Recorte 35 (01:04:59)
3.3 Bloco temático 2: regime semiaberto
Os recortes que fazem parte do bloco temático 2 vão do número 20 ao número 40. Neles, temos Betânia e Cláudia, no regime semiaberto, fazendo referência em seus dizeres ao regime semiaberto.
Recorte 20 (00:40:13)
Fonte: Documentário O Cárcere e a Rua (2004)
Recorte 21 (00:40:14)
Recorte 22 (00:40:19)
Fonte: Documentário O Cárcere e a Rua (2004)
Recorte 23 (00:40:21)
Recorte 24 (00:40:35)
Fonte: Documentário O Cárcere e a Rua (2004)
No que é dito por Betânia, verificamos a dificuldade que ela demonstra em se ver cumprindo pena no regime semiaberto. A condenada mostra irritação quanto ao modo de funcionar do Albergue: “aí, tudo tem que esperar, esperar”. Para fazer qualquer coisa, “tudo”, ela precisa da autorização do Albergue, mas a autorização é demorada – efeito produzido pela repetição do verbo “esperar” no infinitivo. Ela solicitou à instituição permissão para ficar na casa de uma tia e com ela trabalhar como faxineira, assim conseguiria ganhar “um dinheirinho bom”, porém a instituição não lhe deu permissão imediata.
Para pensarmos nesse desejo de Betânia de trabalhar, fazemos uma ligação com o que ressalta Vinhas (2014) quanto à Penitenciária Feminina Madre Pelletier. Vinhas (2014) salienta que, na Pelletier, as mulheres não recebem materiais de higiene. O Estado não garante isso para elas; não repassa algo que concerne aos Direitos Humanos. Nesta instituição, para as mulheres conseguirem materiais de
higiene só há uma maneira: elas compram dentro da Penitenciária com o dinheiro que recebem do trabalho que realizam na própria Penitenciária55.
Introduzimos as considerações de Vinhas (2014), uma vez que, no Albergue, as mulheres também não ganham materiais de higiene, como papel higiênico, absorvente e sabonete. Para elas usufruírem dessas “pequenas coisas”, precisam trabalhar de modo a conseguirem o dinheiro para a compra56.
Essa situação, em especial no Albergue57, mostra a omissão do Estado, que não oferece a mínima possibilidade de reintegração das apenadas na sociedade: além de não dar condições mínimas para se poder viver, dado que não distribui materiais de higiene, sendo as albergadas responsáveis por comprarem seus materiais, não trabalha a fim de que as albergadas sejam aceitas socialmente. Como vimos, no primeiro capítulo da dissertação, a sociedade não aceita as mulheres que estão presas ou que já foram presas, posto que tem como pré-construído (PÊCHEUX, 1997) que todo aquele que está ou foi preso é um delinquente, resultando na dificuldade dessas mulheres arrumarem um trabalho. Dessa forma, no Albergue, como elas irão comprar seus materiais se não conseguem trabalho? O Estado exerce a função da punição, do molde de corpos, e nada mais. Como afirma De Certeau (1998, p. 231):
Não há direito que não se escreve sobre corpos. Ele domina o corpo. A própria lei de um indivíduo isolável do grupo se instaurou com a necessidade, sentida pela justiça penal, de corpos que devem ser marcados por um castigo e, pelo direito matrimonial, de corpos que se devem marcar com um preço nas transações entre coletividades. Do nascimento ao luto, o direito se “apodera” dos corpos para fazê-los seu texto. Mediante toda sorte de iniciações (ritual, escolar, etc.), ele os transforma em tábuas da lei, em quadros vivos das regras e dos costumes, em atores do teatro organizado por uma ordem social.
55Vinhas (2014), em sua tese de doutorado, no capítulo “Descrição e Interpretação do Arquivo”,
mostra, com entrevistas de mulheres que estão presas na Penitenciária Feminina Madre Pelletier, que as mulheres, na Pelletier, não recebem do Estado materiais de higiene. Então elas compram esses materiais na Penitenciária, com o dinheiro que recebem do trabalho que realizam na própria Penitenciária. Elas também podem ganhar esses materiais dos seus familiares, no momento da visita, mas isso é muito raro, pouco acontece, já que os familiares as abandonam quando são condenadas.
56Essa informação pode ser acessada no link: <http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-
sul/noticia/2012/07/decisao-judicial-interdita-anexo-de-penitenciaria-feminina-de-porto-alegre.html>. Acesso em: 02 de dezembro de 2017.
Betânia, para o Estado, é apenas mais um corpo que deve ser punido e afastado da sociedade. Por conseguinte, em vista de não ser somente corpo, Betânia aspira por um trabalho, como a faxina. Um ponto interessante que Orlandi (2012, p. 217) traz com relação ao trabalho é:
O trabalho é a objetivação primária do ser social e é por se objetivarem que os homens podem construir sua subjetividade, sua personalidade, enquanto determinação individual específica. Mas esta é uma determinação ontológica de uma totalidade das condições sociais e é nelas e a partir delas que a subjetividade é historicamente formulada e mudada [...]. Dessa perspectiva, penso que devemos considerar, no Estado capitalista, o trabalho como parte do modo de individualização do sujeito. O que lhe concerne condições de identificação no conjunto da sociedade.
Do que é exposto por Orlandi (2012), entendemos que o sujeito, no Estado capitalista, para fazer parte do conjunto da sociedade não pode estar fora da lógica do capital – resumida ao trabalho. Portanto, Betânia, ao procurar um emprego, visa à identificação com a formação social, que se dá no momento em que o sujeito trabalha. Participar da sociedade tem a ver com a participação do fluxo de intercâmbio de informações, dos sinais de pertencimento, decorrendo daí um desenvolvimento do individualismo a título de dever ser considerado. É preciso fazer o próprio lugar para ser reconhecido. E para existir, para ser reconhecido, é preciso ser útil e produtivo (ORLANDI, 2005). Ou seja, para Betânia ser reconhecida na sociedade, ela precisa ser útil e produtiva.
É desse ponto de vista que Schaller (2002) reflete sobre luta de lugares, problematizando a noção de luta de classes. A luta de lugares é uma luta solitária de cada sujeito face à sociedade para se fazer aceitar, para existir, para viver e se fazer reconhecer como um cidadão por inteiro. A luta de lugares confronta o sujeito em situação de dificuldade com uma imagem negativa que estabelece uma contradição entre o que lhe é necessário ser para se fazer reconhecer socialmente e a identidade que lhe é atribuída. “O desempregado, o desvalido sem domicílio, o inativo sem utilidade, o exilado sem pátria, o prisioneiro a quem se nega o nome ao se chamar por uma matrícula, o imigrante sem direito... são todos definidos por uma falta” (SCHALLER, 2002, p. 151). Essa necessidade de trabalhar da sentenciada pode ser vista como uma luta por um lugar social, ante o sentimento de existência
recusada/de ser corpo, no entanto, a forma como é caracterizada socialmente acaba não lhe permitindo esse lugar.
Betânia, cansada de esperar pela permissão do Albergue para trabalhar, foge, revelando o contraditório em que se acha: ela quer fazer parte do social e trabalhar, deixando de ser corpo, mas foge, podendo ser “recapturada” a voltar para a prisão. Isso mostra, novamente, a falha na interpelação por parte do ARE e a divisão do sujeito entre FDs.
No tocante aos recortes 21, 22 e 23, é importante voltarmos nossa atenção para a repetição das grades do portão do Albergue, que lembra a forma como essa instituição e os sujeitos que nela cumprem pena são significados no espaço da cidade. Do Albergue, situado no bairro Partenon, Betânia olha pelas grades do portão o movimento da rua, onde não há muitas pessoas e carros, se comparado com centro da capital gaúcha, situado no bairro Centro Histórico. Ela, meio livre e meio presa, olha para uma paisagem em que não precisa mais estar “por-entre” limitações. Mesmo que o Albergue tenha uma estrutura distinta da Penitenciária, ainda impõe barreiras que impossibilitam a livre circulação desses sujeitos na cidade e que indicam a “interpelação subjetiva que atua no corpo do indivíduo, já que [...] interrompe inexoravelmente seu andar” (SOUZA, P., 2001, p. 72).
Relativo à noção de circulação, Orlandi (2012), pensando no espaço da cidade, em que se inscreve a relação entre o público e o privado, afirma que a relação público/privado faz parte do sistema capitalista, que organiza os processos de individualização dos sujeitos, simbolizando as relações de poder, segundo um sistema de diferenças de valores. Para nós, isso significa que, no Albergue, Betânia é a delinquente, a marginal, a que agride, a que hostiliza, por isso não pode andar livremente no espaço público. Ela está nesse bolsão que, como o bolsão da periferia, a distingue daquele que é o correto, o legítimo, o que pode circular na cidade.
Com outras palavras, como resultado desse sistema capitalista, os sujeitos que vivem no Albergue representam a “excrecência [...] o excedente deste espaço planejado [cidade], são sujeitos que constituem a chamada ‘população de risco’, vivem em um espaço saturado de sentidos já postos” (ORLANDI, 2017, p. 136), que os coloca na marginalidade. Na continuidade de nossa análise, veremos a
ratificação desse modo como as mulheres na semiliberdade são significadas no espaço citadino:
Recorte 25 (00:40:39)
Recorte 26 (00:40:46)
Fonte: Documentário O Cárcere e a Rua (2004)
Recorte 27 (00:40:51)
Recorte 28 (00:41:04)
Fonte: Documentário O Cárcere e a Rua (2004)
Recorte 29 (00:41:12)
Recorte 30 (00:41:14)
Fonte: Documentário O Cárcere e a Rua (2004)
Recorte 31 (00:41:22)
Cláudia, ao mostrar o tamanho da janela do seu quarto no Albergue, para o interlocutor, diz que a fuga: “não passou pela minha cabeça” e “eu quero cumprir a minha pena”. Apesar de ela dizer que não pensou em fugir, ela toma uma posição em contradição consigo mesma. Pela relação parafrástica, existente na sua formulação, vemos a brecha para a deriva do sentido: “a porta fica fechada, mas olha o tamanho que é a janela”, “a porta fica fechada, mas a janela é um convite”. Convite para quê? Convite para quem? Dessarte, Cláudia reconhece sim a possibilidade de fugir, ao falar do tamanho da janela.
Esse reconhecimento ainda é evidenciado quando ela utiliza o “nem...”: “É um convite. Mas não passou pela minha cabeça, e nem... Eu quero cumprir minha pena. Eu tenho nove anos para ficar aqui”. Esse marcador de negação expõe o espaço da diferença e da contradição no interior da FD jurídica (INDURSKY, 1997), bem como o funcionamento do inconsciente e das formações imaginárias. O “nem” viria introduzir a admissão da possível fuga, que não é permitida pela FD jurídica: “nem
eu quero fugir”. Como a fuga não é permitida por dada FD, Cláudia,
inconscientemente, omite o “e nem eu quero fugir”, o que é notado pelas reticências “e nem...”, que atuam de modo a suspender/interromper o que vinha a ser dito. É preciso que seu interlocutor saiba que ela não pensa em fugir, funcionando aí as formações imaginárias. Dessa maneira, mesmo querendo mostrar que está subordinada ao ARE, há, no seu dizer, o deslize de sentido: o ato de fugir passou “pela sua cabeça”.
Nos recortes 30 e 31, há a ratificação da possível fuga. Cláudia confessa que se não estivesse em um quarto individual e tivesse que ficar no mesmo quarto que as outras sentenciadas, teria fugido, uma vez que é “muita gente misturada”. Por esses recortes, percebemos o surgimento de saberes da FD desvio na FD jurídica e a impossibilidade de restringir a uma FD um grupo determinado de saberes.
Além disso, percebemos a denúncia de Cláudia acerca da superlotação no Albergue, que, pelas más condições de infraestrutura, se levada em conta a quantidade de mulheres ali vivendo, não “recupera” o sentenciado. Ela já teria fugido. Recuperamos, com isso, aquilo que afirma Foucault (1987): a prisão (ou o Albergue) não opera pela violência ligada aos suplícios, mas por outras práticas, que não deixam de estar ligadas à violência. A superlotação é uma violência que sinaliza para o fato de o Estado não fazer funcionar, adequadamente, o Aparelho
Repressivo. O sujeito que está no Albergue deve se adequar às condições ali impostas para continuar dentro da Lei, ou vem a fugir, passando a ser um fora da Lei (criminoso). Daí que tomamos mais uma vez Foucault (1979, p. 131-132): “a prisão [ou o Albergue], longe de transformar os criminosos em gente honesta, serve apenas para fabricar mais criminosos”. Essa instituição não propicia a ressocialização das apenadas: não disponibiliza materiais de higiene e não garante adequada estrutura física.
Nesses recortes, é fundamental também repararmos na recorrente aparição do rosto de Cláudia. Esse rosto triste faz emergir uma memória alusiva à melancolia de estar em privação de liberdade; e, igualmente, faz emergir uma memória ligada à população carcerária. De acordo com o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias – INFOPEN Mulheres (2014, p. 24), “em relação à raça, cor ou etnia, destaca-se a proporção de mulheres negras presas (67%)”. Duas em cada três mulheres presas são negras no Brasil. O rosto, dessas imagens, evoca aqueles sobre os quais o Aparelho Repressivo “precisou” exercer a coerção. Nos recortes subsequentes, continuaremos a apresentar mais reflexões sobre o sujeito no semiaberto:
Recorte 32 (01:04:38)
Fonte: Documentário O Cárcere e a Rua (2004)
Recorte 33 (01:04:42)
Recorte 34 (01:04:49)
Fonte: Documentário O Cárcere e a Rua (2004)
Recorte 35 (01:04:59)
Recorte 36 (01:05:04)
Fonte: Documentário O Cárcere e a Rua (2004)
Recorte 37 (01:05:13)
Recorte 38 (01:05:22)
Fonte: Documentário O Cárcere e a Rua (2004)
Recorte 39 (01:05:27)
Recorte 40 (01:05:37)
Fonte: Documentário O Cárcere e a Rua (2004)
Nesses últimos recortes, notamos que Cláudia, pela recorrência de determinada estrutura linguística, manifesta sua obediência à FD jurídica. “Viver corretamente”, “andar no caminho certo”, “batalhar” e “vencer” são sentidos que circulam no domínio de saber dessa FD. Principalmente essa questão do “certo”, a qual reflete o que Orlandi (2009) coloca a respeito do sujeito de direito, cujo funcionamento opera por uma divisão maniqueísta entre o “Bem” e o “Mal”. Essa divisão, para a autora, é oriunda da conjuntura sócio-política contemporânea em que a criminalidade, a delinquência, a guerrilha e o terrorismo estão subjacentes à migração, à mundialização e às tecnologias de linguagem. Na formulação de Cláudia, há a manifestação de saberes da FD jurídica. A coerção é materializada pelo Aparelho, que coloca que o crime é errado e o contrário dele é o certo. Nesse sentido, a condenada busca “viver corretamente”, porque isso é lhe ditado a fazer.
A despeito de Cláudia querer seguir o “certo”, ela assume que agir dessa forma é “difícil”, “muito difícil”, e não tem conseguido. Logo, se ela não tem conseguido fazer o “certo”, está fazendo o “errado”. Pela via do esquecimento
número dois58, Cláudia visa a enfatizar que não está envolta pela FD desvio, porém os sentidos resvalam.
Todavia, qual a causa de Cláudia não conseguir vencer (fazer o certo)? No regime de semiliberdade, ela conseguiu um emprego na padaria da Penitenciária, onde era responsável por fazer os pães, os salgadinhos e os doces; mas, passado um ano, ela foi desligada do serviço. Após, Cláudia depara-se com a dificuldade de encontrar um outro emprego. Como vimos outrora, a mulher presa sofre com o preconceito da sociedade. Para essas mulheres é difícil serem aceitas no social. Elas são vistas como delinquentes. E o Estado, que seria o responsável por estabelecer um vínculo entre esses sujeitos e a sociedade, não cumpre seu papel.
Nessa esteira, podemos pensar no que explana Vinhas (2014, p. 174): “a responsabilidade por aquilo que o sujeito faz em função de sua liberdade não está no Estado, mas no próprio sujeito”. O Estado funciona no momento do julgamento e da punição, atuando no processo de individualização dos sujeitos de forma que se adequem à FD jurídica, mas não funciona no momento de empregar estratégias adequadas para a reintegração daquele que foi ou está preso, como exibido precedentemente.
Nessa perspectiva, Orlandi (2010), sobre a sociedade contemporânea, afirma (2010, p. 13):
Na representação de uma sociedade como a capitalista há duas formas de pensá-la pelo menos: em termos de sua verticalidade – sociedade de classes – em que há uma ilusão da relação inclusão/exclusão, de que o sujeito pode galgar (subir na vida) degraus que o levam em direção ao ápice, ou seja, que há possibilidade de enriquecimento (por exemplo pela educação, pela disciplina e competência, pelo esforço próprio, etc.). Ora, hoje há um outro modelo de representação social que é o horizontal: são as relações de lugares que prevalecem. Aí o sujeito ou está dentro – e tem sua colocação, seu lugar – ou está fora. Não é mais o paradigma de inclusão/exclusão mas o da segregação.
Do que expõe a autora, reverbera a ilusão de que, se o sujeito quiser, ele consegue “subir na vida”. Isto é, o sujeito, pelo esforço próprio, pode chegar onde quiser (correspondente à possibilidade de enriquecimento); ideia que ignora as condições de produção em que cada um está inserido e presume a exclusão como
uma opção. Também reverbera, do que Orlandi explana, outra maneira da representação da sociedade do capital, relativa às relações de lugares. O sujeito está para o lado de dentro ou para o lado de fora da sociedade.
Segundo Schaller (2002), o sujeito que está fora não tem mais, como no caso de uma sociedade de integração piramidal, a possibilidade de imaginar que possa subir os degraus da escala, que possa progredir, e o fosso aparece como algo quase intransponível. Então, se antes éramos uma sociedade de exclusão, agora somos de segregação. E como diz Schaller (2002, p. 151):
O processo segregativo mantém uma abordagem integrativa, um apelo à identidade integrativa como uma referência a um sistema normativo central: para pertencer à sociedade, é preciso estar dentro. Os outros não contribuem para a vida econômica, não participam da vida cultural e social. A segregação marca toda uma população definida por uma distância em relação a essa norma central de integração.
Essa distância, mencionada pelo autor, pode ser caracterizada, seja em termos de participação social, ao descrever sujeitos como inutilizados, seja em termos de valores morais, nos quais os comportamentos dos sujeitos são descritos como fora das expectativas sociais. Em resumo, os que estão para o lado de fora da sociedade estão excluídos e também segregados. São traçados como fora de determinadas expectativas. Dizemos, por isso, que uma vez na prisão e no Albergue as mulheres fazem parte do lado de fora. São mulheres e criminosas.
De um lado, Cláudia em sua subjetividade sente dificuldade em “vencer”. De outro lado, o Estado não cumpre com seu dever. E, diante da segregação como via única, torna-se “impossível ao sujeito entrar nas relações sociais” (ORLANDI, 2010, p. 17). Cláudia encontra-se no que entendemos como fora-dentro: “na ausência do Estado, que falta, ela se encontra também fora dos direitos, mas incluída nas penalizações” (MARIANI; MEDEIROS, 2011, p. 82).
Referente aos recortes 32, 33, 34, 37, 38, 39 e 40, é essencial resgatarmos a noção de circulação. Cláudia aparece em um ir e vir da rua ao Albergue. Ela circula na cidade sempre tendo como ponto central de retorno o Albergue. Quer dizer, sobre ela há uma orientação que define o modo como se desloca no espaço citadino, de um lugar para outro. Seu transitar apresenta critérios que resultam em graus de
interdição de acessibilidade ao público: o dever diário de voltar, no período da noite, para a instituição de sequestro. Relativamente a isso, consoante P. Souza (2001, p. 72):
O que se diz dessas intercepções do trajeto cotidiano na cidade está proliferado de e prolifera memórias. Nas grades de ferro vê-se o que antes já está dito. Os discursos correlativos ao modo de circulação na cidade, em dado contexto histórico-social, são os mesmos que tornam visível a permanência instável de formas de subjetividade na rua: trabalhadores, homens de negócio, ambulantes, mendigos, ladrões, mulheres, crianças.
Há significações, construídas historicamente, acerca da cidade que determinam o modo como os sujeitos são significados e significam. As intercepções, gerenciadas pelo Estado, no modo como Cláudia se movimenta na cidade, fazem ressoar a ideia de que ela representa a violência e de que deve ser controlada, tendo sua circulação limitada. Essa limitação ocorre através de fechamentos. Ela é coagida a estar presente na instituição destinada ao cumprimento de sua pena, no regime de semiliberdade, com o chegar da noite. Fato que traz à tona uma caracterização desse sujeito como um inimigo, que precisa ser separado, distanciado, segregado, da cidade e do social.
Como salienta De Certeau (1998, p. 177), “o ato de caminhar está para o sistema urbano como a enunciação (o speech act) está para a língua [...] é uma realização espacial do lugar”. E se há proibições, condizentes com a circulação no espaço citadino, o caminhante as atualiza. Cláudia, na forma como se movimenta na cidade, mostra-nos determinadas proibições ao seu ir e vir, impostas por ela ser vista como o “não tratável”, como o que constitui “os detritos” na cidade (DE CERTEAU, 1998, p. 173).
Enfim, concluímos que Cláudia e Betânia foram capturadas pelo ARE, tendo seus direitos suspensos na sociedade de direito, através da punição via privação de