3 Som e sentido na escrita: a fonografia e a morfografia
3.1.2 Elementos básicos de sentido: os morfemas
No começo da seção3.1(p. 47), descrevemos a linguagem (seguindoSaussure) como um sistema de signos, isto é, pares de significante e significado. Até agora, temos usado as palavras como exemplos de signos. Contudo, as palavras podem ser signos compostos; elas não são os signos mais fundamentais da linguagem. Considere:
(3.2) • Paraquedas
• Para-brisa • Para-lama • Para-raios
3 Exceto em alguns dialetos, como os do Sul.
4 Por que um símbolo[ʊ] distinto de [u]? Quem é leitor do português pensa nesse som em termos da
letra “u”; mas, se ouvimo-lo com atenção, notaremos que ele não é tão pronunciado quanto a vogal final de e.g. “caruru”. O símbolo[ʊ] representa uma vogal cujo som é intermediário entre [o] e [u].
Claramente essas palavras são compostas por mais de uma unidade de sentido. Todas começam incorporando o signo “para”; ou seja, todas começam pelos fonemas (significante) /paɾa /, que em todas elas carrega o significado de “parar, interromper, proteger de”.
Podemos entender tais palavras como sendo composições de duas outras. Na or- tografia portuguesa, essa composição pode ser indicada pelo sinal de hífen, ou não, de forma arbitrária; dentre as palavras no exemplo3.2 acima, apenas “paraquedas” não leva hífen, segundo edição atual das normas ortográficas (ABL, 2009)—embora clara- mente a estrutura de “paraquedas” seja perfeitamente análoga às demais.
Agora considere as seguintes palavras:
(3.3) • Paraquedismo • Trapezismo • Maratonismo (3.4) • Paraquedista • Trapezista • Maratonista
Os exemplos em3.3referem-se todos a alguma atividade ou prática, e todos ter- minam em “-ismo”. Já os exemplos em3.4referem-se todos aos respectivos praticantes ou aderentes, e as palavras são semelhantes, sempre trocando “-ismo” por “-ista”.
Ao contrário de “para” ou “quedas” , “-ismo” e “-ista” não são palavras: es- tas sequências não aparecem sozinhas, mas somente como parte de palavras maiores. Mas, claramente elas são signos: são sequências de fonemas iguais que carregam um mesmo sentido. Ou seja, podemos dividir a palavra “paraquedismo” em dois signos, e novamente subdividir o primeiro signo:
Tabela 3 – Subdivisão da palavra “paraquedismo” em signos Significante Significado
paraqued- “paraquedas”
para- “parar algo, proteger de”
qued- “queda”
-ismo “prática de”
Note que cada um desses signos aparece em outras palavras, carregando o mesmo sentido: “qued-”, por exemplo, aparece em “queda”, “quedar”, “quedando” etc. Po- rém, não é possível dividir “qued-” em signos menores. Não é o caso que “que-” ou “d-” carreguem um sentido próprio, recorrente em outras palavras.
Ou seja, sequências de fonemas como “para” e “qued-” são sequências mínimas que carregam sentido. Qualquer sequência menor não têm sentido próprio, i.e. não é um signo.5 Chamamos tais signos mínimos de morfemas. Um morfema pode ser descrito como uma sequência de fonemas tal que:
1. A sequência possui sentido próprio, e
2. Nenhuma sub-sequência possui sentido próprio.
Morfemas como “para”, que ocorrem como palavras independentes, são ditos
livres. Morfemas como “-ista”, que só aparecem como parte de outras palavras, são
ditos presos.6
Quando queremos chamar a atenção para os morfemas de uma palavra, sepa- ramo-los por hífens, independentemente da norma ortográfica (cf. padrão Leipzig à página40). Por exemplo, “para-qued-ista”.
Algumas palavras possuem variações em seu som e sentido, que são presentes também em outras palavras da mesma categoria. Considere:
(3.5) • Gato • Gata • Gatos • Gatas (3.6) • Menino • Menina • Meninos • Meninas (3.7) • Afinado • Afinada • Afinados • Afinadas
5 Ver contudo nota sobre simbolismo sonoro à página33.
6 Todos os termos e conceitos recapitulados nesta seção podem ser encontrados com explicações mais
(3.8) • Desafinado • Desafinada • Desafinados • Desafinadas
Todas as palavras acima possuem uma sequência idêntica no começo, como “gat-” ou “menin-”, e uma parte final que varia, ou flexiona-se, segundo um mesmo esquema, ou paradigma: “-o, -a, -os, -as”. A parte de uma palavra que não varia é cha- mada base ou radical. A base pode ser composta por um só morfema, como “gat-” ou “menin-”, ou por mais de um, como “des-a-fin-” (compare “fino”). Uma base elemen-
tar, de um só morfema, é chamada raiz. Dizemos, por exemplo, que a base (ou radical) “des-afinad-” é composta a partir da raiz “fin-”.7 Os morfemas presos que se acoplam às raízes são chamados afixos; um sufixo é um afixo que aparece depois da base, como “-a” e “-s” em “gata/gatas”; enquanto um prefixo, como “des-”, é um afixo que aparece
antes.
Em alguns casos, é útil considerar sequências fonológicas distintas como sendo variações do mesmo morfema. Considere o pronome átono oblíquo “a”, do português clássico,8 quando se segue ao verbo:
(3.9) Amar + a: • Amei: amei-a • Amo: amo-a • Amava: amava-a • Amar: amá-la • Amaria: amá-la-ia • Amaram: amaram-na
7 Fora do contexto da linguística, os termos “raiz” e “radical” são às vezes usados de forma pouco pre-
cisa ou intercambiável. Nesta dissertação, preferiremos o termo “base” a “radical”, pois o segundo confunde-se facilmente com “raiz”. Em inglês os termos para “radical”, “base” e “raiz” são stem, base e root, respectivamente; em japonês a base é chamada語幹gokan “tronco/caule da palavra”, e a raiz, 語根gokon “raiz da palavra”.
(3.10) Merecer + a: • Mereci: mereci-a • Mereço: mereço-a • Merecia: merecia-a • Merecer: merecê-la • Mereceria: merecê-la-ia • Mereceram: mereceram-na
Observe que normalmente o pronome átono feminino manifesta-se como ‘a’. Po- rém, quando a base flexionada do verbo termina em/m /, surge um som /n / entre verbo e pronome. E quando a base termina em /r /, há toda uma transformação: o /r / de- saparece, a vogal da base que o precedia recebe acento, e surge um /l / antes do ‘a’. Parece pouco razoável descrever/a /, /la / e /na / como morfemas distintos; é mais sim- ples pensar nas três formas como variantes do pronome ‘a’, selecionadas por contextos fonológicos distintos. Tais variações fonológicas de um fonema são chamadas alomor-
fes—“outras formas”, em analogia aos “outros fones” (alofones) dos fonemas (seção
3.1.1à página 49). Os processos que alteram a pronúncia de um morfema (ou seja, que selecionam alomorfes) são ditos morfofonêmicos.
Um exemplo deste fenômeno no japonês acontece com o morfema ame “chuva”, que, como exemplificado na seção1.1 (p. 27), possui três alomorfes: ame, ama- (como prefixo, e.g. ama-yadori “abrigo da chuva”) e -same (como sufixo, e.g. ko-same “pequena chuva”), todos representados pelo mesmo caractere雨.9