2 OLHOS SOBRE BLIMUNDA
2.2 Bendita Blimunda entre as mulheres!
Há algum tempo, sabe-se que os temas polêmicos consistem em material de que os textos literários, de modo geral, se alimentam. Homens e mulheres adúlteros e incestuosos, triângulos amorosos sempre alimentaram o imaginário de grandes escritores do universo literário. Da mesma forma, não chega a ser surpresa a maneira como José Saramago trata a temática religiosa em suas obras. Polêmico ou não, panfletário ou não, a verdade é que sem Deus sua literatura perderia o sentido, afirma Fernando Gómez Aguilera, (2010), parafraseando o autor lusitano.
Assim, tratar as questões relacionadas a Deus em sua trajetória literária como marca indelével de seu estilo é considerar que, em O evangelho segundo Jesus Cristo, In nomine Dei ou em Caim as marcas subjetivas do autor saltam aos olhos do leitor.
Ainda de acordo com Gómez Aguilera, Saramago
contrapondo-se às concepções ontológicas do Ser Divinal sustentava que o fenômeno divino é produto da imaginação – tudo está no cérebro, asseverava - enquanto atribuía a nossa natureza mortal a fruição com que foi construída a necessidade de transcendência. Morte e Deus se alimentariam, pois, mutuamente.
Cético e próximo do projeto ilustrado, o escritor português dedicou sobeja energia a afrontar mitos e crenças, o que levou a um antagonismo público e permanente com a hierarquia da Igreja e seus satélites. (AGUILERA, 2010, p. 117)
O olhar analítico que se dispõe a lançar sobre a herança por ele deixada requer uma visão em constante preocupação com conflitos internos ou externos que influenciam a condição humana na sociedade.
Como tudo é fruto da imaginação do ser e através dela brotaria a crença ou não em Deus, então Ele seria não mais que uma personagem, assim como tantas que o próprio Saramago criara. Deste processo de criação, nasceu o universo que compõe a obra Memorial do Convento e também a “trindade terrestre, o pai” [padre Bartolomeu de Gusmão], “o filho” [Baltasar Sete-Sóis] e “o espírito santo” [Blimunda de Jesus] (SARAMAGO, 2008, p. 164). Através dos aspectos mágico-religiosos que envolvem Blimunda, o autor lusitano põe na tela literária os questionamentos
apresentados quando o assunto é a crença ou não na existência de um Deus, Senhor de todas as coisas.
Nas palavras do próprio a respeito do tema, assevera:
Há uma coisa clara a levar em conta: eu não posso dizer em consciência que sou ateu, ninguém pode dizer, porque o ateu autêntico seria alguém que viveria numa sociedade onde nunca teria existido uma ideia de Deus, uma ideia de transcendência e, portanto, nem mesmo a palavra “ateu”
existiria nesse idioma. Sem Deus, não poderia existir a palavra “ateu” nem a palavra “ateísmo”. Por isso digo que, em consciência, não posso dizer tal coisa. Mas Deus está aí, portanto falo dele, não como uma obsessão. [Grifo nosso]10
O excerto acima dá conta de que a temática é parte integrante do seu labor literário e, sendo assim, de forma consciente, a personagem Blimunda não foge à luta nesta empreitada. Para ratificar tal afirmativa, retomemos novamente sua estreia na trama para comprovar que, desde o início, esteve envolta em questões religiosas.
Assiste ao cumprimento da pena imposta à mãe, acusada de práticas de bruxaria,
“Mas Deus é grande” (IBIDEM, 2008, p. 12) e ali mesmo Ele faz com que Sete-Sóis entre em seu destino. A partir deste encontro, o autor coloca, em meio a uma sociedade mergulhada na devoção aos preceitos e dogmas da Santa Sé, uma mulher a viver em regime de concubinato – uma vez que o padre-alquimista-cientista não gozaria de autorização divina para celebrar o sacramento do casamento, como fez às personagens – com o homem que acabara de conhecer. Blimunda é uma personagem particularizada em toda obra saramaguiana como criação enigmática, por possuir habilidades que lhe conferem, contraditoriamente, caracteres divinos, sobrenaturais e humanos. Seus impulsos de mulher fiel ao amor intenso que sente por seu marido ilegítimo e o poder de ver e recolher as vontades humanas, suas almas (desejo cego da Igreja Católica, à época) entram em combate direto como o cenário ao qual está inserida: Portugal do início dos setecentos marcado pela grande influência da Santa Igreja sobre o Estado e as ações punitivas do Santo Ofício.
Através de um narrador que se porta, acima de tudo, como parte integrante da história, a vida de Blimunda é exposta vagando entre a condição de semi-deusa e
10 ARIAS, Juan. José Saramago: el amor possible. Barcelona: Planeta, 2008. In: AGUILERA, 2012, p.125.
herege, contando com a ajuda de um verdadeiro exército de santos convocados por um profundo conhecedor da causa religiosa como José Saramago demonstra ser:
Nossa Senhora da Piedade das Chagas, São Francisco Xavier, Santo Aleixo, Santa Clara, Santo Antônio, Santa Estefânia, São Miguel, Santo Elói, São Domingos, Nossa Senhora do Ó, São Francisco de Assis, Nossa Senhora da Luz, Santa Luiza, São Jorge, São Cristóvão, Santo Egídio, só para citar alguns deles, surgem na trama para testemunhar e proteger a caminhada de Blimunda e Baltasar.
Estrategicamente, a narrativa de Memorial do Convento segue um movimento sinuoso, dando vazão a um sistema de metáforas que têm na personagem um contraponto. Certamente, a mais intrigante delas está no fato de a personagem usar o pão – não por acaso, o corpo de Jesus Cristo para o Catolicismo – para “purificar-se” e anular suas visões.
Blimunda a comer o seu pão, e depois que o comeu abre os olhos e vira-se para Baltazar e descansa a cabeça sobre o ombro dele, ao mesmo tempo que pousa a mão esquerda no lugar da mão ausente, braço sobre braço, pulso sobre pulso, é a vida, quanto pode, emendando com morte. Mas hoje não será assim. [...]
Quando Blimunda acorda, estende a mão para o sequitel onde costuma guardar o pão, pendurado à cabeceira, e acha apenas o lugar. Tacteia o chão, a enxerga, mete as mãos por baixo das travesseira, e então ouve Baltasar dizer, Não procures mais, não encontrarás, e ela, cobrindo os olhos com os punhos cerrados, implora, Dá-me o pão, Baltasar, dá-me o pão, por alma de quem lá tenhas, Primeiro me terás de dizer que segredos são estes, [...]
Por que comes teu pão, tendo fechados os olhos, se não o comendo és cega, não o comas para não veres tanto Blimunda, por que ver como tu vês é a maior das tristezas, ou sentido que ainda não podemos suportar.
(SARAMAGO, 2008, p. 73-77)
Como se pode perceber, mais um sacramento importante do Catolicismo é posto à prova. O pão consagrado, o Cristo em si, é utilizado para redimir os pecadores de suas falhas. Com isso, Saramago poria sua criação no patamar de herege se, e somente se, não houvesse por trás de sua carreira de escritor toda essa relação polêmica envolvendo a religião. O prêmio Nobel deixa transparecer nas linhas de seu romance uma teia de significações que, a todo momento, parece testar o leitor quanto a sua religiosidade, sua fé.
A religião, na verdade, é a consciência da insuficiência humana, é vivida na admissão da fraqueza [...] qualquer escolha impõe critérios de julgamento que infalivelmente, a apoiam numa lógica circular: se não há nenhum Deus, só critérios empíricos devem guiar-nos o pensamento e critérios empíricos ou não conduzem a Deus (KOLAKOWISKI, In: BAUMAN, 1998, p. 209)
Diante desta visão referida, em O mal-estar da pós-modernidade, a respeito da religião e de onde residiria o caminho até Deus, vê-se em outra passagem de Memorial a decepção de Blimunda no seu encontro com Deus:
e assim entrou na igreja, esteve no ofício como se a prostrasse a presença de Deus, ouviu o sermão sem levantar a cabeça esmagada ao parecer por todas as ameaças do inferno que caíam do púlpito, e enfim foi receber a sagrada partícula e viu. Durante todos estes anos, desde que se revelara o dom que possuía, sempre comungara em pecado, com alimento no estômago, e hoje decidira, sem nada a dizer a Baltazar, que iria em jejum, não para receber a Deus mas para o ver se ele lá estava.
Sentou-se na raiz levantada duma oliveira, via-se dali o mar confundido com o horizonte, decerto estaria chovendo com força sobre as águas, então encheram-se de lágrimas os olhos de Blimunda, um grande soluço lhe sacudiu os ombros, e Baltasar tocou-lhe a cabeça, aproximara-se e ela não o ouvira. Que foi que viste na hóstia, afinal não o iludira a ele, como seria possível se dormem juntos e todas as noites se procuram e encontram, quer dizer, não serão todas, é certo que há seis anos que vivem como marido e mulher, Vi uma nuvem fechada, Não penses mais do que viste, Penso, como não hei-de pensar, se o que está dentro da hóstia é o que está dentro do homem, que é religião afinal (SARAMAGO, 2008, p. 125-126)
Apesar de a escrita de José Saramago nos confundir a todo instante, nota-se a decepção da personagem e o consequente questionamento acerca da religião. Sua experiência pessoal em nada adiantou para a concretização do seu desejo. Assim, pode-se dizer que os conflitos do criador também são os conflitos da criatura.
O poder de Deus perpassa pelas mãos deste romancista e tal qual o ser divinal, supremo da Igreja Católica, ele pôs na terra, em meio aos mortais, o divino espírito santo encarnado na figura da esposa de Baltazar Sete-Sóis. Uma mulher que se entregou a um relacionamento “não sacramentado na igreja” (SARAMAGO, 2008, p.73), mas que por obra de “outro mais secreto sacramento, a cruz e o sinal feitos e traçados com o sangue da virgindade rasgada” (IBIDEM, 2008, p. 73) estava
“abençoado”; uma criatura capaz de enxergar e arrebanhar as vontades alheias para fazer voar o sonho de um padre consumido pelo desejo de chegar à morada de
Deus e que, por tal habilidade, poderia ser acusada de feitiçaria e terminar seus dias a queimar nas fogueiras da Inquisição.
Não consiste pecado creditar ao autor as atribuições de narrador de quaisquer que sejam as obras literárias das quais se tratam e “ao lermos a obra de Saramago observamos o quanto ele possui o lado épico do narrador, especialmente pela sabedoria, advinda da experiência vivida e apreendida pelo olhar especial de quem olha, vê e repara” (FONTES, 2011, p.85), deste modo, autor escreve para dizer quem és e no caso do escritor português as marcas pessoais são como máquinas que impulsionam o caráter ficcional bem como definem sua personalidade literária.
É comum associar seu fazer literário às questões religiosas, através das quais ele trata a concepção da existência de Deus como fato moldador das atitudes e traz à tona um profundo esclarecimento a respeito de temas que sustentam o Catolicismo. Isso, talvez, na tentativa de provar o quão Deus é desnecessário para a vida do homem em sociedade, trazendo em seu bojo argumentativo a personagem Blimunda.
Cético, ele surge nas linhas de Memorial para comprovar a ideia de que “tudo quanto existe no mundo se explica pelas interações entre os materiais e suas forças, inclusive também o espírito humano! Deus é supérfluo!”(KÜNG, 2010, p. 13). Ainda que os seres que sirvam de elementos corroborativos destes pensamentos vivam em pleno séc. XVIII.