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5.2.3 – Biopoder e capturas do capital via poder

No documento Clinicar gerenciando e gerenciar clinicando (páginas 112-118)

Além das teorias gerais da administração, tratadas na parte anterior, descreveremos agora formas de poder que se vinculam ao exercício de dominação que Taylor fazia, só que de maneira mais ampla, porém não menos intensa. Formas que atravessam os homens e produzem subjetividades e que, até os dias de hoje, inundam o mundo com

suas formas de funcionamento, sem deixar de lado os equipamentos e o uso de atividades em saúde mental.

Foucault (1999) nos descreve que a teoria clássica da soberania tem como um de seus principais atributos o direito a vida e à morte. O soberano tinha o direito a decidir sobre a vida e a morte de seus súditos, que só existem a partir do efeito da vontade do primeiro. Este exerce o direito sobre a vida, pois pode matar. Assim, entende-se que “o direito da soberania é, portanto, o de fazer morrer ou de deixar viver” (p. 287).

O mesmo autor nomeia de Biopolítica a instauração, no fim do século XVIII, de uma nova tecnologia do poder. Nela observa-se um controle sobre os seres vivos e suas doenças para aumentar a produção. A questão da saúde e das possibilidades de transitar na vida é assunto para a biopolítica, apenas o quanto que as pessoas podem contribuir para a continuidade de uma lógica produtiva. Assim, os idosos e os doentes ou improdutivos são excluídos do sistema. As pessoas que passaram pela experiência da loucura incluem-se neste grupo, como já descrevemos anteriormente82.

A biopolítica, ao instaurar mecanismos reguladores, intervém no nível daquilo que são as determinações dos fenômenos gerais (como baixar a morbidade, aumentar a expectativa de vida, estimular a natalidade). Ela regula um equilíbrio, uma média, estabelece certa homeostase, assegura compensações. Tudo em nome de maximizar forças e a extraí-las dos homens. Assim, podemos dizer que ocorre uma inversão do que antes estava colocado. O direito de quem tem o poder, neste momento, é de interferir para fazer viver e deixar morrer. Intervêm-se no “como” se deve viver, como controlar suas eventualidades, suas doenças, deficiências, eventualidades, etc.

“Temos portanto, desde o século XVIII (ou em todo caso desde o fim do século XVIII), duas tecnologias de poder que são introduzidas com certa defasagem cronológica e que são sobrepostas. Uma técnica que é, pois, disciplinar: é centrada no corpo, produz efeitos individualizantes, manipula o corpo como foco de forças que é preciso tornar úteis e dóceis ao mesmo

82 Item 4.2.2, “E a atividade entra no hospital...”, pág 46. Descrevemos o uso do equipamento Hospital

tempo. E, de outro lado, temos uma tecnologia que, por sua vez, é centrada não no corpo, mas na vida; uma tecnologia que agrupa os efeitos de massas próprios de uma população, que procura controlar a série de eventos fortuitos que podem ocorrer numa massa viva; uma tecnologia que procura controlar (eventualmente modificar) a probabilidade desses eventos, em todo caso em compensar seus efeitos” (FOUCAULT, 1999, p.297)

O biopoder mostra suas garras quando observamos o que foi descrito na parte anterior deste trabalho. As pessoas morrem em vida, ou seja, sentem-se tão bem por estarem vivas, mas deveriam estar biologicamente mortas, por estarem com suas vidas tão bem regulamentadas. Aqui cabe lembrar que nem mesmo a fisiologia, que trata de descrever o funcionamento do corpo aborda o organismo humano como algo estático, sem variações e instabilidades.

As disciplinas da saúde podem contribuir consideravelmente para gerar interferências com bases científicas sobre os processos biológicos e orgânicos, e, ao mesmo tempo, servir de técnica política de intervenção com efeitos de poder próprios. Criam-se, com a justificativa de “fazer viver”, normas tanto ao corpo (individual) que se quer dominar, quanto a uma população que se quer regulamentar.

No século XIX temos, portanto, um poder que assume a posse da vida, que a regulamenta. O biopoder. Um poder que, ao regular a vida, mata-a. Também a possibilita viver, mas ao mesmo tempo, tem em si uma situação que se aproxima de formas de vidas que nascem da morte, criando ao mesmo tempo doenças e vírus letais e incontroláveis.

As formas de gestão variam e adaptam-se ao capitalismo que evoluiu e com ele as formas e necessidades de alterar a configuração do trabalho. Atualizações e formalizações de como o trabalho é visto e exigido sofreram muitas alterações ao longo do século XX. Grande parte dessas alterações tem o capital como responsável. Grande parte dessas transformações tem no Capitalismo Mundial Integrado (CMI) explicações pautadas na manutenção (administração) de certa ordem e lógica.

Porém tal lógica não é perene. O CMI “recompõe a produção e a vida a partir da sua própria axiomática (...) não possui um programa definido de uma vez por todas; face a uma crise ou dificuldade imprevista, sempre é capaz de inventar novos axiomas funcionais ou suprimi-los” (GUATTARI, 1977e, p. 211). Dessa forma, vez por outra seu problema passa a ser inventar novos métodos de hierarquização do socius.

O CMI, como o biopoder captura o sujeito ainda no plano de criação. Assim, os homens estão sempre no domínio deles. No contemporâneo o biopoder marca um espaço no qual o poder incide. Incidência esta que é feita sobre a vida dos homens, em grande parte dos seus domínios, deixando algumas poucas possibilidades de linhas de fuga. Os homens, assim, produzem modos de existência (DELEUZE, 1992). Produções de modos de existência que já existem desde os gregos, desde sempre.

Guattari (1977d) nos explica que o capitalismo é mundial e integrado pois nenhum país do mundo e nenhuma atividade humana ficam fora do controle. A colonização foi grande e cobriu todos os cantos, afinal

“O capital não é uma categoria abstrata, é um operador semiótico a serviço das formações sociais determinadas. Sua função é de assumir o registro, a regulagem, a sobrecodificação das formações de poderes próprios às sociedades industriais desenvolvidas, das relações de força e dos fluxos relativos ao conjunto das potências econômicas do planeta” (p. 191)

Dessa forma o capital, a produção de subjetividade, as formas e exercícios de poder podem tomar outros rumos, ou nos levar a outras reflexões. Pelbart (2003a) utilizando- se de Lazarato e Deleuze nos explica que os termos “biopolítica” e “biopoder” (que Foucault trata sem distingui-los claramente) foram diferenciados:

“biopolítica deixa de ser prioritariamente a perspectiva do poder e de sua racionalidade refletida tendo por objeto passivo o corpo da população e suas condições de reprodução, sua vida. A própria noção de vida deixa de ser definida apenas a partir dos processos biológicos que afetam a população. Vida inclui a sinergia coletiva, a cooperação social e subjetiva no contexto de produção material e imaterial contemporânea, o intelecto geral. Vida significa inteligência, afeto, cooperação, desejo (...) Coube a Deleuze explicitar que

ao poder sobre a vida deveria responder o poder da vida, a potência ‘política’ da vida na medida em que ela faz variar suas formas e, acrescentar Guattari, reinventa suas coordenadas de enunciação. De maneira mais ampla e positiva, essa potência da vida no contexto contemporâneo equivale precisamente à biopotência da multidão” (p.24,25).

O capital reforça que boa parte do trabalho da administração foi pautado na questão da captura da subjetividade e domínio da vida em favor do lucro, do ganho de capital e no exercício do poder. Outros objetivos podem ser encontrados, mas em sua grande maioria estarão relegados a um segundo plano. Como a captura do capital em relação ao poder foi transformando-se? O que acontece que os movimentos de criação são, muitas vezes, minimizados em sua potência criadora? Como as formas de poder se atualizaram e se compõem nos dias atuais?

Após a superação do modo taylorista e fordista de administrar, a reivindicação por mais autonomia, autenticidade, criatividade, liberdade e até mesmo crítica à rigidez da hierarquia, da burocracia, da alienação nas relações acaba por ser inteiramente incorporada pelo sistema. Assim o toyotismo, opondo-se ao taylorismo não vê diferença entre concepção, controle e execução. Uma maneira mais autônoma e menos alienada surge. Neste contexto observamos que durante os anos sessenta (60) e setenta (70) do século XX

“os empresários notaram uma recusa crescente, sobretudo dos jovens que ingressaram no mercado de trabalho, de cumprirem tarefas mecânicas, automatizadas, repetitivas, emburrecedoras. A reivindicação por um trabalho mais interessante, criativo, imaginativo obrigou o capitalismo, através de uma reconfiguração técnico-científica de todo modo já em curso, a exigir dos trabalhadores uma dimensão criativa, imaginativa, lúdica, um empenho integral, uma implicação mais pessoal, uma dedicação mais efetiva até. Ou seja, a intimidade do trabalhador, sua vitalidade, sua iniciativa, sua capacidade de conexão foi sendo cobrada como elemento indispensável na nova configuração produtiva. Claro que isso implicava um desmanche das estruturas rígidas, hierárquicas, autoritárias herdadas do fordismo ou do taylorismo, um funcionamento muito mais aberto, flexível, num certo sentido mais autônomo e horizontalizado, em equipe, atendendo assim a toda a

crítica do trabalho massificado e homogeneizador. A partir daí, cada qual deveria descobrir seu potencial específico no interior de uma estrutura mais maleável, com conexões mais abertas, mais ágeis, mais desenvoltas” (PELBART, 2003c, p. 96, 97).

O que antes era o mote de resistência, a estratégia de vida, de potência de vida, passa e ser justamente a matéria-prima do capital. Ele passa a se utilizar dos aspectos mais humanos, tais como o potencial, a vida, a criatividade, a interioridade, os afetos, enfim, tudo o que antes ficava de fora.

“O capitalismo transforma o não-capital em capital, não só paisagens, ritmos, mas também maneiras de ser, de fazer, de ter prazer, atitudes, e nisso consiste sua inventividade nos últimos anos, na intuição de antecipar os desejos do público, com a importância crescente dos investimentos culturais e tecnológicos” (PELBART, 2003c, p. 104).

É preciso repensar as formas de gerenciar os equipamentos de saúde mental que se pretendam desenvolver linhas de potencialização do SUS, linhas que sejam uma forma de fugir dessa captura do capitalismo, linhas de gestão que ultrapassem a democracia burocrática, pois

“A democracia talvez só se expresse em nível das grandes organizações políticas e sociais; mas ela só ganha consistência, se existir no nível da subjetividade dos indivíduos e dos grupos, em todos esses níveis moleculares, novas atitudes, novas sensibilidades, novas práxis, que impeçam a volta de velhas estruturas” (GUATTARI, ROLNIK, 2005, p.157). Os processos de transformação se dão em diferentes campos de experimentação social. Por vezes cada pequena mudança em cada um destes campos pode ser o início de uma mutação muito mais ampla. Ao pensarmos nos equipamentos de saúde mental, podemos fazer alusão aos diferentes espaços de uso de atividades que, com pequenas transformações em suas práticas, podem (ou não) gerar uma transformação maior no equipamento.

Nesta parte do trabalho vimos como foram através das técnicas e tecnologias centradas no corpo (individual) com base na proposta de Taylor e Ford que o poder conseguiu

aumentar a força útil dos trabalhadores. Em seguida, a incidência se deu de maneira massificada, para posteriormente o capital capturar o que o homem tem de mais precioso (sua vida, afetos, criatividade, etc.), e assim manter-se atuante e vigente. Trabalharemos na próxima parte justamente como que este trabalho pode traçar uma linha de fuga, buscar saídas para a situação que se coloca.

No documento Clinicar gerenciando e gerenciar clinicando (páginas 112-118)