• Nenhum resultado encontrado

BOSQUEJO HISTDEina

No documento As Mulheres Medicas (páginas 33-59)

No período mythologico das tradições an- tigas, apparecem certas deusas e outras di- vindades de segunda ordem, occupando-se de sciencias naturaes e principalmente — das virtu-

des das plantas—, o que constituía a materia

medica d'aquellas remotas eras. Estas divinda- des soccorriam os mortaes, particularmente as mulheres, nas suas enfermidades.

Os Egypcios contam que a sua famosa Isis descobrira muitos medicamentos. Juno, com o nom,e de Lucina ou Diana, era entre os Gregos advogada das parturientes. Hygiea, Ocyroe, eram sabias em medicina. Medea possuia o se- gredo da rejuvenescencia. Circea era hábil ma- nipuladora de venenos. Hecamedea, Agamedea,

44

a propria Helena, segundo Homero, curavam os guerreiros feridos nos combates.

E se consultarmos a Biblia, veremos que ella nos faz notar Pulia e Sciphra como eximias parteiras.

Nos tempos históricos da Grécia, apparece a famosa Agnodice, que, pela sua resoluta abne- gação em soccorrer as pessoas do seu sexo que o pejo intimidava na presença dos medicos, é, no seu tempo, a digna representante da moder- na reacção contra o exclusivismo masculino da profissão medica. Qualquer que seja o mereci- mento da historia d'esta Agnodice, é indubitá- vel que entre os Gregos existiam realmente mu- lheres que exerciam profissionalmente, não^só a obstetrícia, mas também toda a medicina. E o que claramente se deprehende dos escriptos do próprio Hypocrates.

Plino, Galeno, e os compiladores dos últi- mos séculos da antiguidade, conservaram-nos também um certo numero de nomes de diversas mulheres medicas.

Entre outras mais são mencionadas : Olym- pias, Thebana, que possuía o segredo de uma composição sua com a qual provocava o abor- to. Lais, Sotera, Elephantis e Sotira, são tam- bém referidas pelos mesmos compiladores.

Uma certa Cleopatra, recordada por Gale- no no seu livro sobre a—composição dos medi-

numero de formulas, sobretudo para as doen- ças do tegumento capilifero.

Actio conservou numerosos fragmentos de uma obra de Aspasia, outra medica, de que o assumpto eram as — doenças das mulheres—.

No dizer de Bzovio, viveu no 5.° século uma santa Nicerata, mulher sapientissima em materia de medicina, a qual parece que foi a mesma que curou de uma dôr de estômago a S. Chrysostomo.

Em summa, diga-se o que se quizer acerca do valor scientifíco d'essas mulheres ou da au- thenticidade dos seus escriptos, o que não pa- dece duvida é que a medicina exercida por pes- soas do outro sexo, era de uso commum na an- tiguidade, especialmente em Roma.

Na idade media este costume tradicional conservou-se, pelo menos em alguns paizes.

Tornaram-se de uma celebridade mui notá- vel as mulheres da Escola de Salerno, a ponto de não se arrecearem de discutir em assumptos medicos com os mais abalisados sábios na ma- teria. Na mesma Escola floresceu a famosa Trotula de Ruggiero, de que chegaram até á nossa epocha vários opúsculos bem dignos de menção; entre outros — De mulierum passioni- bus — De ornatu et partium ejus, adque fadem dealbandam.

Além d'esta Trotula, ainda se conhecem varias outras mulheres que tinham alcançado

46

na Escola de Salerno magnifica reputação, co- mo foram Abella, que escreveu duas obras, uma— De atra bile—, outra — De natura se-

minis humani; Calenda, que alcançou o gráo de

doutor; Mercuriada que exerceu a medicina e a cirurgia, deixando varias obras do seu labor; e muitas outras que nos será dispensado men- cionar.

Na Allemanha apparece a celebre Hilde- garda de Bingen, fallecida em 1180, a qual, entre vários escriptos medicos que compoz, tor- nou-:se principalmente conhecida pela sua —

Physica —.

Em França, um decreto authentico, datado de 1311, dirige-se officialmente aos cirurgiões do sexo feminino; o que, junto a outros docu- mentos de igual força, prova bem claramente que n'esse tempo existiam mulheres que exer- ciam a profissão da cirurgia, protegidas por tí- tulos legaes. Este costume foi-se desvanecendo pouco e pouco até poder dizer-se que de todo se extinguiu. Na epocha contemporânea en- contram-se certamente algumas mulheres sa- bias, que por uma tendência especial se appli- cavam ao estudo das sciencias naturaes, e até mesmo da medicina ; porém, d'entre essas, pou- cas ou quasi nenhumas se dedicavam á pratica medica.

Na Inglaterra, Anna Wolley escreveu um

século. Isabel de Kent, outra sabia medica in- gleza, publicou também debaixo do seu nome em 1670 — A ckoise manual, or Sare secrets in

Physilc and Surgery.

No século 18." e na primeira metade do actual as mulheres medicas tornam-se de cada vez mais raras. Comtudo podem e devem ser . apontadas como taes : em Inglaterra, Catharina Bowles, que se tornou muito conhecida pela sua grande habilidade cirúrgica, especialmente no tratamento das hernias e do hydrocele. Miss Stephens, que vendeu ao parlamento inglez um pretendido remédio contra a pedra por 5:000 libras. Lady Worthley, a quem se deve na Eu- ropa a importação da inoculação vaccinica. — Na Italia, a Marqueza Buttelini tornou o seu paiz credor d'um serviço idêntico. — E ainda algumas outras mulheres celebres na Italia e na Allemanha.

A epocha contemporânea offerece-nos al- guns nomes illustres, dignos de menção distin- cta : Madame Lachapelle que não se dedicou se- não á obstetricia, propriamente dita. Madame Boivin, que pelo seu saber mereceu que a Uni- versidade de Marburgo lhe offerecesse o diplo- ma de doutor.

Em idênticas circumstancias encontra-se na Allemanha a sabia Heidenreich, doutora em partos. No começo d'esté século, Madame Bru- ckner, viuva do medico d'esté nome, applicou-

48

se com êxito brilhante ao tratamento de vários vicios de conformação, particularmente dos pês-

botos, por meio de apparelhos de sua propria

invenção.

Passaremos sem referir varias outras mu- lheres medicas, cujo nome a historia nos legou, por não serem de maior fama que as preceden- temente notadas.

.

O ESPIRITO RmHO 1 AS SCIEMAS MEDICAS

Entremos agora mais intimamente no nos- so assumpto. Vejamos, já não somente a capa- cidade scientifica do espirito da mulher, mas especialmente as suas disposições particulares para a acquisição e pratica das sciencias medi- cas em toda a sua extensão.

O estudo que precedentemente fizemos da compatibilidade da intelligence feminina com a sciencia, e conjunctamente os factos que fo- ram apresentados na parte histórica da presen- te questão, sem duvida que concorrem para dar, à priori, uma solução affirmativa ao pro- blema; são favoráveis á idéa das — mulheres medicas —. De facto, nenhumas outras razões e provas se tornariam necessárias se encarasse-

50

mos simplesmente o caso na sua generali- dade.

A medicina, como sciencia, é accessivel ao espirito feminino, e isto porque este espirito pôde elevar-se á altura de qualquer das scien-

cias humanas já constituidas e concorrer mes- mo, até certo ponto, para o adiantamento d'es- sas mesmas sciencias, como na primeira parte do nosso trabalho expendemos extensamente.

A medicina, como pratica, é também ac- cessivel á mulher, porque esta pratica é sobre- tudo intellectual e artística; e nos casos mais frequentes, mesmo da pratica cirúrgica, não é exigido um vigor manual superior áquelle de que a mulher ordinariamente dispõe. Porém, apesar da confiança que incutem estes argu- mentos, não deixam de surgir varias dificulda- des que os abalam bastante ; que no espirito de alguns escriptores chegam mesmo ao ponto de lhes annullar toda a força. Mas também, como compensação, algumas particularidades se en- contram no decurso d'esté debate que muito servem, a nosso vêr, para animar o espirito fe- minino no seu louvável empenho de alcançar a sciencia medica.

Tem effectivamente muito valor na discus- são do nosso assumpto a consideração attenta e demorada d'estes prós e contras, d'estas vanta- gens e desvantagens; porquanto, da pondera- ção d'estes motivos particulares, muito mais do

que de simples illações geraes tiradas dos prin- cípios estabelecidos, é que deverá decorrer e depender a conclusão final.

Apresentaremos, pois, e em seguida discu- tiremos brevemente alguns d'estes motivos fa- voráveis ou contrários ao nosso caso.

Começaremos por aquelles que se deduzem da sensibilidade que deve encontrar-se no espi- rito do medico.

— Não duvidam alguns auctores asseverar que — em igualdade de sciencia, o melhor me- dico é aquelle que tiver o coração mais sensível. D'onde deduzem immediatamente que a mulher

é o verdadeiro medico. Assim é, continuam el-

les, entre todos os povos bárbaros. Entre el- les é a mulher que sabe os segredos dos sim-

ples e que os applica. O mesmo se verificou em

tempo nos povos não bárbaros e até de alta ci- vilisação. Na Persia, a depositaria de todas as sciencias foi a mãe dos Magos. Na verdade, o homem, que é muito menos compassivo e que por effeito da sua educação mais philosophica e generalisadora, se consola muito mais facil- mente dos infortúnios do individuo, é infinita- mente menos próprio do que a mulher para incutir a confiança e a tranquillidade no animo do doente—,

— Pois é n'esta mesma facilidade que está o defeito e o inconveniente. O medico' precisa de ter o espirito livre para o trabalho da refle-

52

xão ; carece de ser quasi inabalável por qual- quer impressão que o perturbe, porque esse abalo comprometteria seriamente o exercício da sua intelligencia e aniquilaria, portanto, a scien- cia, o desempenho das funcções do medico. A mulher, em geral, é incapaz de semelhante ab- stracção intellectual; deixa-se invencivelmente enternecer, soffre o contagio nervoso dos males dos outros e com elles deixa-se também adoe- cer moralmente.

Portanto, deixa de ser medico e torna-se um doente. Ha effectivainente certos accidentes cruéis, sangrentos, até repugnantes, que nin- guém se atreveria a collocar ante os olhos de uma mulher, pelo menos em certas epochas do mez, ou nos periodos da gestação. Já se vê, portanto, que, debaixo do ponto de vista da sen- sibilidade, a mulher, em geral, não foi bem pro- priamente organisada para medico, e não pôde assumir as funcções de director scientifico na .empreza do tratamento de muitas doenças, que,

por sua natureza, são altamente commovedo- ras. O seu espirito deixa-se naturalmente domi- nar pelo coração; e não foi á mulher que a na- tureza concedeu-o triste, porém muito util, pri- vilegio de fazer calar a voz da sensibilidade.

A mulher, na presença d'aquelles lamentá- veis desastres, estremece, condoe-se; em vez de pensar,'debulha-se em pranto. O homem, com- move-se, é verdade, mas comprime o coração;

e no meio dos mais horrorosos espectáculos possue a coragem de salvar da tormenta as fa- culdades da sua intelligencia : pôde ainda pen- sar.

E este o verdadeiro medico, por indole pro- pria do seu espirito —.

Porém, apesar d'estas objecções apresenta- das, forçoso será confessar que esta força de abstracção, que caractérisa o espirito masculi- no, não é sempre um simples resultado do des- envolvimento natural das suas faculdades in- genitas; a educação e a influencia do meio são também muitíssimos eíficazes para a formação d'essa qualidade.

É bem sabido de todos que, em o nosso se- xo, são frequentes os casos de notável excepção á regra geral.

Da mesma forma, não faltam exemplos de análogas excepções no sexo particularmente sensivel. E, se n'esses dois grupos de anoma- lias, forem investigadas as causas de aberração que os differenceia, vêr-se-ha que não existem outras além das precitadas — reacção constan- te do meio moral em que vivem e impulso ex- traordinário da educação que os formou.

Portanto, não admira, nem, na verdade, ê simplesmente imaginário, que um ou outro es- pirito feminino, naturalmente de boa tempera, seja levado até ao gráo de abstracção de sensi- bilidade, mais frequente no nosso sexo, pelg

54

potentíssimo esforço d'aquelles dois agentes — meio e educação —. E muito mais, se este tra- balho de educação fôr logo desde a infância encaminhado para aquelle effeito ; se, logo que o espirito de mulher principia a desabrochar, forem cultivadas principalmente as suas facul- dades intellectuaes, e a educanda se habituar, portanto, a pensar mais do que a sentir, a pre- ferir os exercicios de raciocínio ás commoções do sentimento.

N'estas condições suppômos nós que se encontrariam as mulheres excepcionaes de que tratamos.

Estas considerações levam-nos, por conse- guinte, a affirmar que se por um lado a mulher é, por natureza, contrariada no estudo e sobre- tudo na pratica da medicina, ainda assim, tan- to um como a outra, são-lhe muito possíveis de alcançar.

—A titulo de commentario, faremos também notar que se na direcção da obra medica, a mu- lher é pouco favorecida, cumpre acrescentar que, em compensação, no desempenho do traba- " lho de tratamento, não pôde ella ser excedida. A mulher, muito embora não nasça medica, é sem- pre naturalmente o melhor, o verdadeiro enfer- meiro. Porém, não é sob este ponto de vista que presentemente a consideramos, e portanto pas- saremos adiante—.

nosso assumpto, é a grande questão da igual* dade physica e moral do homem e da mulher e do papel que a esta cumpre desempenhar na so- ciedade.

«A natureza, diz Montanier, por mais que se cansem e digam certas mulheres e alguns es- píritos fortes, a natureza traçou á mulher o seu programma social, e impõe-lh'o imperiosamen- te. A mulher foi sobretudo destinada a ser es- posa e mãe, a viver no interior de sua casa, oc- cupando-se do governo d'esta e da sua familia. Se é plausivel que a mulher abrace uma carrei- ra profissional que lhe permitta a permanência em sua casa, por outro lado a mulher, mesmo quando goze de abundância em recursos de subsistência, deve fugir d'aquellas carreiras nó- madas que a tragam constantemente afastada da sua familia, correndo por montes e valles. A carreira medica é particularmente d'esta ordem ; e é impossível que uma mulher medica seja es- posa e mãe.

» A mulher medica será, portanto, sempre, uma excepção muito poucas vezes realisada ; é necessária muita coragem e abnegação para que a carreira medica tente muitas mulheres, e esta carreira será seguida só por aquellas que sentirem uma vocação especial e irresistível.

«Em França, prosegue o citado auctor, existem vinte mil medicos, aproximadamente; seriam portanto precisas, pelo menos, dez mil

56

mulheres para substituírem dez mil medicos na clinica das pessoas do sexo feminino.

»E a troco de qne sacrifícios poderia ser at- tingido este avultadíssimo numero?

«A questão da maternidade e do casamento é importantíssima para o progresso das nações; e, como vimos, a profissão medica, contra- riando nas mulheres o exercício regular e util d'estas suas capitães funcções, seria por isso mesmo uma causa muito poderosa de depaupe- ramento da população, sobretudo n'esta epo- cha em que o celibato criminoso e egoista, junto á mortalidade extraordinária das crianças, es- tão concorrendo com toda a força para o mes- mo desastroso fim. »

Até aqui fallou Montanier ; e as suas razões são, sem duvida, extremamente sensatas, e além d'isso, a conclusão dos seus argumentos está perfeitamente cohérente com o resultado que já precedentemente nós tínhamos colhido das con- siderações que fizemos, attinentes á sensibilida- de relativa de ambos os sexos.

E plenamente evidente que nunca o nume- ro das mulheres medicas seria mesmo igual ao dos medicos do nosso sexo.

Oppõe-se á realisaçâo d'esté facto os obstá- culos da organisação moral da mulher, obstá- culos que bem nos convencemos de serem fun- damentaes; e não menos contrarias lhe são as difnculdades enormes que uma propria e livre

vocação feminina encontraria na realisação das aspirações excepcionaes do seu espirito.

Porém, não é menos verdade, que exigir um numero de medicas igual ao dos medicos, é ul- trapassar os limites da utilidade da instituição, e requerer muito mais do que aquillo que se afigura necessário, mesmo na mente dos seus mais acérrimos propugnadores. O numero das mulheres medicas seria sempre forçosamente restricto ; e por conseguinte, não compromette- ria seriamente o desenvolvimento da população ; dado mesmo o caso da incompatibilidade das funcções medicas com as funcções de familia, — o que está longe de perfeita demonstração. E esse mesmo numero, por diminuto que fosse, não deixaria de corresponder ás reclama- ções, ás verdadeiras e imperiosas reclamações da clinica feminina.

Ao escrever esta ultima phrase, desvenda- mos outra e forte objecção, a que vamos tam- bém responder.

Esta objecção é a seguinte : — Pondo de par- te, dirão alguns, a satisfação das excepcionaes aspirações do espirito d'essas mulheres, pergun- ta-se que proveito resultaria para o publico dos serviços que ellas lhe offerecessem ? No trata- mento dos individuos do sexo masculino é cla- ro que não lhes seria possível, nem muitas ve- zes decente, que hombreassem com os medicos e os substituissem. No tratamento das pessoas

58

do seu sexo deixariam também de prestar ver- dadeira utilidade, porque o seu numero, forço- samente diminuto, não conseguiria acudir a to- das as necessidades da clinica ; e portanto, vis- to serem tão pouco numerosas para as que se- riam precisas, o mesmo importaria que não hou- vesse nenhuma mulher medica —.

A primeira parte, confessamos francamente que é irrespondivel. Para homens querem-se medicos, e por todas as razões.

Estas são tão obvias que enumeral-as mes- mo seria supérfluo.

Em quanto á outra e segunda parte da ob- jecção, convém attender a que não são tão in- compatíveis as exigências da profissão medica com os melindres da delicadeza e pudor femi- ninos, que um medico não possa tratar conve- nientemente do maior numero dos doentes d'es- té sexo que a elle se confiem. Os retrahimentos, as recusas, as denegações, os logros, que n'es- tas circumstancias comprometteriam o diagnos- tico, por falta de elementos suíficientes para o formar, dão-se na realidade rarissimas vezes. A mulher de mais nervosa pudicicia, comtanto que lhe reste um vislumbre de força de bom senso, encontrará sempre um medico que lhe mereça justamente toda a sua confiança; e, honrosa- mente para a nossa classe, estes medicos não são raros.

mero das timoratas invencíveis e refractaria- mente desconfiadas, para quem o medico da mais austera probidade será sempre um terrível inquisidor ; e para essas, virão muito a propósi- to os cuidados do medico do mesmo sexo.

É para estas mimosas sensitivas que a scien- çia acudirá, e muito proveitosamente, com mão feminina; e como se vê, não serão necessárias muitas mãos para prestar auxilio a todas.

Deixa, portanto, de valer a referida objec- ção ; e torna-se evidente que está bem longe da verdade a exigência de Montanier, quando sup- põe necessário um numero de mulheres medicas igual ao dos medicos do nosso sexo. E não me- nos patente se torna este outro facto da gran- de utilidade que, nos referidos casos excepcio- naes, teriam essas distinctas mulheres.

Uma das maiores diffículdades praticas que se oppõem seriamente á realisação do tirocinio escolar das mulheres medicas, difficuldade que tem preoccuppado muito os ânimos de vários pensadores e estadistas na Inglaterra e na America, justamente n'estes paizes em que os estudantes do sexo feminino se apresentaram á matricula em numero considerável, é — a pro- miscuidade de ambos os sexos nos amphithea- tros anatómicos, e nos hospitaes —.

— Effectivamente, as dissecções poderão ser feitas em communidade ? As lições de phy-

60

siologia, de pathologia, de cirurgia, poderão por ventura ser expendidas diante d'um audi- tório composto de senhoras e de estudantes? O professor, por um sentimento muito natural de respeito e decência, não se veria obrigado a suspender o discurso ao roçar por certas minu- ciosidades ; a resumir até á deficiência algumas descripções pouco recatadas? Na pratica cirúr- gica, um grande numero de operações pratica- das em indivíduos do sexo masculino, exigem que o corpo esteja descoberto ; o professor tem de dar explicações, nas quaes lhe será impossí- vel entrar defronte de pessoas do outro sexo. Isso seria evidentemente uma offensa grave ir- rogada officialmente aos delicados sentimentos do pudor. O cirurgião vêr-se-hia, portanto, em- baraçado na sua marcha, em detrimento da sciencia e do próprio paciente—.

Este motivo de desanimo é, na verdade, ponderoso ; e não pomos duvida alguma em de- clarar ao sábio Beaugrand, que o formulou qua- si com as proprias palavras com que nós o aca- bamos de exarar, a impressão bem forte que o mesmo motivo nos incute no espirito, e o quan- to, com essa primeira impressão, ficam abaladas

No documento As Mulheres Medicas (páginas 33-59)

Documentos relacionados