No âmbito da delimitação subjectiva do vínculo laboral, cumpre analisar a posição de subordinação do trabalhador, por um lado, e os poderes laborais do empregador, por outro. O binómio subjectivo do vínculo laboral evidencia o relacionamento desigual entre as partes, como veremos de seguida.
TRABALHADOR
• Subordinação
A posição de subordinação do trabalhador perante o empregador releva para o estudo da componente subjectiva do vínculo laboral.
O traço verdadeiramente delimitador da situação juslaboral do trabalhador, como já repetimos supra, é precisamente a subordinação jurídica, permitindo distinguir o contrato de trabalho de outras actividades laborais similares. A noção legal aponta para esta característica, ao enunciar que o trabalhador se obriga a desenvolver certa actividade sob a “autoridade e direcção” do empregador (art. 10º), colocando-se, portanto, numa posição de dependência perante o credor.
Encontramos indícios desta subordinação em normas que referem “autoridade e direcção” (o já referido art. 10º) e “poder disciplinar” (art. 365º), do lado do empregador, e
“dependência” (art. 13º), do lado do trabalhador. Não sobejam, pois, dúvidas relativamente ao reconhecimento legal deste elemento do contrato de trabalho.
A tendência actual (por todos, MENEZES CORDEIRO) pende para a recondução da subordinação jurídica à actividade laboral em si, justificando a sua heterodeterminação, e não ao estado pessoal do trabalhador. ROSÁRIO PALMA RAMALHO discorda deste entendimento, uma vez que identifica subordinação a um status, e não a uma qualidade da actividade de trabalho. Exemplifiquemos: se a tónica da subordinação assentasse na actividade per se, nada distinguiria o contrato de trabalho da prestação de serviços e, em última linha, um advogado poderia ser equiparado a um médico que trabalhasse num consultório, desenvolvendo trabalho “de escritório”. Ora a única forma de distinguir a actividade profissional desenvolvida num contexto autónomo da actividade profissional subordinada é, precisamente, acentuar o estado de dependência pessoal do indivíduo perante o credor.
Por outro lado, seria redutor reconduzir a subordinação jurídica ao reverso do poder de direcção do empregador, como parece indiciar uma leitura desatenta de algumas das normas legais supra citadas. À subordinação correspondem, mais correctamente, os poderes de direcção (orientação do trabalhador através de ordens e de instruções) e disciplinar
(regras de disciplina e sanções disciplinares em caso de incumprimento).
Assim se compreende que a situação passiva do trabalhador seja complexa e englobe deveres como o dever de obediência ou o dever de acatamento (rectius, o estado de sujeição) das sanções disciplinares eventualmente aplicadas. Enquanto que ROSÁRIO PALMA RAMALHO reconduz a natureza jurídica da subordinação a um estado de sujeição apenas quanto ao dever de acatamento de sanções disciplinares (no reverso do poder disciplinar), MENEZES
CORDEIRO fá-lo relativamente a toda a sujeição, globalmente considerada. Para a autora o
dever de obediência traduz-se num dever proprio sensu.
O dever de obediência avulta como o dever que, por excelência, caracteriza o estado de subordinação do trabalhador:
•
O trabalhador deve cumprir as ordens e instruções do empregador, nos termos do art. 121º, nº 1 d) – em termos particularmente extensos, uma vez que pode incluir regras de funcionamento da empresa e ainda comportamentos extra-laborais.•
O trabalhador deve obediência não apenas ao empregador, mas também a superiores hierárquicos nos quais tenha sido delegado o exercício do poderdirectivo, conforme o art. 121º, nº 2 – esta norma evidencia a intensidade do dever de obediência.
Por fim, cumpre referir de forma sumária as características da subordinação:
•
Natureza jurídica e não económica: o estado de sujeição do trabalhador não se confunde com a necessidade de este auferir um salário que lhe garanta a subsistência ou que tenha de trabalhar em exclusivo para o credor.•
Pode ser meramente potencial: não é necessária a actuação efectiva e constante dos poderes laborais.•
Comporta graus e não tem carácter técnico: a intensidade da subordinação varia consoante as aptidões técnicas do trabalhador, a especificidade da sua actividade ou a importância da função que desempenha. É compatível com a autonomia técnica para o desempenho de uma actividade especializada, bem como com a autonomia deontológica (quanto a profissões sujeitas a um código deontológico, cfr. art.112º).•
Limitada por um critério funcional: a subordinação justifica-se em função do contrato de trabalho e no quadro desse contrato, confinando-se dentro dos limites do débito negocial do trabalhador. O contrato não deve, pois, interferir com a vida pessoal do trabalhador.EMPREGADOR
• Poderes laborais de direcção e disciplina
À subordinação do trabalhador correspondem os poderes de direcção (arts. 150º ss) e disciplina (arts. 365º ss) do empregador.
O poder de direcção é o poder através do qual o empregador atribui uma função concreta ao trabalhador no âmbito da actividade para a qual foi contratado (art. 151º) e
adequa a prestação deste aos seus próprios interesses, ao longo da execução do contrato
(art. 150º). Respeita ao modo de prestação de trabalho e reconduz-se a um poder de escolha
ou de especificação.
• Poder de direcção:
o Titularidade: na generalidade dos casos pertence ao empregador. Excepções:
Contrato temporário (art. 20º, nº 1 LTT) Contrato de trabalho portuário
Cedência ocasional do trabalhador (art. 322º)
o
Modo de exercício: pode ser exercido directamente pelo empregador ou pode ser delegado nos superiores hierárquicos do trabalhador (art. 121º, nº 2).o
Forma de actuação: ordens ou instruções concretas para cada trabalhador (art. 121º, nº 2) ou genericamente, através da emissão de directrizes genéricas para todos ou de RIE (art. 153º).o Limites: poder bastante amplo, que se encontra limitado pela própria prestação de trabalho e pelos direitos e garantias do trabalhador.
o
Função no âmbito do contrato de trabalho: é um elemento essencial, mas não suficiente para delimitar o contrato de trabalho face a outrasfiguras similares (verifica-se também relativamente a certos credores de prestações de serviço).
o
Natureza: direito subjectivo stricto sensu (permissão normativa especifica de aproveitamento de um bem, para MENEZES CORDEIRO). O poder disciplinar (art. 365º) tem um duplo conteúdo: conteúdo ordenatório ou prescritivo (estabelecimento de regras de comportamento e disciplina no seio da organização que não possam ser imputadas ao poder directivo) e conteúdo sancionatório ou punitivo (sanções disciplinares ao trabalhador em caso de incumprimento do seu dever principal ou dos seus deveres acessórios, legais ou convencionais, cfr. art. 366º - sanções disciplinares de gravidade crescente). As sanções disciplinares têm um escopo punitivo e não ressarcitório (por isso a lei prevê separadamente a responsabilidade disciplinar e a responsabilidade civil, arts. 366º, nº 1 e 363º).• Poder disciplinar:
o
Titularidade: pertence sempre ao empregador, mesmo quando haja desdobramento dos poderes laborais por diversas entidades.o
Modo de exercício: exercido directamente pelo empregador ou pelos superiores hierárquicos do trabalhador, por delegação (art. 365º, nº 2)o
Forma de actuação: as sanções disciplinares são obrigatoriamente precedidas de um processo (processo disciplinar comum, cfr. arts. 371º e 372º ou, no caso da sanção do despedimento imediato por facto imputável ao trabalhador, arts. 411º ss).o
Limites: direitos e garantias do trabalhador (arts. 122º e 374º); algumas sanções têm também limites de duração ou valor (art. 368º).o
Função no âmbito do contrato de trabalho: poder essencial, na medida em que garante a posição de domínio do empregador (meio célere e eficaz de reacção contra o incumprimento do trabalhador), enão tem paralelo noutros contratos de Direito Privado – na dúvida, será sempre um contrato de trabalho.