1.4. Comunidades quilombolas do Vale do Ribeira
1.4.12 Porto Velho
A comunidade de Porto Velho localiza-se no município de Iporanga, no entanto, o acesso é feito pelo município de Itaóca, por uma estreita estrada de terra, que sai da estrada principal, ligando o bairro Pavão ao centro da cidade de Itaóca, na altura do bairro Fazenda. A comunidade fica na margem esquerda do rio Ribeira, na divisa dos estados do Paraná e de São Paulo, a 8 km do centro de Itaóca.
A população em 2008 era de cerca de 70 pessoas sendo 51% do sexo feminino e 49% do masculino. Menos da metade da população tem idade acima de 30 anos.
Hoje, a Associação dos Remanescentes do Quilombo de Porto Velho estima que haja em torno de 100 habitantes.
O território reconhecido de Porto Velho é de 941 hectares. Embora a cobertura vegetal natural (vegetação rasteira, capoeiras em diversos estágios e mata) seja 56,82% do total das áreas mapeadas, as pastagens abertas por terceiros têm grande
44 Esta subseção foi elaborada com base nas informações constantes do Relatório Técnico-Científico da Fundação ITESP para a comunidade (SANTOS, 2003), bem como nos dados do Inventário Cultural (ANDRADE; TATTO, 2013).
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expressão espacial em Porto Velho, ocupando 36,77% dessas áreas. Em seguida, a silvicultura de pinus (praticada por terceiros), a área de repovoamento da palmeira juçara e as roças de coivara ocupam, respectivamente, as maiores porcentagens.
Mapa 12 - Porto Velho.
Fonte: Inventário Cultural (ANDRADE; TATTO, 2013, sem paginação).
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O quilombo é banhado pelo rio Ribeira, e outro curso de água lembrado por sua importância é o ribeirão Anta Gorda, formado pela junção de três águas. O morro Chafariz é o ponto mais alto do território.
No século XIX, a área da comunidade de Porto Velho era uma fazenda que utilizava mão de obra escrava. Mais tarde, o fazendeiro saiu da propriedade, deixando-a para os seus escravos. Um deles, Basílio da Rosa, estabeleceu-se com a sua família ali, dando origem ao povoamento. Em meados do século XX, chegou ao lugar Benedito Barbosa de Andrade, um paranaense que alegava ser o dono legítimo da área. Com isso, os negros que ali viviam foram obrigados a trabalhar como agregados para garantir a sua permanência na terra. Contudo, na prática, a exploração promovida pelo fazendeiro era análoga à escravidão.
Constantes conflitos ocorriam por conta do uso da terra, forçando muitas famílias a abandonar o local, migrar para localidades vizinhas e até mesmo para outras cidades. As famílias que resistiram viveram sob ameaças e conflitos até os anos de 1980. Nessa época, moradores da comunidade tiveram conhecimento de outras comunidades negras rurais que estavam se organizando para obter o reconhecimento como quilombola, e resolveram criar uma Associação para solicitá-lo.
Em 2001, a Fundação ITESP iniciou os trabalhos de identificação da comunidade e, no final de 2002, com a conclusão do RTC, foi concedido o reconhecimento como comunidade de remanescente de quilombo, sendo publicado em 2003, no Diário Oficial do Estado de São Paulo.
Em 2003, um dos fazendeiros da área mandou demolir a igreja frequentada pela comunidade. A atitude causou revolta e o caso foi levado à Justiça. A comunidade de Porto Velho reconstruiu a igreja, como ato de resistência ao ataque sofrido. De acordo com os moradores, esse ato de violência contra a comunidade os motivou a buscar o fortalecimento e a melhoria de sua organização.
Até o início de 2013, a questão fundiária e de desintrusão do território ainda não havia sido solucionada em Porto Velho.
Em Porto Velho, foram identificados 33 bens culturais, dos quais 25 estão íntegros, seis são ruína e dois são memória. Destaca-se a integridade das celebrações e da Romaria de São Gonçalo, uma dança em declínio na maioria dos quilombos do Vale do Ribeira. Dentre os ofícios, estão íntegros aqueles ligados às atividades agrícolas, ao processamento dos alimentos e às formas coletivas de
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organização do trabalho. Em declínio, estão os ofícios de parteira, benzedor e canoeiro, assim como a técnica construtiva do pau-a-pique.
Na categoria de lugares, destaca-se o cemitério antigo, que guarda a memória dos ancestrais da comunidade e encontra-se em área ocupada por pessoas de fora, limitando o acesso da comunidade a esse local significativo em seu sistema ritual e para a memória genealógica.
A igreja em ruínas, ao lado da igreja íntegra, é um símbolo dos conflitos fundiários e foi incluída no inventário como forma de preservar a história.
A comunidade conta com um posto de saúde, no qual duas vezes por mês é feito o atendimento por um médico e dois enfermeiros. Há também um agente de saúde da própria comunidade.
A principal fonte de renda é a agricultura familiar: roça de arroz, feijão, milho, mandioca, batata doce, cana e amendoim, pomares com mamão, laranja, limão, banana e maracujá, e cultivo de hortaliças. Algumas pessoas trabalham para a Prefeitura e outras recebem diárias por trabalhos realizados para outras famílias.
O nome da comunidade surgiu por ser ali o último porto do rio Ribeira de Iguape no sentido contrário de seu curso. Segundo os registros, no século XIX, o território era uma fazenda que utilizava mão de obra de escravos. Em crise financeira, o dono deixou as terras para as famílias de escravos que ali trabalhavam. Uma dessas famílias era a de Basílio da Rosa, que deu origem à comunidade. Faziam roça para a subsistência, cultivando feijão, milho, arroz, cana e mandioca, e também faziam pequenas criações familiares de galinhas e porcos. Parte dessa produção era transportada de canoa até Eldorado e Iguape, onde era comercializada. Nessas cidades eram comprados sal, trigo, querosene, tecidos e outros produtos industrializados. Essa viagem de ida e volta levava 20 dias.
No dia 31 de agosto de 2001, foi criada a Associação dos Remanescentes do Quilombo do Bairro Porto Velho. Registrada em 2002, tinha como principal papel a representação da comunidade na luta pela terra. Em represália, no dia 22 de junho de 2002, familiares do fazendeiro, a mando deste, demoliram a igreja da comunidade.
Essa atitude causou grande revolta nos moradores e trouxe para Porto Velho a solidariedade das comunidades vizinhas. A Associação acionou a polícia local e a Polícia Federal. Esse fato agilizou uma ação contra o fazendeiro que já corria na Justiça, conseguindo uma liminar destinando 30 alqueires (72 hectares) para o uso das famílias quilombolas. A conclusão do RTC se deu um mês depois, reconhecendo
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Porto Velho como uma comunidade remanescente de quilombo. Com essa garantia mínima da terra, as famílias começaram a retornar, chegando às 21 que atualmente moram e trabalham na terra.
A comunidade reivindica uma área de 963 hectares. Pouco mais de dois terços foram desmatados para formação de pasto pelas fazendas. O restante é coberto de capoeira e mata recuperada. Por causa disso, poucos animais são encontrados.
Na hidrografia, merece destaque o ribeirão Anta Gorda. Vários córregos cortam o território, mas, devido ao desmatamento nas margens e cabeceiras, esses rios estão com uma mínima quantidade de água. Alguns até secam fora da temporada das chuvas. Em todo esse território existe apenas uma cachoeira.
Depois da publicação do RTC e da liminar concedida pela Justiça, que o fazendeiro tem tentado cassar, muito pouco se fez para a titulação do território. Como não se trata de terra devoluta, o órgão encarregado da indenização de terceiros e titulação da terra é o INCRA, que não tem agilizado esse processo.