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Botequins: entre bebidas espirituosas e o açaí.

No documento Uma história da alimentação em Belém (páginas 37-41)

A cidade tinha muitos botequins espalhados pelas suas ruas, sendo possível nas páginas da imprensa periódica sempre encontrar alguma informação sobre eles. À primeira vista, quase sempre eram lugares associados às práticas de jogos e consumo de bebidas, sendo espaços geralmente procurados com a finalidade de se beber algo, mas que também podiam ter comida.72 Esta seria uma realidade comum em outros lugares do Brasil. Algranti, analisando o Rio de Janeiro para primeira metade do século XIX, enfatiza que os botequins eram locais onde “tradicionalmente ocorria à venda de bebidas alcoólicas, podendo ou não haver também comércio de comida”.73 Segundo

Teleginski, no Paraná, na primeira metade do século XX, tais espaços ofereciam “aos seus fregueses pouco além da cachaça, farinha e carne seca” sendo também “espaços de

70 Algranti lembra que “mais do que indicar a pouca precisão na forma de nomear os espaços

(...) a variedade de designações sugere a multiplicidade de funções destes locais como a de servirem como locais de encontros e divertimentos”. ALGRANTI, op. cit., p. 30.

71 Folha do Norte, 14 de maio de 1950, p. 2. 72 Sobre isso ver, CHALHOUB, op. cit. 73 ALGRANTI, op. cit., p. 30.

recreação”.74 Em Belém, entretanto, se muitos botequins serviam vinho, cachaça e

pedaços de peixe salgado, talvez sendo menos comum a venda e consumo da carne seca, entre outros produtos, havia também algumas tabernas e “botequins baratos das ruas João Alfredo e adjacentes” que vendiam açaí, conforme relato dos viajantes Godinho e Lindenberg.75 Da mesma forma, ainda nos primeiros anos do século XX, o viajante Paul Walle informa-nos que somente encontrou o açaí em “pequenos botequins do bairro comercial, que se identificavam, na fachada, por um pedaço de morim vermelho”.76

Sobre o consumo de açaí dentro dos botequins, ainda que continuassem a sua venda em quitandas ou barracas identificadas com bandeirolas vermelhas, pode se dizer que sua importância como parte da dieta alimentar cotidiana de parte da população paraense, seja no almoço ou no jantar, ou em ambas refeições, explica porque em alguns desses estabelecimentos se serviam o açaí, o peixe seco, a cachaça e quem sabe o próprio vinho de açaí. Ainda que, segundo as opiniões de Godinho e Lindenberg, tais espaços não fossem muito higiênicos, pois, à entrada de um desses botequins eles foram recebidos por “uma miríade de moscas, que fingiam de mosaico na mesa”. No entanto, no “ensejo” de “ver” o açaí, a famosa “bebida popular” dos paraenses, eles adentraram no tal botequim, sendo atendidos pelo “patrão, que era ao mesmo tempo o caixeiro”. O relato então sugere que o dito lugar era bastante simples, possivelmente movimentado pela venda de açaí, entre outros produtos, que eram muito provavelmente servidos juntos, tal como “um prato de iscas” referido por Lindenberg e Godinho.77

Por meio da documentação pesquisada, em finais do século XIX e primeiras décadas do século XX, evidencia-se que em Belém existiam muitos botequins, às vezes associados a cafeterias em que os fregueses também consumiam produtos como “cerveja”, por exemplo. Bem como, situavam-se em lugares diversos tais como a Travessa de São Matheus,78 ou a Rua da Industria,79 entre outros. Tais ambientes frequentados quase sempre por trabalhadores, constantemente foram alvo da imprensa em virtude de conflitos que ocorriam nesses espaços, sendo geralmente classificados

74 TELEGINSKI, Neli Maria. Bodegas e Bodegueiros de IRATI-PR (1900-1950). Texto

disponível na página: www.historiadaalimentação.ufpr.br. Consulta feita em 23 de abril de 2015.

75 GODINHO. op. cit., p. 105.

76 Walle, Paul. No Brasil, do Rio São Francisco ao Amazonas. Brasília: Senado Federal;

Conselho Editorial, 2006, p. 311.

77 GODINHO, op. cit., p. 106. 78 O Pará, 5 de janeiro de 1898, p. 2.

como “valhacouto”80 e ambiente de gente desclassificada; lembrando, todavia, que

somente as confusões eram noticiadas, a ausência não, reforçando tais estereótipos pela imprensa periódica. Afinal, os botequins eram lugares onde os trabalhadores mais pobres como funileiros, sorveteiros, peixeiros e outros muitas vezes se entretinham, na busca de momentos de lazer e de descanso.

Por outro lado, aqueles que não podiam pagar pelos produtos à venda nos botequins, premidos pela necessidade ou pelo desejo de posse, praticavam roubos ou mais comumente furtos. Daí a imprensa também descrever os botequins como espaços profícuos a práticas criminosas. Em 1919, no Botequim A Sportiva, localizado na Travessa Ruy Barbosa, Cesário José foi preso pelo furto de “um queijo”.81 Dos produtos

que mais aparecem como sendo furtados ou roubados dos estabelecimentos na cidade dois se sobressaíam: queijo e manteiga. Tais produtos eram caros tornando-se objetos de desejo das pessoas que não detinham poder de compra. Sendo, neste sentido, possível pensar os costumes como ligados a uma estrutura política das classes sociais em face dos seus hábitos alimentares, tal como sugere o conceito de Habitus de Bourdieu, uma vez que ele parte da cultura para as representações dos indivíduos e suas práticas.82 Desse modo, poder consumir frutas importadas, vinhos, queijos e produtos caros podem ser tomados como exemplos que refletiam mais do que dinheiro, era um símbolo de poder social. A manteiga, por exemplo, era um destes produtos, muito apreciado, sendo a manteiga inglesa uma das preferidas.83

Para além então do consumo de bebidas e comidas, incluindo jogos e algazarras, vamos observando que muitas podiam ser as variedades de tipos de estabelecimentos denominados como botequins, havendo aqueles associados aos cafés, da mesma forma que outros como o chamado Aveirense, uma miscelânea de padaria, mercearia, botequim e confeitaria e que, em 1929, se intitulava como o “maior empório de estivas, panificação e confeitaria do seu bairro”.84 Neste caso, pode-se também entender que sua

freguesia seria distinta, pelo menos aos olhos do dono, uma vez que no “dia máximo da

80 O Pará, 5 de janeiro de 1898, p. 2.

81 Folha do Norte, 13 de setembro de 1919, p. 3.

82 Apud BURKE, Peter. O que é História Cultural. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005, p. 76

e 77.

83 Sobre o assunto ver: MACÊDO, op. cit. 84 Folha do Norte, 1 de janeiro de 1929, p. 3.

fraternidade universal, cumprimenta à sua amável, distincta e querida freguesia”.85 Em

1950, por sua vez, estava à venda um Botequim à rua 28 de Setembro, localizado em uma de suas esquinas, um ponto excelente. Neste botequim, notamos que além das possíveis bebidas espirituosas, era possível consumir uma garapa86 e até engraxar os sapatos.87 Ou seja, os botequins permanecem com seu caráter variado, nos quais, além de encontramos as bebidas espirituosas, eram possíveis encontrar o açaí e beber uma garapa. Nem todos os botequins, portanto, eram iguais.

Outra característica observada nesses espaços era que o comércio e a moradia ficavam no mesmo prédio. Sobre o assunto, Guimarães aponta que “era comum que o proprietário do negócio também residisse no mesmo local do seu empreendimento”, e que somente em fins do século XIX é que “houve uma tendência à separação entre os negócios públicos e a vida doméstica. Entretanto, estas atitudes se deram muito lentamente”,88 tanto que, ao longo da primeira metade do século XX, era possível ver

nos anúncios de venda dos estabelecimentos estudados essa característica. Em 1949, por exemplo, o Botequim Aldeia Bar, localizado no fim da linha dos ônibus do Jurunas, na esquina da Rádio Clube, com moradia nos altos, havia sido colocado à venda.89

Com o avanço das décadas da primeira metade do século XX, observamos também que já em meados do século XX os jornais já trazem variados anúncios dos botequins. Desse modo, o encontro com estes estabelecimentos já não se dá quase sempre por meio dos conflitos que ocorriam nesses espaços, antes estampados com mais largueza nas páginas dos jornais, mas por meio da propaganda veiculada na imprensa. Assim, em 1950, M. Garrido proprietário do Botequim Estrela, localizado na Travessa 1ª de Março, desejava aos fregueses felicidades pela passagem do ano de 1949/50.90 O

85 Folha do Norte, 1 de janeiro de 1929, p. 2.

86A garapa era “Caldo de cana. Sumo extraído, por meio de moendas, de cana-de-açúcar. Prove

esta garapa coração. É doce, doce. Cana veio de Iguarapé-Miri. Tome um copo de garapa, Major. Vaçuncê está muito suado. Garapa azedo, posta no sereno e bebida em jejum, é tida como tonificante, ferruginosa. Você está assim amarelo é de safado. Tome garapa azeda, serenada, que você vai ver como fica. MORAIS, Raimundo.O meu dicionário de cousa da

Amazônia. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2013. p. 97.

87 Folha do Norte. 25 de Abril de 1950. p.8.

88 GUIMARÃES, Luiz Antônio Valente. Olhares estrangeiros na cidade: a rua do Comércio de

Belém. In: BELTRÃO, Jane Felipe; VIEIRA JÚNIOR, Antônio Otaviano (Orgs.). Conheça Belém, co-memore o Pará. Belém: EDUFPA, 2008, p. 43 e 44.

89 Folha do Norte, 30 de abril de 1949, p. 8. Anúncios desse tipo não eram incomuns, também

em 1949 a Folha do Norte anunciava a venda de uma mercearia “bem aparelhada e bem localizada, com moradia” Cf. Folha do Norte, 12 de junho de 1949, p. 3.

mesmo acontecia com a Casa Figueiredo, mistura de mercearia, botequim e sorveteria, localizada na Av. Generalíssimo Deodoro. Ao felicitar seus clientes o anúncio informava também que a Casa que vendia gêneros de primeira necessidade e bebidas finas nacionais e estrangeiras possuindo “Conforto, Asseio e Higiene”.91 À medida que

avançava o século XX, também aumentam ou tronam-se mais comuns os anúncios informando que os serviços eram feitos com higiene, revelando-nos, portanto, a importância assumida na mentalidade da época da ideologia higienizadora.92 Além dos botequins, no entanto, na cidade existiam os restaurantes como importantes lugares do comer na cidade, que, por sua vez, também tinham suas peculiaridades.

No documento Uma história da alimentação em Belém (páginas 37-41)