Recorte 35 (01:04:59)
3.2 Bloco temático 1: regime fechado
Os recortes que fazem parte do bloco temático 1 vão do número 1 ao número 19. Neles, temos Betânia, no regime semiaberto, fazendo referência em seu dizer ao regime fechado.
Recorte 1 (00:39:15)
Fonte: Documentário O Cárcere e a Rua (2004)
Recorte 2 (00:39:19)
Recorte 3 (00:39:23)
Fonte: Documentário O Cárcere e a Rua (2004)
Recorte 4 (00:39:29)
Fonte: Documentário O Cárcere e a Rua (2004)
Ante tais recortes, é importante versarmos sobre o que Althusser (s. d.) discorre a respeito do Aparelho Repressivo de Estado (ARE) e do Aparelho Ideológico de Estado (AIE). Segundo o autor, o ARE abarca as exigências da prática jurídica, as prisões, a polícia, os tribunais, as forças armadas, o chefe de Estado, o governo e a administração. E o AIE abarca as instituições responsáveis por “regular” os sujeitos e por transformar os indivíduos em sujeitos no processo de interpelação ideológica (são referentes às instâncias religiosa, escolar, familiar, jurídica, política, sindical, cultural, da informação, etc.). Para Althusser (s. d.), o que distingue um Aparelho do outro é que o Repressivo funciona “massivamente” pela repressão e secundariamente pela ideologia, e o Ideológico funciona, de modo inverso, “massivamente” pela ideologia e secundariamente pela repressão.
Por esse viés, tomamos a Penitenciária e o Albergue como constituintes do ARE. Entretanto, convém esclarecermos que não concebemos da mesma maneira que Althusser (s. d.) a diferença entre o ARE e o AIE. Em nossa visão, no modo como operam a Penitenciária e o Albergue, não há um funcionamento massivo pela repressão e secundário pela ideologia. Acreditamos que funcionam pela repressão e pela ideologia. Não enxergamos essa separação/hierarquização tão clara. Dito diferentemente, o ARE é responsável também por regular os sujeitos e por transformar os indivíduos em sujeitos no processo de interpelação ideológica.
Levando em consideração essas colocações, dizemos que as mulheres, ao cumprirem suas penas na Penitenciária e no Albergue, são interpeladas ideologicamente, para que se identifiquem com a FD dominante e a forma-sujeito correspondente. Compreendemos que, na Penitenciária e no Albergue, tem muita força o funcionamento de uma FD que podemos denominar como jurídica, inserida no AIE jurídico. Isto é, as mulheres, que vivem nesses locais, são interpeladas ideologicamente, para que se identifiquem com a FD jurídica e com sua forma- sujeito, sujeito de direito, que organiza essa FD.
Logo, nesses primeiros recortes, podemos observar pela paráfrase, repetição do mesmo, a sujeição de Betânia à Penitenciária. Conforme Orlandi (2007, p. 177), o funcionamento da paráfrase “configura o espaço da formação discursiva como o espaço do ‘mesmo’ no processo de identificação do sentido, já que, ao identificar o sujeito, o mecanismo da paráfrase lhe dá [...] a impressão da estabilidade do sentido, da permanência de seu ‘conteúdo’”. As regularidades linguísticas usadas
pela apenada: “eu já tinha acostumado lá dentro”, “(eu tenho) vontade de voltar para
lá (dentro)”, “puxar meu semiaberto lá dentro”, mostram sua subordinação à FD
jurídica.
Essa questão faz com que retomemos Foucault (1987), o qual assevera, acerca do funcionamento da prisão, que ela atua, pelo controle do tempo e pelo exercício da força, com o objetivo de adestrar – domesticar e transformar – os sujeitos presos. O adestramento visa ao controle dos corpos e do tempo e à composição de forças que buscam a obtenção de um Aparelho eficiente. A condenada, depois de anos na prisão, sente necessidade de voltar para “lá dentro”, tomando posição diante da interpelação ideológica, respondendo como se aquela fosse a única realidade possível. Por conseguinte, a imagem que ela apresenta, com tanta docilidade, cria no interlocutor um imaginário de perfeito assujeitamento, talvez até de uma identificação plena com a FD que a domina. Esses são os efeitos de sentidos que se produzem, esses são os modos de construção do sujeito mulher em situação de preso/livre, no espaço do documentário.
Todavia, pela atuação do esquecimento número dois50, mesmo que Betânia tente controlar os sentidos do que enuncia, ela não consegue. O sentido escapa-lhe, levando nossa leitura tomar outro caminho. A partir da paráfrase, há uma deriva observável ao analista de discurso. Orlandi (1996b) reflete sobre a paráfrase e a polissemia enquanto dois processos fundamentais na linguagem, que articulam a questão do mesmo e do diferente no discurso. E Petri (2004, p. 214) explica que “há um jogo entre repetibilidade e ruptura no qual a paráfrase e a polissemia se constituem ao mesmo tempo. As relações [...] estão postas em constante tensão”. Quando Betânia fala que não vai aprontar nada, a construção linguística que faz não é uma afirmação, mas uma interrogação: “Mas não aprontar nada, né?”. Será possível que ela apronte? A negação coloca-nos a dúvida: é preciso dizer? Na forma da negação, nota-se a divisão dos sentidos. O ARE e a sociedade pressupõem a reincidência, por isso é preciso dizer “não”. Ao mesmo tempo, essa negação vai abrir espaço para que se instaure a dúvida. Esse movimento, no interior do que
50Em conformidade com Orlandi (2015, p. 33), o esquecimento número dois é o da ordem da
enunciação: “ao falarmos o fazemos de uma maneira e não de outra e, ao longo do nosso dizer, formam-se famílias parafrásticas que indicam que o dizer sempre podia ser outro”. Esse esquecimento produz no sujeito a impressão de realidade do pensamento, e essa, denominada ilusão referencial, faz com que ele acredite que há uma relação direta entre o pensamento, a linguagem e o mundo.
formula a sentenciada, indica para a presença da polissemia. E o “né”, em: “Mas não
aprontar nada, né?”, atua de modo a trazer o interlocutor para dentro do discurso da
sentenciada. O “né” indica a presença de outro sujeito no discurso de Betânia. Ademais, o desejo de Betânia de voltar para a prisão é paradoxal, pois, no regime de semiliberdade, pode vir a regressar para a Penitenciária se fugir do Albergue – se não obedecer ao que está posto pela regra, pelo sistema, pelo Estado. Partindo disso, vemos a instauração do contraditório na fala da condenada, pelo atravessamento de saberes advindos de outra FD, avessa a da dominante, a FD desvio. E, através dessa contradição, vemos que ela pode vir a agir de forma inversa ao que lhe impõe o ARE, desvencilhando-se das repetições dos padrões comportamentais e resistindo à coerção.
Desse modo, a FD jurídica comporta o mesmo e o diferente, o que, para Orlandi (1996b), vai possibilitar um caminho do parafrástico para o polissêmico. E, como diz Petri (2004, p. 215), “é na tensão entre paráfrase e polissemia que se observa como se realizam os movimentos de sentido no discurso”.
Nesses recortes, é necessário ainda nos determos para a expressão do rosto de Betânia. Esse rosto, que é uma regularidade, funcionando como um operador de memória (MEDEIROS, 2010), é exposto sempre em primeiro plano, e sempre, refletindo sobre ele, há um contraste de luz: metade de seu rosto é tomada pela claridade e a outra metade é tomada pela sombra. Esse jogo de luz, recobrindo o rosto, faz ecoar a divisão do sujeito no conflito entre a FD jurídica e a FD que lhe atravessa, a FD desvio. Ainda, o olhar de Betânia, nunca direcionado para a câmera, mas sempre para um longe, para um passado ou para um futuro, faz emergir sentidos relativos à contradição em que ela se encontra. Esse rosto, como sendo “a parte mais humana do homem” (AUDOIN-ROUZEAU, 2008, p. 404), também provoca um sentimento de comoção no interlocutor. O interlocutor fica comovido ao contemplar Betânia, que, meio iluminada e meio sombreada, exibe sua triste realidade, enquanto ser humano que, por vezes, vê a prisão como seu lugar. Dessa forma, ao recuperarmos a indagação de Betânia, “Mas não aprontar nada, né?”, afirmamos que o “né” demonstra o apelo da sentenciada – que, de vez em quando, não vê outro lugar para si senão na prisão – para que o interlocutor constitua seu discurso como o outro do qual depende a efetivação dos sentidos que ali estão em
jogo: ela procura mostrar sua sujeição ao Aparelho e espera que o interlocutor a entenda, concorde com ela, seja seu cúmplice.
Dando continuidade aos recortes do bloco temático 1, observamos que a contradição, divisão do sujeito entre saberes de FDs, está sempre presente:
Recorte 5 (00:50:06)
Recorte 6 (00:50:15)
Fonte: Documentário O Cárcere e a Rua (2004)
Recorte 7 (00:50:16)
Recorte 8 (00:50:39)
Fonte: Documentário O Cárcere e a Rua (2004)
Recorte 9 (00:50:43)
Recorte 10 (00:50:47)
Fonte: Documentário O Cárcere e a Rua (2004)
Betânia ganha o direito de ir para o Albergue, porém, após ficar um tempo nessa instituição (no Albergue), ela foge e vai morar em uma casa na região pobre de Porto Alegre. Desse cenário, a apenada reatualiza sentidos que mostram a relação entre FDs. Betânia fala para seu interlocutor que não quer mais continuar foragida e que quer retornar ao Albergue, porque o tempo que está foragida não conta para sua pena: se “recapturada”, volta para a prisão e cumpre o que ainda falta ser cumprido da sua pena, quando do instante de sua fuga. Todavia, posteriormente, ela diz o inverso: não deseja mais retornar ao Albergue, pois não quer voltar para a prisão (não sente mais saudade da Penitenciária)51.
No que concerne às formações imaginárias, Betânia já possui uma representação do que aconteceria se voltasse para a Penitenciária novamente, uma representação da vida na prisão, por esse motivo recusa a volta para lá. Ela justifica que continuará na rua, porque não está fazendo nada para ser repreendida pelo
51Neste capítulo, no recorte 2, temos: “Tem horas que dá uma saudade, uma vontade de voltar pra lá”
Aparelho, embora seja uma foragida. A apenada tenta, inconscientemente, controlar a imagem que o Estado, a sociedade, enfim, seu interlocutor faz dela: não está fazendo nada de errado para ser presa, então, por qual razão voltar à prisão?, buscando “mascarar” que está agindo fora da Lei52.
O que notamos nos recortes é, mais uma vez, a divisão do sujeito no conflito entre os saberes próprios às diferentes FDs. Identificamos que Betânia tem algum conhecimento a respeito do Código Penal, amparando-se na lei para justificar sua volta ao Albergue: “que faz dezoito dias hoje que eu tô na rua. Esses dezoito dias vai ter que passar, né, na minha cadeia”. No entanto, a mesma justificativa que a faz pensar em voltar, e seguir o que está no Código Penal, é a mesma que a faz não voltar. Em um primeiro momento, a apenada procura provocar no interlocutor a interpretação (a imagem) de que se subordina à Lei. E, em um segundo momento, o que acontece é o oposto, em virtude de o que ela diz estar relacionado com os saberes de outra FD.
No Albergue, Betânia é interpelada para que se identifique com a FD jurídica e com a forma-sujeito – sujeito de direito, mas a interpelação não ocorre de modo pleno e falha (PÊCHEUX, 1997). Por conta disso, a sentenciada intervém na reformulação dos saberes da FD jurídica, trazendo saberes da FD desvio para seu dizer. Os recortes seguintes coadunam-se com essa divisão subjetiva:
Recorte 11 (01:08:55)
Fonte: Documentário O Cárcere e a Rua (2004)
Recorte 12 (01:09:00)
Recorte 13 (01:09:02)
Fonte: Documentário O Cárcere e a Rua (2004)
Recorte 14 (01:09:04)
Recorte 15 (01:09:07)
Fonte: Documentário O Cárcere e a Rua (2004)
Recorte 16 (01:09:08)
Recorte 17 (01:09:10)
Fonte: Documentário O Cárcere e a Rua (2004)
Recorte 18 (01:09:14)
Recorte 19 (01:09:26)
Fonte: Documentário O Cárcere e a Rua (2004)
Do recorte 11 ao 19, Betânia conta que é abordada por um policial na rua, o qual, pensando que ela era um homem que iria assaltar um mercado, ordena que ela fique quieta e coloque a mão na cabeça. A apenada, então, diz ao policial que é uma mulher, e o policial, vendo o engano, manda-a para casa. Essa abordagem lembra o que Pêcheux (1997, p. 154) declara sobre a figura da interpelação ideológica, a qual pode ser tomada enquanto religiosa e policial: “Você, por quem eu derramei essa gota de sangue/Ei, você aí”. Essa figura, segundo o autor, torna tangível a ligação existente entre o Aparelho Repressivo e o Aparelho Ideológico e a ligação entre o sujeito de direito, aquele que entra em relação contratual com outros sujeitos de direito, e o sujeito ideológico, aquele que diz ao falar de si mesmo: “Sou eu!”.
A abordagem policial, relatada por Betânia, nos faz refletir sobre o vínculo existente entre o sujeito de direito e o sujeito ideológico no processo de interpelação, o qual é responsável pela evidência do sujeito como único, insubstituível e idêntico a si mesmo e pela evidência do sentido. Observamos, nesses ditos, esse vínculo e o recrutamento exercido pela ideologia, que “chama” os indivíduos a se tornarem
sujeitos. Betânia, ao ser interpelada pelo policial, sente medo de ser reconhecida como foragida e como desobediente da FD jurídica, tendo de voltar para a prisão. Quer dizer, ela teme o fundamento da imputação e da responsabilidade, que “toca no simbólico ao remeter ao nome próprio e a lei” (PÊCHEUX, 1997, p. 265).
Ou seja, Betânia, quando passa para o regime semiaberto, foge, mas sente medo de que o policial a prenda. Logo, dizemos que ela se contraidentifica com a FD jurídica e a sua forma-sujeito, assumindo uma nova posição discursiva e provocando, consequentemente, uma nova maneira de discursivizar os sentidos da FD jurídica. Vale destacar que essa maneira não se opera pelo viés da ruptura com a FD jurídica e sua forma-sujeito, visto que seu funcionamento acontece pelo viés da tensão e do estranhamento (INDURSKY, 2005).
Betânia contraidentifica-se com a FD jurídica: ela foge, mas sente medo de ser reconhecida. Nesse processo, ela mostra certa resistência aos saberes da FD jurídica, mas não se desidentifica com esse domínio de saber. Nesse movimento, nas palavras de Cazarin e Rasia (2014, p. 207): “saberes e sentidos se movimentam, se (re)organizam, provocam novos efeitos de sentido, mas não a ponto de instaurar uma ruptura” com a FD jurídica.
Sob esse ponto de vista, Petri (2004, p. 63) aborda o surgimento do novo no interior do mesmo não pelo viés do acontecimento discursivo, mas pelo do acontecimento enunciativo53. Diferentemente do acontecimento discursivo, o qual está ligado à desidentificação do sujeito com a FD dominante e sua forma-sujeito, levando à instauração de outro domínio de saber, o acontecimento enunciativo está ligado à contraidentificação do sujeito com a FD dominante e sua forma-sujeito, dando origem a uma nova posição discursiva e a um novo modo de enunciar os sentidos dessa FD. Entretanto, é importante salientarmos que o “novo” do acontecimento enunciativo é um efeito que só se apreende momentaneamente: logo depois de seu surgimento, passa a configurar a instância do já instituído, do interdiscurso (PETRI, 2004).
Outrossim, partindo desses recortes, podemos pensar no lugar da mulher no espaço público. Como vimos no verbete “mulher”: a mulher, quando ocupa o espaço público, tem uma imagem de desprestígio social. Segundo Ribeiro (2016), a mulher
“na rua” é vista como desonesta, meretriz, rameira e prostituta. A ela foi reservado somente o espaço privado, por isso o policial ordena Betânia ir para casa: “vai embora para casa então”, porque é em casa que a mulher deve ficar. A rua é o espaço de “alguém que ia assaltar o supermercado”.
Para Nunes (2001), essa significação da rua como o espaço do assaltante é construída historicamente. Nunes (2001) analisa a palavra rua, em diferentes dicionários, elucidando que a rua, primeiramente, era vista como lugar de passagem do cidadão, lugar ordenado. Depois, ela passa a ser lugar de passeio, no qual convive uma diversidade social complexa, marcada por comportamentos de exibição, de flerte e de vadiagem. E, por volta do século XIX, ela começa a ser nomeada como espaço público, em oposição ao espaço privado, da casa. Em conformidade com o autor, desse momento em diante, ocorre um desgaste da ordem pública, a qual vem a ser entendida como moralmente inferior, tornando a rua um espaço sem sociabilidade.
Diante disso, é pertinente constatarmos que há, sobre o espaço público, uma organização, representada juridicamente pelo policial, que gerencia o direito à permanência em determinado local. Betânia, como mulher, não tem o direito de estar na rua, então é mandada para casa. Isso evoca o que diz Beauvoir: “a mulher? É muito simples, dizem os amadores de fórmulas simples: é uma matriz, um ovário; é uma fêmea, e esta palavra basta para defini-la” (BEAUVOIR, 1970, p. 25). Em nossa sociedade, historicamente, a mulher foi e às vezes ainda é entendida como a reprodutora e a cuidadora. À mulher é destinado o espaço da casa, onde deve ficar cuidando do marido e dos filhos. Isso revela o pré-construído, aquilo que “todo mundo sabe” (PÊCHEUX, 1997), relativo à figura feminina: o crime e a rua, que hoje são sinônimos (NUNES, 2001), são correspondentes à figura masculina. Então, Betânia tem a obrigação de ir para casa.
Precisamos, também, atentar para os recortes 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16 e 17, nos quais Betânia aparece na casa onde mora e caminha pela rua da casa onde mora. Ela vive em uma casa de madeira, adornada com móveis simples e antigos, rodeada por outras casas que retratam, assim como a dela, a região pobre da cidade, a periferia de Porto Alegre. Ao olharmos para esses recortes, vemos uma repetição de elementos relacionados a uma memória relativa à existência de um espaço que a cidade, enquanto tomada pelo discurso do urbano, não inclui no seu
“planejamento”. E essa forma de organização da cidade, através da não inclusão de certos espaços, configura os sujeitos em suas relações, significando-os – a forma da cidade e a forma sujeito54 estão ligadas (ORLANDI, 2012). Nessa direção, Orlandi (2012, p. 200-201) afirma:
Nela [na cidade], sujeitos, práticas sociais, relações entre indivíduos e a sociedade têm uma forma material, resultante da simbolização da relação do espaço, citadino, com os sujeitos que nela existem, transitam, habitam politicamente significados. [...] O corpo dos sujeitos e o corpo da cidade formam um só. Nosso corpo, urbano, que se textualiza como um corpo de cidade, ocupa um espaço e é ocupado por ele.
A cidade significa pelo urbano, que não representa a cidade em seu real, mas é o imaginário pelo qual a cidade é tomada, seja como espaço empírico, já preenchido, seja como espaço abstrato, calculável, administrado pelos gestores públicos, através de seus projetos e políticas públicas. Desse modo, a cidade, enquanto declinada ao urbano, é já significada pelos padrões capitalistas. Sendo as relações sociais o mesmo que relações urbanas. Quando, nessa citação de Orlandi, temos que o corpo do sujeito está atado ao corpo da cidade, que é declinada pelo urbano, tomamos o corpo do sujeito e o corpo urbano como um só. Ou melhor, o corpo social e o corpo urbano como um só.
A periferia não faz parte do todo planejado imposto pelo urbano. Ela está recortada/dividida/separada da cidade. A periferia não faz parte da cidade como também não fazem os sujeitos que nela moram. E sendo o urbano sobreposto à cidade, e esta identificada com o social, os sujeitos que moram na periferia também não fazem parte do social. Ela é um dos tantos muros que existem para separar aqueles que não estão dentro do todo projetado, daqueles que estão; é um bolsão que produz uma grande violência simbólica, caracterizando os considerados socializáveis dos não-socializáveis.
Consequentemente, se nos bolsões dos condomínios o fechamento é de dentro para fora e seus habitantes são valorizados; no caso da periferia o fechamento é de fora para dentro e, no seu interior, os moradores são vistos
54A forma sujeito tratada por Orlandi (2012) é respectiva ao modo como os sujeitos estão dispostos
indistintamente como “hostis”. A periferia torna-se um espaço fechado, pelas formas como o Estado a exclui da cidade, o que tem como efeito a exclusão também dos sujeitos que nela vivem (ORLANDI, 2012).
O que depreendemos é que a apenada, como mulher, não tem direito a ocupar o espaço público (urbano), pois o policial determina que o seu lugar é em casa. E de onde mora também não tem direito ao espaço público (urbano). Como, então, existir ressocialização se não há qualquer possibilidade de vínculo de sociabilidade?
Esse questionamento se fará presente na análise dos recortes do bloco temático 2, que retomará a problemática da ressocialização, objetivo principal do Estado com suas instituições penais, bem como retomará, com um maior aprofundamento, pontos importantes tratados por nós rapidamente nesse bloco, como as posições discursivas assumidas pelas mulheres na semiliberdade e as imagens que fazem de si.