3.6 REFLEXÕES PERTINENTES A BIOSSEGURANÇA INDIVIDUAL, COLETIVA E AMBIENTAL EM
3.6.8 Bioética e responsabilidade do profissional de enfermagem em face dos Qt-na
Em Bioética o princípio de autonomia deve estar presente sempre. Através dele, a responsabilidade torna-se um exercício de liberdade. O profissional e o paciente são co-participantes de uma relação que deve fundamentar-se na liberdade, na verdade e na fraternidade, assumindo cada um a parcela de responsabilidade que lhe cabe. Quanto maior a autonomia, maior a parcela de responsabilidade. Em Bioética, portanto, há responsabilidade do profissional e também do paciente (SEGRE; COHEN et al., 1999, p. 91).
O profissional da área de saúde tem responsabilidades para consigo mesmo, para com o paciente e para com terceiros (para com a sociedade, para com a profissão e até para com o próprio meio ambiente). A responsabilidade para consigo mesmo é o compromisso do indivíduo para com a sua realização pessoal e para com os seus princípios de verdade, que se manifestam como diante de sua consciência moral (imperativos de consciência).
Todo profissional tem, por outro lado, projetos de vida, objetivos a alcançar na busca da satisfação interior e se impõe determinados deveres na tentativa de atingi-los. Sua realização como profissional e as obrigações que se imporá para consegui-la dependem da imagem que tem do que é ser um profissional realizado. A responsabilidade para com a própria profissão é, em geral, vista como o conjunto de obrigações instituídas para preservar o bom nome da classe, e estabelecer uma adequada relação entre os colegas. A responsabilidade dos profissionais de saúde para com o meio ambiente (ecológico) começa a ser cogitada atualmente como a parcela
que lhes cabe na preservação da natureza, da qual depende a vida em nosso planeta. Essa é maior que a responsabilidade global inerente aos outros seres humanos, porque esses profissionais têm, por sua competência especifica, papel fundamental nas questões que envolvem a detecção de problemas ambientais, e ajudar no auxílio para a resolve-los. Na tentativa de propiciar melhores condições de saúde para o homem, eles atuam, por vezes, como agentes modificadores dos ecossistemas (SEGRE; COHEN et al., 1999, p. 92).
No que concerne à Ética Profissional, considerando que a eticidade é inicialmente uma condição individual, embora adaptando-se e interagindo com a realidade social, é evidente que a Ética Profissional, válida para categorias de pessoas que exercem a mesma profissão, é tão somente um resultado da integração de todos os fatores que tento analisar. Eis a fundamental importância deste tema. É causal a escolha dos termos bioética e biossegurança para esta reflexão em correlação com as idéias do bioeticista Volnei Garrafa. Esse empenho com as questões técnicas dos profissionais de enfermagem diante dos riscos de exposição às drogas Qt-an, em serviços oncológicos, é, sem dúvida, o que necessitamos para nos conscientizarmos e obedecermos às medidas de biossegurança em concomitância com os pré-requisitos básicos, que são: consciência profissional e consciência plena de responsabilidade Se não existirem esses dois pré-requisitos básicos nas suas ações, não haverá futuro promissor para esses profissionais nos seus locais de trabalho.
Se os gestores hospitalares que diregem esses serviços oncológicos tiverem um olhar voltado para o binômio da bioética e da biossegurança sobre a prioridade dessa questão, acredita-se que teremos um avanço muito grande na realidade para as atividades que envolvem riscos ocupacionais aos profissionais de saúde, nessa era da ciência e tecnologia no momento contemporâneo, como é a nova era da biotecnologia oncológica.
Entretanto, para que sejam cumpridos os direitos dos trabalhadores, é necessário que as instituições hospitalares envolvidas nessa terapêutica cumpram as leis, portarias, normas e resoluções específicas para cada atividade e finalidade, como: a RESOLUÇÃO COFEN – 210/98, específica para o profissional de enfermagem que
atua diretamente com Qt-an, no que diz respeito à norma técnica de biossegurança individual, coletiva e ambiental adotada pelos MS/INCA. Determina que o profissional de saúde obedeça rigorosamente à norma vigente para essa função, que orienta e protege os profissionais de enfermagem sobre os efeitos tóxicos dessas drogas no seu cotidiano de trabalho em anexo (COFEN, 2000).
Essa reflexão nos remete ao fato de que deve haver não só os direitos, mas também os deveres do profissional de saúde. É questionável a conduta de um trabalhador que, tendo adquirido os conhecimentos necessários para determinada ação e não assume em contrapartida seus deveres de profissional. No mínimo, seria necessário reconhecer sua incapacidade de tornar-se consciente de sua responsabilidade ética para consigo, com os outros e com o local de trabalho em sua ação cotidiana que envolve drogas Qt-an em ambiente hospitalar.
A plena consciência e responsabilidade profissional dos que atuam na área da enfermagem oncológica, como parte da formação profissional de cada indivíduo, é absolutamente necessária para a construção de um saber tecnológico e prático específico. Devem assim, pensadores, gestores, profissionais e educadores empenhem- se para que a plena consciência e responsabilidade da adoção das medidas de biossegurança em face da exposição aos antineoplásicos em serviços de Qt-an venham ampliar seus conhecimentos para uma melhor visão e contribuir para a solução dos problemas bioéticos surgidos neste terceiro milênio, com a finalidade de uma melhor sobrevida com qualidade para esses profissionais envolvidos. E que se torne uma realidade para todos neste país, tanto no que tange aos direitos dos trabalhadores quanto aos deveres dos profissionais de enfermagem, que atuam nessa Área da Enfermagem Oncológica.
Para alguém elaborar conceitos éticos referentes a determinada profissão, há o requisito de eticidade anterior, pois a ética precede qualquer profissão. A enorme diferença entre ética e moral, para nós, é que enquanto a moral funciona de forma imperativa, a ética, para ser atuante, deve ser apreendida pelo indivíduo, vinda de seu interior. A moral é imposta, a ética é percebida. Julgamos que um indivíduo possa ser considerado ético quando possua uma personalidade bem integrada, ou seja, quando
sua maturidade emocional lhe permita lidar com as emoções conflitantes, quando uma força de caráter e um equilíbrio de vida interior lhe permitam adaptar-se bem à realidade do mundo.
A maturidade emocional, segundo Segre e Cohen et al. (1999), seria a capacidade do indivíduo de transformar, através de alguma elaboração, os desejos e as fantasias infantis em fontes de interesse e de enriquecimento da personalidade. Também está vinculada à capacidade de suportar as frustrações, pois somente quando aprendemos a suportar a dor emocional é que podemos desenvolver-nos. Um exemplo do exercício dessa função é tolerar a frustração de não sermos onipotentes, é aceitar as nossas limitações. É certo que esse processo de integração humana, tão difícil e complexo, nunca é completo, havendo sempre a possibilidade de evolução. Quanto maior for essa integração, melhoro indivíduo apreenderáo e compreenderá a ética. Portanto, para ser ético não basta conhecer código de ética, uma vez que a pessoa poderá atuar apenas de um modo moralista; é necessário assimilar e amadurecer certos conceitos de ser ser humano para poder evoluir e se humanizar.
Por essa razão, os códigos de ética das diferentes categorias profissionais de saúde: médicos, enfermeiros, farmacêuticos, nutricionistas, odontólogos, psicólogos, assistentes sociais, fisioterapeutas, entre outros, apóiam-se todos nas mesmas bases conceituais. Condições como respeito à privacidade, à livre escolha do profissional por parte do paciente, ao consentimento informado, permeiam todos esses estatutos legais. Eles devem ajustar-se continuamente às situações novas que a evolução científica e tecnológica apresenta, como ocorre com a engenharia genética, a reprodução assistida, o transplante de órgãos, manutenção artificial de certas funções vitais, risco de exposição às substâncias químicas. Por exemplo, drogas Qt-an discutidas neste estudo, e riscos de exposição ocupacional, coletiva e ambiental, para os profissionais de enfermagem que as manipulam em serviços oncológicos. Espero, que com estas informações e reflexões, ajudem tais profissionais a tomar consciência da sua responsabilidade em adotarem as normas de biossegurança preconizadas pelos órgãos competentes, para sua própria proteção e segurança dos outros e do ambiente.
assumidos por uma sociedade. Considerando-se que tais princípios são mutáveis, os códigos são habitualmente retrógrados com relação ao pensar ético, daí a necessidade de submetê-los a uma análise crítica e reflexiva e sua revisão periódica. Saliento que a moral, a ética e a responsabilidade estão vigentes nas ações de enfermagem. Isto porque ocorrem através de pessoas, componentes de uma equipe, que executam atividades de cuidado direto ou indireto ao paciente.
Nesse sentido, Gelain (apud LINS, 1998) comenta que a ética deixa de ser simplesmente:
[...] um conjunto de normas que dirige os atos humanos e torna-se uma responsabilidade ética, com o compromisso de modificar a realidade, problematizando a prática, e de conscientizar o ser humano na busca dos seus direitos. Por conseguinte, para ele, o compromisso e a responsabilidade surgem voltados para a educação e a orientação das pessoas, mais do que apenas para sanar ou prevenir danos físicos ou psíquicos.
Para melhor avaliar os aspectos ético-legais relacionados ao cuidado de enfermagem, torna-se necessário recorrer ao Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem, que prevê deveres, responsabilidades e direitos destes trabalhadores. Serve de referência para orientar os atos praticados pelos componentes da equipe, com relação à responsabilidade que devem ter para consigo mesmos, com o ambiente e com os outros durante a prestação do cuidado de enfermagem, especificamente, na terapêutica oncológica com drogas Qt-an. (COFEN, 1993).
Como outras tantas profissões, a enfermagem tem buscado, ao longo do seu caminho existencial, a consolidação de uma filosofia própria e o entendimento do que seja o cuidado humano, dentro de uma perspectiva mais ampla: filosófica, antropológica, psicológica, ambientalista, política, social, ética, bioética, biossegurança e técnica, entre outras. Naturalmente, ao permear esses aspectos, as questões éticas estão sujeitas a todas as variáveis que envolvem a moral ao longo da evolução da humanidade.
Segundo Silva (2000), as questões éticas assumem igualmente uma preocupação entre os enfermeiros, ora fundamentadas pelas atribuições da sociedade moderna, ora por situações geradas pelas relações entre equipe de enfermagem,
paciente, família, ora por ambos os fatores. A verdade é que enfermagem nuncapreocupou-se tanto com essas questões como nesta época. Os conflitos éticos assumem proporções significativas, atribuídas pelo próprio avanço tecnológico e pelas relações humanas.
Conforme a mesma autora, a enfermagem deve ter uma visão mais ampla e reconhecer seu papel, como agente de transformação contextual sócio-político- econômico-filosófico. Nessa composição, não só o paciente e a instituição importam, mas a própria enfermagem como condição humana. É preciso repensar a ética, para que a sua codificação permita não parâmetros abstratos, mas a realidade concreta, contextualizada a partir da avaliação dos valores que regem a vida, a conduta dos profissionais. A atual revalorização da bioética e da biossegurança.Tudo isto demonstra quão democráticas devem ser tais reflexões para acomodar o que há de melhor nas contribuições deste referencial teórico, a fim de elaborar uma verdadeira ética da vida, ou seja, ética com responsabilidade biológica e ambiental.
Nessa vertente democrática da reflexão ética da vida, Reinaldo Silva (2000) destaca um movimento denominado cidadania tecnológica, que igualmente visa à democratização da maneira de lidar com a tecnologia. O fundamento da cidadania tecnológica é que a sociedade de hoje não se envolve com um saber, mas com graus de não-saber, sendo de todo oportuno que os especialistas sejam como que coagidos a afirmar a insegurança de suas atividades e se vejam motivados a decidir em conjunto, com os diversos segmentos da sociedade, o que fazer e o que não fazer.
Em outras palavras, o mesmo autor ressalta que os especialistas devem ser libertados da coação de dizer sempre que sabem o que fazem e que a técnica usada é segura e que, no fundo, não há problemas futuros, se todos observarem as normas.
Concordo com Garrafa, em seu artigo sobre “bioética, saúde e cidadania”, quando ele afirma que a bioética integraliza ou completa a ética prática – que se ocupa do agir correto ou bem-fazer, por ocasião à ética teórica ocupada em conhecer, definir e explicitar – e abrange os problemas relacionados com a vida e a saúde, configurando-se, portanto, como uma ética aplicada. Esse seria o significado aqui dado ao vocábulo bioético, que é presentemente o de maior uso e aceitação, estreitamente
relacionado com as ciências da saúde. Considera ainda a bioética como de caráter reflexivo e transdisciplinar, focalizada prioritariamente no fenômeno vida humana ligada aos grandes avanços da tecnologia, das ciências biomédicas e do cuidado à saúde de todas as pessoas que dela precisam, independentemente de sua condição social, atualmente objeto de atenção e diálogo nos mais diversos âmbitos. (BARCHIFONTAINE; PESSINI et al., 2001, p. 36).