, incluindo também outros aspectos; já a satisfação referenciada a domínios específicos é relacionada a aspectos ligados ao lazer, à saúde, às finanças, à vida pessoal/afetiva e ao grupo de pertença. Os estados emocionais compreendem as emoções, lembrando que os estados de humor positivos estão relacionados à alegria, ao orgulho, ao contentamento, ao amor próprio, ao carinho, à felicidade e ao êxtase; já as emoções negativas são intimamente ligadas aos sentimentos de culpa e vergonha, tristeza, ansiedade e medo, raiva/irritação, estresse, depressão e inveja.
Com o processo de envelhecimento, momento da vida em que as condições gerais da vida podem vir a se deteriorar, espera-se que o nível de satisfação também decline. Porém, apesar de os idosos experienciarem com maior frequência eventos desagradáveis, como a morte de amigos, problemas de saúde, entre outros, eles apresentam níveis de satisfação com a vida estáveis ou até mesmo maiores (Diener, Scollon, & Lucas, 2003). Esse dado mostra que a dimensão do bem-estar subjetivo pode ser um indicador importante do nível de adaptação ao processo de envelhecimento (Guedea et al., 2006).
Nesse grupo etário, as pessoas passam a experimentar e demonstrar emoções com menos intensidade e variedade, passando a ter menos capacidade de decodificação de expressões emocionais. Sob outro ponto de vista, essas alterações podem ser de natureza adaptativa, pois dão possibilidade de os idosos pouparem recursos já escassos e canalizarem os remanescentes para alvos relevantes, otimizando, dessa forma, seu funcionamento afetivo e social (Neri, 2011).
No âmbito da Gerontologia, Liberalesso (2002) reforçou que a avaliação do bem-estar subjetivo não depende apenas da avaliação sob a influência do contexto sociocultural, mas é de extrema relevância a avaliação da capacidade física e mental, que estará relacionada à qualidade das participações em atividades sociais e cotidianas.
Em estudo com idosos no ambiente rural, Sequeira e Silva (2002) verificaram que idosos mais envolvidos com contatos familiares revelaram uma atitude mais positiva face ao envelhecimento. Uma possível explicação para o fato leva em consideração a realidade do ambiente rural brasileiro, onde se verifica que os relacionamentos sociais são numerosos, situação que pode ter a capacidade de
desenvolver um maior contato entre os indivíduos. Nesse caso, os autores que desenvolveram o estudo concluíram que essa condição favorece um nível elevado de bem-estar.
Em um estudo desenvolvido por Fujita e Diener (2005), os autores constataram uma forte relação entre o bem-estar subjetivo e a personalidade de cada indivíduo. Diener (1996) confirmou esse fato, revelando que as características da personalidade são fortes preditores de bem-estar subjetivo. Ainda asseverou que a avaliação do bem- estar subjetivo deve ser abarcada pelo forte princípio de individualidade. Destaca-se que um bom nível de bem-estar subjetivo, conforme Sousa, Galante e Figueiredo (2003), também pode ser decorrente do alcance de objetivos pessoais e mudanças adaptativas. Aspectos como independência, controle, competências sociais e cognitivas podem ser fortes preditores de bem-estar subjetivo elevado.
Clarke (2003) salientou que o senso de ajustamento pode ser afetado pelo impacto que as incapacidades representam na vida dos indivíduos. Nos casos em que as incapacidades estão presentes, muitas das vezes no período do envelhecimento, alterações nos aspectos de autoaceitação e de identidade individual podem ser percebidas. Para o autor, as condições crônicas podem desenvolver mudanças corporais e possuem um efeito drástico sobre o self, pois, nesse caso, o corpo é o meio pelo qual as concepções sobre si são formadas.
Uma pesquisa realizada no município de São Paulo, durante o estudo Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento (SABE), mostrou que 23,8% da população de idosos avaliados apresentaram, pelo menos, uma incapacidade para executar as atividades de vida diária e tiveram reduzida, pela metade, a disposição em considerar a saúde muito boa ou boa na autoavaliação (Lebrão, & Laurenti, 2005). Isso demonstra que o autoconceito sobre saúde e bem-estar subjetivo pode estar relacionado, atualmente, ao grau de dependência ou independência para realizar as atividades de vida diária.
Quanto aos diferentes fatores que interferem no bem-estar subjetivo na velhice, Cardoso e Ferreira (2009) demonstraram, em sua revisão de literatura, que numerosos estudos vêm sendo realizados nas últimas décadas. Em suma, as pesquisas têm demonstrado que o bem-estar subjetivo sofre a influência de múltiplos fatores de natureza física, sociodemográfica e social, como a saúde física (Lawton, Devoe, & Parmelee, 1995; Sarvimaki, & Stenbock-Hult, 2000), a capacidade funcional (Moraes, & Souza, 2005; Paschoal, 2002), o gênero (Adkins, Martin, & Poon, 1996; Koo, Rie, & Park, 2004), a idade (Koo, Rie, & Park, 2004) e as relações familiares (Lawton, Devoe,
& Parmelee, 1995; Moraes & Souza, 2005). Entretanto, para Ryff (1989), os idosos consideram a saúde o elemento mais importante para o seu bem-estar.
Diante de conceitos tão complexos como esses, foi utilizada neste estudo a Teoria das Representações Sociais como arcabouço teórico para melhor compreender os aspectos subjetivos das representações sociais dessas temáticas.
1.3 A TEORIA DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS NO ENVELHECIMENTO