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BOM V BEM.

No documento Dicionário de Filosofia (páginas 122-124)

BOM SENSO (in. Good sense, fr. Bon sens; it. Buon senso). Essa expressão, que não deve ser confundida com senso comum (v.), foi usada por Descartes como sinônimo de razão, na fra- se que abre o Discurso do método: "A faculdade de bem julgar e de distinguir o verdadeiro do falso, propriamente chamada de B. senso ou razão, é, por natureza, igual em todos os ho- mens". Hoje, não se poderia mais admitir essa sinonímia. Por um lado, a razão passou cada vez mais a designar técnicas específicas (v. RAZÃO) e, por outro, o B. senso continuou de- signando certo desequilíbrio e certa modera- ção no juízo dos problemas comuns da vida e no comportamento cotidiano. Muitas vezes, porém, o que parece extravagante ou parado- xal para o B. senso tem mais valor do que aquilo que se lhe conforma, porque o B. senso tem como referência apenas o sistema estabelecido de crenças e de opiniões, só podendo julgar a partir dos valores que esse sistema inclui. É muito freqüente que a ciência e a filosofia pres- cindam do B. senso, ainda que nunca ou quase nunca possam deixar de lado as pequenas ações

cotidianas, entre as quais o B. senso estaria em seu elemento.

BONDADE (lat. Bonitas; in. Goodness; fr. Bonté, ai. Gütigheit; it. Bontà). Em sentido lato, excelência de um objeto qualquer (coisa ou pessoa). Diz, p. ex., S. Tomás: "A B. que em Deus está de modo simples e uniforme, nas criaturas está de modo múltiplo e dividido" (S. Th., 1, q. 47, a. 1). As discussões dos sécs. XVII e XVIII a propósito da B. de Deus como móvel da criação (cf. LEIBNIZ, Théod., II, §§ 116 ss.) fun- daram-se num significado mais restrito do ter- mo, que foi expresso claramente por Baumgar- ten: "A B. (benignidade) é a determinação da vontade de fazer bem aos outros. O benefício é a ação útil ao outro, sugerida pela B." (Met., § 903). Nesse sentido, a B. identifica-se com o que Aristóteles chamava de benevolência (eirvoíoc) (Et. nic, VIII, 2, 1.155 b 33). Os dois significados desse termo estão vivos no uso comum.

BOVARISMO (fr. Bovarisme). Termo deri- vado do nome da famosa heroína de Flaubert (Madame Bovary, 1857), para indicar a atitude de quem cria para si mesmo uma personalida- de fictícia e procura viver em conformidade com ela, chocando-se contra a sua própria na- tureza e contra os fatos. O termo foi criado por Jules de Gaultier (Le bovarisme, 1902).

BRAQUILOGIA (gr. PpaxtiÀoyía). No Pro- tágomsde Platão, Sócrates contrapõe a sua exi- gência de respostas breves e sucintas à tendên- cia de Protágoras de fazer longos discursos, obviamente porque só através da troca de fra- ses concisas é possível a discussão em forma de diálogo (Prot., 334 c-335 a).

BRUTISMO (fr. Brutismé). Termo empregado por St.-Simon para indicar a concepção me- canicista dos fenômenos; por isso, é equivalen- te a mecanicismo (v.).

BUDISMO (in. Buddhism; fr. Bouddhisme, ai. Buddhismus; it. Buddismo). Doutrina reli- giosa e filosófica que se originou dos ensina- mentos de Gautama Buda (563-480 a.C. aprox.) e que foi depois desenvolvida em grande nú- mero de diferentes tendências na índia, na Chi- na e no Japão. Os principais textos do B. são os escritos em língua páli, chamados de Tipitaka e divididos em três grupos ou cestos: ls o Sutta- pitaka, que compreende os Sutra, isto é, discur- sos ou ensinamentos atribuídos a Buda; 2° o Vinayapitaka, que compreende as regras da disciplina monástica; 3S Abhídhammapitaka, que é o "cesto" da metafísica, isto é, a seção doutrinai da coleção.

O B. é o maior exemplo de religião perfeita- mente ateia. Sua doutrina fundamental resume- se nas quatro verdades nobres: 1- a vida é dor; 2- a causa da dor é o desejo; 3a obtém-se a cessação da dor com a cessação do desejo; 4- existe um caminho óctuplo que conduz à cessa- ção da dor. O caminho óctuplo consiste: ls na justa visão; 2S na justa resolução; 3e na justa linguagem; 4S na justa conduta; 5" no justo vi- ver; 6Q no justo esforço; 7S na justa mentalida- de; 8S na justa concentração.

Segundo o B., o homem está sujeito à lei do incessante fluir da vida (dharmà), que o leva de desejo em desejo, de dor em dor, de encarnação em encarnação. Enquanto o ho- mem não se libertar do desejo, estará submeti- do ao ciclo de renascimentos (samsara). A li- bertação do desejo, obtida por meio das regras morais acima e da disciplina ascética (que o B. compartilhava com o bramanismo e com a prática ioga), obtém-se somente com a disso- lução da ilusão produzida pelo desejo (e que é o karmd), com a eliminação do próprio de- sejo e a destruição do apego à vida, que é o nirvana.

As numerosíssimas escolas, seitas e tendên- cias filosófico-religiosas que se originaram do B. costumam ser agrupadas em duas grandes categorias, chamadas, respectivamente, de pe- queno veículo (hinayand) e grande veículo imahayana). O pequeno veículo foi o que per- maneceu mais estritamente fiel ao ensinamento dos textos páli. A salvação está reservada ao monge, isto é, ao que seguiu a via da meditação e alcançou o nirvana. As escolas do pequeno veículo difundiram-se sobretudo na índia, na Birmânia, no Sião, no Camboja e no Laos. Se- gundo o grande veículo, a salvação pode ser obtida por qualquer fiel, através da piedade e da caridade para com as outras criaturas, pelo que o nirvana deixa de ser libertação individual para tornar-se libertação do gênero humano e, em geral, do mundo. O grande veículo di- fundiu-se sobretudo no Tibete, na China e no Japão.

(Cf. DAS GUPTA, A History of índian Phi- losophy, I, 1922, pp. 78 ss.; G. Tucci, Storia delia filosofia indiana, 1957, pp. 64 ss.; S.

RADHAKRISHNAN, History of Philosophy Eastern and Western, I, 1952.)

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No documento Dicionário de Filosofia (páginas 122-124)