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3.2 BILINGUISMO E LÍNGUAS EM CONTATO

3.2.1 Bilinguismo e bilingualidade

Nos estudos linguísticos recentes é crescente o interesse por temas relacionados ao bilinguismo, principalmente no que se refere às vantagens cognitivas associadas ao domínio de mais de uma língua. Juntamente com a expansão da área se dá a busca por definição coerente e realista sobre o que é ser bilíngue, e, assim, em que consiste o bilinguismo.

Bloomfield (1956 [1933], p. 56) define bilinguismo como o “controle de duas línguas como falante nativo”27. Essa definição toma como parâmetro crianças que se tornam bilíngues desde os primeiros anos de vida, de modo que, para o autor, é bilíngue o indivíduo que demonstra alto grau de desempenho em uma língua além da sua língua materna. Trata-se do bilíngue perfeito, conforme Hamers e Blanc (1989).

A concepção de que o falante bilíngue tem idênticas habilidades em ambas as línguas não foi mantida em estudos subsequentes sobre diferentes situações de bilinguismo. Para Weinreich (1974 [1953]) e Grosjean (1982, 1989, 2010), bilíngue é a pessoa que utiliza duas línguas alternadamente nas diversas situações da vida diária; bilinguismo é o uso alternado de duas línguas28. Para Grosjean (1989), o bilíngue não pode ser analisado como se fossem dois

monolíngues na mesma pessoa, tendo em vista que é preciso considerar a situação particular do indivíduo bilíngue: podem haver diferenças no uso relativo de cada língua e, além disso, trata- se da habilidade de um mesmo indivíduo de se comunicar por meio de dois códigos distintos.

27 “native-like control of two languages”.

28 Grosjean (2010) afirma que bilíngue é a pessoa que utiliza duas ou mais línguas na vida diária; não diferencia,

portanto, bilinguismo de multilinguismo. A diferenciação entre bilinguismo e multilinguismo não será abordada no presente estudo.

Conforme Grosjean (2010), se fossem considerados bilíngues somente os indivíduos que têm fluência como falante nativo em duas línguas, o termo bilíngue não seria utilizado para identificar a maioria das pessoas que usa regularmente mais de uma língua. Nessa perspectiva, leva-se em conta o fato de que o bilíngue, de modo geral, utiliza cada uma das línguas em contextos sociais diferentes, para propósitos distintos. O bilinguismo relaciona-se, portanto, ao uso de determinada língua em situações particulares, que também influenciam o repertório e as habilidades linguísticas do indivíduo em cada um dos sistemas.

O entendimento do bilinguismo como fenômeno essencialmente dinâmico está nas propostas de Hamers e Blanc (1989) e Savedra Barretto (2009), que distinguem bilinguismo de bilingualidade. Conforme essas propostas, bilinguismo é a situação de coexistência de duas línguas num determinado espaço social, e bilingualidade diz respeito aos diferentes estágios de bilinguismo pelos quais os indivíduos passam em sua vida. Considerando tal distinção, estudos envolvendo bilíngues precisam identificar o estágio de bilingualidade do indivíduo no momento em que sua produção linguística ocorreu.

Savedra Barretto (2009) propõe a verificação de duas dimensões de bilingualidade: contexto de aquisição das línguas e uso funcional variado em diferentes etapas da vida do indivíduo. No que se refere ao contexto de aquisição, propõe a análise da origem da condição bilíngue distinguindo três situações distintas, explicitadas a seguir:

a) as duas línguas são adquiridas ao mesmo tempo na infância e podem ser consideradas L1 (L1a + L1b);

b) uma língua é adquirida posteriormente à outra antes de a primeira ter sido maturacionada (L1 + L2);

c) uma língua é adquirida posteriormente à outra depois de a primeira estar maturacionada (LM + LE – língua materna + língua estrangeira).

Conforme a autora, a situação L1a + L1b diz respeito à aquisição de duas línguas simultaneamente na infância, sendo possível também nesta fase a situação L1 + L2; na adolescência, tanto L1 + L2 quanto LM + LE podem ocorrer; a situação LM + LE caracteriza a aquisição na fase adulta.

Quanto à segunda dimensão de bilingualidade, o uso funcional em diferentes períodos, a autora propõe que se verifique tal uso em quatro ambientes comunicativos: 1) familiar – uso da(s) língua(s) com pais, irmãos, cônjuges, filhos, parentes próximos; 2) social – uso da(s) língua(s) para comunicação com vizinhos, colegas de clube, na igreja; 3) escolar – uso da(s) língua(s) em situação escolar além da sala de aula, como intervalos e associações estudantis; e 4) profissional – uso da(s) língua(s) no momento de trabalho. Conforme a autora,

a análise de diferentes usos a partir do histórico do indivíduo bilíngue permite identificar se ambas as línguas têm uso constante e paralelo (ambas [+dominante]) ou se uma das línguas é abandonada ou utilizada de modo reduzido (uma [+dominante] outra [-dominante]).

Considerando-se especificamente a situação das línguas de imigração no Brasil, é preciso levar em conta o impacto da proibição do uso de línguas estrangeiras durante o Estado Novo (1937-1945), com o plano de nacionalização do ensino. No caso do Rio Grande do Sul, estima-se que tenham sido fechadas 128 escolas étnicas polonesas – que ofereciam ensino bilíngue português-polonês ou apenas em polonês (MALIKOSKI, 2014). Desse modo, no que se refere ao uso da língua no contexto escolar (ambiente comunicativo 3 da proposta de Savedra Barretto (2009)), a análise de situações de contato no Brasil apresenta essa característica específica, isto é, o contexto escolar trata-se de um ambiente comunicativo relativamente fragilizado no caso de indivíduos mais velhos, que vivenciaram a proibição.

A análise do uso das línguas por ambiente comunicativo permite, portanto, a verificação de fatores sociais, históricos e de características da comunidade em que se estabelece o contato linguístico, tendo em vista que pode levar à identificação não apenas de práticas no nível do indivíduo, mas também de padrões de comportamento inerente ao grupo ou mesmo à comunidade como um todo.

A discussão da próxima seção aborda aspectos sociais a serem considerados na análise de fenômenos de contato linguístico, diferentes contextos de línguas em contato e os resultados linguísticos esperados a depender de cada contexto.