2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
2.3. Urucum (Bixa orellana L.)
2.3.5. Bixina e suas potenciais propriedades funcionais
No LXI encontro do comitê JECFA, demonstrou-se que existem vários procedimentos para a produção de extratos de urucum para o uso comercial (JECFA, 2003). Os principais procedimentos são resumidos a seguir:
Bixina extraída por solventes (Annatto B1) – O corante é extraído com solvente e o extrato resultante é filtrado para remover o material insolúvel. Processos subseqüentes envolvem a remoção de gorduras e ceras, remoção do solvente, cristalização e secagem. Esse extrato contém 97% de bixina e 1,5% de norbixina, em média.
Norbixina extraída por solventes (Annatto C) – A remoção hidrolítica do grupo metila da função éster da bixina por saponificação origina a norbixina, um carotenóide hidrossolúvel também presente nas apresentações de annatto, porém em menores quantidades que bixina (Fernandes et al., 2002). O corante é extraído com solvente alcalino e o extrato resultante é filtrado para remover o material insolúvel. Processos subseqüentes envolvem a remoção de gorduras e ceras, remoção do solvente, cristalização e secagem. Solução alcalina aquosa é adiconada ao pó resultante, o qual é aquecido para hidrolisar o pigmento e então é resfriado. A solução aquosa é filtrada e acidificada para precipitar norbixina. O precipitado é filtrado, lavado, seco e pulverizado. Esse extrato contém 91,6% de norbixina, em média.
Suspensão de bixina processada em óleo (Annatto D) – As sementes são colocadas em óleo vegetal quente para remoção do pigmento. O extrato resultante contém 10,8% de pigmento, sendo 94% de bixina e 1,7% de norbixina, em média.
Bixina processada em solução aquosa (Annatto E) – As sementes são dissolvidas
em solução aquosa alcalina (hidróxido de potássio ou sódio) fria para a remoção dos pigmentos. A suspensão resultante é acidificada para a precipitação de bixina. O precipitado é filtrado, lavado, seco e pulverizado. Esse extrato contém 26% de pigmento, sendo 90% de bixina e 4,2% de norbixina, em média.
Norbixina processada em solução alcalina (Annatto F) – As sementes são dissolvidas em solução aquosa alcalina (hidróxido de potássio ou sódio) fria para a remoção dos pigmentos. Uma quantidade extra de solução alcalina é adicionada à suspensão formada, a qual é aquecida para dissolver o pigmento e a seguir resfriada. Gorduras e ceras são removidas. A solução aquosa é filtrada e acidificada para precipitar norbixina. O precipitado é filtrado, lavado, seco e pulverizado. Esse extrato contém 41,5% de norbixina, em média.
Norbixina processada em solução alcalina, não precipitada em ácido (Annatto
G) – As sementes são dissolvidas em solução aquosa alcalina (hidróxido de potássio ou sódio) fria para a remoção dos pigmentos. Quantidades extras de solução alcalina são adicionadas à suspensão formada, a qual é aquecida para dissolver o pigmento e então resfriada. Gorduras e ceras são removidos. A solução aquosa é filtrada e seca. Carbonato de potássio pode ser adicionado. Esse extrato contém 17,1% de norbixina, em média.
Prabhakara Rao et al. (2005) determinaram a estabilidade de bixina durante tratamentos e processamentos diferentes de alimentos tradicionais da Índia. O corante foi exposto a tratamentos de aquecimento em forno convencional por 100, 150 e 180°C durante períodos de tempo superiores a 60 minutos, em aquecimentos em óleo vegetal quente por 160, 180 e 200°C por períodos de 30 a 120 segundos, em fornos de microondas a 300 e 700 W por períodos de 15 a 60 segundos e, em panela de pressão por 15 minutos. A perda de massa de bixina foi máxima quando esse corante foi exposto no forno convencional e no óleo vegetal quente. O forno de microondas não afetou a quantidade de bixina.
Haila et al. (1996) mostraram que o extrato de sementes de urucum, contendo bixina como o componente corante, preveniu a auto-oxidação de triacilgliceróis in vitro. Esse resultado indicou que o efeito antioxidante e corante pode ser alcançado pela adição deste extrato aos alimentos. Por outro lado, os autores verificaram que este extrato contém vários produtos fluorescentes, não identificados que co-eluem na análise dos
tocoferóis, sugerindo que a bixina poderia não ser o único componente responsável pelo efeito antioxidante do extrato.
Di Mascio et al. (1990) testaram a habilidade de vários componentes biológicos em extinguir oxigênio singleto. Eles demonstraram que a habilidade antioxidante diminui na seguinte ordem: licopeno, γ-caroteno, astaxantina, cantaxantina, α-caroteno, β- caroteno, bixina, zeaxantina, luteína, bilirubina, biliverdina, tocoferóis e tióis. Os autores ainda afirmaram que as habilidades dos carotenóides e dos tocoferóis são principalmente devidas a uma extinção física dos radicais livres.
Silva et al. (2001) avaliaram o papel da bixina (2,5 ou 5 mg/kg de massa corporal 48, 24 h e 10 minutos antes da administração de cisplatina) sobre o stress oxidativo induzido por cisplatina (5 mg/kg de massa corporal) em ratos Wistar. O tratamento com bixina reduziu o número total de aberrações cromossômicas, inibiu o aumento da peroxidação de lipídios e inibiu a depleção de glutationa renal. Antunes et al. (2005) investigaram a habilidade da bixina em induzir aberrações cromossomais em linfócitos humanos in vitro e examinaram o possível efeito anticlastogênico em danos induzidos pela cisplatina. Os resultados mostraram que a bixina não foi nem citotóxico, nem clastogênico. A bixina mostrou-se capaz de reduzir os danos causados pela cisplatina, reduzindo as aberrações cromossômicas. Os autores sugeriram que esse efeito poderia ser creditado à ação antioxidante da bixina, que teria a capacidade de interceptar os radicais livres gerados pela cisplatina.
Levy et al. (1997) desenvolveram um procedimento para a preparação do plasma humano para a detecção de bixina e seu derivado metilado, norbixina, utilizando o HPLC. Eles utilizaram esse processo para investigar a absorção intestinal de bixina de um extrato de sementes de urucum comercial ingerido, em dose única (1 mL de extrato, contendo 1,6% de bixina e menos de 0,3% de norbixina), por sete indivíduos em duas ocasiões distintas. Quantidades significativas de bixina e norbixina foram encontradas 2h após a ingestão do extrato. O nível de bixina atingiu o pico máximo 2 h após a ingestão e o de norbixina 4 h. Um aumento dos níveis de norbixina foi encontrado após 2 h, concomitante com a diminuição do nível de bixina. Entretanto,
os níveis de norbixina encontrados do plasma 4 h após a ingestão excedia em 5 vezes os níveis de bixina encontrados 2 h antes. Este aumento expressivo de norbixina sugeriu que uma conversão lenta de bixina para norbixina ocorreria no trato digestório e foi seguida por uma absorção de norbixina. Os níveis plasmáticos de bixina retornaram a zero 8 h após a ingestão. Os níveis de norbixina diminuíram mais lentamente. Embora a norbixina pudesse ser encontrada 48 h após a ingestão em alguns participantes, os autores sugeriram que isso poderia ser devido a ingestão adicional de annatto na dieta normal. Apesar destes dados mostrados por Levy et al. (1997), ainda não está claro se há conversão de bixina em norbixina no corpo (JECFA, 2003).
Considerando que o grande interesse em uso de corantes derivados de sementes de urucum está relacionado com a sua baixa toxicidade, que possui muitas substâncias que possuem uma potencialidade em modular sistemas fisiológicos, é importante o estudo das potenciais alegações dos extratos de sementes de urucum e seus produtos comerciais em reduzir o colesterol sérico e em melhorar o balanço redox.