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4. OS CLUTTER EM ​A SANGUE FRIO

4.3. BONNIE MAE FOX CLUTTER

Figura 7: Bonnie Mae Fox Clutter. Fonte: Associated Press 25

Bonnie, esposa de Herb, não trabalhava. Após cursar dois anos de faculdade de

enfermagem, desistiu dos estudos e se casou com Herb, aos 20 anos, tornando-se

dona de casa. Ela sofria de transtornos psiquiátricos — possivelmente depressão — e fazia tratamentos constantes. Após o nascimento de cada um dos filhos, era acometida de depressão pós-parto, quadro que se agravou após ter tido Nancy e, depois, Kenyon, e do qual nunca se curou completamente.

Os males dos quais Bonnie sofria não eram exclusivos dela. Em seu livro ​Mística

Feminina, ​de 1963, Betty Friedan chamou de “o problema sem nome” as mazelas das quais padeciam as donas de casa da época, que deveriam almejar serem somente mães e esposas perfeitas. Essas ambições eram consideradas o ápice da feminilidade dos anos 50:

A dona de casa dos subúrbios tornou-se a concretização do sonho da americana e a inveja, dizia-se, de suas congéneres do mundo inteiro. (...) dedicava-se exclusivamente ao marido, aos filhos e ao lar, encontrando assim sua verdadeira realização feminina. (FRIEDAN, 1971, p. 19).

Bonnie, no entanto, não parecia haver encontrado essa realização. Como muitas das mulheres de então que sofriam com os mesmos problemas, buscou ajuda psiquiátrica,

realizando tratamentos na cidade de Wichita. Sua doença impedia que participasse da

vida familiar como seria esperado dela; por consequência, envolvia-se pouco em decisões familiares que, como admitido por ela mesma, detestava tomar.

Friedan nomeou a aflição causada por essa falta de realização como a “síndrome da dona de casa”:

Na década de 50, psiquiatras, analistas e médicos de todas as especialidades observaram que a síndrome da dona de casa parecia tornar-se cada vez mais patológica. (...) A perturbação emocional indefinida tornou-se colapso nervoso. (1971, p. 252).

A autora cita, em sua obra, pesquisas feitas nos subúrbios do estado de Nova Jersey atestando que, nos anos 50, as donas de casa eram o grupo adulto predominante entre os pacientes psiquiátricos. Elas tinham em comum, ainda, o fato de terem abandonado os estudos "abaixo do nível de sua plena capacidade", fosse no ensino médio ou na

universidade. (1971, p. 253). Ou seja: eram mulheres exatamente como Bonnie. A

única tentativa de independência dela — quando arrumou um emprego — lhe acarretou tanta culpa, por gostar da experiência, que ela acabou por desistir da empreitada.

Truman Capote não problematiza a figura feminina daquela época em seu livro. Pelo

a seu próprio temperamento e criação — os quais "a levaram a achar que a vida era uma sequência de eventos agradáveis — outonos no Kansas, verões na Califórnia, um monte de xícaras de chá de presente." (CAPOTE, 2012, tradução nossa). Bonnie é26

descrita como alguém que simplesmente não é uma líder nata, como Herb, e não

tentava mais sê-lo.

Longe de, no entanto, inseri-la na narrativa como uma mãe ou esposa negligente ou puramente insatisfeita, Capote a coloca como uma pessoa frágil, sempre com medo de desagradar, que inspira cuidado e que não seria capaz de liderar a família ou tomar decisões relacionadas à fazenda. "E se ela cometesse um erro? E se Herb não ficasse satisfeito? Era melhor trancar a porta do quarto e fingir não ouvir, ou dizer, como ela às vezes fazia, 'Não posso. Eu não sei. Por favor.'" (CAPOTE, 2012, tradução nossa). 27

Ao invés de criticar a ausência de Bonnie na vida dos filhos, o autor escolhe dizer que

ela simplesmente não consegue lidar com o mundo. A seguir vêm algumas falas da

personagem, em ​A Sangue Frio, que representam um pouco dessa incapacidade, e

também de seus sentimentos de culpa e impotência:

➔ 'Todos os meus filhos são muito eficientes. Eles não precisam de mim.' (2012,

tradução nossa). 28

➔ 'Eu estou perdendo tudo. Os melhores anos, as crianças — tudo. Em pouco

tempo, até Kenyon vai estar crescido — um homem. E como ele vai se lembrar

de mim? Como uma espécie de fantasma, Wilma.' (2012, tradução nossa). 29

26No original: "(...) led to suppose that life was a sequence of agreeable events—Kansas autumns,

California summers, a round of teacup gifts." (CAPOTE, 2012, p. 26).

27No original: What if she made a mistake? What if Herb should be displeased? Better to lock the

bedroom door and pretend not to hear, or say, as she sometimes did, “I can’t. I don’t know. Please."" (CAPOTE, 2012, p. 28-29).

28No original: 'All my children are very efficient. They don’t need me.' (CAPOTE, 2012, p. 25).

29No original: 'I’m missing out on everything. The best years, the children—everything. A little while, and

even Kenyon will be grown up—a man. And how will he remember me? As a kind of ghost, Wilma.' (CAPOTE, 2012, p. 29-30).

Ao descrever Bonnie como uma pessoa que não representa uma ameaça (2012, p. 25), Capote constrói uma vítima — seja dos próprios transtornos mentais dos quais sofria, seja das expectativas que a sociedade tinha para ela. O fato de Bonnie não cumprir as obrigações esperadas não deprecia, entretanto, a família como um todo. As tarefas que seriam destinadas a ela acabam recaindo sobre Nancy e Herb:

Além de uma faxineira que vinha nos dias de semana, os Clutter não tinham empregados domésticos, portanto, desde a doença de sua esposa e a partida de suas filhas mais velhas, o sr. Clutter tinha, por necessidade, aprendido a cozinhar; ou ele ou Nancy, mas principalmente Nancy, preparava as refeições da família. O sr. Clutter gostava da tarefa, e era excelente nela (...). (CAPOTE, 2012, tradução nossa). 30

Conforme visto, faltava, portanto, a figura que deveria ser central na família Clutter, e que alicerçava todos os valores do pós-guerra nos Estados Unidos: a esposa e mãe dedicada.

(...) a norma social — o objetivo a ser alcançado — estabelecido para mulheres do pós-Guerra existia dentro dos limites do exemplo de uma mulher branca, de classe média, e que não trabalhava. (...) o sucesso delas como boas esposas e mães

estava indissociavelmente ligado à segurança e à

estabilidade do país.31 ​(BURGER, 2012, tradução nossa, grifo nosso).

Quanto ao resto da comunidade de Holcomb, não parecia haver visões negativas em

relação à doença de Bonnie. Ela contava, aparentemente, com a compreensão

daqueles a seu redor no que dizia respeito aos tratamentos que fazia, que eram do

conhecimento de todos: "Não que a verdade a respeito 'do sofrimento da pobre Bonnie' fosse, de forma alguma, um segredo; todos sabiam que ela havia passado por

30No original: "Other than a housekeeper who came in on weekdays, the Clutters employed no household

help, so since his wife’s illness and the departure of the elder daughters Mr. Clutter had of necessity learned to cook; either he or Nancy, but principally Nancy, prepared the family meals. Mr. Clutter enjoyed the chore, and was excellent at it (...)". (CAPOTE, 2012, p. 9).

31No original: "(...) the social norm — the goal to be reached — set for postwar American women existed

within the boundaries of a white, middle-class, stay-at-home example. (...) their success as good wives and mothers was inextricably connected to the safety and security of the country (...)" (BURGER, 2012, p. 2).

tratamentos psiquiátricos intermitentes nos últimos seis anos." (CAPOTE, 2012,

tradução nossa).32 Sua ausência em reuniões na casa dos Clutter também era tida

como normal pelos cidadãos de Holcomb:

Como a maioria das pessoas que eram frequentemente recebidas na casa dos Clutter, a sra. Kidwell aceitava a ausência da anfitriã sem comentários, e presumia, como era costume, que ela estava 'indisposta' ou 'em Wichita.' (CAPOTE, 2012, tradução nossa).33

Essa aceitação não era regra nos anos 50. De acordo com um estudo pioneiro

realizado por Shirley Star, nos Estados Unidos, entre 1950 e 1955, a visão

predominante naquela década era a seguinte:

os transtornos mentais são algo muito ameaçador e assustador e não devem ser atribuídos a ninguém de forma leviana. Emocionalmente, eles representam para as pessoas em geral uma perda do que elas consideram ser as qualidades distintamente humanas de racionalidade e livre arbítrio (...). Como tanto os nossos dados quanto outros estudos deixam claro, transtornos mentais são algo que as pessoas querem manter tão longe de si quanto possível. (STAR, 1999, tradução nossa). 34

Considerando esse contexto, é possível aventar que Bonnie desfrutasse de tamanha

aceitação na cidade devido ao fato de os outros não a considerarem, de fato, como

mentalmente transtornada. Tratavam seus problemas chamando-os de suas "aflições";

em um momento da narrativa, ela chega a acreditar na possibilidade de que sua

doença fosse um problema físico, causado por um nervo comprimido:

(...) com alegria ela o informou de que a fonte de sua angústia, conforme a opinião médica tinha enfim declarado, estava não em sua cabeça, mas em sua coluna — era ​físico, uma questão de vértebras deslocadas. Claro, ela teria que passar por uma

32No original: Not that the truth concerning “poor Bonnie’s afflictions” was in the least a secret; everyone

knew she had been an on-and-off psychiatric patient the last half-dozen years. (CAPOTE, 2012, p. 7).

33No original: "Like most people who were often entertained by the Clutters, Mrs. Kidwell accepted the

absence of the hostess without comment, and assumed, as was the custom, that she was either “indisposed” or “away in Wichita.”" (CAPOTE, 2012, p. 29).

34No original: "Mental illness is a very threatening, fearful thing and not an idea to be entertained lightly

about anyone. Emotionally, it represents to people a loss of what they consider to be the distinctively human qualities of rationality and free will (...). As both our data and other studies make clear, mental illness is something that people want to keep as far from themselves as possible." (STAR, 1999, p. 6).

cirurgia, e depois — bem, ela seria o seu 'eu antigo' outra vez. (CAPOTE, 2012, tradução nossa). 35

Em ​A Sangue Frio,​Bonnie é alguém digno de compaixão e sem forças para lidar com a vida. Ao colocá-la no livro dessa forma, Truman Capote a utiliza para exaltar a imagem de Nancy e Herb. O que quer que falte nela — força, energia, vitalidade, habilidades ou convívio social — é compensado por sua filha e seu marido na narrativa do autor, que sustenta a ideia dos Clutter como a família ideal principalmente sobre Nancy e Herb.

35No original: "(...) with joy she informed him that the source of her misery, so medical opinion hat at last

decreed, was not in her head but in her spine — it was ​physical​, a matter of misplaced vertebrae. Of course, she must undergo an operation, and afterward — well, she would be her 'old self' again." (CAPOTE, 2012, p. 7)."

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