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Capítulo 4: Coalizão dirigente e grupos internos

4.1. O PSOL e suas tendências

4.1.2. Bloco de direita

Formado pelos setores do partido que defendem uma nuança da ―estratégia de pinça‖

com maior peso do elemento institucional e uma linha política de maior adaptação ambiental visando aumentar a viabilidade eleitoral do partido. Apesar de ser o maior bloco do partido, não consiste no setor hegemônico tendo em vista que é posto em minoria quando ocorre a aliança do centro com setores da esquerda partidária. As principais forças que o compõem são as seguintes tendências:

Movimento Esquerda Socialista (MES): A principal figura pública do MES é a ex-deputada federal Luciana Genro (RS). Nas eleições municipais de 2008 elegeu três vereadores: Fernanda Melchionna e Pedro Ruas em Porto Alegre e Ricardo Barbosa em Maceió. Além disso, Heloísa Helena, antes mesmo de se desligar do Enlace, passou a estabelecer uma relação cada vez mais próxima com a tendência.

A tendência surgiu do processo de fracionamento da Corrente Socialista dos Trabalhadores (CST) no ano de 1999: uma maioria cujo principal reduto era o Rio Grande do Sul e uma minoria cujo principal reduto era o Pará. Diante do agravamento do impasse que envolvia diferentes leituras da situação nacional e internacional, a fração majoritária optou em formar uma nova tendência: o Movimento de Esquerda Socialista. Apesar de se posicionar à direita da organização que lhe deu origem, o MES foi uma das tendências mais à esquerda do PT e a organização política mais significativa do processo de ruptura que deu origem ao PSOL.

O processo de ruptura do MES com a CST significou também a ruptura com a UIT-QI. Com isto, a tendência passou inicialmente a se referenciar ―internacionalmente na Corrente Movimento, com quem publicava a Revista Movimiento‖. Em seguida, passou ―a publicar, com outras organizações internacionais, a revista América‖ (Pompêo, 2007).

Portanto, apesar de sua origem morenista, o MES não mantém nenhum contato mais orgânico com nenhuma das inúmeras frações da IV Internacional que reivindicam dessa tradição.

De qualquer modo, fiel à origem trotskista, o MES se apresenta oficialmente como defensor de uma estratégia revolucionária para o partido. Avaliando a experiência do PT como a de ―um projeto que se converteu em seu contrário‖ (Movimento Esquerda Socialista:

Um pouco do que somos e o que defendemos 71), afirma que, para além das causas objetivas do processo, a explicação está no fato de que desde o início o partido se apoiou em ―uma base

71 Disponível em: http://www.lucianagenro.com.br/movimento-esquerda-socialista-um-pouco-do-que-somos-e-o-que-defendemos/. Acesso em 1 de jul. de 2010.

teórica equivocada‖ que consistia em não caracterizar o caráter de classe do Estado (Idem).

Assim, mesmo o chamado ―Programa Democrático Popular‖ (PDP) aprovado V Encontro Nacional do PT realizado em 1987, apesar do seu caráter radical que apontava para a ruptura com o capitalismo, teria desconsiderado dois determinantes considerados fundamentais: ―a) somente poderosas lutas sociais, confrontos de classe e o poder dos trabalhadores podem realizar um plano de emergência popular; b) a burguesia é opositora radical desse programa‖.

Ao desconsiderar o fato de que a aplicação desse programa necessariamente produziria uma crise revolucionária, acabou por se reforçar as ―ilusões constitucionais, a idéia de viabilidade de mudanças profundas com a mera vitória eleitoral‖ (Idem). Segundo o MES, o esclarecimento dessa questão, permitiria hierarquizar ―a disputa eleitoral presidencial como uma prioridade da política partidária‖ sem se desviar da ―estratégia central e permanente dos marxistas revolucionários‖ que é a ―defesa da mobilização de massas para construir outro regime político‖ (Idem).

Apesar do tom revolucionário, o modo concreto como o MES hierarquiza a disputa eleitoral tem o caracterizado como a tendência que defende a linha política mais moderada para o partido72. O que demonstra que o simples esclarecimento do caráter de classe do Estado não elimina o paradoxo que enfrenta a esquerda ao valorizar a tática eleitoral como um elemento central.

Poder Popular: A origem da tendência nos remete às dissidências do PCB no final da década de 70. Durante a greve no ABC paulista em 1978-79, o Comitê Central do PCB condenou a ação do novo sindicalismo afirmando que esta poderia levar a um fechamento do regime militar. O retorno dos dirigentes nacionais que estavam exilados em países europeus acirrou as divergências internas contra linha política de alianças de classe defendida pela maioria do Comitê Central. Até mesmo o histórico líder do partido Luis Carlos Prestes rompeu com o partido durante esse processo. Parte dos militantes que estavam alinhados com Prestes não aderiram ao seu posicionamento de que não estava na ordem do dia a construção de outro agrupamento partidário. Esses militantes organizaram o Coletivo Gregório Bezerra73 (CGB) que possuía como objetivo reunir os dissidentes comunistas em torno de um novo partido revolucionário.

Ao contrário das principais organizações revolucionárias do período, o CGB não considerou o PT como tática apropriada para a construção do partido revolucionário, caminhando em raia própria. Diante disso, para concorrer às eleições municipais de 1986 e

72 Ver Capítulo 5.

73 http://www.ifcs.ufrj.br/~amorj/arquivos/COLETIVO%20GREGORIO%20BEZERRA.pdf

1990 acabou adotando a tática de entrismo no Partido Democrático Trabalhista (PDT) de Leonel Brizola. Apesar da relação com o PDT, a organização apoiou Lula em 1989, mesmo ano em que alterou seu nome para Partido da Libertação Proletária (PLP). Em 1991, em decorrência das exigências para legalizar a legenda, o nome da organização é novamente modificado, agora para Partido da Frente Socialista (PFS). No ano seguinte, coerente com o objetivo de construir um partido revolucionário no Brasil aderiu à Frente Revolucionária (FR) que culminou na criação do PSTU (Robaina, 2010). Em 2000, os militantes dessa tradição, em conjunto com um grupo de militantes da CS com os quais passaram a se articular, romperam com o PSTU por considerar sua direção autoritária e sectária.

Apesar da dissolução da organização no PSTU, os militantes do PFS mantiveram esta tradição devido a uma atuação unificada nos movimentos sociais que culminou em 2002 na criação do Movimento Terra e Liberdade (MTL) como produto da unificação do Movimento dos Trabalhadores (MT) com o MLST de Luta (Movimento de Libertação dos Sem-Terra de Luta) e o Movimento de Luta Socialista (MLS). E é exatamente como MTL que vai se articular em 2003 com as organizações que dariam origem ao PSOL no ano seguinte. Porém, como o PSOL consegue o registro apenas em 2005, o MTL utiliza em Goiânia o recurso de filiação democrática no Partido Verde (PV) para re-eleger Elias Vaz vereador nas eleições municipais de 200474 (em 2000 ele havia sido o único candidato eleito pelo PSTU em uma capital).

A tendência Poder Popular foi oficialmente constituída em janeiro de 2005 em uma tentativa frustrada de desvincular o movimento social da disputa partidária: ―Na prática, ainda há essa simbiose entre MTL e Poder Popular, uma vez que o segundo é chamado pelo nome do primeiro na quase totalidade das oportunidades‖ (Delmanto & Seda, 2008, p.39).

As principais personalidades públicas do partido são: o vereador Eliaz Vaz, a deputada estadual recém-eleita Janira Rocha e Martiniano Cavalcante, este último dirigente histórico do CGB e candidato às prévias para presidente da República derrotado por Plínio na última Conferência Eleitoral do partido.

O documento programático que deu origem à tendência Poder Popular apresenta o objetivo de ruptura revolucionária com o capitalismo para a construção da democraci a socialista. Em termos estratégicos o documento afirma a necessidade de que ―todas as táticas do P-SOL devem combinar a ação do movimento de massas com a luta eleitoral institucional‖

74 Ver artigo publicado no site do MTL: ―PSTU usa de calúnia política como método de luta política‖.

Disponível em: http://www.mtl.org.br/nacional/index.php?option=com_content&view=article&id=246:pstu-usa-da-cal-como-mdo-de-luta-polca&catid=1:nacional&Itemid=3. Acesso em 6 de jul. de 2010.

como antídoto contra as ilusões da democracia burguesa (Texto para a formação de uma nova tendência75). Contudo, este teor revolucionário é suavizado pela insistência na ―relação concreta de forças entre as classes sociais‖ e no ―nível de organização e de consciência do povo‖ (Idem), ou seja, da necessidade de adaptar-se ao ambiente. Tal posicionamento conduziu a tendência a formar um bloco compacto com o MES na defesa de uma linha política mais moderada para o PSOL visando ampliar sua viabilidade eleitoral. A unidade entre as duas tendências é tão grande que em 2007 chegou a iniciar um processo de fusão que não foi concluído76.

Grupo do Rio: O grupo de independentes do Rio de Janeiro não é uma tendência. Mas, pela importância na dinâmica do partido é digno de registro aqui. Formado pelo deputado federal Chico Alencar, o deputado Estadual Marcelo Freixo, o vereador carioca Elimar Coelho e por grandes intelectuais como Leandro Konder, Milton Temer e o eurocomunista Carlos Nelson Coutinho.