4 OLHOS QUE SE VEEM: JUNTAS, BLIMUNDA E A MULHER DO
4.3 O flerte com a morte
Baltazar deseja ver o homem de acordo com sua imagem externa por compreender que nem sempre aquilo que se vê do outro será agradável, ou, por assim dizer, admirável. No mesmo sentido da recusa, mas de maneira inversa, a mulher do médico deseja que sua visão seja completamente cerrada, “vou cegar, pensou, mas logo compreendeu que ainda não ia ser desta vez eram só lágrimas o que lhe cobria a visão, lágrimas como nunca as tinha chorado em toda a sua vida” (SARAMAGO, 1995, p.188) na tentativa de que lhe seja negada a habilidade de enxergar, metaforicamente, aquilo que Blimunda via como habilidade natural: as profundezas do ser humano.
Enxergar as verdades do mundo é a sina destas mulheres, entretanto o que poderia ser considerado uma prisão, na prática implica uma libertação para ambas.
O olhar privilegiado confere-lhes o direito de transitar por diversos ambientes e de poder tomar decisões importantes de acordo com aquilo que se deixa transparecer diante dos seus olhos e, consequentemente, de formar suas opiniões acerca das mais conflituosas situações.
Assim, com as personagens, José Saramago faz o seu leitor viajar do natural ao sobrenatural e com o calvário da mulher do médico, em Ensaio, lhe dá a oportunidade de experimentar o poder concedido a Blimunda, em Memorial, ver o que há por dentro do ser humano.
mulher do médico compartilhem da mesma experiência: são obrigadas a dar fim à vida de um homem em circunstâncias bem semelhantes.
Com o desaparecimento de Baltazar, sua esposa, antes de ganhar mundo a procurá-lo, decide ir ao Monte Junto, local de pouso da passarola e onde estivera escondida durante o passar dos anos. Sozinha, ela decide pernoitar despercebida em um convento, lá a cena fatal se desenvolverá.
O frade tacteou os pés de Blimunda, afastou-lhe devagarinho as pernas, para um lado, para outro excita-o terrivelmente a imobilidade da mulher, porventura está acordada e lhe apetece o homem, já as saias foram atiradas para cima, já o hábito arregaçado, a mão avança a reconhecer o caminho, estremeceu a mulher, mas não faz outro movimento, jubiloso o frade empurra o membro para a invisível fenda, jubiloso sente que os braços da mulher se fecham nas suas costas, há grandes alegrias na vida de um dominicano. Empurrado pelas duas mãos, o espigão enterra-se entre as costelas, aflora por um instante o coração, depois continua o seu trajeto, há vinte anos que este ferro procurava esta segunda morte. O grito que começou a formar-se na garganta do frade mudou-se em estertor rouco, brevíssimo. Blimunda torceu o corpo, aterrada, não por ter matado, mas por sentir aquele peso, duas vezes esmagador. Usando os cotovelos, empurrou-o violentamente, enfim saiu debaixo dele. O luar mostrou um pouco do hábito branco, a mancha escura que alastrava. Blimunda levantou-se, apurou o ouvido. O silêncio era total dentro das ruínas, apenas o seu coração batia. Apalpou o chão, recolheu o alforge e a manta, que teve de puxar com força porque se enrodilhara nas pernas do frade, e foi pô-los num sítio iluminado. Depois voltou ao homem, agarrou o encaixe do espigão e puxou uma vez, duas vezes. Com a torção do corpo, o ferro devia ter ficado entalado entre duas costelas. Em desespero, Blimunda pôs um pé em cima das costas do homem e, num socão brusco, extraiu o ferro. Houve um gorgolejo espesso, a mancha negra alastrou como uma inundação.
Blimunda limpou o espigão ao hábito, guardou-o no alforje, que atirou para as costas, com a manta. Quando ia sair dali, olhou para trás e viu que o frade tinha umas sandálias calçadas, foi tirar-lhas, homem morto vai por seu pé aonde tiver que ir, inferno ou paraíso. (SARAMAGO, 2008, p.335-336)
Blimunda, obedecendo ao seu desejo, entregou-se a Baltazar aos dezenove anos e não o faria a outro homem. Ao tirar a vida daquele frade ela afirma sua condição de manter-se fiel a Baltazar a qualquer custo e de não ser desfrutada contra a própria vontade. Ainda assim, ela é incapaz de incutir nova pena ao defunto e ao tirar-lhes as sandálias deixa em aberto, para que o leitor decida o destino daquela alma: “inferno ou paraíso”.
A protagonista de Memorial do convento foi capaz de ceifar uma vida em defesa da sua honra, da sua moral e, bem como Blimunda, da sua própria vontade.
A personagem principal de Ensaio sobre a cegueira também se mostra capaz do
mesmo senso de justiça (?) e entrega ao chefe dos cegos malvados a cegueira eterna.
A mulher do médico, que antes tinha estado a contar uma história ao rapazinho estrábico, levantou o braço e, sem ruído, retirou a tesoura do prego. Disse ao rapaz, Depois te contarei o resto da aventura. Ninguém da camarata lhe havia perguntado por que tinha ela falado da cega das insónias com aquele desdém. Passado algum tempo, descalçou os sapatos e foi dizer ao marido, Não me demoro, volto já. [...] Já as levavam para as camas, já as despiam aos repelões, não tardou que ouvissem os costumados choros, as súplicas, as implorações, mas as respostas, quando as havia, não variavam, Se queres comer, abre as pernas. E elas abriam as pernas, a algumas mandava-se-lhes que usassem a boca, como aquela que estava de cócoras entre os joelhos do chefe destes malvados, essa não dizia nada. A mulher do médico entrou na camarata, deslizou devagar entre as camas, mas nem esses cuidados precisava ter, ninguém a ouvira ainda que tivesse vindo de tamancos, e se, no meio da balbúrdia, algum cego lhe tocasse e se apercebesse de que se tratava de uma mulher, o pior que lhe poderia suceder seria ter de juntar-se às outras, nem se daria por isso, numa situação como esta não é fácil notar a diferença que há entre quinze e dezasseis.
A cama do chefe dos malvados continuava a ser a do fundo da camarata, onde se amontoavam as caixas de comida [...] Ia ser simples matá-lo.
Enquanto avançava pela estreita coxia, a mulher do médico observava os movimentos daquele que não tardaria a matar, como o gozo o fazia inclinar a cabeça para trás, como já parecia estar a oferecer-lhe o pescoço. [...] A mão levantou lentamente a tesoura, as lâminas um pouco separadas para penetrarem como dois punhais. [...] Não chegarás a gozar, pensou a mulher do médico e fez descer violentamente o braço. A tesoura enterrou-se com toda a força na garganta do cego. (SARAMAGO, 1995, p. 184-185)
O incidente acontece numa das passagens mais abomináveis da narrativa. O estupro coletivo das mulheres cegas tornara-se uma forma de pagamento pela comida que uns poucos cegos, armados, estavam controlando. A honra, a moral e, sobretudo, a vontade de todas as mulheres, não apenas dela própria, como no caso de Blimunda, estava sendo lavada com sangue, pelas mãos da mulher do médico, que ameaça voltar a fazê-lo, caso necessário.
Chama a atenção o comportamento dos narradores ao descrever as cenas. A preocupação é descrevê-las com o máximo de detalhes do ambiente e dos gestos dos envolvidos. Esta postura contribui para a imparcialidade diante daqueles fatos, uma vez que, diferentemente do que ocorre em outras passagens dos textos, os narradores não tomam partidos, nem propõem a condenação das personagens.
Memorial do convento e Ensaio sobre a cegueira são obras separadas pelo tempo. Tanto pelo tempo em que transcorrem os fatos, quanto pela diferença entre o ano de lançamento do primeiro título em relação ao segundo. Mesmo em tempos distintos, o autor lusitano consegue aliar e unificar as temáticas e a morte surge como solução irremediável para uma situação inaceitável: a violação do corpo da mulher. Do mesmo modo, ao tirar a vida dos seus algozes, as mulheres dão prosseguimento a um processo de libertação dentro das narrativas. Blimunda, logo depois do assassinato, entrega-se à busca obstinada pelo marido e a mulher do médico com seu ato dá início a uma nova vida, se é que se pode chamar de vida no interior do manicômio, pois logo após a morte do cego malvado os estupros coletivos têm fim e os cegos convivas da mulher do médico começam a planejar um ataque aos cegos bandidos.
Saramago, com inconfundível estilo autor reflexivo, através de seu vasto mundo ficcional, explicita a tentativa de representação e a projeção na mulher do médico de um modo de inserção na sociedade, exaltando suas habilidades múltiplas para lidar com os aparelhos sociais. A criação de protagonistas que subvertem a ordem padrão e as bases das leis sociais a fim de instituir novos moldes de se relacionar com o outro e consigo mesmo. Relacionando as duas personas com a temática do crime, da infração das leis, ele apenas reflete o mundo vigente do extra texto, abrindo, como é de costume em suas obras, mais um canal de questionamento.