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PROCESSOS CONTRA FEITICEIROS

2.4.7 Bolsa de Mandinga, Patuás e Cartas de Tocar

Em Metrópole das mandingas, Daniela Calainho aponta que os patuás e as bolsas de mandinga, originárias do Mali, eram, então, saquinhos contendo trechos do Alcorão, mas em Lisboa, foram sofrendo a influência da ritualística católica e passaram a incorporar objetos sagrados, assim como ossos de defuntos e olhos de gato, provenientes de outras representações culturais disponíveis no período. Não é de se admirar que a mandinga tenha sobrevivido nos trânsitos do Atlântico e adquirido no Brasil ainda novos significados, que, de modo algum, desperdiçaram os conhecimentos acumulados. A mandinga, segundo a autora, prova a circulação da cultura no universo luso-afro-brasileiro e esteve presente não só entre a população de cor, como se tem salientado, mas foi aproveitada, também, entre os brancos, partidários de uma mesma realidade e que, muitas vezes, compartilhavam anseios e necessidades, dos quais a magia poderia ser um remédio acessível e providencial. Aponta, ainda, para a permeabilidade no universo luso-brasileiro de elementos das religiosidades africanas e demonstra que também os africanos incorporaram, em suas ritualísticas, elementos cristãos, mas não como forma de camuflagem, mas sim com toda sua carga simbólica dotada de novos significados, reconfigurados.165

163 ANTT, IL, Caderno do Promotor 130, Livro 319, fl. 845-847, Doc. 387-388. 164 SOUZA. 2009, p. 355.

165 CALAINHO, Daniela Buono. Metrópole das mandingas: religiosidade negra e Inquisição portuguesa no

95 Nesse sentido, as bolsas na colônia configuraram-se em amuletos que acudiam os colonos contra toda a sorte de infortúnios cotidianos. Fechavam o corpo a ferro, fogo, picadas de peçonhas, ataques de animais ferozes ou mesmo de feitiços. Compunham-se de ingredientes diversos, como ossos, pós, cabelos, unhas, orações copiadas em papel, pedaços de pedra d’ara, cruzes e partículas consagradas, entre outros. Como podemos observar na denúncia contra Manuel José, este, ao ser preso no Rio das Pedras em plena quinta-feira santa, encontrava-se com um patuá, o qual tentou lançar em um rio, mas que, ao ser recuperado, pôde-se verificar que continha três partículas e um papel com escritos.166 Não raro, esses elementos foram associados a pactos demoníacos, como tudo entre a feitiçaria.

Já as cartas de tocar consistiam, comumente, em pedaços de papel com escritos e desenhos que, também, acudiam a diversos infortúnios, mas, sobretudo, visavam a inclinar vontades, pois, quando tocadas pela pessoa com quem se desejasse contrair atos torpes, esta, então, cedia sem mais dificuldades. Podem ser associados, ainda, com amuletos simbólicos. Assim, o escravo Jacinto, morador em Sabará, foi submetido a um sumário por ordem do Santo Ofício em 1772, por estar empenhado no diabólico exercício de fazer umas certas cartas chamadas patuás.167 Nesse caso, as cartas costumavam conter os desenhos daquilo a que se destinava a defender, como podemos observar na imagem a seguir (Figura 1). Também, João da Silva, preto mina, morador em Rio das Pedras, foi acusado de trazer uma bolsa com ossos, cabelos, raízes, pós, umbigo de menino, contas, de enterrar panela cheia de imundícies, adorar um ferro oco, não assistir missa e fazer suadouros de ervas, beberagens, atividades de cura e adivinhação.168 Desse modo, fica clara a associação entre diversas práticas da magia por um único agente. Ainda, as bolsas de mandinga poderiam servir como forma de subsistência, tanto que um preto foi acusado, em 1755, de comprar, de um escravo de Francisco de Azevedo Couto, da Vila de São João, uma bolsa de mandinga para sujeitar o apetite carnal da mulher que desejasse.169

166 ANTT, IL, Documentação Dispersa, Caixa 1588, Doc. 14338. 167 ANTT, IL, Sumário contra Jacinto, n. 05630.

168 ANTT, IL, Caderno do Promotor 105, Livro 297, fl. 469-473, Doc. 195-197. 169 ANTT, IL, Caderno do Promotor 121, Livro 313, fl. 151-152, Doc. 76.

96 Figura 1 – Carta de tocar do preto Lourenço

97 Fonte: ANTT, IL, Caderno do Promotor 114, Livro 306, fl. 093, doc. 294-296.

98 Fonte: ANTT, IL, Caderno do Promotor 114, Livro 306, fl. 095, doc. 294-296.

99 2.5 Considerações finais

A sociedade assume, aqui, a característica da circularidade, a “jaula flexível” permite o ajuste criativo das inúmeras representações dispostas às diferentes “classes” e cada indivíduo constrói, dessa maneira, sua realidade e sua visão de mundo em sintonia e em conflito com os demais.170 Assim também, eram traçadas as relações entre as diferentes “camadas” da sociedade, e o “modo de produção”, como afirma Thompson, esteve caracterizado, tanto pelas necessidades econômicas das pessoas quanto culturais, de forma que elas não sejam resultantes de uma hierarquia.171 Ajustes culturais refletiam, também de forma clara, os anseios e os conflitos desses povos. As práticas mágicas dos colonos refletiam as tensões sociais inerentes ao sistema colonial, servindo como mecanismo social de mão dupla: ao mesmo tempo em que armavam os escravos para que resistissem, legitimavam a violência na senzala. Dessa forma, como propõe Thompson, uma classe impõe os limites das ações das demais, tolerando até o limite do aceitável do contexto no qual se inserem.

A amplitude que a circularidade cultural alcançou na colônia, tendo como exemplo a região das Minas Gerais no século XVIII, permite-nos observar a existência de denunciações envolvendo diretamente a participação de pessoas brancas, seja como acusadas de realizações de magias ou valendo-se de feiticeiros negros na busca por soluções cotidianas. Até mesmo membros do clero não estiveram livres de acusações e recorreram à magia popular em suas aflições ou dela foram agentes. A mestiçagem cultural nas Minas foi tão forte que podemos encontrar até mesmo homens de cor denunciando brancos por feitiçaria. Claro que, nesses casos como em muitos outros, as denúncias poderiam ter se originado de outras questões, como inimizades, o que não exclui sua importância como reflexo do processo de circularidade cultural na colônia.

Buscar compreender os anseios e conflitos do cotidiano de comunidades passadas, permite-nos, antes de tudo, uma reflexão das sociedades do presente. Além disso, permite-nos, também, observar as permanências e rupturas ao longo da contemporaneidade histórica e suas múltiplas temporalidades. Cada sociedade guarda das anteriores elementos que, mesmo implicitamente, revelam o grau de parentesco com aquelas populações. A documentação inquisitorial, guardados os limites e os cuidados específicos devido à maneira com que foi produzida, serve como testemunho, que, devidamente questionada, traz à luz parte importante

170 GINZBURG, 2001, p. 27. 171 THOMPSON, 2001, p. 254.

100 da cultura popular da sociedade em que está inserida. O estudo de caso de processos de pessoas que viveram no anonimato, e à primeira vista se apresentam como meros documentos que teriam valor apenas quantitativo, pode servir, na verdade, de janelas para o passado, contribuindo para a inserção do macro a partir do micro na reconstrução, na medida do possível, das realidades nas quais se inseriam. Esses testemunhos, também, nos permitem a constatação da impossibilidade de se traçarem fronteiras entre “classes sociais”, sempre fluidas e genéricas, bem como uma divisão sistemática do que seria erudito ou popular. Aqui, a circularidade nos permite a compreensão das trocas culturais entre os setores em uma mesma sociedade e como eles estiveram intrinsecamente associados, coexistindo sem a necessidade de se anularem, mesmo perante os constantes conflitos que protagonizavam.

101 CAPÍTULO 3

“QUE NÃO QUERIAM VIR MORAR NA ALDEIA DAS FEITICEIRAS”: AS