3 Som e sentido na escrita: a fonografia e a morfografia
3.1.1 Blocos elementares da linguagem: os fonemas
Considere as seguintes palavras do português:
(3.1) • Vá
• Lá • Já • Chá
Ao pronunciar essas palavras, o som que produzimos no final de cada uma, o “a”, é idêntico. Descrito de outra forma, os gestos que produzimos para emitir essas palavras terminam num mesmo gesto básico, o de abrir bastante a boca e vibrar as cordas vocais. Já o som que precede o “a” é diferente em cada palavra, correspondendo a diferentes gestos. Por exemplo, na palavra “vá”, o lábio inferior apóia-se nos dentes enquanto o ar passa por eles; enquanto que na palavra “lá” é a ponta da língua que se movimenta, detendo-se no céu da boca atrás dos dentes frontais (a região do alvéolo). Essa diferença de gesto causa uma diferença no som, que serve para distinguir uma palavra da outra—ou seja, o som distinto muda o sentido de “vá” para “lá”.
Compare isso com o som final da palavra “mar”. Dependendo da região do Brasil, a pronúncia deste som é diferente. Na capital de São Paulo, a pronúncia mais prestigiada é com um toque da ponta da língua no alvéolo, como na palavra “Maria”. Mas, no interior do Estado, é mais comum um som produzido dobrando a ponta da língua para trás, sem tocar o céu da boca (popularmente conhecido como “R caipira”— embora este som também ocorra na capital). Já no Rio de Janeiro, a ponta da língua não é usada; ao invés disso, ergue-se o fundo da língua, alterando a passagem do sopro de ar, e gerando o “R carioca”.
Cada som distinto que uma língua usa é chamado um fone (do grego phōnḗ, “som”). Observe que, no exemplo da palavra “mar”, mudar os fones não mudou o sentido; embora os fones sejam bem diferentes, todos eles são entendidos como se re- ferindo à mesma palavra. Ou seja, a palavra “mar” aceita todo um conjunto de sons (fones) distintos na última posição (o “R paulista”, “caipira”, “carioca”…). Um con- junto de fones que é desta maneira considerado como sendo “o mesmo significante” é chamado de fonema. Ou seja, um fonema é um conjunto de sons (fones) que têm o mesmo valor em uma determinada língua, como os vários sons de “R” do português. Observe que:
• No exemplo3.1, “vá/lá/já” etc., trocar os sons mudou o sentido. Dizemos por isso que os fonemas foram alterados (ou seja, os fones pertencem a fonemas dife- rentes).
• No exemplo da palavra “mar”, trocar os sons não mudou o sentido. Dizemos que foram alterados os fones, mas sem alterar o fonema (ou seja, os fones pertencem ao mesmo fonema).
Os vários fones possíveis de um mesmo fonema são chamados alofones (do grego állos, “outro” + fone). A distinção entre um fone e outro é dita fonética, e en- tre um fonema e outro fonêmica (ou fonológica). Segue-se que distinções fonéticas não alteram o sentido, mas as fonêmicas, sim. No Alfabeto Fonético Internacional (ipa), o nível fonético é representado entre colchetes ([ ]), e o fonêmico, entre barras (/ /). Por exemplo:
• A diferença entre “vá” e “lá” é fonêmica, então aparece na notação entre barras: /va / vs. /la /.
• A diferença entre as três pronúncias de “mar” é apenas fonética, então não aparece na notação entre barras; todas as variantes de pronúncia seriam representadas como/mar /. A diferença só aparece na notação em colchetes: “paulista”, “caipira” e “carioca” seriam[maɾ], [maɻ] e [max], respectivamente. Dizemos que [maɾ], [maɻ] e[max] são realizações possíveis de /mar /.
Cada língua pode empregar fones diferentes; por exemplo, a vogal portuguesa em “mão” não é usada em inglês, e a consoante inglesa de think não é usada em por- tuguês. Uma variação mais sutil entre as línguas vem do fato que, mesmo quando os fones são os mesmos, cada língua pode traçar linhas distintas para agrupá-los em fo- nemas. Isto é, uma variação sonora que em uma língua é só fonética (que não muda o sentido) em outra pode ser fonêmica (mudar o sentido). Por exemplo:
• Em romeno, a palavra “dur” com um “R paulista”, [duɾ], significa “duro”; e a mesma palavra com um “R carioca”,[dux], significa “fantasma”. Em romeno, /r / e /x / (o “R carioca”) são fonemas diferentes; mas em português, [ɾ] e [x] são alofones do mesmo fonema,/r /.
• Em japonês, o som “l” de “cala” pertence ao mesmo fonema que o “r” de “cara”, de forma que os sons [kaˈɾa] e [kaˈla] são entendidos como variações da mesma palavra, kara (“a partir de; porque”). Ou seja, em português,/l / e /r / são fonemas diferentes, mas em japonês,[l] é apenas um alofone do fonema /r /.
• Em português, a palavra “tô” (forma coloquial de “estou”) pode ser pronunciada curta ou longa, sem mudar o sentido; ou seja, /to / pode ser realizada indiferen- temente como[to] ou [toː], onde [oː] simboliza um som mais longo. Em japonês, o som longo mudaria o sentido; por exemplo, de “porta” 戸/to / para “torre”塔
/toː /. Em português, a duração das vogais não é fonêmica—não muda sentido— mas em japonês, sim.
3.1.1.1 Variação fonética condicionada e livre
Considere a palavra “fofo”. Seus fonemas são transcritos como/fofo /; mas, na pronúncia mais comum no Brasil, as vogais são realizadas de forma diferente no ní- vel fonêmico, que pode ser transcrito como[fofʊ]. O último símbolo representa o som semelhante a um[u] que os brasileiros produzem3ao pronunciar o/o / em fim de pala- vra. Isto é, o fonema/o / possui dois alofones (duas realizações possíveis), [o] e [ʊ],4 e podemos prever quando cada uma aparece:
1. Em final de palavra,/o / se realiza como [ʊ] 2. Caso contrário,/o / se realiza como [o]
Quando a variação fonética é determinada pelo contexto, como no exemplo acima, dizemo-la condicionada. Quando não há uma regra clara que permita prever qual será o alofone utilizado, a variação fonética é chamada livre. Descrevemos acima três va- riantes do /r / em fim de sílaba, consideradas “carioca, paulistana e caipira” ([x], [ɾ] e [ɻ]); mas não é raro que, por exemplo, um mesmo falante empregue tanto a variante “caipira” quanto a “paulistana”. Como não há um contexto linguístico simples que determine regularmente qual o alofone empregado, chamamos esse caso de variação livre. Muitas vezes a variação livre não é completamente “livre”, mas sim determinada por variáveis externas, como o formalismo da situação, a audiência, o dialeto etc.; mas isso parece ser um fenômeno diferente do condicionamento linguístico simples, como o caso do/o / em fim de palavra.