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5: BINÓMIO SUBJECTIVO

No documento Direito do Trabalho I (páginas 33-36)

No âmbito da delimitação subjectiva do vínculo laboral, cumpre analisar a posição de subordinação do trabalhador, por um lado, e os poderes laborais do empregador, por outro. O binómio subjectivo do vínculo laboral evidencia o relacionamento desigual entre as partes, como veremos de seguida.

TRABALHADOR

Subordinação

A posição de subordinação do trabalhador perante o empregador releva para o estudo da componente subjectiva do vínculo laboral.

O traço verdadeiramente delimitador da situação juslaboral do trabalhador, como já repetimos supra, é precisamente a subordinação jurídica, permitindo distinguir o contrato de trabalho de outras actividades laborais similares. A noção legal aponta para esta característica, ao enunciar que o trabalhador se obriga a desenvolver certa actividade sob a “autoridade e direcção” do empregador (art. 10º), colocando-se, portanto, numa posição de dependência perante o credor.

Encontramos indícios desta subordinação em normas que referem “autoridade e direcção” (o já referido art. 10º) e “poder disciplinar” (art. 365º), do lado do empregador, e

“dependência” (art. 13º), do lado do trabalhador. Não sobejam, pois, dúvidas relativamente ao reconhecimento legal deste elemento do contrato de trabalho.

A tendência actual (por todos, MENEZES CORDEIRO) pende para a recondução da subordinação jurídica à actividade laboral em si, justificando a sua heterodeterminação, e não ao estado pessoal do trabalhador. ROSÁRIO PALMA RAMALHO discorda deste entendimento, uma vez que identifica subordinação a um status, e não a uma qualidade da actividade de trabalho. Exemplifiquemos: se a tónica da subordinação assentasse na actividade per se, nada distinguiria o contrato de trabalho da prestação de serviços e, em última linha, um advogado poderia ser equiparado a um médico que trabalhasse num consultório, desenvolvendo trabalho “de escritório”. Ora a única forma de distinguir a actividade profissional desenvolvida num contexto autónomo da actividade profissional subordinada é, precisamente, acentuar o estado de dependência pessoal do indivíduo perante o credor.

Por outro lado, seria redutor reconduzir a subordinação jurídica ao reverso do poder de direcção do empregador, como parece indiciar uma leitura desatenta de algumas das normas legais supra citadas. À subordinação correspondem, mais correctamente, os poderes de direcção (orientação do trabalhador através de ordens e de instruções) e disciplinar

(regras de disciplina e sanções disciplinares em caso de incumprimento).

Assim se compreende que a situação passiva do trabalhador seja complexa e englobe deveres como o dever de obediência ou o dever de acatamento (rectius, o estado de sujeição) das sanções disciplinares eventualmente aplicadas. Enquanto que ROSÁRIO PALMA RAMALHO reconduz a natureza jurídica da subordinação a um estado de sujeição apenas quanto ao dever de acatamento de sanções disciplinares (no reverso do poder disciplinar), MENEZES

CORDEIRO fá-lo relativamente a toda a sujeição, globalmente considerada. Para a autora o

dever de obediência traduz-se num dever proprio sensu.

O dever de obediência avulta como o dever que, por excelência, caracteriza o estado de subordinação do trabalhador:

O trabalhador deve cumprir as ordens e instruções do empregador, nos termos do art. 121º, nº 1 d) – em termos particularmente extensos, uma vez que pode incluir regras de funcionamento da empresa e ainda comportamentos extra-laborais.

O trabalhador deve obediência não apenas ao empregador, mas também a superiores hierárquicos nos quais tenha sido delegado o exercício do poder

directivo, conforme o art. 121º, nº 2 – esta norma evidencia a intensidade do dever de obediência.

Por fim, cumpre referir de forma sumária as características da subordinação:

Natureza jurídica e não económica: o estado de sujeição do trabalhador não se confunde com a necessidade de este auferir um salário que lhe garanta a subsistência ou que tenha de trabalhar em exclusivo para o credor.

Pode ser meramente potencial: não é necessária a actuação efectiva e constante dos poderes laborais.

Comporta graus e não tem carácter técnico: a intensidade da subordinação varia consoante as aptidões técnicas do trabalhador, a especificidade da sua actividade ou a importância da função que desempenha. É compatível com a autonomia técnica para o desempenho de uma actividade especializada, bem como com a autonomia deontológica (quanto a profissões sujeitas a um código deontológico, cfr. art.112º).

Limitada por um critério funcional: a subordinação justifica-se em função do contrato de trabalho e no quadro desse contrato, confinando-se dentro dos limites do débito negocial do trabalhador. O contrato não deve, pois, interferir com a vida pessoal do trabalhador.

EMPREGADOR

Poderes laborais de direcção e disciplina

À subordinação do trabalhador correspondem os poderes de direcção (arts. 150º ss) e disciplina (arts. 365º ss) do empregador.

O poder de direcção é o poder através do qual o empregador atribui uma função concreta ao trabalhador no âmbito da actividade para a qual foi contratado (art. 151º) e

adequa a prestação deste aos seus próprios interesses, ao longo da execução do contrato

(art. 150º). Respeita ao modo de prestação de trabalho e reconduz-se a um poder de escolha

ou de especificação.

• Poder de direcção:

o Titularidade: na generalidade dos casos pertence ao empregador. Excepções:

 Contrato temporário (art. 20º, nº 1 LTT)  Contrato de trabalho portuário

 Cedência ocasional do trabalhador (art. 322º)

o

Modo de exercício: pode ser exercido directamente pelo empregador ou pode ser delegado nos superiores hierárquicos do trabalhador (art. 121º, nº 2).

o

Forma de actuação: ordens ou instruções concretas para cada trabalhador (art. 121º, nº 2) ou genericamente, através da emissão de directrizes genéricas para todos ou de RIE (art. 153º).

o Limites: poder bastante amplo, que se encontra limitado pela própria prestação de trabalho e pelos direitos e garantias do trabalhador.

o

Função no âmbito do contrato de trabalho: é um elemento essencial, mas não suficiente para delimitar o contrato de trabalho face a outras

figuras similares (verifica-se também relativamente a certos credores de prestações de serviço).

o

Natureza: direito subjectivo stricto sensu (permissão normativa especifica de aproveitamento de um bem, para MENEZES CORDEIRO). O poder disciplinar (art. 365º) tem um duplo conteúdo: conteúdo ordenatório ou prescritivo (estabelecimento de regras de comportamento e disciplina no seio da organização que não possam ser imputadas ao poder directivo) e conteúdo sancionatório ou punitivo (sanções disciplinares ao trabalhador em caso de incumprimento do seu dever principal ou dos seus deveres acessórios, legais ou convencionais, cfr. art. 366º - sanções disciplinares de gravidade crescente). As sanções disciplinares têm um escopo punitivo e não ressarcitório (por isso a lei prevê separadamente a responsabilidade disciplinar e a responsabilidade civil, arts. 366º, nº 1 e 363º).

• Poder disciplinar:

o

Titularidade: pertence sempre ao empregador, mesmo quando haja desdobramento dos poderes laborais por diversas entidades.

o

Modo de exercício: exercido directamente pelo empregador ou pelos superiores hierárquicos do trabalhador, por delegação (art. 365º, nº 2)

o

Forma de actuação: as sanções disciplinares são obrigatoriamente precedidas de um processo (processo disciplinar comum, cfr. arts. 371º e 372º ou, no caso da sanção do despedimento imediato por facto imputável ao trabalhador, arts. 411º ss).

o

Limites: direitos e garantias do trabalhador (arts. 122º e 374º); algumas sanções têm também limites de duração ou valor (art. 368º).

o

Função no âmbito do contrato de trabalho: poder essencial, na medida em que garante a posição de domínio do empregador (meio célere e eficaz de reacção contra o incumprimento do trabalhador), e

não tem paralelo noutros contratos de Direito Privado – na dúvida, será sempre um contrato de trabalho.

o

Natureza: direito subjectivo, mais concretamente direito potestativo, colocando o trabalhador numa posição de sujeição.

No documento Direito do Trabalho I (páginas 33-36)

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