3.3 Mateus como biografia
3.3.4 Biografia e história
No item anterior, quando da discussão sobre o caráter flexível da biografia que a levou a transitar entre vários gêneros literários, fez-se menção à história, anotando que a relação entre ela e a biografia seria tratada mais à frente. Teria sido mais lógico estabelecer diferenciações entre os dois gêneros naquele momento. No entanto, preferiu-se criar um tópico específico em razão da importância em definir claramente a relação entre ambas.
Mesmo que se reconheça, como faz David Aune, que tanto história como biografia apresentam no caráter do biografado um de seus principais itens (1987, p. 30), as especificações são passíveis de identificação.
Este tópico constrói-se a partir de vários elementos já abordados anteriormente. Retoma-se a citação de Plutarco retirada da biografia de Alexandre53. Nela há um contraste entre “histórias” e “biografias”. A história narraria “os feitos mais rumoros” de um indivíduo, “combates onde se contam milhares de mortos, as batalhas cerradas e os assédios mais espetaculares”. Aos historiadores seria deixada a tarefa de descrever “o aspecto grandioso” de tais acontecimentos. A biografia, por sua vez, apresentaria “um fato comezinho, uma palavra, uma pilhéria” visando a “revelar mais nitidamente o caráter” das pessoas. E como os pintores que se concentram na face, preterindo as demais partes do corpo, assim aos biógrafos deve ser “lícito penetrar de preferência nos sinais distintivos da alma e, com a ajuda deles, representar a vida de cada qual” (PLUTARCO, 1992, v. 4, 1, p. 133).
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Para Plutarco, a história trabalha com uma visão geral e com a descrição de grandes feitos humanos. Pode-se acrescentar que, para chegar a seu objetivo, organiza o material buscando todos os dados disponíveis e arranjando-os em um quadro amplo onde as situações são associadas via causa e efeito. A biografia, por seu turno, novamente segundo Plutarco, focaliza os aspectos mais naturais do homem na busca de descrever suas virtudes. Complete-se a análise lembrando que o caráter se manifesta pela escolha de ações, palavras e ditos que são selecionados, dentre outros, para compor o objetivo a que se quer chegar. Talbert sintetiza a questão:
Na antigüidade, a história estava voltada para o lugar do homem no processo dos eventos políticos e sociais. A biografia estava interessada no caráter individual, sendo que seu envolvimento no processo histórico era importante somente à medida que revelasse a essência do indivíduo (1977, p. 16, tradução nossa).
Talvez se possa dizer que a biografia, enquanto composição que evidencia a vida natural da pessoa, aproxima os leitores de seus modelos de virtude, propondo a imitação, visto que, apesar dos elementos de exaltação, o biografado continua manifestando uma “vida natural”. A história, por outro lado, ao enfatizar o excepcional, o feito magistral, distanciaria o público dos heróis retratados.
A questão cronológica é outro elemento já observado. A biografia não trabalha com precisão temporal, conforme observações de Bakhtin. Tempo e espaço são utilizados como elementos de realce e revelação do indivíduo. Já a história está atenta aos movimentos da sociedade em um tempo e espaço, ainda que amplos, bem determinados.
A biografia recebia um tratamento retórico. Esse instrumento foi utilizado para torná-la um gênero não apenas descritivo, mas um veículo de transmissão de idéias a
fim de convencer leitores a assumirem posições, aceitarem certas filosofias e rejeitarem outras. Não se pode negar que a história trabalhasse retoricamente, mas, como lembra Scholes e Kellogg:
Em geral, podemos dizer que a linha entre fato e ficção é traçada de maneira mais descuidada na biografia do que na história [...] Seu assunto [da biografia] é verídico, um personagem “histórico”, mas sua substância é altamente ficcionalizada no interesse da emoção e da instrução moral; comover e ensinar é seu objetivo (1977, p. 45, grifo nosso).
A presença da ficção na história antiga permite afirmar que ela não pode ser identificada inteiramente com a historiografia moderna, embora esta tenha nascido daquela. Convém lembrar que muitos historiadores ocuparam cargos políticos de prestígio, o que possivelmente influenciou o tipo de história escrita que buscava ser favorável a seus soberanos.
Não se pense, entretanto, que a história assimilou tranqüilamente elementos ficcionais. Os historiadores do século V a.C., Heródoto e Tucídides, devem ser lembrados a esse respeito. O primeiro “desacreditava freqüentemente a narrativa poética e, em uma ocasião, observa que ‘os gregos em geral têm uma fraqueza para inventar estórias que não se baseiam em fatos’” (SCHOLES; KELLOGG, 1977, p. 41). O segundo, igualmente racionalista, avançou a separação entre os elementos míticos e ficcionais presentes nos escritos homéricos. Foi crítico dos poetas e condenou os historiadores antes interessados em satisfazer seu público do que em contar a verdade. Procurou eliminar o elemento fabuloso de sua História da guerra do Peloponeso54. De fato, “não há em sua história oráculos ou lendas, como não há também anedotas [...] os deuses estão ausentes do mundo de Tucídides” (ROMILLY, 1984, p. 142-143).
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Tulcídides descreve a guerra entre Esparta e Atenas (431 a 404 a.C.). Iniciado durante o confronto, provavelmente o livro foi concluído alguns anos após o término da guerra. Cf. Lesky (1969, p. 501-502).
Entretanto, na descrição dos discursos dos personagens em sua obra, percebem-se elementos retóricos. “Em seu primeiro capítulo, reconhece o fato de haver criado falas adequadas para situações que ocorreram tanto antes como durante a guerra” (SCHOLES; KELLOGG, 1977, p. 42).
Segundo Scholes e Kellogg, no helenismo e no mundo romano a procura pelo racional e seu uso na narrativa histórica sofreu alteração. O elemento fabuloso foi re- introduzido por Tito Lívio55 e outros, com o objetivo de atingir um efeito artístico (1977, p. 43). Tal alteração foi possível porque, em oposição à grega, a narrativa histórica romana gozava de maior liberdade para determinar suas convenções literárias, mantendo “elementos do drama trágico e da oratória” (SCHOLES; KELLOGG, 1977, p. 44). Para os autores, as transformações do gênero histórico no período romano deram origem à biografia, com ênfase no didático e no retórico. Como exemplo, teríamos as biografias de Plutarco (1977, p. 44).
Portanto, seguindo os autores mencionados, não basta apenas dispor biografia e história lado a lado para averiguar semelhanças e diferenças, mas é mister entender que no processo histórico e literário, embora a biografia não descenda diretamente da história, esta, sob transformação, exerceu influência sobre aquela.
É necessário retornar à presença do elemento ficcional na biografia. Parece certo, neste momento, reconhecer que ela trabalhava ficcionalmente. Com isso não se quer dizer que ela fosse inverídica, pois apresentava como conteúdo a vida de uma pessoa histórica, mas tinha-se por garantido um trabalho artístico visando à ação retórica do texto. A biografia pretendia menos a exatidão histórica e mais a transformação do leitor. Aune explicita essa relação:
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A ficção exercia um papel significativo na historiografia e biografia helenista, cujos autores tinham um treinamento retórico. Plausibilidade era o critério principal para separar a verdade da falsidade [...], e a principal exigência da narrativa. Desde que tanto historiadores como biógrafos estavam interessados em fornecer incentivo à virtude, eles geralmente escreviam com objetivos e técnicas retóricas. Apesar da “intenção histórica” implícita na tarefa biográfica, algumas antigas biografias eram quase completamente ficcionais (1987, p. 64, grifo e tradução nossos).
O autor não nega o caráter histórico da biografia, mas indica o principal critério pelo qual se isolaria a verdade da falsidade – a plausibilidade. A obra deveria ser bem construída, evidenciar coerência interna e elevado grau de convencimento. Deve-se lembrar que as biografias foram escritas por historiadores, filósofos e retóricos, entre outros. Portanto, não é de se estranhar que a ficção fosse componente básico em seus escritos. Descrevendo o florescimento da biografia no século IV a.C., Momigliano dá realce a essa relação:
As escolas filosóficas e retóricas do 4º. Séc. a.C. desenvolveram a arte de falar sobre indivíduos [...] Os retóricos criaram o encômio em prosa sobre o indivíduo. Os filósofos desenvolveram a biografia idealizada de monarcas e filósofos. Tanto retóricos quanto filósofos usaram cartas e o discurso apologético para caracterizar um homem. Foi um desenvolvimento cheio de ambigüidades. Fato e ficção eram misturados livremente por retóricos bem como por filósofos (1993, p. 102, tradução nossa).
Reconhecer o caráter ficcional da biografia greco-romana será imprescindível para a averiguação da hipótese que propõe terem sido os evangelhos, e particularmente Mateus, escritos segundo o modelo biográfico. Entendê-los assim evita uma série de equívocos que surgem quando se pretende que sejam documentos historiográficos, descrevendo literalmente fatos ocorridos no passado. O evangelho de Mateus é um documento histórico, escrito segundo o gênero biográfico. Ao indicar o gênero, não se está querendo negar sua historicidade, mas entender que ela é trabalhada a fim de gerar reação em seus leitores. Esse reconhecimento, antes de
negar o caráter histórico, permite que um fato do passado continue atuando no presente. Afinal, como bem coloca o crítico literário Robert Alter:
[...] a história é mais intimamente relacionada à ficção do que temos sido acostumados a aceitar. É importante ver o mesmo terreno partilhado pelos dois modos de narrativa, ontológica e formalmente [...] Os dois tipos de atividade literária obviamente compartilham toda uma gama de estratégias narrativas, e o historiador pode assemelhar-se ao escritor de ficção ao empregar, como de certo modo deve, uma série de construções imaginativas (1981, p. 24, tradução nossa).