3.3 Mateus como biografia
3.3.1 Contexto helenista do evangelho de Mateus
Ao falar de “contexto”, não se pretende discutir a configuração dos leitores para os quais o evangelho foi escrito, como fazem os biblistas26, mas dar destaque para o ambiente sociocultural no qual surgiu a obra. Embora se deva reconhecer na redação de qualquer texto que três componentes – autor, leitores, contexto social e cultural – interagem, os últimos atuam no processo como fatores de influência sobre autores e leitores, mais do que são influenciados por esses últimos. Para a determinação dessa relação são úteis as colocações de Antonio Candido. Ele lembra que quando se busca definir as influências exercidas por fatores socioculturais,
[...] os mais decisivos se ligam à estrutura social, aos valores e ideologias, às técnicas de comunicação. O grau e a maneira por que influem estes três grupos de fatores variam, conforme o aspecto considerado no processo artístico. Assim, os primeiros se manifestam mais visivelmente na definição da posição social do artista, ou na configuração de grupos receptores; os segundos, na forma e conteúdo da obra; os terceiros, na sua fatura e transmissão (2000, p. 20).
Diante dos objetivos deste tópico, os elementos especificamente relacionados à posição social do artista e do grupo receptor serão colocados à parte. Importam os dados socioculturais ligados mais diretamente à e presentes na composição da obra, os valores e ideologias e as técnicas de comunicação. Como ensina Candido, os primeiros
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É tradicional a discussão a respeito da origem étnica dos leitores do evangelho. Seriam eles gentios convertidos ao cristianismo? Ou, em oposição, o grupo seria predominantemente judeu? A pesquisa atual tende a aceitar a segunda opção (cf. SEGAL, 1991; OVERMAN, 1997; 1999; SALDARINI, 2000).
se manifestam na forma e conteúdo da obra; o segundo na feitura e transmissão. Mais à frente o autor distingue com maior clareza as relações: “[...] lembremos que os valores e ideologias contribuem principalmente para o conteúdo, enquanto as modalidades de comunicação influem mais na forma” (2000, p. 27, grifo do autor). Aplicados à questão do contexto sociocultural do evangelho, o conteúdo deste expressa os valores e ideologias de autor e leitores, pode-se dizer, o olhar teológico pelo qual a realidade era encarada por eles; a forma indica o modo como esse conteúdo foi comunicado. É exatamente a forma que se quer discutir, vista como meio pelo qual um autor, sob influência da sociedade e cultura nas quais vive, se expressa por intermédio de determinado gênero, produzindo uma obra que será remetida a um grupo de cristãos.
Para a identificação do contexto em que foi produzido o evangelho torna-se relevante reconhecer que ele não é um texto atemporal. O texto surgiu em um tempo e local que, embora não possam ser definidos com exatidão, consegue-se pelo menos indicar aproximações27, ou seja, foi escrito por volta do ano 85 d.C. para um agrupamento de comunidades cristãs28 distribuídas em uma região que tem como ponto de referência o sul da Galiléia, e estende-se ao norte até a Antioquia da Síria. Escrito em grego koiné29 para leitores da parte oriental do Império Romano, os elementos contidos no texto indicam as influências e expectativas do autor e dos leitores desse período e região.
Embora Roma envolvesse as nações conquistadas com sua estrutura social e política, a cultura que se estendia por todo o império era grega. Helen Elsom salienta
27
Cf., no capítulo anterior, o item 2.1 Questões preliminares.
28
Para uma crítica ao uso do singular “comunidade” e a opção pelo plural “comunidades” ao referir-se aos grupos de cristãos para os quais o evangelho de Mateus foi escrito, cf. Ferreira (2004a, p. 9-10).
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Koiné = comum. Forma simplificada do grego clássico, surgida no período helênico, fruto do contato entre gregos e povos conquistados.
que: "A língua grega, com sua tradição literária e filosófica, era parte da cultura 'oficial' do império [romano], no qual se esperava dos administradores que tivessem ao menos um conhecimento superficial de língua e literatura gregas" (1997, p. 601). A autora acrescenta que tais conhecimentos “[...] eram parte da literatura em grego que tendia a ser familiar aos cidadãos urbanos do Império Romano que liam os Evangelhos” (1997, p. 603).
Convém lembrar que a Palestina, bem como a Província da Síria, cuja capital nos tempos neotestamentários era Antioquia, faziam parte do Império Romano não apenas territorialmente, mas participavam, em maior ou menor grau, de suas leis, política e cultura. A helenização dessas áreas era um fato. Elemento de confirmação é a constatação de que, no primeiro século da era cristã, quatro línguas eram faladas na Palestina: latim, grego, aramaico e hebraico, o que se pode averiguar pelo ato público e oficial da autoridade romana ao afixar uma placa sobre a cruz de Jesus com os dizeres: “Jesus nazareno, rei dos judeus” (João 19.19-20) escritos em hebraico, latim e grego.
O latim era o idioma menos falado, constituindo-se, na quase totalidade de seu uso, em língua dos dominadores romanos. O hebraico tornara-se restrito, na época, praticamente apenas à literatura religiosa, utilizada principalmente nas sinagogas. Os outros dois idiomas eram mais comuns para a maioria da população palestiniense: o aramaico, língua de origem, e o grego, idioma do comércio, da literatura e da comunicação entre judeus e demais povos. A influência do grego pode ser percebida pela seguinte informação:
Há muitas inscrições em ossários na Palestina, dois terços somente em grego, um décimo em grego e hebraico (ou aramaico). Visto que é provável que inscrições sepulcrais indiquem melhor a língua do povo comum, é significativo que a grande maioria das que se publicaram esteja em grego [...] Muitos estudiosos hoje concluem que o grego foi usado amplamente no séc. I na
Palestina por cristãos e outros judeus (STAMBAUGH; BALCH, 1996, p. 78, grifo do autor).
Mesmo as sinagogas, local de estudo das escrituras hebraicas, não ficaram imunes à influência da língua grega. Jerusalém possuía sinagogas de helenistas,30 onde o Antigo Testamento era lido em sua versão grega: a Septuaginta. Elas serviam não apenas aos helenistas residentes, mas também àqueles que peregrinavam em Jerusalém vindos de várias regiões.
Papel central no processo de helenização era desempenhado pelas cidades. Havia um considerável número de polis helenizadas na região. Segundo Burton L. Mack, eram mais de trinta na época de Jesus (1990, p. 29). Ao norte da Palestina, próximas ao mar da Galiléia, estavam as dez cidades que formavam a região conhecida por Decápolis. Dentre elas podem ser citadas Séforis, Pela, Gadara e Gerasa. Profundamente helenizadas, possuíam populações predominantemente gentílicas. Podem ser contadas, no entanto, outras cidades de cultura helênica com população judaica, cujos nomes evidenciam a presença romana na região, como Cesaréia, homenagem a César, Sebaste, tradução de Augusto para o grego e Tiberíades, tributo ao imperador Tibério.
Jerusalém constituía-se no principal símbolo da helenização da Palestina. Herodes, o Grande, que surge na narrativa evangélica como aquele que buscou matar o recém-nascido Jesus (Mt 2.1-12), levou a cabo inúmeras obras na cidade com o objetivo de torná-la o mais helênica possível. Com esse objetivo, promoveu sua
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Judeus de fala grega que haviam nascido ou vivido fora da Palestina e que retornaram para Jerusalém. Há uma indicação da existência de sinagogas helênicas em Jerusalém no livro de Atos dos Apóstolos 6.9: “[..] alguns que eram da sinagoga chamada dos Libertos, dos cireneus, dos alexandrinos e dos da Cilícia e Ásia [...]”. A descrição pode ser interpretada como se referindo a uma única sinagoga de helenistas, à qual freqüentavam judeus provindos de Cirene (cidade situada ao norte da África), Alexandria, Cilícia (região sudeste da Ásia Menor, atual Turquia) e Ásia Menor; ou então o texto pode mencionar várias sinagogas, cada uma pertencente a um dos grupos citados.
remodelação. Ela estava edificada entre duas colinas separadas por um vale central. Em uma das colinas ficava a chamada Cidade Baixa, onde se encontrava o templo reconstruído por Herodes, ostentando elementos em estilo grego. Nela habitavam os pobres, de origem oriental. Na outra colina se erguia a Cidade Alta, onde Herodes fez construir seu palácio e os ricos residiam. Ali “as casas eram helenísticas, com um pátio central cercado por quartos, e com cisternas e piscinas subterrâneas” (STAMBAUCH; BALCH, 1996, p. 87). O projeto de helenização da cidade incluiu a construção de um teatro, um anfiteatro e um hipódromo (STAMBAUGH; BALCH, 1996, p. 79). Hengel comenta: “Com esplêndidas construções no estilo arquitetônico helenístico, a cidade poderia ser comparada com outras grandes cidades helênicas, podendo, inclusive, sobrepujar-se a elas em beleza” (1989, p. 12, tradução nossa).
A presença de características helênicas na arquitetura e a própria existência de determinadas edificações nas cidades da Palestina indicavam de modo inconfundível a inclinação à cultura grega. Segundo Stambaugh e Balch: “A arquitetura helenística de edifícios públicos destacava-se em todas as cidades gregas. Cada qual tinha seus templos, teatros, ginásios com arcadas, pórtico, ágora, aquedutos, banhos, fontes e colunatas em estilo grego” (1996, p. 79). Certamente essas características eram partilhadas por diversas cidades palestinienses.
Entre os frutos da helenização da Palestina podem ser contados os intelectuais oriundos da região. Gadara, cidade pertencente a Decápolis, portanto próxima da Galiléia, exerceu um papel de destaque cultural que a fez conhecida como a “Atenas da Síria” (HENGEL, 1989, p. 20, tradução nossa). Foi a terra natal de Menippo, um dos líderes da escola filosófica cínica e criador da sátira no século III a.C.; dela veio o poeta Meleager, que, ao compilar epigramas de 50 escritores, se tornou o criador da antologia
grega no século I a.C.; e Teodoro, que viveu no final do século I a.C., orador, mestre do futuro imperador Tibério. Gerasa, pertencente igualmente a Decápolis, revelou o neo- pitagórico e matemático Nicômano, no século II d.C. Da cidade costeira de Asquelom veio o estóico Antíoco, tutor de Cícero; de Damasco, Nicolas, conselheiro de confiança de Herodes, o Grande (cf. HENGEL, 1989, p. 20; STAMBAUGH; BALCH, 1996, p. 79). Como lembra Hengel:
Mesmo que esses intelectuais normalmente não tenham permanecido em suas cidades, mas feito fortuna em centros culturais do Ocidente, devemos reconhecer que havia uma tradição cultural permanente nos locais de onde vieram – aos quais deveriam ser acrescentadas as cidades fenícias de Tiro e Sidom -, e que essas cidades, embora preservando suas próprias tradições, ao mesmo tempo nutriam um ambiente cultural em constante desenvolvimento (1989, p. 20, tradução nossa).
Até este momento, deu-se destaque à Palestina e ao seu processo de helenização porque, em geral, não se aceita esse fato, ou ele não é percebido com clareza. Tal postura apresenta conseqüências concretas para a compreensão do surgimento e desenvolvimento do cristianismo. Até pouco tempo pintava-se um quadro que indicava uma origem judaico-cristã ligada a Jerusalém e à Palestina, em oposição a um desenvolvimento gentio-cristão, identificado com o apóstolo Paulo e com as igrejas de Antioquia da Síria e Ásia Menor, de tendência helenizante. Hoje, em função das pesquisas mais recentes, os estudiosos tendem a falar de um cristianismo com vertente helênico-judaico, vinculado à Palestina, e helênico-gentio, ligado principalmente ao ministério do apóstolo Paulo31.
Como complemento à identificação do processo de helenização da Palestina, é necessário lembrar que a cultura helênica também esteve presente em Antioquia da
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Sobre o assunto, cf. a obra de HENGEL, Martin. The ‘Helenization’ of Judaea in the First Century after
Síria, cidade tida por muitos como local onde o evangelho de Mateus foi escrito ou, como tem sido proposto neste trabalho, limite setentrional da região para a qual ele foi enviado. Afinal, fundada em 300 a.C. pelo rei Seleuco32 como capital do império selêucida, nomeada de Antioquia em homenagem ao seu pai, Antíoco, era desde sua origem genuinamente helênica. Cidade cosmopolita, já em seus primórdios é atestada a presença de judeus, dentre outros, entre seus habitantes. Filson comenta que
[...] havia uma população mista na cidade, formada por macedônios, gregos e nativos da Síria, além de uma colônia de soldados judeus veteranos que serviram no exército de Seleuco, aos quais foram doadas terras como recompensa pelo serviços prestados (1991, v. 1, p. 145, tradução nossa). Com a conquista pelo general romano Pompeu em 64 a.C., Antioquia logo foi tomada por comerciantes romanos. No governo de Augusto a cidade tornou-se capital da província da Síria. Como tal, os elementos da cultura helenista já presentes se fizeram mais destacados pelo resgate do antigo status de capital. É relevante ressaltar que, assim como os judeus da Palestina receberam influência helenista, aqueles que habitavam em Antioquia, bem como os que para lá imigraram igualmente se colocaram sob essa cultura.
O processo de helenização do mundo conhecido na época não se deu de modo espontâneo ou por acaso. Pelo contrário, a cultura foi utilizada pelo império como fator agregador e de unidade. Daí a importância das escolas e do aprendizado dos elementos constituintes dessa identidade. Desse ângulo, o helenismo pode ser resumido em uma palavra: “Paidéia”. Termo grego que inicialmente poderia ser
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Após a morte de Alexandre, o Grande, o império foi dividido entre seus generais, dos quais se sobressaíram Ptolomeu I, assumindo a parte sul do império, com sede no Egito, e Seleuco I, ao qual coube a região norte, a partir da Síria.
traduzido por “educação”, apresenta uma grande complexidade. Werner Jaeger analisa a dificuldade:
Não se pode evitar o emprego de expressões modernas como civilização, cultura, tradição, literatura ou educação [para definir Paidéia]; nenhuma delas, porém, coincide realmente com o que os Gregos entendiam por Paidéia. Cada um daqueles termos se limita a exprimir um aspecto daquele conceito global, e, para abranger o campo total do conceito, teríamos de empregá-los todos de uma só vez (1995, p. 1, grifo do autor).
Quanto à importância da paidéia e optando por simplificar a tradução utilizando o termo “cultura”, o autor esclarece:
E foi sob a forma de paidéia, de “cultura”, que os Gregos consideraram a totalidade da sua obra criadora em relação aos outros povos da Antigüidade de que foram herdeiros [...] Sem a concepção grega de cultura não teria existido a “Antigüidade” como unidade histórica, nem o “mundo da cultura” ocidental (JAEGER, 1995, p. 7, grifo do autor).
Paidéia e escola estavam intimamente ligadas. Para Köster: “A base para a difusão da vida cultural e intelectual era a construção de escolas” (1988, p. 137, tradução nossa). Sobre a proeminência da educação, Stambaugh e Balch informam:
A instituição mais típica das cidades gregas no período greco-romano era o ginásio [...] Era uma instituição pública, mantida pela cidade. O edifício em geral consistia de um pátio aberto (palaestra) cercado por uma colunata; ao longo de um lado, havia recintos para banhos e reuniões. Os recintos de reuniões estavam arrumados como salas de aulas; meninos e meninas vinham juntos para aulas ministradas por um grammatistes (um especialista em dizer e escrever). Em algumas cidades, os pais tinham de pagar os professores; em outras, eram incluídos nos gastos públicos por dotações especiais. A instrução apoiava-se fortemente na cópia e memorização de determinadas seleções antológicas, que no fim se tornaram mais ou menos padronizadas, formando um curriculum nuclear básico concentrando-se na epopéia de Homero, nas tragédias de Eurípedes, nas comédias de Menandro e nos discursos de Demóstenes, mas incluindo também outras passagens de autores clássicos e contemporâneos (helenistas). Resultou que, em todas as cidades gregas, o conteúdo da educação era semelhante. Todas as pessoas instruídas não só tinham lido as mesmas passagens padronizadas, mas também as tinham copiado, recitado, memorizado, e participavam de um sentido comum de cultura (1996, p. 110-111, grifo do autor).
Da citação conclui-se a clara intenção de promover uma educação padrão que colocasse os membros do império em um mesmo nível cultural. Obviamente a educação não era um fim em si mesmo, mas uma forma de divulgação dos elementos da cultura, política e governo romanos indicativos de sua superioridade e soberania sobre os povos. Desse contexto participaram, como visto acima, os judeus palestinienses, cristãos ou não, bem como os judeus e gentios antioquenos, cristãos ou não. Jerusalém e demais cidades da Palestina, assim como em maior grau Antioquia, estiveram envolvidas integralmente nesse processo. Uma das evidências da instrução helênica em Jerusalém e Antioquia é que, sabe-se hoje, ambas possuíam ginásios. É claro, portanto, que o evangelho de Mateus, mesmo provindo com muita probabilidade de um escritor e dirigido a uma audiência ambos judeus33, por ter surgido em um contexto helenista, em meio a pessoas que não apenas liam o grego, mas que conheciam convenções da literatura grega, deve ter recebido algum tipo de influência sociocultural em sua produção.