1.4. Comunidades quilombolas do Vale do Ribeira
1.4.2 Bombas
A comunidade de Bombas está localizada no município de Iporanga e tem as comunidades de Praia Grande, Porto Velho, Cangume e João Surá como suas vizinhas distantes.
31 A entrega do RTC e a assinatura do reconhecimento da comunidade remanescente do quilombo de Abobral da Margem Esquerda aconteceram durante a Feira Paulista de Assentamentos e Quilombos (FEPAP), no Parque da Água Branca, em 16 de novembro de 2014, em São Paulo. O RTC foi entregue pela secretária de Justiça e Defesa da Cidadania, Eloisa de Sousa Arruda, e pelo diretor executivo da Fundação ITESP, Marco Pilla.
32 Créditos da fotografia: Frederico Viegas, do ISA.
33 Esta subseção foi elaborada com base nas informações constantes do Relatório Técnico-Científico da Fundação ITESP para a comunidade (SANTOS, 2002a), bem como nos dados do Inventário Cultural (ANDRADE; TATTO, 2013).
49 Mapa 2 - Bombas.
Fonte: Inventário Cultural (ANDRADE; TATTO, 2013, sem paginação).
O acesso principal à comunidade fica na altura do km 6 da Rodovia Antônio Honório da Silva, mais conhecida por estrada Iporanga-Apiaí, na margem direita do rio Betari.
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Após atravessar uma ponte sobre o rio Betari e andar a pé, ou sobre o lombo de animais, durante uma hora e meia, por um caminho sinuoso, chega-se ao primeiro agrupamento de casas, chamado de Bombas de Baixo. Seguindo a caminhada por mais uma hora, chega-se ao outro agrupamento, conhecido como Cotia, ou Bombas de Cima. Há outro acesso possível por trilha, mas pouco utilizado pelos moradores, que se inicia no bairro da Serra, ainda na estrada Iporanga-Apiaí, passando pelo Lageado e seguindo para a região do Roncador.
A população, em 2008, era de 68 pessoas, composta aproximadamente de 46% do sexo feminino e 54% do sexo masculino. É uma comunidade formada por pessoas jovens, pois apenas cerca de 26% da população têm idade acima de 30 anos.
O território de Bombas está definido pela Fundação ITESP com uma área de aproximadamente 1.200 hectares, no entanto, os limites reconhecidos pela comunidade abrangem mais de 3.000 hectares. Como o processo de reconhecimento ainda não foi oficializado, a comunidade ainda se encontra dentro do Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira (PETAR). Essa sobreposição impede muitas das atividades agrícolas que eram praticadas antes da criação do parque, em 1958. A maioria absoluta do território (97,37%) está formado pela Mata Atlântica (mata primária e capoeiras em diversos estágios) e apenas 1,69% do solo é dedicado às roças de coivara.
A comunidade de Bombas está assentada sobre um terreno cuja formação geológica é rica em rocha calcária, constituindo-se em uma região com um importante patrimônio espeleológico: são encontradas várias cavernas, como as do João Fortes, do Jeremias, do Paredão, da Casa do Pedro, Boca da Bomba, Areias, Bagre Cego e das Pacas.
A área da comunidade teve a sua formação iniciada no século XIX, por volta de 1910 e 1920, devido à fixação de escravos fugidos, de descendentes de escravos e de portugueses que viviam numa área próxima, conhecida como Fazenda Furquim.
Também vieram pessoas de outras localidades de Iporanga, oriundas das famílias Mota e Ursolino; descendentes de famílias da comunidade de Nhunguara; pessoas da região de Minas Gerais, como foi o caso do senhor Celestino Muniz, que, antes de chegar à localidade de Bombas, passou por Itaóca; e também moradores de Porto Velho, João Surá (Paraná) e Três Águas (próximo à comunidade de Porto Velho).
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Entre os anos de 1920 e 1935, chegaram pessoas de outras famílias, provenientes de Itapeva e dos quilombos João Surá e Praia Grande. A rede de parentesco existente em Bombas é formada pelas famílias Dias Peniche, Peniche de Matos, Dias Marinho, Ursolino e Muniz.
Em 1958, foi criado o PETAR. Os limites do PETAR se sobrepuseram às áreas utilizadas pela comunidade de Bombas, que então se viu impedida de realizar as suas atividades agrícolas, incluindo o corte de matas e de vegetação em estágios mais avançados de recuperação (capoeira grossa). As famílias de Bombas, além de assistirem à diminuição das áreas passíveis de cultivo, sofreram restrição nas atividades de criações de animais e ficaram proibidas de realizar qualquer atividade extrativista.
No ano de 2002, a Associação dos Remanescentes do Quilombo de Bombas solicitou à Fundação ITESP o seu reconhecimento como quilombo (Processo administrativo da Fundação ITESP nº 1.186/2002). Mas, por falta de estudos ambientais por parte da Fundação Florestal do Estado de São Paulo, o processo ficou parado.
Em 2010, a Secretaria do Meio Ambiente (SMA) de São Paulo exigiu estudos técnicos do meio físico, do meio biótico, da situação fundiária e da sustentabilidade ambiental, conforme previsto na Resolução SMA nº 29/2010, para solucionar a incidência do Parque Estadual do Alto Ribeira sobre o território quilombola. Em setembro do mesmo ano, a Fundação Florestal assumiu a responsabilidade de apresentar um plano de trabalho, e, em dezembro, foram firmados o Protocolo de Intenção e o Plano de Trabalho entre a Associação, a Fundação Florestal e a Fundação ITESP. Uma equipe da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” foi contratada pela Fundação Florestal/SMA para fazer os estudos.
Em março de 2012, a pesquisa foi finalizada e o relatório foi entregue à Fundação Florestal. Em junho do mesmo ano, a Fundação Florestal apresentou a Proposta de Limite Territorial e deu andamento ao processo de reconhecimento da comunidade quilombola de Bombas. A Associação não aceitou, pois, a proposta reduziria o território da comunidade, excluindo a área conhecida como Sistema Areias.
A comunidade enviou um documento à Fundação Florestal, explicando as suas razões para manter o Córrego Grande, nome pelo qual a região é chamada pelos quilombolas. E se comprometeu a fazer um plano de uso futuro dessa área, para manter conservadas as suas condições ambientais, conforme sempre fez.
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Em julho, em reunião, a Associação apresentou contraproposta e nova data para prosseguir a negociação: 30 de julho. A diretoria da Fundação Florestal afirmou que reconheceria o território inteiro, cujos limites constam do laudo antropológico da Fundação ITESP, em duas etapas e com algumas condições. A primeira etapa seria a Fundação Florestal manifestar-se favoravelmente ao reconhecimento da comunidade quilombola. A segunda etapa ensejaria a alteração dos limites do PETAR, para desafetá-lo do território quilombola, sob algumas condições.
A comunidade aceitou a proposta e as condições apresentadas. A Fundação ITESP e a Fundação Florestal sugeriram envolver as Secretarias de Justiça e do Meio Ambiente, para encaminhar o processo para o Grupo Gestor de Quilombos, visando ao reconhecimento administrativo de Bombas, e a Fundação Florestal se comprometeu a prosseguir com o processo, buscando a mudança nos limites do PETAR.
Em 2013, a comunidade encaminhou uma carta ao governador de São Paulo, com cópia para os secretários do Meio Ambiente e da Justiça, solicitando esclarecimentos sobre o andamento do processo de reconhecimento após o acordo firmado entre as partes em julho de 2012.
A Fundação Florestal iniciou o processo de reestruturação e demitiu parte dos seus funcionários. Dentre os demitidos, estavam os diretores que conduziram o processo de negociação e o acordo com a comunidade e com a Fundação ITESP, e, assim, o processo parou novamente. No final de fevereiro, a Fundação Florestal e a Fundação ITESP em reunião com a comunidade comunicaram que a atual gestão não poderia assumir os compromissos assumidos pela diretoria anterior. Como justificativa informaram que os estudos realizados eram incompletos, e, após reuniões com pesquisadores, a Fundação Florestal propôs uma redução do território de Bombas, excluindo a área conhecida como Córrego Grande ou Sistema Areias.
Após o ocorrido, a comunidade de Bombas se reuniu e decidiu aceitar a proposta de território formulada pela Fundação Florestal. Assim, encaminhou carta aos diretores da Fundação Florestal e da Fundação ITESP, aceitando a proposta e solicitando um Termo de Ajustamento de Conduta, que incluísse: (i) a ida a campo para demarcar os pontos da nova divisa; (ii) a emissão de parecer favorável ao processo de reconhecimento do território por parte da Fundação Florestal; (iii) o compromisso do governo estadual em viabilizar o acesso para a comunidade; (iv) a autorização para a instalação de postes de energia elétrica no território; e (v) a
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inclusão da desafetação do território quilombola no Projeto de Lei de criação do Mosaico de Paranapiacaba.
Em abril, em carta endereçada à comunidade, a Fundação ITESP e a Fundação Florestal informaram os próximos passos e declararam que iriam a campo junto com a comunidade para delimitar o novo território. Em junho, a direção do PETAR visitou a comunidade para definir os limites do território e desenhar o novo mapa. Depois disso, segundo o coordenador da Associação, Edmilson Furquim de Andrade, a comunidade não teve mais resposta e a área do Córrego Grande passou a ser invadida por palmiteiros e caçadores, porque se espalhou, na região, a notícia de que tais terras não seriam mais do quilombo.
No início do ano de 2014, a Defensoria Pública do Estado de São Paulo entrou com uma ação judicial, pedindo o reconhecimento imediato do território, a desafetação do parque, a melhoria de acesso e outras benfeitorias. A Procuradoria do Estado promoveu uma reunião com a comunidade, a Fundação ITESP, a Fundação Florestal, a Defensoria Pública, o ISA e a EAACONE para propor um acordo sobre a delimitação do território a ser reconhecido.
Posteriormente, a Fundação ITESP e a Fundação Florestal enviaram um documento à Associação quilombola a respeito da necessidade das melhorias e do atendimento das demandas como estrada e energia, mas sem a assinatura dos órgãos responsáveis. A comunidade não aceitou a versão do documento e devolveu uma carta-resposta, aceitando o reconhecimento e abrindo mão da parte do território denominada Córrego Grande (Sistema Areias), afirmando que ia continuar a ação em prol das outras demandas.
Em novembro de 2014, a Fundação ITESP realizou um evento de entrega dos RTCs, e publicou no Diário Oficial o reconhecimento do território de Bombas.
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