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O Tráfico Atlântico

Capítulo 3. Bichados e purulentos: o caminho da morte

Até aqui observei existir indícios que podem ser extraídos dos livros de registros de óbitos paroquiais. Indícios do seasoning, por exemplo. Na freguesia rural, os registros apontam para uma possível influência externa sobre a mortalidade. Para a cidade, há também indicação de que houve uma tal influência. O que não fica claro no capítulo anterior é a forma pela qual essa influência se consubstancia.

Para começar a responder essa questão cabe viajar no tempo. Comecemos pela aventura dos escandinavos no Atlântico Norte, tão bem analisada por Alfred Crosby. Cerca de 600 anos antes de Colombo iniciar as discussões sobre a possibilidade de se cruzar o Atlântico, outros europeus, os do noroeste da Europa, fincavam o pé em áreas do norte do mesmo oceano. Primeiro atravessaram o Mar da Noruega e chegaram à Islândia; logo depois a Groenlândia.109

Os escandinavos eram excelentes no trato com bois e vacas. Por possuírem uma ligação estreita com esses animais, sua alimentação era baseada no leite e em seus derivados, e o sistema digestivo do homem escandinavo não sofria com a gordura láctea. Esse detalhe talvez tenha sido crucial para o bom desenvolvimento de expedições escandinavas nas terras geladas da Islândia. Da mesma forma, ao chegarem ao sul da Groenlândia, o leite foi uma poderosa arma no trato com os esquimós locais. Essa população local não só não estava acostumada ao leite, como ao saboreá-lo adoeceu. Nada puderam fazer frente ao avanço dos

109 CROSBY, Alfred W. Imperialismo ecológico: a expansão biológica da Europa: 900-1900. Cia. Das Letras, São Paulo, 2000, p. 53

escandinavos em suas terras. É claro que os europeus não sabiam, mas, indiretamente, esse nutritivo produto abriu caminho à dominação escandinava em áreas do Atlântico Norte.110

Esse episódio serve para ilustrar a questão da diferença existente entre localidades esparsas e separadas por oceanos como são os continentes do mundo. As localidades e sociedades formadas separadamente pela ruptura da Pangéia (o grande continente que teve fim com a elevação dos oceanos há cerca de 200 milhões de anos), constituem ambientes diversos entre si. A falta de ligação ou grandes distâncias entre as sociedades humanas fizeram com que essas se desenvolvessem e formassem suas próprias civilizações, culturas e mesmo patógenos familiares ao corpo desde a infância, além dos diferentes climas e animais, criando assim uma ecologia própria.111

O isolamento de sociedades inteiras, no entanto, foi quebrado constantemente na história da humanidade. Nas conquistas, batalhas, ou nas cruzadas, os parasitas, germes e micróbios viajavam de um lugar para outro, utilizando como meio de transporte o corpo humano. Em 1098, por exemplo, quando os primeiros cruzados marcharam em direção ao leste para libertar as cidades européias do domínio muçulmano, estava junto na marcha uma legião silenciosa e assassina: os patógenos do ocidente. O resultado foi uma grande epidemia, provavelmente de febre tifóide, que acabou por estourar na Síria.112

A existência de epidemias em espaços geográficos distintos, causadas pelo deslocamento de parcelas populacionais que deixam seu território em direção a outros, sacudiu a Europa durante toda a Idade Média. A grande Peste Negra, por exemplo, deixou

110 Idem. Ibdem.

111 Idem. P. 38. Cf. também CURTIN, Phillip D. Death by migration. Cambridge: Cambridge University Press, p. 6

112Elizabeth Harris B323 Levine Science Research Center expôs fragmentos da Enciclopédia de Pragas e Pestilências. Cf em: KOHN, George C. Encyclopedia of Plague and Pestilence. Edited by George C. Kohn, and published by Facts On File, Inc., 1995

seu rastro por todo o continente, num movimento de agonia e dor, no século XIV. A migração dos patógenos aumentou conforme o desenvolvimento das atividades comerciais e dos descobrimentos, pois “as doenças infecto-contagiosas adaptam-se tão bem ao comércio quanto qualquer outro tipo de troca humana”.113

Ao final de 1494, a Sífilis aparece pela primeira vez na Europa, por entre soldados espanhóis na Itália. Muitos diferem quanto à origem, mas há indícios de que seja um sintoma do contato entre ameríndios e europeus. Outro sintoma desse contato foi a Varíola.114

Segundo a Enciclopédia de Pragas e Pestilências, as ditas “bexigas”, antecederam a conquista de Cortez no México. Provavelmente com a chegada das embarcações chefiadas por Panfilo de Narvaez, em 23 de abril 1520, deu-se a epidemia da peste que dizimou o Império Azteca e facilitou a tarefa de conquista. Por sua vez, o Império Inca também foi assolado pela varíola de 1525 até 1527, que matou inclusive o soberano Huayna Capac, enfraquecendo o sistema político do Império e abrindo caminho à dominação espanhola.115

A composição de plantas, animais e microvidas é o que se chama de biota. Esse conjunto que pode ser transportado em longas viagens, e certamente o foi pelos europeus, é denominado de biota portátil. Um exemplo notável desse transporte, e mesmo da biota portátil agindo sobre sociedades diferentes, foi o do cavalo na conquista das Canárias. Lope Fernandez, conquistador europeu em Tenerife, se viu frente a frente com um grupo de guanchos e só se saiu vitorioso porque já conhecia o cavalo e a arte da montaria, enquanto a população local não.116

113 CROSBY, op. Cit. P. 190

114 Idem.

115 Idem. Ibdem. Segundo Alfred Crosby, o primeiro registro da doença em terras americanas só iria acontecer por volta de 1630, em Massachussets.Cf. CROSBY, op. Cit. P. 180.

116 Idem. P. 87.

A formação de biotas distintas em cada ponto do globo, talvez fosse um dos grandes obstáculos para convivência entre dois grupos diferentes. Assim, regiões que receberam levas de imigrantes estremeceram diante do impacto do encontro entre microvidas diferentes.

Alertando que esse momento foi marcado por uma prática médica que não havia atingido ainda um viés puramente científico - o que só aconteceria na segunda metade do século XIX117 .

Como qualquer migração, a africana que se destinou às Américas causou impactos brutais por onde quer que tenha passado.118 Uma vez observado que por alguns períodos o tráfico influenciou a mortalidade escrava, cabe agora observar como essa mortalidade se consubstanciou. Nesse sentido, a análise dos doentes contidos nos inventários post-mortem dá importantes indicações. Faço um pequeno adendo para dizer que esses inventários dizem respeito às propriedades fluminenses de territórios, agrário e urbano, fluminense. 119

Os inventários são elaborados para reunir todos os bens de um determinado senhor, que possivelmente em idade avançada, quer ter uma melhor visão de seu patrimônio. Havia escravos entre os bens obviamente. A quantidade de escravos variava muito de acordo ao tamanho do plantel. De todos os escravos reunidos nos inventários, cerca de 17% foram anotados como sendo de alguma patologia. Esse percentual pode enganar o investigador. Se fosse apenas essa a cifra dos escravos inventariados doentes, estaríamos diante de uma população bastante saudável, o que acredito não ter sido o caso. Manolo Florentino aponta para a sub-enumeração dos inventários no tocante aos escravos doentes. O autor sugere que

117 CURTIN, op. cit. Prefácio, 35-59

118 KARASCH, op. cit. p. 208 e FLORENTINO, Em costas..op. cit. P. 56-57.

119 Agradeço a cessão da documentação a Manolo Florentino, a partir de uma idéia de José Roberto Góes.

o número mais próximo da realidade era duas ou três vezes maior.120 É essa população que agora tentarei trabalhar.

Os meios urbano e rural

A começar pelo quadro geral da população escrava (africanos e crioulos), nos meios urbano e rural fluminense, parece que os inventários podem elucidar algumas questões relativas às enfermidades que acometiam os escravos e como elas se efetivavam nos plantéis fluminenses. Quais doenças? Tentar uma lista pormenorizada das enfermidades não foi meu intuito nesse estudo, pois os inventários não constituem o melhor tipo de fonte para tal empreendimento. O olhar leigo que registrou um doente não soube os pormenores que um médico poderia ter sabido.

A tentativa de uma catalogação de doenças já foi feita por Mary Karasch, a partir dos Registros de óbitos da Santa Casa de Misericórdia. Muito embora ofereçam apenas um perfil urbano dos males dos escravos, a autora constrói um quadro geral do sistema orgânico humano e distribui cada doença, localizada no registro de óbito, em seu grupo específico.

Volto a enfatizar, no entanto, que o poder das infestações no ambiente rural não é percebido, pois “os escravos cariocas defrontavam-se com problemas especiais de adaptação que os das regiões rurais não tinham”.121 Aqui, desejo apontar o impacto da migração compulsória de homens sobre a configuração das doenças dos escravos no campo e na cidade que são o próprio caminho em direção à morte.

120 FLORENTINO, Em costas...op. cit. 56.

121 KARASCH, op. cit. p. 208. Onde tamb ém se lê: “Ao contrário das fazendas do interior, onde os cativos raramente encontravam gente de fora, o porto recebia doenças da África...”

Para chegar até o grupo patológico, parti de uma análise prévia realizada por Manolo Florentino e a aprofundei.122 Foram elaborados, a partir das informações dos inventários, oito grupos de patologias: infeccto-contagiosas, carenciais, traumas, tumorais, reumáticas, psico-sociais, má-formações, indeterminadas e disfunções.

Nessa análise foram excluídas as enfermidades que classifiquei como

“indeterminadas” e “disfunções”, por serem ambas resultado de apontamentos peculiares feitos pelo responsável na elaboração do inventário, e que não informavam o bastante a respeito dos males e sintomas.123 Sendo assim, a análise de uma “disfunção”, ou doença

“indeterminada”, não contribuiria para o estudo, já que podem ter sido patologias infecto-contagiosas ou apenas indisposição momentânea, não aparecendo maiores referências nos inventários. A permanência desses grupos, nas tabelas e gráficos, acabaria por distorcer os resultados.124