• Nenhum resultado encontrado

Capítulo 4: Coalizão dirigente e grupos internos

4.1. O PSOL e suas tendências

4.1.1. Bloco de esquerda

Formado pelos setores do partido que defendem uma nuança da ―estratégia de pinça‖

com menor peso do elemento institucional e uma linha política de menor adaptação ao ambiente. Apesar de contar com inúmeras organizações é o menor bloco do partido. Suas principais tendências são:

Corrente Socialista dos Trabalhadores (CST): A origem da tendência nos remete à Liga Operária (LO), organização fundada em 1973 por quatro militantes brasileiros na Argentina com o apoio do Partido Socialista dos Trabalhadores (PST), partido do histórico dirigente da fração trotskista Liga Internacionalista dos Trabalhadores (LIT) Nahuel Moreno.

Segundo Mermelstein, a LO passou a atuar no Brasil em 1974 e conseguiu um rápido crescimento aproveitando o ―vazio político‖ existente em decorrência do fato do PCB estar

―desprestigiado‖ e as organizações guerrilheiras ―duramente golpeadas‖ (Mermelstein, 2009).

Contou para isto também com a desagregação da maior organização trotskista do Brasil até então: o Partido Operário Revolucionário (POR) que era ligado à fração de J. Posadas, o qual havia sido fortemente abatido pela ditadura militar, dando origem a diversas frações e abrindo espaço para o desenvolvimento de outras correntes trotskistas. Entre as frações do POR, destaque para a Fração Bolchevique dos Trabalhadores (FBT), organização da qual pertencia um importante grupo de militantes que se unificou com a LO em meados da década de 1970 (Ridenti, 1997).

Em 1978, avaliando o momento do país como positivo para a construção de um partido socialista, a LO toma a iniciativa de criar um movimento com esse objetivo: a Convergência Socialista (CS). A LO decide também mudar o nome para PST. Atuando dentro da CS, a organização consegue atrair alguns militantes socialistas para o projeto, mas não os remanescentes das organizações armadas, a tal ponto que em 1980 o PST deixaria de existir como organização separada.

Diante da dificuldade encontrada para a construção de um partido socialista, a organização acata a sugestão de Nahuel Moreno e passa para a estratégia de construir um partido dos trabalhadores mais amplo. Em janeiro de 1979, durante o X Congresso dos Metalúrgicos do Estado de São Paulo um ativista do sindicato de Santo André e militante da PST chamado José Maria de Almeida apresenta uma moção "todos os trabalhadores brasileiros a unir-se na construção de seu partido, o Partido dos Trabalhadores". A aprovação desta moção foi um dos marcos iniciais do movimento que daria origem ao PT. Contudo, apesar de constituir uma das impulsionadoras do movimento-PT, diferentes das outras organizações trotskistas (como a Democracia Socialista e O Trabalho) que aderiram ao PT como partido estratégico, a CS julgava que ―o PT e sua direção eram, do ponto de vista

histórico, um obstáculo para o processo revolucionário e que era necessário manter a independência política e organizativa ao trabalhar no seu interior‖ (Mermelstein, 2009).

Acusada de fracionismo pela direção do PT, a CS foi expulsa em 1992 passando a organizar a Frente Revolucionária por um novo partido. Neste mesmo ano, um importante setor da organização iniciou um processo de ruptura com a CS e com a LIT em decorrência de discordâncias em relação à conjuntura nacional e internacional (Pompêo, 2007). Em 1993, esse setor pede o retorno ao PT passando a se organizar dentro do partido como Corrente Socialista dos Trabalhadores67 (CST). Internacionalmente, por sua vez, passou a se articular com a Unidade Internacional dos Trabalhadores (UIT), fração morenista da IV Internacional que surgiu da crise que abateu a LIT após a desagregação de sua principal seção, o argentino Movimento ao Socialismo (MAS). Apesar de atuar dentro do PT com menor autonomia do que sua antecessora, a CST manteve a defesa de uma linha política bastante discordante da coalizão majoritária do partido. A postura de oposição a direção petista se ampliou após a vitória de Lula nas eleições de 2002. Logo no primeiro ano do governo, a CST passou a articular com o MES a saída do PT, a qual se concretiza após a expulsão dos parlamentares que votaram contra a reforma da previdência, entre eles, a principal personalidade pública da tendência: o então deputado federal Babá.

Apesar da atuação unificada com o MES no momento da fundação do PSOL, a CST tem mantido a defesa de uma linha política muito distinta do seu ex-aliado. Para a CST as eleições não são o centro estratégico, mas apenas ―um momento de politização da população‖

(Delmanto & Seda, 2008, p.37). De onde a defesa uma linha política que ―assinala o caminho da luta e da ação direta como fundamental‖ (Uma proposta de esquerda, coerente com o PSOL que fundamos!68). Entre as grandes tendências do PSOL é aquela que está mais à esquerda indicando uma clara preferência pelo primeiro elemento no dilema predomínio/adaptação ao ambiente. Como afirma um documento da tendência: ―Quando a correlação de forças e a consciência das massas não estão de acordo com nossa proposta, faremos todo o possível para mudá-la‖ (Idem). Essa posição extrema tem conduzido a CST a certo isolamento no interior do partido. Assim, seus aliados menos episódicos tem se restringido a algumas das tendências menores.

67 Ver entrevista de Babá ao jornal Opção de 23 de fevereiro a 1º. de março de 2003. Disponível em:

http://www.jornalopcao.com.br/index.asp?secao=Destaques2&idjornal=15. Acesso em 9 de jul. de 2010.

68 Disponível em: http://www.thiagolpc.com.br/viewnoticia.asp?ID=105. Acesso em 9 de jul. de 2010.

Coletivo Socialismo e Liberdade (CSOL): Mais uma tendência que nos remete à tradição da CS. Como vimos (seção 1.2.), esta organização se originou de um racha do PSTU em 2003.

Através da revista ―Debate Socialista‖, o CSOL se articula com renomados intelectuais independentes e coletivos regionais, entre eles o Rosa do Povo de Campinas, grupo de apoio do ex-deputado estadual Raul Marcelo. Embora o campo de influência da tendência tenha nomes como o de intelectuais renomados como Ricardo Antunes, Plínio Arruda Sampaio Jr., Roberto Leher, Marcelo Badaró e o ex-deputado federal Plínio Arruda Sampaio, o CSOL não possui nenhuma grande personalidade entre seus quadros. Seus nomes mais conhecidos são os dos sindicalistas Junia Gouvêa, Jorginho e Fernando Silva (Tostão).

Em termos de linha política o CSOL se destaca pela crítica ao Programa Democrático Popular elaborado pelo PT em meados da década de 80. Para a tendência ―as instituições burguesas não abrem espaço para a transformação social, por isso a prioridade deve ser dada as lutas fora da institucionalidade‖ (Delmanto e Seda, 2008, p.36). A partir dessa avaliação, os militantes da corrente defendem a ―necessidade de ruptura com a ordem econômica-social-institucional, sem que haja uma etapa intermediária entre o capitalismo atual e o socialismo‖

(Idem).

Apesar dessas posições que situam claramente o CSOL no espectro da esquerda do partido, sua prática de construção partidária e nos movimentos sociais tem a aproximado das tendências mais ao centro.

Pequenos agrupamentos de extrema esquerda: Entre as inúmeras organizações que podem ser classificadas nesta categoria destacamos: Revolutas (trotskista ligada à Tendência Socialista Internacional69), Trabalhadores na Luta Socialista (TLS) e Bloco de Resistência Socialista (BRS) composto pelas tendências Liberdade Socialismo e Revolução70 (LSR/

trostskista ligada ao Comitê por uma Internacional dos Trabalhadores), Alternativa Socialista (AS/ racha do MES), Alternativa Revolucionária Socialista (ARS), Reage Socialista, Movimento Nascente Socialista (MNS) e independentes. Apesar da grande quantidade delas, em conjunto expressam uma força política não muito expressiva. Além disso, vale registrar que são forças que não formam um conjunto homogêneo e que, por isso, atuam de forma mais ou menos independente no partido.

69 Organização da qual o partido mais conhecido é o o britânico Socialist Work Party (SWP)

70 A LSR é produto da unificação do Socialismo Revolucionário (SR) com o Coletivo Liberdade Socialista (CLS).